Vamos a desprincesar! Reflexões sobre o ensino de história à partir da presença de María Remedios del Valle na coleção Antiprincesas

Lançada em 2015 em meio à profusão de movimentos feministas, a coleção de livros infantis Antiprincesas da editora argentina independente Chirimbote se tornou um grande sucesso nas prateleiras de diversos países, inclusive do Brasil. Os livros buscam retratar diversas mulheres históricas latino americanas, com exceção de Rosa Luxemburgo, de variadas áreas do conhecimento, como por exemplo: da literatura, música, pintura, política, entre outras. Algumas das personagens presentes nessa coleção são: Frida Kahlo, Clarice Lispector, Juana Azurduy, Evita Perón, María Remedios del Valle, Violeta Parra, as Mães da Praça de Maio, Alfonsina Storni, entre outras. 

Fonte: Chirimbote. Disponível em: Antiprincesas (chirimbote.com.ar). Acesso em: 19/04/24

A coleção leva o nome Antiprincesas por conta da proposição de tentar romper com o estereótipos de gênero perpetrados pelo ideário das clássicas princesas da Disney ou até mesmo da boneca Barbie. Nesse sentido, a expectativa das antiprincesas é valorizar as trajetórias de mulheres latino-americanas que tiveram atuações político-sociais importantes. Muitas delas tiveram papel central, mas durante muito tempo ficaram esquecidas pela chamada “história oficial” e até mesmo pela historiografia. Dessa forma, se busca romper com os processos de silenciamento propositais de tais narrativas. Ao resgatar a presença dessas mulheres nos livros infantis da coleção, estamos fazendo um exercício de fazer defeitos nas memórias. Isto é, estamos fazendo as memórias oficiais que se tornaram narrativas monumentalizadas e cristalizadas errarem. Pois, elas devem ter tanto seus sentidos deslocados quanto seus lugares de inscrição, fazendo aparecer seus pontos de sutura, costuras mal feitas, nós forçados e pontos de esgarçamento das tessituras do passado (Albuquerque, 2012, p.37).

Os livros utilizam muitas cores, humor e recursos lúdicos como viagens no tempo. Essas brincadeiras com as temporalidades históricas são interessantes porque nos permite praticar e compreender uma das habilidades fundamentais do pensamento histórico: a noção de temporalidade que para as crianças pode parecer um conceito muito abstrato de início. Além disso, contar a vida e o legado dessas mulheres latino-americanas fundamentais em nossa história oferece às crianças perspectivas diferentes de ser mulher e portanto de novas construções de identidades mais próximas de suas realidades. Apesar de serem mulheres de diferentes origens, uma característica em comum que une as antiprincesas é o fato de serem mulheres transgressoras. Ou seja, que se posicionaram contra os modelos familiares e sociais impostos à elas. E por meio de seus posicionamentos transformaram coletivamente as suas próprias realidades, as dos que as cercavam e o mundo (Szpilbarg, 2020, p.237).

Assim, a presença da personagem María Remedios del Valle se constitui como um marco importante dentro dessa coleção. María Remedios del Valle é considerada a mãe da pátria Argentina. Uma mulher negra, descendente de escravizados, pobre e que recebeu o título de capitã por sua participação no exército durante a guerra de independência no território que hoje conhecemos como Argentina.

Sua data de nascimento é incerta ainda (algo entre 1766 e 1767) e segundo seus registros militares era parda, uma espécie de categorização dada aos descendentes de africanos escravizados. Em julho de 1810, ela se alistou na companhia do marido e dos filhos no Exército Auxiliar do Peru, que foi o primeiro corpo militar organizado pelas Províncias Unidas do Rio da Prata e foi comandado pelo general Manuel Belgrano. Esse exército possuía o objetivo de libertar o Alto Peru da Espanha e atuou entre os anos de 1810 e 1817 organizando 3 expedições, porém sem avançar tanto estrategicamente. María Remedios del Valle estava participando dos combates travados pelo Exército Auxiliar do Peru ativamente. Tanto que na véspera da Batalha de Tucumán, em 24 de setembro de 1812, Remedios del Valle pergunta ao general Belgrano se poderia ajudar as tropas feridas na linha de frente. No entanto, Belgrano não permitiu o auxílio de mulheres na milícia. Apesar disso, ela resolveu ajudar na retaguarda e cumprir o seu plano de auxílio aos feridos. Após um tempo, Belgrano a reconheceu como “capitã do exército” (Ghidoli, 2020, p. 32).

Fonte: María Remedios del Valle para chicos y chicas – Antiprincesas nº 10 (2019) – Fotografia tirada por Clara Thais Pereira de Andrade.

Na Batalha de Ayohuma em 14 de novembro de 1813 María Remedios del Valle foi capturada pelos espanhóis e durante seu cativeiro prestou assistência a chefes patriotas, oficiais e soldados, que eram prisioneiros como ela, ajudando-os a escapar. Entretanto, sua trama foi descoberta e os monarquistas a condenaram ao castigo de ser açoitada em praça pública durante 9 dias. Posteriormente, ela conseguiu se livrar da pena imposta à ela pelos espanhóis. Porém, seus filhos e o marido tiveram um destino trágico, pois foram mortos em combate. Desse modo, Remedios del Valle retornou a luta patriótica auxiliando soldados feridos nas linhas do exército (Ghidoli, 2020, p.32-33).

Então, María Remedios del Valle retornou para Buenos Aires após o fim da missão no Exército Auxiliar do Peru e a partir daí tem-se um silenciamento sobre sua trajetória que se rompeu em outubro de 1826 quando ela inicia a solicitação do pagamento de pensão militar pelos serviços prestados à causa independentista. Tal pedido foi negado. O motivo para o indeferimento era a inexistência de registros que comprovassem a participação de Remedios del Valle como soldado nas campanhas do Exército Auxiliar do Peru (Ghidoli, 2020, p.33). 

Em 1827 o general Juan José Viamonte, um combatente do exército, reconheceu la capitana nas ruas de Buenos Aires em situação deplorável. Dessa forma, Viamonte junto com outros militares como os generais Eustoquio Díaz Vélez e Juan Martín de Pueyrredón e os coronéis Hipólito Videla, Manuel Ramírez e Bernardo de Anzoátegui atuaram como testemunhas no processo de pedido de pensão que Remedios del Valle apresentou à Câmara de Representantes de Buenos Aires em 1828 (Ghidoli, 2020, p.33). Os militares citados acima destacaram em seus depoimentos as inúmeras qualidades de María Remedios del Valle. Como por exemplo, “a sua bravura, patriotismo e espírito abnegado de serviço”, indicando nos relatos que ela era requisitada não apenas na retaguarda, mas também nas linhas de frente (Guzmán, 2016, P.5-6). 

Além de ter sido a única mulher sob o comando de Belgrano. Após um longo período de luta pela reivindicação da pensão militar, la capitana conseguiu ganhar um soldo de capitã de infantaria, além de ter sido condecorada como sargento-mor por Juan Manuel Rosas em 1835. De 1836 até a sua morte em 1847 Remedios del Valle aparece nos registros do exército como Remedios Rosas (Ghidoli, 2020, p.33).

Após um processo intenso de luta social e política que se estende até os dias de hoje pelo reconhecimento e visibilidade das populações negras na Argentina foi estabelecido no dia 8 de novembro de 2013 em homenagem à Remedios del Valle o “Día del afroargentino/a y de la cultura afro”. A escolha da data foi feita em memória à data de morte de María Remedios del Valle, que faleceu no dia 8 de novembro de 1847. É importante ressaltar como essa lei em homenagem à María Remedios del Valle, inclui tanto as populações negras argentinas quanto as estrangeiras através da nomenclatura “cultura afro”. Isto é indica que todas as diásporas heterogêneas que convivem no país estão sendo reconhecidas. Esse processo é fruto de um longo histórico de lutas dos movimentos negros na Argentina desde o final da década de 1980 que são compostos tanto por afro argentinos quanto por descendentes de africanos e afro latino-americanos. Esses movimentos reivindicam a visibilização da presença das populações negras na Argentina, a criação de políticas públicas, a recuperação dos lugares de memória, a implementação de políticas voltadas às reivindicações mais específicas de mulheres negras, a luta contra os abusos policiais que afetam muitos dos imigrantes africanos e o combate ao racismo. (Loango, 2019, p.158-162)

A recuperação da história de María Remedios del Valle está ligada à uma luta intensa dos movimentos afro argentinos para o reconhecimento da presença das populações negras no país. Procurando questionar a suposta ideia de que a Argentina seria um país “sem raças”. Visto que, essa suposição é extremamente problemática porque invisibiliza e nega a existência das diversas populações negras e indígenas que participaram e estão participando até hoje do processo de construção nacional. Portanto, a luta pelo reconhecimento de Remedios del Valle como la madre de la patria se constitui também como um marco para se reivindicar na esfera pública o reconhecimento da presença das populações negras na construção da nação argentina. 

O caso de María Remedios del Valle é fundamental porque questiona o ideal de branquitude que se pretende afirmar como base da fundação do Estado argentino. Ao recuperar o papel central de Remedios del Valle, uma mulher negra, pobre e descendente de escravizados, como a mãe da pátria argentina, damos espaço para a possibilidade de outras histórias que humanizem e retirem do lugar de invisibilidade as populações negras no país. A longa trajetória de luta dos movimentos negros e dos feminismos negros argentinos se constituem como fundamentais para pressionar e exigir do Estado políticas de reparação histórica e de garantia de direitos humanos básicos como o de existência. Assim, tais movimentos sociais questionam esse modelo de história única o qual coloca em ilhas de esquecimento a presença e contribuições das populações negras para a formação da identidade nacional. 

A inclusão por parte do Estado argentino da figura de María Remedios del Valle no panteão de heróis nacionais se faz importante porque rompe com a ideia de uma Argentina construída sob bases brancas e europeias (Loango, 2019, p.171). Além desse feito ganhar repercussões pela América Latina ao mostrar o reconhecimento institucional, mesmo que tardio, da trajetória de lutas de diversas mulheres negras e indígenas nos processos de construção dos Estados nacionais. Mostrando como a história da América Latina e Caribe é repleta de trajetórias de mulheres negras e indígenas as quais lutaram e até hoje lutam de diferentes modos contra os sistemas de dominação colonial. 

Desse modo, a antiprincesa María Remedios del Valle acaba por impactar positivamente, ou seja, empoderar as crianças, em especial as meninas negras, ao romper com estereótipos e recuperar a dignidade, a luta e a presença de uma mulher negra central para a construção da nação argentina tanto no passado quanto no presente. Visto que, a figura de Remedios del Valle foi apropriada pelos movimentos negros e feminismos negros argentinos como um símbolo de luta e resistência. 

Fonte: María Remedios del Valle para chicos y chicas – Antiprincesas nº 10 (2019) – Fotografia tirada por Clara Thais Pereira de Andrade.

Referências bibliográficas:

ALBUQUERQUE, D. M. Fazer defeitos nas memórias: para que servem o ensino e a escrita da História? In: Gonçalves, M. A. (org.). In: Qual o valor da História hoje? Rio de Janeiro: FGV, 2012, p. 21-39.

GHIDOLI, María de Lourdes. Los múltiples rostros de la Madre de la Patria. Retratos de María Remedios del Valle, una heroína afrodescendiente en la Argentina contemporánea. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Maria-De-Lourdes-Ghidoli-2/publication/344220756_Retratos_de_Maria_Remedios_del_Valle_Publicado_en_Caiana_N_16/links/5f5d2579299bf1d43cff8e79/Retratos-de-Maria-Remedios-del-Valle-Publicado-en-Caiana-N-16.pdf. Acesso em: 5 ago. 2023.

GUZMÁN, Florencia. María Remedios del Valle:“La Capitana”,“Madre de la Patria” e “Niña de Ayohuma”. Um percurso interpretativo da sua figura singular. Afrolatinoamérica: estudos comparados. Rio de Janeiro: Mauad, p. 77-103, 2016. Disponível em: https://www.academia.edu/33673292/Mar%C3%ADa_Remedios_del_Valle_La_Capitana_Madre_de_la_Patria_e_Ni%C3%B1a_de_Ayohuma_Um_percurso_interpretativo_da_sua_figura_singular_En_Afrolatinoam%C3%A9rica_Estudos_Comparados_Rio_de_Janeiro_Mauad_2016_pp_45_68. Acesso em: 14 ago. 2023.

LOANGO, Anny Ocoró. Del soldado raso a la capitana de la patria: un aporte para repensar los feminismos negros desde la Argentina. 2019. Disponível em: https://ri.conicet.gov.ar/handle/11336/160444. Acesso em: 14 ago. 2023.

SZPILBARG, Daniela. El fin del príncipe azul: catálogos feministas para infancias diversas. El caso de la Colección Antiprincesas (Argentina). Cuadernos del Centro de Estudios de Diseño y Comunicación, n. 124, 18 dic. 2020. Disponível em: https://dspace.palermo.edu/ojs/index.php/cdc/article/view/4426. Acesso em: 15 ago. 2023.


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