Levantamento mostra que menos de 10% dos monumentos no Rio retratam pessoas negras

De 358 bustos e estátuas, apenas 32 personalidades são negras, divididas entre 29 homens e apenas três mulheres

A escravidão foi abolida há 135 anos, mas seus efeitos ainda podem ser notados em um simples passeio pela cidade. Ajudam a explicar, por exemplo, como, neste 13 de maio de 2023, a distorção na representatividade racial se manifesta de forma tão evidente em monumentos distribuídos por espaços públicos cariocas.

Um levantamento feito pelo Instituto Cultne, a pedido do GLOBO, mostra que, entre os 358 bustos e estátuas que homenageiam pessoas no Rio, a absoluta maioria (322) retrata figuras brancas. As imagens de personalidades negras são 32, divididas entre 29 homens e apenas três mulheres, e representam 8,9% do total. Esse quadro destoa da realidade étnica do município, que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem população composta por 46,8% de pretos e pardos.

— É interessante observar que no Brasil existe o mito das três raças (branco, negro e índio), mas, quando se trata de prestar homenagem, privilegiam sempre o homem branco. Entendo que os monumentos são retratos de um mundo masculino e racista. Não reconhecem o homem negro como indivíduo que contribuiu para a formação da cidade e relegam à mulher papel secundário — analisa Álvaro Pereira do Nascimento, historiador da UFRRJ/CNPQ.

Conheça monumentos que homenageiam pessoas negras no Rio

Caymmi em Copacabana

O levantamento parte de inventário feito pela gerência de monumentos e chafarizes da prefeitura, disponível na internet, e só inclui as obras que são de responsabilidade do município localizadas em espaços públicos. O estudo considera também a ascendência negra de personagens que tiveram a imagem “embranquecida”, como o poeta abolicionista Castro Alves. Entre os negros homenageados com estátuas e bustos, há os que inspiram dois monumentos na cidade, caso de Pixinguinha (Centro e Ramos), Zumbi dos Palmares (Praça Onze e Padre Miguel) e Lima Barreto (Centro e Ilha do Governador).

A maior concentração de monumentos a personalidades fica no Centro (104), região que também concentra mais figuras negras (18). Uma delas, a estátua de João Cândido, o “Almirante Negro”, líder do episódio histórico conhecido como “Revolta da Chibata”, foi transferida no ano passado da Praça Quinze, onde estava meio escondida por uma estação do VLT, para a Praça Marechal Âncora. A mudança, sugerida por lideranças do movimento negro, foi atendida pela prefeitura.

Depois do Centro, os bairros da Zona Norte abrigam 10 estátuas e bustos de pessoas pretas e pardas. As regiões da Zona Oeste e da Zona Sul ostentam dois monumentos para personalidades negras, cada uma. Em Copacabana, área turística e segundo bairro com mais homenagens a figuras humanas na cidade (20), apenas uma é de personagem negro: o compositor baiano Dorival Caymmi carrega seu violão no Posto 6.

Glória e Botafogo são bairros logo atrás no ranking, mas em ambos a representatividade negra é zero entre estátuas e bustos. Além de Caymmi, o outro monumento que retrata pessoas negras na Zona Sul é dedicado aos irmãos André e Antônio Rebouças, que eram engenheiros. Juntos, os dois bustos ficam em um canteiro da Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa, no acesso ao túnel batizado com o sobrenome da dupla.

— O sentimento que tenho é que isso é geral, não apenas uma característica do Rio. Deveriam cultuar melhor a memória brasileira, não só pela miscigenação, mas pela importância desses personagens na história do país. Isso inclui os negros e as mulheres — cobra a administradora de empresas Sara Eli Barroso, de 52 anos, moradora de Copacabana, diante da estátua de Caymmi para fazer uma foto da mãe, a curitibana Maria Eloy, de 82, em visita ao Rio.

A representatividade nos monumentos cariocas também deixou para trás mulheres e pessoas de origem indígena. No Rio, as estátuas femininas são apenas 17, ou 4,7% do total, sendo que apenas três em toda a cidade retratam mulheres negras: a pianista e compositora Chiquinha Gonzaga, a vereadora Marielle Franco e a bailarina Mercedes Baptista. Indígenas foram retratados em apenas quatro monumentos, ou 1% do total.

O levantamento ainda aponta que a maioria dos negros lembrados em estátua ou busto na cidade é formada por músicos e esportistas (18). Na opinião do produtor cultural e coordenador do Instituto Cultne, Asfilófio de Oliveira Filho, o Filó, esse dado reflete a ideia tão repetida de que a música e o esporte eram praticamente as únicas formas de ascensão social para o negro. Entre as personalidades brancas, os políticos formam maioria, com 18%, seguidos por militares (12%). O terceiro grupo mais homenageado, o de personalidades estrangeiras (9,5% do total), supera os negros representados.

— Isso reflete o apagamento da memória negra em nosso país. Esse é o Brasil, diverso e cruel para toda a comunidade afro-brasileira — afirma o coordenador do Instituto Cultne, instituição que desde 1980 desenvolve trabalhos de registro da memória e fomento da cultura do povo negro.

Filó destaca ainda situações em que se busca embranquecer a figura dos homenageados. Um caso emblemático é o do escritor Machado de Assis, cuja condição de afrodescendente ainda costuma surpreender alguns — no mínimo — desavisados. O coordenador do Instituto Cultne defende que placas de identificação tragam informações sobre a etnia do personagem retratado.

Infográfico (Foto: O Globo)

Murais de memória social

Contra esse apagamento racial que vem de longe, o projeto NegroMuro se dedica à construção de memória social para enaltecer lutas, conquistas e referências da população preta, na forma de pinturas ao ar livre. A iniciativa, do produtor cultural e pesquisador Pedro Rajão e do artista urbano Fernando Cazé, já espalhou 47 murais pelo Rio. A lista de personagens inclui a atriz Ruth de Souza, a cantora Clementina de Jesus e o abolicionista Luiz Gama. O trabalho mais recente, na esquina das ruas do Resende e Riachuelo, no Centro, celebra dez filósofos contemporâneos, entre eles Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro e o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida.

— A gente se diz projeto de memória. E povo sem memória não sabe para onde vai nem de onde vem. Quando se fala de um país majoritariamente negro e ainda racista, colocar os negros em lugar de exaltação contribui para um processo de identificação dessa população. É uma felicidade ver a Ruth de Souza retratada na parede do prédio administrativo do Theatro Municipal, e agora esses filósofos. Vira uma referência — defende Rajão.

Entre os monumentos públicos da cidade, o mais recente, dedicado ao compositor Aldir Blanc, foi inaugurado na Tijuca, no dia 4. No momento são avaliadas homenagens ao escritor e poeta Abay Kunanbaev, sugerida pela embaixada do Cazaquistão; ao cineasta Breno Silveira e ao cantor e violonista João Gilberto, os dois últimos lembrados por iniciativa de amigos. A última personalidade negra a ganhar estátua na cidade foi a vereadora Marielle Franco, em 2022.

Vera Dias, gerente de monumentos e chafarizes da Secretaria Municipal de Conservação, observa que, em termos de Brasil, a variedade de monumentos do Rio é expressiva.

— Além de personalidades negras ligadas à arte, como Lima Barreto, Mestre Valentim, Mercedes Baptista, há ídolos do esporte, como Garrincha e Domingos da Guia, figuras históricas, como Zumbi dos Palmares, João Cândido e os irmãos Rebouças. A cultura afro-brasileira também é celebrada em monumentos como os dedicados a Iemanjá — enumera.

Conheça os homenageados

Personalidades femininas:

  • Chiquinha Gonzaga, musicista (Centro)
  • Mercedes Batista, bailarina (Gamboa)
  • Marielle Franco, política (Centro)

Personalidades masculinas:

  • João Cândido, a almirante negro (Centro)
  • Francisco Braga, músico (Centro)
  • Paulo Silva, maestro (Centro)
  • Evaristo de Morais, advogado e historiador (Centro)
  • Marcilio Dias, marinheiro (Centro)
  • José do Patrocínio, abolicionista (Centro)
  • Machado de Assis, escritor (Centro)
  • Antônio Gonçalves Dias , romancista (Centro)
  • Pixinguinha, músico (Ramos e Centro)
  • Sinhô, músico (Centro)
  • Zumbi dos Palmares, herói negro (Praça Onze e Padre Miguel)
  • Ismael Silva, sambista (Cidade Nova)
  • Domingos da Guia, atleta (Bangu)
  • Garrincha, atleta (Engenho de Dentro)
  • Jairzinho, atleta (Engenho de Dentro)
  • Lima Barreto, jornalista (Ilha do Governador e Centro)
  • Aroldo Melodia, cantor (Ilha do Governador)
  • Irmãos André e Antonio Rebouças, engenheiros (Lagoa)
  • Paulo da Portela , sambista (Madureira)
  • Mestres de Capoeira Touro e Dentinho, capoeiristas (Penha)
  • Cartola, sambista (São Cristóvão)
  • Nilo Peçanha, ex-presidente da República (São Cristóvão)
  • Tim Maia, músico – (Tijuca)
  • Dorival Caymmi, músico (Copacabana)
  • Dias da Cruz, médico (Vila Isabel e Méier)
  • Castro Alves, poeta (Centro e Ilha do Governador)
  • Mestre Valentim, escultor (Centro)
  • Carlos Gomes, músico (Centro)
  • Luiz Gonzaga, músico (São Cristóvão)

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