Brasil precisa se comprometer com representatividade no campo profissional

Nos últimos dias, eu me peguei pensando sobre o que escrever no meu primeiro artigo do ano aqui na coluna Negras Que Movem no Portal Geledés. Tem tanta coisa para ser dita. Mas resolvi começar compartilhando um momento muito especial e significativo: no último domingo (22), estreei como colunista no UOL, um dos principais portais do jornalismo brasileiro. 

Esse é um momento que casa bem com um dos artigos que já publiquei aqui no Geledés e que diz que precisamos celebrar as nossas conquistas. Inclusive, tive a felicidade de ver esse texto ser citado como referência pelo também escritor e influenciador Alê Garcia. Como destaquei ao responder seu comentário no Instagram: foi significativo demais para mim vê-lo fazer essa menção. 

É um momento que também casa muito bem com a frase que norteia os projetos que desenvolvo e que sempre compartilho por aqui: sigamos criando e ocupando espaços.

Estrear no UOL é mais um espaço que estamos ocupando e que me deixa muito honrada e orgulhosa. Assim como também sou muito honrada, feliz e orgulhosa por ser colunista aqui no Geledés. Cada local desse amplifica nossas vozes. 

Na minha primeira contribuição na coluna publicada no ECOA/UOL, escrevi sobre um assunto que me acompanha e que sempre costumo pautar por aqui e pelos locais onde faço da minha escrita um ato político.

Que tema seria esse? A representatividade no campo profissional, a necessidade de governo e mercado se comprometerem com a equidade, a importância de valorizarmos a intelectualidade da mulher negra.

Abaixo, replico com vocês o artigo “Brasil precisa se comprometer com representatividade no campo profissional”, meu artigo de estreia como colunista do UOL.

Brasil precisa se comprometer com representatividade no campo profissional

Sempre que analisamos as estatísticas confirmamos o que já conseguimos perceber diariamente “a olho nu”. A população negra está à margem da sociedade, tendo os menores níveis de escolaridade e os menores salários profissionais, sendo a maioria em profissões que demandam mais capacidade física e minoria em profissões consideradas de prestígio e valorizadas social e financeiramente. Quantos médicos, engenheiros, juízes, e por aí vai, negros você conhece? E se fizermos também o recorte de gênero? Quantas médicas, engenheiras, juízas, e por aí vai, negras você conhece?    

Uma pesquisa realizada pelo instituto Insper, por exemplo, apontou, em 2020, que um homem branco tem um salário em média 159% acima ao do recebido por uma mulher negra no país. Os detalhes, aliás, podem ser vistos nesta notícia publicada aqui mesmo no Portal UOL. Ou seja, a mulher negra permanece sendo a maioria na base da pirâmide social brasileira.

Em 2021, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram que somente menos de 3% dos trabalhadores negros ocupam cargos de gerência ou diretoria. Resultado que demonstra como ainda precisamos avançar para termos um ambiente profissional com representatividade real, especialmente em cargos de liderança e espaços de poder. 

Mas, como detalhei em dois dos meus livros, é importante que, além de lutarmos por uma maior representatividade nos mais diferentes ambientes, também não caiamos na narrativa de sempre associar pessoas negras ao universo da dor, do racismo e da subalternidade. Como já disse outras vezes: nós precisamos mostrar as histórias de sucesso de pessoas negras, em especial de mulheres negras, para que percebamos, cada vez mais, que estes espaços também são nossos.

Foi com esse objetivo que nasceu meu primeiro livro, chamado Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho. Nele, conto as histórias e sonhos e carreiras de mulheres negras que estão movendo o país. São profissionais das áreas de Direito, Engenharia, Medicina, Militar e Odontologia.

Lançado originalmente de forma independente em 2019, durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, a obra obteve reconhecimentos que corroboram a necessidade e a importância de debatermos o tema. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2020, na categoria Documentário, Biografia e Reportagem. Inclusive, fui a única mulher e a única autora independente entre os finalistas da categoria. 

O livro também conquistou a menção honrosa do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo e do Prêmio Maria Firmina de Literatura. Além disso, a série de reportagens que originou a obra conquistou, ainda, o Prêmio Antonieta de Barros Jovens Comunicadores Negros e Negras. 

Uma coisa que se tornou totalmente perceptível enquanto eu produzia a obra, e que reflete a realidade brasileira, é que todas as mulheres entrevistadas e retratadas no livro têm em comum, além da cor da pele, o fato de serem a única ou uma das poucas mulheres negras em suas respectivas ocupações. E daí surge o questionamento: o que precisamos fazer para que essas histórias deixem de ser exceção e passem a se tornar histórias comuns? O que precisamos fazer para que mais mulheres negras ocupem os mais diferentes espaços profissionais?

É preciso que haja compromisso. Compromisso dos entes públicos com políticas afirmativas. Compromisso do mercado privado com a equidade, a diversidade e a inclusão. Precisamos de políticas públicas que funcionem e, mais, precisamos que não haja desmonte das políticas que já estão em vigor. Governo e mercado precisam se comprometer com a representatividade no ambiente profissional. É preciso que sejam implementadas ações práticas, que busquem tornar o ambiente organizacional mais equânime desde a ponta até as gerências e diretorias.

Quando falamos em combate prático ao racismo, é natural vir na nossa mente a famosa frase de Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. É exatamente isso. E aqui eu abro parênteses para exemplificar como as empresas podem ser antirracistas em seu dia a dia. 

Enquanto eu organizava a realização do primeiro Festival Pernambucano de Literatura Negra, que ocorreu no Recife no último dia 20 de novembro, entrei em contato com instituições que poderiam apoiar a realização do evento. De todas as organizações com quem falei, apenas um escritório de advocacia contribuiu com o festival. Foi uma organização que saiu do universo do discurso e partiu para o universo da prática. Escritório esse que possui políticas de inclusão em seu ambiente de trabalho, buscando a contratação de advogadas e advogados negras e negros.

E aqui eu volto ao que falei mais acima: É preciso que haja compromisso. Compromisso dos entes públicos com políticas afirmativas. Compromisso do mercado privado com a equidade, a diversidade e a inclusão. Governo e mercado precisam se comprometer com a representatividade no ambiente profissional. 

Durante o festival, lancei meu terceiro livro: Movendo as Estruturas. Uma obra que reúne artigos que falam sobre o combate ao racismo, sobre a busca por uma representatividade real, sobre a importância da garantia de direitos. Textos que falam sobre as vivências de grande parte da população negra brasileira, em especial das mulheres negras brasileiras.

Deixo aqui um trecho da apresentação da obra: 

Como bem nos ensinou Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Essa é uma frase que virou símbolo, virou ação, e que inspirou o nome deste meu novo livro, Movendo as Estruturas. 

(..)

Você verá essa frase algumas vezes ao longo da leitura desta obra, assim como também verá a frase “Para a mulher negra, escrever é um ato político”, de autoria de Conceição Evaristo. 

A escrita e a literatura são minhas formas de movimentar a sociedade e fazer política. Este livro também nasce com esse propósito”.

Para quem desejar adquirir as obras, pode entrar em contato por e-mail ([email protected]) ou pelos perfis no Instagram (@jaquefraga_ e @livronegrasou). 


Sobre a autora

Jaqueline Fraga é escritora, jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco e administradora pela Universidade de Pernambuco, com MBA em Comunicação e Jornalismo Digital pela Universidade Cândido Mendes. Apaixonada pela escrita e pelo poder de transformação que o jornalismo carrega consigo, é autora do livro “Movendo as Estruturas” (2022), do “Big Gatilho: um livro de poemas inspirado no BBB 21” (2021) e do livro-reportagem “Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho”, obra finalista do Prêmio Jabuti. Também é coautora do livro “Cartas para Esperança” (2022) e repórter do jornal Folha de Pernambuco. Escreve por profissão, prazer e terapia. Escreve porque respira, respira porque escreve. Pode ser encontrada nas redes sociais nos perfis @jaquefraga_ (Instagram e Twitter) e @livronegrasou (Instagram).


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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