sexta-feira, janeiro 27, 2023
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Após anos de caos na Somália, um líder político tem sua chance

Fonte: G1-

Sharif Sheik Ahmed, um islamita moderado, pode ser a solução para o páis.
Mas seu governo ainda é alvo de várias ameaças.

 

Dos portões da Villa Somália, o palácio presidencial que fica no alto de uma montanha, essa ruína de cidade quase parece estar em paz.

O presidente da Somália, Sheik Sharif Ahmed, em seu escritório na Villa Somalia em 29 de agosto. (Foto: The New York Times)

Após quase duas décadas de guerra civil, há pouquíssima poluição, já que quase toda a indústria da Somália foi destruída. Um vento leve vem do oceano e movimenta as buganvílias. Poucos carros permanecem na cidade e relativamente poucas pessoas estão lá, pois centenas de milhares fugiram recentemente. O lugar é surrealmente tranquilo, exceto pelo barulho ocasional de rifles poderosos.

 

O presidente Sharif Sheik Ahmed está sentado em sua mesa, vestindo um terno listrado, chapéu de oração, óculos de design e um relógio grande, de aparência cara. Ele vive cercado por inimigos e é vigiado 24 horas por dia por soldados de Uganda que literalmente acampam do lado de fora de sua casa, nas raras ocasiões em que ele deixa o palácio, o levam ao aeroporto em um veículo blindado. Nas poucas vezes em que vê as ruas desertas de Mogadício, ele o faz através de vidros à prova de balas de 5 cm de largura.

 

“Este governo enfrentou obstáculos sem paralelo”, disse Sharif, ex-professor do ginásio, que se tornou presidente em fevereiro. “Tivemos que lidar com grupos terroristas internacionais que causavam destruição em vários lugares. O plano deles era derrubar o governo logo que ele chegasse. O governo mostrou que pode durar.”

 

As probabilidades contra Sharif ainda são muitas, mas seu governo islamista moderado é amplamente considerado como a melhor chance de estabilidade para a Somália em anos.

 

Pela primeira vez em décadas – incluindo 21 anos de ditadura e os 18 anos de caos que se seguiram – o líder da Somália tem, ao mesmo tempo, amplo apoio camponês no interior do país e ampla ajuda de países estrangeiros, como afirmam muitos analistas e cidadãos somalianos. “Este governo é qualitativamente diferente do governo anterior”, disse Rashid Abdi, analista do International Crisis Group. “Mas não devemos nos enganar; eles precisam agir rapidamente.”

 

Grande parte do mundo está contando com C para acabar com a pirataria e repelir a disseminação do islã militante, dois problemas somalianos que se transformaram em grandes questões geopolíticas. A al-Qaeda parece estar ficando mais próxima de insurgentes somalianos em um esforço para transformar este país em um ponto central para uma jihad global. Esta semana, comandos americanos mataram um agente da al-Qaeda no sul da Somália em uma ousada incursão diurna em helicóptero.

 

Após anos de ambivalência em relação à Somália, os Estados Unidos estão desempenhando um papel cada vez mais ativo aqui. Recentemente, enviaram 40 toneladas de armas para a Somália para manter vivo o governo de Sharif.

 

No entanto, suas forças armadas são como peneiras. Muitos de seus comandantes ainda têm ligações com o Shabab, os insurgentes islamistas que trabalham com a al-Qaeda para destruir o governo de Sharid, e vários representantes do governo aqui admitiram que uma grande parte das armas americanas foi parar rapidamente nas mãos do Shabab.

 

Se não fossem os 5 mil soldados da União Africana guardando o porto, o aeroporto e a Villa Somália, muitos somalis acreditam que o governo de Sharif rapidamente seria derrubado.

 

“Não seria uma questão de dias”, disse Asha A. Abdalla, membro do Parlamento. “Seriam horas.”

 

O general Mohamed Sheik, chefe de inteligência da Somália, disse que, quando Sharif assumiu o poder, o governo tinha 37 pick-ups com um canhão pregado na parte de trás. Eles decidiram dá-las às milícias islamitas aliadas ao governo.

 

“Esse foi nosso erro”, disse Mohamed. “Eles desertaram. Uma vez, quatro. Da outra vez, duas. Agora, não temos nenhuma.”

 

Sharif é um político novo para a Somália, pois, para começar, ele é um político. Durante décadas, esse país costeiro foi reduzido a escombros por generais, militares e guerreiros.

 

Sharif, de 43 anos, está acostumado a carregar uma bússola, não uma arma. Estudioso e reservado, ele triangulou a política tribal de seu país e encontrou algo que parece ser o centro político da Somália, uma mistura de crenças moderadas e islâmicas mais agudas, com ênfase na religião, não no clã. Para ajudar, ele reuniu uma equipe brilhante de doutores somali-americanos, somali-canadenses e somali-europeus que esperavam há anos para ajudar a reconstruir o país.

 

Porém, o tempo está correndo. Cada dia que Sharif permanece trancafiado em seu palácio nas montanhas, com milhões de pessoas à beira da fome devido a secas e granadas explodindo do lado de fora dos portões do palácio, a euforia com que ele foi recebido dá lugar ao cinismo.

 

A Villa Somália pode ser segura, mas o resto de Mogadício, a capital, é uma armadilha mortal para assassinatos, minas terrestres e violência sem sentido. Granadas de morteiro levam embora braços e pernas de crianças.

 

A apenas alguns metros além das paredes de gesso da Villa Somália estão os combatentes do Shabab com lenços sobre o rosto e rifles de atirador – eles antes eram aliados a Sharif e agora tentam matá-lo.

 

O Shabab é uma anomalia política tão grande quanto o presidente. Os assessores da presidência admitem nunca terem visto uma força tão coesa, bem-treinada e ideologicamente motivada. O Shabab e seus irmãos insurgentes agora controlam grande parte de Mogadício e do país. Muitas vezes, refere-se a eles como os Talibãs somalianos, cortando as mãos de ladrões e recentemente arrancando os dentes das pessoas, afirmando que dentes de ouro são, de alguma forma, contra o islamismo.

 

Todavia, os somalianos não são tão extremos religiosamente quanto a presença do Shabab pode implicar, e muitos afirmam que estão se cansando do Shabab. Isso poderia representar uma enorme oportunidade para Sharif, embora críticos afirmem que ele deveria sair mais da Villa Somália e interagir com a população sitiada.

 

“De fato, trata-se de corações e mentes”, disse Ahmed Abdisalam, vice-primeiro-ministro do último governo somaliano. “Este governo precisa chegar para o público. Se eles tiverem a população com eles, o Shabab não poderá sobreviver.”

 

Realmente, o Shabab tem seus próprios desertores e pode estar perdendo apoio importante. Dois jovens rapazes que recentemente saíram do grupo disseram que o fluxo de recebimento de dinheiro do Shabab, que costumava vir de somalianos ricos de fora do país, estava secando, à medida que mais somalianos passavam a dar apoio a Sharif.

 

Trabalhadores de grupos de ajuda humanitária disseram que o Shabab estava taxando alimentos em seu território, uma atitude bastante impopular, quando os preços dos alimentos já estão altos por causa da seca.

 

Recentemente, em uma posição de frente ao longo da explodida área da praia, em Mogadício, soldados do governo encurralaram fortificações do Shabab com metralhadoras pesadas. O Shabab devolveu fogo com um rifle único, economicamente disparado, tiro por tiro.

 

O Shabab antes era visto como um autêntico grupo de combatentes pela liberdade, os que lideraram a batalha contra os milhares de soldados etíopes na Somália, que apoiavam o governo de transição anterior.

 

Agora que os etíopes foram embora, o Shabab parece estar passando por uma mudança ideológica. Seu foco não é mais libertar a Somália, afirmam desertores, mas algo maior.

 

“Nossos comandantes estavam tentando nos dizer que não existe bandeira nacional somaliana, nem fronteiras nacionais”, disse recentemente um desertor, chamado Mohamed, que teme ser identificado. “Eles nos disseram que a jihad nunca vai acabar. Quando terminarmos na Somália, vamos para o Quênia, depois para outro lugar.”

 

Embora a agenda global possa estar alienando os somalianos, ela parece ser um ímã para jihadistas rebeldes que buscam a próxima guerra santa. Ex-comandantes da insurgência descrevem um cenário muito mais alarmante que representantes do governo americano, que admitem haver apenas algumas centenas de combatentes estrangeiros na Somália.

 

“Há milhares deles”, disse o sheik Yusuf Mohamed Siad, que recentemente se uniu ao governo após desertar o Hizbul Islam, um grupo rebelde próximo ao Shabab. Ele contou que muitos homens experientes em combates estavam vindo do Paquistão, Afeganistão e Sudão, e que uma unidade de homens-bomba estava sendo treinada em Mogadishu por Fazul Abdullah Mohamed, técnico da al-Qaeda e principal suspeito pelos bombardeios das embaixadas americanas do Quênia e da Tanzânia, em 1998.

 

“Fazul é especialista em guerra”, disse Yusuf. “Ele faria mais bombas suicidas. Ele só não tem mais recursos.”

 

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