Citando números das estatísticas que demonstram que um trabalhador negro ganha, em média, metade de um não negro, e que o percentual de negros é de 70% dos pobres e 71% de indigentes, o diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Mário Lisboa Theodoro, defendeu a adoção da política de cotas como um mecanismo capaz de “equalizar uma situação de portas fechadas que hoje existe no país para a população negra”.
“A questão racial naturaliza a desigualdade. As ações afirmativas são políticas complementares às políticas universais, são políticas de nova geração, capazes de abrir portas para que se atinja o máximo de igualdade”, afirmou.
Theodoro acrescentou que os estudos do IPEA mostram de forma “contundente” a desigualdade racial e que sobre esse tema há acordo entre os mais de 300 pesquisadores do Instituto. Ele acrescentou que os dados estatísticos do IPEA apontam que há hoje no Brasil 571 mil crianças de 7 a 14 anos fora da escola e, destas, 62% são negras.
“Isso tudo nos ressalta, principalmente, que há uma renitente estabilidade dessa desigualdade. As desigualdades raciais no Brasil não são apenas expressivas e disseminadas, como também são persistentes ao longo do tempo”, afirmou, acrescentando que a superação desse quadro é o grande desafio do país.
Segundo o diretor do IPEA, o sistema de cotas para negros em universidades públicas contemplou, até o momento, 52 mil estudantes. “São profissionais negros que vão disputar postos de trabalho em igualdade de condição com os outros profissionais. Hoje, pessoas negras têm mais portas fechadas do que a população de origem branca”, finalizou.
Distância
A secretária de Ensino Superior do Ministério da Educação (MEC), Maria Paula Dallari Bucci observou que, apesar da melhora do sistema educacional no país nos últimos 20 anos, “persiste a distância que separa negros de brancos, com desvantagem para os primeiros em todos os dados estatísticos. “A simples passagem do tempo não muda o estado de coisas. Se não houverem políticas públicas se manterá a desigualdade. Precisamos enfrentar isso, menos pelo passado e mais pelo futuro”, afirmou.
Fonte: UNE |
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Mais um desmascaramento surgido no rastro da movimentação causada em torno e em função das audiências públicas no STF, convocadas pelo Ministro Ricardo Lewandowski (relator da ADPF movida pelo DEM contra as cotas raciais na UnB e "por tabela" contra todo o sistema em nível nacional) para embasar com as informações dos Amicus Curiae o seu relatório (que influenciará fortemente o posicionamento do Ministros no Julgamento).
A Campanha AFIRME-SE, criada e levada a cabo por militantes e organizações favoráveis às cotas raciais , conseguiu recolher mais de 150 mil reais, com a finalidade de publicar no período da audiência página publicitária inteira nos mais estratégicos jornais do país (O Globo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal A Tarde).
O preço acertado previamente com o departamento comercial de O Globo pela empresa de publicidade responsável pela campanha (Propeg) seria de R$ 54 mil, mas ao ser enviado o material e tomar conhecimento do conteúdo, o Jornal simplesmente aumentou o preço para R$ 712 mil (1300% de aumento, obviamente inviabilizando a publicação).
Os responsáveis pela campanha entraram com representação judicial contra o jornal O Globo , através do Ministério Público do Rio de janeiro; e pretendem que comprovada a discriminação, o jornal realize a publicação por preço simbólico ou gratuitamente.
Pois é…, é assim que funciona boa parte da estrutura favorável à manutenção das desigualdades brasileiras(principalmente da racial), privilegiando editorialmente os que se apresentam de acordo com a sua linha ideológica e vetando os contrários; quando não podem fazer isso se escondendo na "subjetividade editorial", apelam para a "barreira econômica"… , cínica e muito mais eficiente que os velhos métodos diretos e abertos de discriminação.
Apenas para referência lembro alguns teóricos… :
META-RACISMO: Joel Kovel em seu livro White Racism: A Psychohistory (Racismo Branco: Um Psicohistoria, e é interessante observar que foi bem frisado no título ao que ele se refere para que não fosse "distorcido"…) publicado em 1970 e republicado em 1984 descreve "meta-racismo" como "… o racismo de tecnocracia; isto é, sem mediação psicológica como tal, no qual a opressão racista é executada diretamente POR MEIOS ECONÔMICOS E TECNOCRÁTICOS", ainda segundo Kovel "Como ele incorpora as formas mais avançadas de dominação, transforma-se em múltiplas configurações como um camaleão (independentemente das formas necessárias para executar a sua missão racista), e é mais eficiente que as formas mais antigas, cheias de ódio, odiosas formas do racismo que levavam a discriminação e violência pública e aberta –META-RACISMO é o modo dominante do racismo no capitalista pós-moderno"
Ou ainda como alerta (Zizek 1995), " vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um «meta-racismo», que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo.Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos.
Entretanto, conforme argumenta Zizek, a diferença entre o meta-racismo e o racismo tradicional, direto e declarado, é absolutamente nula, uma vez que não existe metalinguagem. Talvez, exatamente por isso, a postura cínica do meta-racismo se torne mais ameaçadora".
Preparar carapuças…
Fonte: Blog do Juarez |
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DO FÓRUM DE MULHERES DO DISTRITO FEDERAL
AO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
REFERENTE A LEI MARIA DA PENHA (DECISÃO DO STJ NO 24 DE FEVEREIRO DE 2010 (Recurso Especial 1.097.042 pela3ª. Seção do STJ)
Neste 8 de março de2010, Centenário do Dia Internacional das Mulheres,o Fórum de Mulheres do DistritoFederal-FMDF se reuniu em Vigília organizada no gramado em frente ao Superior Tribunal de Justiça-STJ expressando silenciosamente —com velas, faixas e em estado de luto —, a indignação das mulheres frentea decisão dessa Corte de Justiça, que desvirtuou a Lei Mariada Penha (11.340/2006), fragilizando o direito das brasileiras à uma vida semviolência.
Essa decisãoinconstitucional do STJ é da maior gravidade, retira o Estado de cena e joga aviolência contra as mulheres para a esfera privada. A integridade física epsíquica das mulheres, a vida das mulheres brasileiras é questão de interessepúblico e o Estado já assumiu isso em instâncias não reversíveis.
As mulheres do FMDFrepudiam a decisão do STJ, por considerá-la INCONSTITUCIONAL, demandam sua reversão em recursos futuros e expressam sua disposição de encaminhamento a instâncias internacionais.
POR RESPEITO À CONSTITUIÇÃO E AOS COMPROMISSOSINTERNACIONAIS ASSUMIDOS PELO ESTADO BRASILEIRO.
SEM AS MULHERES, OS DIREITOS NÃO SÃO HUMANOS!
Atenciosamente,
Kelly Kotlinski Verdade
Leila Rebouças
Natália Mori
Coordenação do Fórum de Mulheres do Distrito Federal
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.jpg) O dia 8 de março é dedicado à comemoração do Dia Internacional da Mulher. Atualmente tornou-se uma data um tanto festiva, com flores e bombons para uns. Para outros é relembrada sua origem marcada por fortes movimentos de reivindicação política, trabalhista, greves, passeatas e muita perseguição policial. A data foi uma proposta de Clara Zetkin (foto), membro do Partido Comunista Alemão, deputada em 1920, que militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização feminina. O artigo é de Eva Alterman Blay.
Eva Alterman Blay - Revista de Estudos Feministas (vol. 9)
No século XIX e no início do XX, nos países que se industrializavam, o trabalho fabril era realizado por homens, mulheres e crianças, em jornadas de 12, 14 horas, em semanas de seis dias inteiros e freqüentemente incluindo as manhãs de domingo. Os salários eram de fome, havia terríveis condições nos locais da produção e os proprietários tratavam as reivindicações dos trabalhadores como uma afronta, operárias e operários considerados como as "classes perigosas"
Sucediam-se as manifestações de trabalhadores, por melhores salários, pela redução das jornadas e pela proibição do trabalho infantil. A cada conquista, o movimento operário iniciava outra fase de reivindicações, mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas. As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava da igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a "luta geral", prejudicariam o salário dos homens e, afinal, as mulheres apenas "completavam" o salário masculino.
Subjacente aos grandes movimentos sindicais e políticos emergiam outros, construtores de uma nova consciência do papel da mulher como trabalhadora e cidadã. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Clara Lemlich, Emma Goldman, Simone Weil e outras militantes dedicaram suas vidas ao que posteriormente se tornou o movimento feminista.
Clara Zetkin propôs o Dia Internacional da Mulher
Clara Zetkin (1857-1933), alemã, membro do Partido Comunista Alemão,
deputada em 1920, militava junto ao movimento operário e se dedicava à
conscientização feminina. Fundou e dirigiu a revista "Igualdade", que
durou 16 anos (1891-1907).
Líderes do movimento comunista como Clara Zetkin e Alexandra Kollontai,
ou anarquistas como Emma Goldman, lutavam pelos direitos das mulheres
trabalhadoras, mas o direito ao voto as dividia: Emma Goldman afirmava
que o direito ao voto não alteraria a condição feminina se a mulher não
modificasse sua própria consciência.
Ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em
Copenhagem, em 1910, Clara Zetkin propôs a criação de um Dia
Internacional da Mulher sem definir uma data precisa. Contudo, vê-se
erroneamente afirmado no Brasil e em alguns países da América Latina que
Clara teria proposto o 8 de Março para lembrar operárias mortas num
incêndio em Nova Iorque em 1857. Os dados a seguir demonstram que os
fatos se passaram de maneira diferente.
O movimento operário nos Estados Unidos
Assim como na Europa, era intenso o movimento trabalhador nos Estados Unidos desde a segunda metade do século XIX, sobretudo nos setores da produção mineira e ferroviária e no de tecelagem e vestuário.
A emergente economia industrial norte-americana, muito instável, era marcada por crises. Nesse contexto, em 1903 formou-se, pela ação de sufragistas e de profissionais liberais, a Women's Trade Union Leaguepara organizar trabalhadoras assalariadas. Com as crises industriais de 1907 e 1909 reduziu-se o salário dos trabalhadores, e a oferta de mão-de-obra era imensa, dada a numerosa imigração proveniente da Europa. Grande parte dos operários e operárias era de imigrantes judeus, muitos
com um passado de militância política.
No último domingo de fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos fizeram uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e melhores condições de trabalho. No ano seguinte, em Manhatan, o Dia da Mulher reuniu 2 mil pessoas.
Problemas muito conhecidos do operariado latino-americano impeliam trabalhadores e trabalhadoras a aderir às manifestações públicas por salários e pela redução do horário de trabalho. Embora o setor industrial tivesse algumas grandes empresas, predominavam as pequenas, o que dificultava a agregação e unicidade das reivindicações. O movimento por uma organização sindical era intenso e liderado no setor de confecções e vestuário por trabalhadores judeus com experiência política sindical, especialmente da União Geral dos Trabalhadores Judeus da Rússia e da Polônia ( Der Alguemayner Yiddisher Arbeterbund in Russland
un Poyln - BUND).
Para desmobilizar o apelo das organizações e controlar a permanência dos trabalhadores/as, muitas fábricas trancavam as portas dos estabelecimentos durante o expediente, cobriam os relógios e controlavam a ida aos banheiros. Mas as difíceis condições de vida e os baixíssimos salários eram forte incentivo para a presença de operários e operárias nas manifestações em locais fechados ou na rua.
Uma das fábricas, a Triangle Shirtwaist Company (Companhia de Blusas Triângulo), para se contrapor à organização da categoria, criou um sindicato interno para seus trabalhadores/as. Em outra fábrica, algumas trabalhadoras que reclamavam contra as condições de trabalho e salário foram despedidas e pediram apoio ao United Hebrew Trade, Associação de Trabalhadores Hebreus. Então as trabalhadoras da Triangle quiseram retirar alguns recursos do sindicato interno para ajudar as companheiras mas não o conseguiram. Fizeram piquetes na porta da Triangle, que contratou prostitutas para se misturarem às manifestantes, pensando assim dissuadi-las de seus propósitos. Ao contrário, o movimento se fortaleceu.
Uma greve geral começou a ser considerada pelo presidente da Associação dos Trabalhadores Hebreus, Bernardo Weinstein, sempre com o objetivo de melhorar as condições de trabalho da indústria de roupas. A idéia se espalhou e, em 22 de novembro de 1909, organizou-se uma grande reunião na Associação dos Tanoeiros liderada por Benjamin Feigenbaum e pelo Forward.
( http://www.bnai-brith.com.br/content/mail/editar_press_especial.asp?cod
=258#_ftn9). A situação era extremamente tensa e, durante a reunião, subitamente uma adolescente, baixa, magra, se levantou e pediu a palavra: "Estou cansada de ouvir oradores falarem em termos gerais. Estamos aqui para decidir se entramos em greve ou não. Proponho que seja declarada uma greve geral agora!". A platéia apoiou de pé a moção da jovem Clara Lemlich.
Política e etnia
No movimento dos trabalhadores as relações étnicas tinham peso fundamental, razão pela qual, para garantir um compromisso com a greve, Feigenbaum usou um argumento de extraordinária importância religiosa para os judeus. Ele perguntou à assembléia: "Vocês se comprometerão com o velho mandamento judaico?" Uma centena de mãos se ergueram e todos gritaram: "Se eu esquecer de vós, ó Jerusalém, que eu perca minha mão direita". Era um juramento de que não furariam a greve.
Cerca de 15 mil trabalhadores do vestuário, a maioria moças, entraram em greve, provocando o fechamento de mais de 500 fábricas. Jovens operárias italianas aderiram, houve prisões, tentativas de contratar novas trabalhadoras, o que tornou o clima muito tenso. A direção da greve ficou com a Associação dos Trabalhadores Hebreus e com o Sindicato Internacional de Trabalhadores na Confecção de Roupas de Senhoras International Ladies' Garment Workers' Union - ILGWU).
À medida que as grandes empresas cederam algumas reivindicações, a greve foi se esvaziando e se encerrou em 15 de fevereiro de 1910 depois de 13 semanas.
O incêndio
Pouco tinha sido alterado, sobretudo nas fábricas de pequeno e médio porte, e os movimentos reivindicatórios retornaram. A reação dos proprietários repetia-se: portas fechadas durante o expediente, relógio cobertos, controle total, baixíssimos salários, longas jornadas de trabalho.
O dia 25 de março de 1911 era um sábado, e às 5 horas da tarde, quando todos trabalhavam, irrompeu um grande incêndio na Triangle Shirtwaist Company, ( http://www.bnai-brith.com.br/content/mail/editar_press_especial.asp?cod=258#_ftn13) que se localizava na esquina da Rua Greene com a Washington Place. A Triangle ocupava os três últimos de um prédio de
dez andares. O chão e as divisórias eram de madeira, havia grande quantidade de tecidos e retalhos, e a instalação elétrica era precária. Na hora do incêndio, algumas portas da fábrica estavam fechadas. Tudo contribuía para que o fogo se propagasse rapidamente.
A Triangle empregava 600 trabalhadores e trabalhadoras, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, jovens de 13 a 23 anos. Fugindo do fogo, parte das trabalhadoras conseguiu alcançar as escadas e desceu para a rua ou subiu para o telhado. Outras desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo se expandiram e trabalhadores/as pularam pelas janelas, para a morte. Outras morreram nas próprias máquinas. O Forward publicou terríveis depoimentos de testemunhas e muitas fotos.
Morreram 146 pessoas, 125 mulheres e 21 homens, na maioria judeus.
A comoção foi imensa. No dia 5 de abril houve um grande funeral coletivo que se transformou numa demonstração trabalhadora. Apesar da chuva, cerca de 100 mil pessoas acompanharam o enterro pelas ruas do Lower East Side. No Cooper Union falou Morris Hillquit e no Metropolitan Opera House, o rabino reformista Stephen Wise.
A tragédia teve conseqüências para as condições de segurança no trabalho e sobretudo serviu para fortalecer o ILGWU.
Para autores como Sanders, todo o processo, desde a greve de 1909, mais o drama do incêndio da Triangle, acabou fortalecendo o reconhecimento dos sindicatos. O ILGWU, de conotação socialista e um dos braços mais 'radicais' do American Federation of Labour (AFL), se tornou o maior e mais forte dos Estados Unidos naquele momento.
Atualmente no local onde se deu o incêndio foi construída a Universidade de Nova Iorque. Uma placa, lembrando o terrível episódio, foi lá colocada:
"Neste lugar, em 25 de março de 1911, 146 trabalhadores perderam suas
vidas no incêndio da Companhia de Blusas Triangle. Deste martírio
resultaram novos conceitos de responsabilidade social e legislação do
trabalho que ajudaram a tornar as condições de trabalho as melhores do
mundo." (ILGWU)
Mulheres e movimentos sociais
No século XX, as mulheres trabalhadoras continuaram a se manifestar em várias partes do mundo: Nova Iorque, Berlim, Viena (1911); São Petersburgo (1913). Causas e datas variavam. Em 1915, Alexandra Kollontai organizou uma reunião em Cristiana, perto de Oslo, contra a guerra. Nesse mesmo ano, Clara Zetkin faz uma conferência sobre a mulher. Em 8 de março 1917 (23 de fevereiro no Calendário Juliano), trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve e pediram apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve espontânea, não organizada, e teria sido o primeiro momento da Revolução de Outubro.
Na década de 60, o 8 de Março foi sendo constantemente escolhido como o dia comemorativo da mulher e se consagrou nas décadas seguintes. Certamente esta escolha não ocorreu em conseqüência do incêndio na Triangle, embora este fato tenha se somado à sucessão de enormes problemas das trabalhadoras em seus locais de trabalho, na vida sindical e nas perseguições decorrentes de justas reivindicações.
Lenin: o que importava era a política de massas e não o direito das mulheres
Mulheres e homens jovens tinham muitas outras preocupações além das questões trabalhistas e do sistema político. Nem sempre a liderança comunista entendia essas necessidades, como foi o caso de Lenin e de muitos outros líderes. Em seu Diário, Clara Zetkin relata o que ouvira do camarada e amigo Lenin, ao visitá-lo no Kremlin, em 1920. Lenin lamentava o descaso pelo Dia Internacional da Mulher que ela propusera em Copenhagem, pois este teria sido um oportuno momento para se criar um movimento de 'massa', internacionalizar os propósitos da Revolução de 17, agitar mulheres e jovens. Para alcançar este objetivo, afirmava ele, era necessário discutir exclusivamente os problemas políticos e não perder tempo com aquelas discussões que os jovens trabalhadores traziam para os grupos políticos, como casamento e sexo. Lenin estendia suas críticas ao trabalho de Rosa Luxemburgo com prostitutas: "Será que Rosa Luxemburgo não encontrava trabalhadores para discutir, era necessário buscar as prostitutas?"
Esta visão de Lenin fez escola na esquerda. A experiência do 'amor livre' nos primeiros anos pós-Revolução trouxe enormes conflitos que levaram à restauração do sistema de família regulamentado pelo contrato civil. Temas relativos ao corpo, à sexualidade, à reprodução humana, elação afetiva entre homens e mulheres, aborto, só foram retomados 40 anos mais tarde pelo movimento feminista.
O 8 de Março no Brasil
No Brasil vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin.
Nas primeiras décadas do século XX, o grande tema político foi a reivindicação do direito ao voto feminino. Berta Lutz, a grande líder sufragista brasileira, aglutinou um grupo de mulheres da burguesia para divulgar a demanda. Ousadas, espalharam de avião panfletos sobre o Rio de Janeiro, pedindo o voto feminino, no início dos anos 20!
Pressionaram deputados federais e senadores e se dirigiram ao presidente Getúlio Vargas. Afinal, o direito ao voto feminino foi concedido em 1933 por ele e garantido na Constituição de 1934. Mas só veio a ser posto em prática com a queda da ditadura getulista, e as mulheres brasileiras votaram pela primeira vez em 1945.
Em 1901, as operárias, que juntamente com as crianças constituíam 72,74%
da mão-de-obra do setor têxtil, denunciavam que ganhavam muito menos do que os homens e faziam a mesma tarefa, trabalhavam de 12 a 14 horas na fábrica e muitas ainda trabalhavam como costureiras, em casa. Como
mostra Rago, a jornada era de umas 18 horas e as operárias eram consideradas incapazes física e intelectualmente. Por medo de serem despedidas, submetiam-se também à exploração sexual.
Os jornais operários, especialmente os anarquistas, reproduziam suas reclamações contra a falta de higiene nas fábricas, o assédio sexual, aspéssimas condições de trabalho, a falta de pagamento de horas extras, um
sem número de abusos. Para os militantes operários, a fábrica era um local onde as mulheres facilmente se prostituíam, daí reivindicarem a volta das mulheres para casa. Patrões, chefes e empregados partilhavam dos mesmos valores: olhavam as trabalhadoras como prostitutas.
Entre as militantes das classes mais altas, a desqualificação do operariado feminino não era muito diferente: partilhavam a imagem generalizada de que operárias eram mulheres ignorantes e incapazes de produzir alguma forma de manifestação cultural. A distância entre as duas camadas sociais impedia que as militantes burguesas conhecessem a produção cultural de anarquistas como Isabel Cerruti e Matilde Magrassi, ou o desempenho de Maria Valverde em teatros populares como o de Arthur Azevedo .
Como as anarquistas americanas e européias, as brasileiras (imigrantes
ou não) defendiam a luta de classes mas também o divórcio e o amor
livre, como escrevia "A Voz do Trabalhador" de 1° de fevereiro de 1915:
"Num mundo em que mulheres e homens desfrutassem de condições de
igualdade... Vivem juntos porque se querem, se estimam no mais puro,
belo e desinteressado sentimento de amor".
A distinção entre anarquistas e comunistas foi fatal para uma eventual aliança: enquanto as comunistas lutavam pela implantação da "ditadura do proletariado", as anarquistas acreditavam que o sistema partidário reproduziria as relações de poder, social e sexualmente hierarquizadas.
No PC a diferenciação de gênero continuava marcante: as mulheres se
encarregavam das tarefas 'femininas' na vida quotidiana do Partido.
Extremamente ativas, desenvolveram ações externas de organização sem ocupar qualquer cargo importante na hierarquia partidária. Atuavam, por exemplo, junto a crianças das favelas ou dos cortiços, organizavam colônias de férias, supondo que poderiam ensinar às crianças novos valores.
Zuleika Alembert, a primeira mulher a fazer parte da alta hierarquia do PC, eleita deputada estadual por São Paulo em 1945, foi expulsa do Partido quando fez críticas feministas denunciando a sujeição da mulher em seu próprio partido.
O feminismo dos anos 60 e 70 veio abalar a hierarquia de gênero dentro da esquerda. A luta das mulheres contra a ditadura de 1964 uniu, provisoriamente, as feministas e as que se autodenominavam membros do 'movimento de mulheres'. A uni-las, contra os militares, havia uma data: o 8 de Março. A comemoração ocorria através da luta pelo retorno da democracia, de denúncias sobre prisões arbitrárias, desaparecimentos políticos.
A consagração do direito de manifestação pública veio com o apoio internacional - a ONU instituiu, em 1975, o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.
Entrou-se numa nova etapa do feminismo. Mas velhos preconceitos permaneceram nas entrelinhas. Um deles talvez seja a confusa história propalada do 8 de Março, em que um anti-americanismo apagava a luta de tantas mulheres, obscurecendo até mesmo suas origens étnicas.
Fonte: Carta Maior
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Solidariedade a Laura Capriglione e Lucas Ferraz e repúdio ao colunismo de aluguel
A Folha de S. Paulo perpetrou um ato dos mais baixos contra dois de seus funcionários. Designou, ou permitiu, que um colunista de aluguel, o sr. Demétrio Magnoli, atacasse pesadamente e com termos ofensivos os repórteres da casa Laura Capriglione e Lucas Ferraz (“O jornalismo delinqüente”, 9/3). A pretexto de criticar a matéria “DEM corresponsabiliza negros pela escravidão” (Folha, 4/3), por eles assinada, Magnoli envereda pelo perigoso terreno da galhofa e da injúria, atacando ainda o historiador Luiz Felipe de Alencastro, pesquisador sério e autor de obra respeitável.
Os repórteres cobriram a audiência pública sobre a política de cotas para afrodescendentes realizada no STF. Na ocasião, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) afirmou que também os negros deveriam ser responsabilizados pela escravidão. Ao tentar livrar a cara do parlamentar goiano, Magnoli afirma que “Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos”. Não aponta quais.
A certa altura, faz a seguinte citação para comprovar suas acusações: “Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: ‘Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor’”.
Magnoli não cita o nome do livro. Será que o leu por inteiro? Trata-se de Bury the chains: prophets and rebels in the fight to free an empire’s slaves, de Adam Hochschild (ed. Houghton Mifflin, 2005). Boa parte de seu conteúdo pode ser encontrada no Google.
Ao contrário do que o intelectual de almanaque leva a crer, não se trata de uma obra sobre a responsabilidade dos negros na escravidão. Seu tema é a luta abolicionista na Inglaterra em fins do século XVIII, pelo fim ao regime de cativeiro patrocinado pelo império britânico.
Não é novidade que sobas africanos entravam como sócios menores no lucrativo negócio de seres humanos, realizado por comerciantes brancos das metrópoles européias e das colônias americanas. Mas Magnoli não diz que a escravidão era uma relação social fundamental no antigo sistema colonial, como Fernando Novais e outros analisaram com maestria. Logo, apesar de existirem negros que lucravam com transações desse tipo, não eram eles os agentes determinantes. A escravidão era a mola mestra do colonialismo. A responsabilidade principal era dos países europeus e não dos chefes tribais.
Será que a Folha de S. Paulo pretende, com a ajuda de Magnoli, extirpar do jornalismo brasileiro atual qualquer voz questionadora do pensamento único externado pelos donos da mídia e pelos plutocratas do DEM?
A reportagem de Laura Capriglione e Lucas Ferraz é correta, clara e objetiva. Limita-se a registrar a peculiar visão de mundo de um dos líderes nacionais de um partido de direita. Queremos expressar nossa irrestrita solidariedade aos repórteres, traiçoeiramente atacados com a conivência do próprio jornal.
São Paulo, 10 de março de 2010
Movimento Sindicato é Pra Lutar!
(coletivo de oposição à diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo) |
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A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de "delinquentes" dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquência jornalística montado por Magnoli.
Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capriglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo Manual de Redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Millenium, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião.
A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de "jornalismo engajado" (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da Redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.
A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo "Jornalismo delinquente" [ver íntegra abaixo], publicado na edição de terça-feira (9/3), na seção "Tendências/Debates" da pág. 3 do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores – e não só da Folha – para os tempos de guerra que se aproximam.
A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.
Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de "panfleto disfarçado de reportagem", afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.
Demétrio Magnoli # reproduzido da Folha de S.Paulo, 9/3/2010
As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz ("DEM corresponsabiliza negros pela escravidão", Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram "africanos" por "negros", convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a "raça negra" carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à "raça branca" a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres ("África não organizou tráfico, diz historiador"), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que "toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais".
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: "Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor". Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: "Negros corresponsabilizam negros pela escravidão".
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que "o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza".
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. "Não discutimos a escravidão", afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma "amnésia geral sobre a escravidão".
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais. [Demétrio Magnoli, sociólogo, é autor de Uma Gota de Sangue – História do Pensamento Racial" (SP, Contexto, 2009)]
Fonte: Observatório da Imprensa
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por: MARCUS PRETO
Quando Daniela Mercury explodiu com "O Canto da Cidade", em 1994, dinamitou também qualquer fronteira que ainda separasse a música pop que então se produzia na Bahia do público do resto do país.
Antes dela, outros artistas -como Luiz Caldas, Gerônimo, Sarajane, Margareth Menezes, os blocos Olodum, Ilê Aiyê, as bandas Asa de Águia, Reflexus- tentaram quebrar o cerco. Chegaram a se infiltrar em camadas mais populares do Sudeste, mas, para o público "sofisticado", ainda soavam como "o pessoal exótico da Bahia".
Daniela contava com outras armas de persuasão. Era branca, bonita e não era pobre. Conhecia o universo do rock e da música internacional e sabia como uma popstar devia se comportar. Tinha, portanto, maior poder de identificação com o que os ouvidos de SP e do Rio estavam interessados.
Personificava o Carnaval da Bahia, propagava a alegria e chamava o corpo à dança. Mas, disfarçada de "canária" tradicional, quebrava preconceitos às toneladas. Contra negro, contra pobre, contra candomblé, contra mestiçagem.
Caetano e Gil, entre outros, já haviam feito coisa parecida, mas nunca foram tão populares. Nem estavam emoldurados por uma batida tão irresistível.
Daniela liberou a área aqui embaixo para que, por sua voz ou pela de seus antecessores, viessem à tona (ou se reavaliassem) versos de autoestima negra nas alturas, como "Lá vem a negrada que faz o astral da avenida", "Sou amarrado nessa pele escura/ Na sua cultura/ Em sua formosura", "Eu sou negão, meu coração é a liberdade".
Ficou natural para a menina paulista branca de classe média exaltar a "baianidade nagô", o "swing da cor", "a pele escura" -temas que estavam a zilhões de quilômetros de distância dos abordados pelas bandas de pop-rock nacional dos 80, que, naqueles 90 e poucos, davam suas últimas braçadas mais bem-sucedidas.
Era o auge do axé.
Mas era absolutamente inevitável que a indústria, incontrolável e descontrolada, fosse destruir tudo logo ali adiante. Pulando para os tempos atuais, nos 25 anos do movimento, o cenário parece destroçado.
Daniela continua na ativa, tentando inovar a cada disco, mas nunca mais alcançou a mesma repercussão pública.
Em seu lugar está Ivete Sangalo. Como Daniela fazia, Ivete personifica o Carnaval da Bahia, propaga a alegria e chama o corpo à dança. Mas ela é só isso. Esteticamente, é a diluição daquela batida. O esvaziamento daquela música. E passa longe, tanto quanto pode, de qualquer discussão racial, social.
Preferiu adotar como referência principal as cantoras internacionais, tornando-se arremedo de estrelas pop como Madonna e Beyoncé. A música que produz não tem invenção, não propõe nada e não vai a lugar algum. Vive mais do carisma avassalador do que de sua arte.
Pior. Já tem um clone: Claudia Leitte. Artista sem qualquer lampejo de brilhantismo, ainda não conseguiu escapar da sensação de "genérico".
Mas, triste fim para o axé, o canto da cidade, hoje, é delas.
Fonte: Folha de São Paulo |
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Por: Fernanda Pompeu
Neste 8 de março de 2010, o Dia Internacional da Mulher assopra cem velinhas. A data foi proposta pela socialista alemã Clara Zetkim (1857-1933). Ela e suas companheiras queriam um dia de visibilidade para a luta das mulheres. Algo semelhante ao impacto do Primeiro de Maio - Dia do Trabalhador.
Um século depois é notável o que as mulheres fizeram para si mesmas e para a sociedade como um todo. Conquistaram o direito ao voto, o direito a ser proprietárias e a tomar decisões sem a tutela do pai, tio, marido, irmão ou primo. O direito de ingressar nas universidades. O direito de prestar concursos públicos, entre muitos outros.
No cotidiano, o progresso foi estonteante. Tomar uma cervejinha sem ser importunada, trocar um noivado por estudos no exterior, ter disponibilidade de viajar a trabalho, falar em público são ações cada vez mais comuns. Tendo consciência ou não, tais avanços civis e mudanças de comportamento têm a ver com as inúmeras e aguerridas lutas travadas pelas feministas.

O feminismo começou sonhando com a igualdade de direitos entre mulheres e homens e com a autonomia feminina. Ser dona do próprio nariz para escolher ou desistir de caminhos foi a ideia-força das ativistas que botaram a cara para bater. Apelidadas de feias e mal-amadas, atacadas sistematicamente, elas respiraram fundo e seguiram com suas bandeiras. Parece que deu certo.
Brasil Hoje, no Brasil, as mulheres estão em todas as áreas públicas. Participam do mundo empresarial, da cultura, da comunicação, da formulação de políticas públicas que andam mudando a cara do país. Estão presentes, em massa, na saúde e na educação. Mas não só isso.
Há mulheres em pesquisas de ponta da ciência, como a geneticista Mayana Zatz encabeçando os estudos com células-tronco embrionárias e a astrofísica Thaisa Storchi-Bergmann descobridora de um buraco negro no centro de uma galáxia. Cresce, também, o número de técnicas, engenheiras, juízas, economistas.
Essa invasão de praias tradicionalmente masculinas é um fenômeno recente e transformador. Segundo a física e feminista Vera Soares, o progresso das mulheres, onde antes havia 99% de homens, se deve à cultura feminista e ao empenho nos estudos: "as mulheres se aplicam cada vez mais e melhor e já ultrapassam os homens em anos de estudo. O resultado são cabeças ousadas e trabalhadoras altamente capacitadas."
No entanto, somos uma sociedade desigual com reflexos também entre as mulheres. As brasileiras das zonas rurais têm imensas dificuldades em acessar serviços básicos, bem como de estudar. Longe dos recursos dos centros urbanos, ficam mais vulneráveis às violências. Muitas morrem antes de encontrar ajuda.
Também é fato que tem crescido o número e a qualidade de mulheres líderes rurais. Valentes com pé no chão, elas enfrentam ameaças de morte por parte de donos e grileiros de terra e, muitas vezes, a incompreensão de seus companheiros. É preciso fôlego de leoa para cuidar de si mesmas, da roça, da casa, dos filhos e do ativismo.
Outro segmento que avança conquistando espaços é o de mulheres negras, historicamente em desvantagem com as brancas, elas começam a marcar presença nas universidades, na teledramaturgia e em postos mais expressivos de trabalho. "Isso se deve também a maior visibilidade da mulher negra como sujeito político com direitos e cidadania", diz a psicóloga Maria Lúcia da Silva do Instituto AMMA - Pisque e Negritude.
Ela agrega que as conquistas também devem ser creditadas às organizações de mulheres negras que, entre outras ações, emprestam novos pontos de vista ao movimento feminista. Foram elas que iniciaram a delicada discussão da relação empregada doméstica-patroa.
Tantas conquistas significam que o feminismo cumpriu sua função e pode se aposentar? Ainda não. Apesar do dinamismo feminino e de avanços jurídicos como a Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres, também chamada de violência de gênero, segue assombrando o Brasil e o mundo.

Os maiores agressores são maridos, namorados - os atuais ou ex. Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão, que mantém o Portal c voltado para jornalistas, ressalta o caráter sinistro dessa violência: "quando um homem agride uma mulher não atinge apenas a ela, esse ataque corrompe filhos, família e todo o tecido social". Para Jacira, a violência só cessará quando as mulheres tiverem mais respeito social e poder de fato.
Neste mês de março, aceite a rosa dada por comerciantes, os parabéns ofertados pelos homens sensíveis, os brindes das revistas femininas, o auê cor-de-rosa da mídia ligeira, mas não se esqueça que a trilha é de luta e muito empenho. Ainda estamos no caminho para atingir igualdade de oportunidades, justiça de gênero e equidade entre mulheres e homens.
Fonte: Yahoo |
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Por: Sérgio São Bernardo
Estou tentando entender quais são as diferenças entre homens e mulheres e quais dessas diferenças reforçam o sexismo e qual delas emancipam os gêneros. Sei que vou cometer excessos e isto assusta. Este mês teremos mulheres sendo reconhecidas no mundo todo. Já expressei minha opinião sobre a comemoração de "dia", mas sei que datas como esta servem para que não nos arranquem a última flor do nosso jardim e nada mais nos reste. Servem para continuarmos a luta para a conquista de todos os dias.
Agora, precisamente sobre mulheres e homens, digo que não acredito em homens feministas, mas acredito na existência de mulheres machistas. Uma forma mimetizada de assumir parte do tipo de poder fundado em modelos de nossos algozes. O sindicalista faz isso com o empregado de seu sindicato; negros "classe A" fazem isso em relação a outros negros "classe B", ricos que foram pobres fazem isso em relação aos pobres. Gestores de esquerda fazem isso em relação gestores de direita quando ocupam a maquina pública. Enfim, repetimos padrões e estabelecemos regras de poder e sobrevivência que não estão necessariamente fundados na principiologia emancipadora do combate ao capitalismo, ao racismo, ao sexismo e à homofobia.
Conheço homofóbicos, que são excelentes defensores da igualdade racial, conheço racistas que são excelentes defensores da superação do conflito entre capital e trabalho. Conheço intolerantes religiosos que são excelentes estudiosos de mecanismos de superação da pobreza, conheço mulheres machistas que são excelentes defensoras do socialismo, conheço homens machistas que são excelentes defensores da igualdade homoafetiva.
O que debato aqui é apenas algo que nos ensurdece. Não sou especialista, não fui chamado a falar do assunto, mas falo. Porque gosto do debate. Porque aprendo com ele. Eu mesmo, um machista esclarecido, me apresento para um debate que pouco se faz nos demais dias do ano.
Dia da mulher é dia de debater o homem e suas representações. Sua capacidade embrutecida de continuar a ser quem é. Mesmo em crise. É dia de questionar o que muitas mulheres estão esperando quando utilizam modelos fálicos nas relações com homens e com mulheres - já falei, por exemplo, que o homem canalha não é aquele que não quer casar, no velho e cômodo modelo cristão, monogâmico, heterossexual e provedor. Conheço mulheres feministas que sonham às escondidas com este homem que não chega. Precisamos saber o alcance da instrumentalidade do uso da lealdade e da fidelidade entre homens e mulheres. O que estamos fazendo para superar as reminiscências do mundo machista encravadas em nosso sangue nórdico, latino e africano? Combatemos as mulheres que repetem práticas sociais e sexuais do mundo masculino ou as incorporamos numa tentativa de salvar o mundo futuro? Destruímos os homens machistas ou nos aliamos a eles buscando salvá-los da má consciência de que assim serão mais felizes tornando-se iguais ás mulheres?
Sejamos mais pretensiosos. Só tem sentido a luta das mulheres se esta luta disser qual será o papel dos homens em um modelo de sociedade em que as mulheres estão mais independentes política sexual e economicamente. Foi assim que Hegel em sua dialética do senhor e do escravo e Fannon em sua dialética do colonizador e do colonizado reconheceram que é no fenômeno da alteridade que nos aprisionamos. Um ao outro. Sem saber ao certo quem somos e de desejarmos ser o outro.
Em algumas religiões e cosmovisões africanas e asiáticas encontramos modelos não dicotômicos e não idealizadores de uma mulher e de um homem que se dividem para existir e praticar poder. No mundo da mulher só existe o feminino? E no mundo do homem só existe o masculino? Homens mulheres são machistas assim como mulheres homens são também, machistas. Então o debate não é simplesmente aplicar a adequada e acertada Lei Maria da Penha. Mas, sobretudo, entender que o masculino e feminino são coisas distintas do machismo e do feminismo.
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Por: Gilson Caroni Filho
A questão de fundo, por trás da gritaria dos setores conservadores, é a apropriação sistemática do corpo feminino por uma ideologia autoritária que se julga no direito de legislar para a mulher, negando a ela qualquer protagonismo.
A reação da direita à proposta de descriminalização do aborto, contida na terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, deve ser objeto de reflexão nessa segunda feira, 8 de março. A celebração do centenário da declaração do Dia Internacional da Mulher não pode passar ao largo de bandeiras caras ao movimento feminista que, nas últimas três décadas, lutou pelo direito da mulher de deliberar sobre seu corpo, sua vida e o permanente questionamento da divisão sexual no trabalho e na vida cotidiana.
A questão de fundo, por trás da gritaria dos setores conservadores e da sua grande imprensa, é a apropriação sistemática do corpo feminino por uma ideologia autoritária que se julga no direito de legislar para a mulher, negando a ela qualquer protagonismo. Sem contar a falácia da defesa do "livre-arbítrio" que seduz parcelas expressivas da classe média, sempre contando com discursos inversamente proporcionais aos seus atos cotidianos. Argumentar, simplesmente, que não cabe ao Estado programar políticas públicas sobre o que deve ser decisão privada das famílias, é incorrer em três erros fundamentais.
Em primeiro lugar, tal visão supostamente esclarecida, coloca a família como uma instituição à parte da sociedade, sem levar em conta seu papel na reprodução, organização e manutenção da força de trabalho, já fartamente regulamentado pelo Estado, através do Código Civil e da proibição do aborto. Admite, em última instância, que cabe à estrutura familiar- leia-se à mulher- a responsabilidade não só pela reprodução, mas também pela educação, alimentação e saúde dos filhos. E é nesse ponto que se juntam "liberais", reacionários e a Igreja Católica.
Ao fechar os olhos às diferenças econômicas que obrigam grande parte das mulheres pobres a recorrer a procedimentos abortivos arriscados ao invés de ter assistência médica devida, os arautos da criminalização, alimentam a linha de montagem da saúde que só prospera a partir de um aparelho reprodutor lesado em " açougues" sem qualquer estrutura de atendimento. Por tudo, bem diferentes das clínicas caras a que recorrem suas congêneres mais abastadas.
Os que atacaram o Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, por defender uma "bandeira feminista", fingem ignorar um fato que é de conhecimento internacional: em todos os países onde o aborto foi descriminalizado a redução do número de casos foi enorme.
O acesso a uma clínica-ginecológica obstétrica normal inscreve a mulher em um programa de controle da reprodução. Ao invés do risco cirúrgico, a orientação clínica prestada por consultórios legalizados de interrupção voluntária da gravidez. Uma mudança que faz toda a diferença quando o valor maior é a integridade do ser humano.
Lutar pela vida é querer que o Estado se responsabilize pelo atendimento à saúde das mulheres nas diferentes fases da vida. Que coloque à disposição de todas elas o conhecimento e acesso a métodos de contracepção, ampliando o número e a qualidade dos postos de saúde. A opção por não ter filhos deve vir acompanhada por investimentos que facilitem a opção pela maternidade desejada.
Planejamento familiar significa, antes de qualquer coisa, condições reais de alternativas que não existem numa conjuntura de preconceito, exploração econômica, racismo, e onde o aborto é considerado um ato criminoso. Se, por volta dos anos 1970, a luta feminista era tratada pela Academia e pelos meios de comunicação como ideologia importada, há um bom tempo ela é reconhecida como expressão social interna da sociedade brasileira.
Repensar o pacto doméstico, atenuando a dupla jornada e reivindicar, como faz a CUT, a "ratificação da Convenção 156 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)- atualmente aguardando votação na Câmara dos Deputados -, que determina a equidade de tratamento e oportunidades para os trabalhadores dos dois sexos com responsabilidades familiares, e a ampliação das licenças maternidade e paternidade para seis meses" são maneiras explícitas de declarar amor às mulheres.
Como explica em entrevista ao Portal Mundo do Trabalho, a Secretária Nacional da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores, Rosane Silva, "um dos argumentos para não contratar ou não promover nossas companheiras é que ficamos muito tempo fora da empresa devido à licença-maternidade". É a lei do valor redefinindo o significado da Lei do Ventre Livre.
Reconhecer o valor da mulher é lutar ao lado dela por conquistas legais e pela implementação de políticas públicas que respondam satisfatoriamente a reivindicações seculares. Avançar com propostas globais, estruturais é acariciar uma síntese de múltiplas gerações. Convém mandar flores.
Fonte: Agência Carta Maior |
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Por: Bell Hooks - Tradução de Maísa Mendonça
O amor cura. Nossa recuperação está no ato e na arte de amar. Meu trecho favorito do Evangelho segundo São João é o que diz: "Aquele que não ama ainda está morto".
Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.
Não tem sido simples para as pessoas negras desse país entenderem o que é amar. M. Scott Peck define o amor como "a vontade de se expandir para possibilitar o nosso próprio crescimento ou o crescimento de outra pessoa", sugerindo que o amor é ao mesmo tempo "uma intenção e uma ação". Expressamos amor através da união do sentimento e da ação. Se considerarmos a experiência do povo negro a partir dessa definição, é possível entender porque historicamente muitos se sentiram frustrados como amantes.
O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar.
Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Esses sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram nossa habilidade de querer e amar. Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, "feridos até o coração", e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. A vontade de amar tem representado um ato de resistência para os Afro-Americanos. Mas ao fazer essa escolha, muitos de nós descobrimos nossa incapacidade de dar e receber amor.
O Impacto da Escravidão no Ato de Amar Nossas dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar começaram a partir do contexto escravocrata. Isso não deveria nos surpreender, já que nossos ancestrais testemunharam seus filhos sendo vendidos; seus amantes, companheiros, amigos apanhando sem razão. Pessoas que viveram em extrema pobreza e foram obrigadas a se separar de suas famílias e comunidades, não poderiam ter saído desse contexto entendendo essa coisa que a gente chama de amor. Elas sabiam, por experiência própria, que na condição de escravas seria difícil experimentar ou manter uma relação de amor.
Imagino que, após o término da escravidão, muitos negros estivessem ansiosos para experimentar relações de intimidade, compromisso e paixão, fora dos limites antes estabelecidos. Mas é também possível que muitos estivessem despreparados para praticar a arte de amar. Essa talvez seja a razão pela qual muitos negros estabeleceram relações familiares espelhadas na brutalidade que conheceram na época da escravidão. Seguindo o mesmo modelo hierárquico, criaram espaços domésticos onde conflitos de poder levavam os homens a espancarem as mulheres e os adultos a baterem nas crianças como que para provar seu controle e dominação. Estavam assim se utilizando dos mesmos métodos brutais que os senhores de engenho usaram contra eles. Sabemos que sua vida não era fácil; que com a abolição da escravatura os negros não ficaram imediatamente livres para amar.
Depoimentos de escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções. Num documento datado em 1845, Frederick Douglass lembra que foi incapaz de se sensibilizar com a morte de sua mãe, por ter sido impedido de manter contato com ela. A escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos. O fato de terem testemunhado o abuso diário de seus companheiros- o trabalho pesado, as punições cruéis, a fome- fez com que se mostrassem solidários entre eles somente em situações de extrema necessidade. E tinham boas razões para imaginar que, caso contrário, seriam punidos. Somente em espaços de resistência cultivados com muito cuidado, podiam expressar emoções reprimidas. Então, aprenderam a seguir seus impulsos somente em situações de grande necessidade e esperar por um momento "seguro" quando seria possível expressa r seus sentimentos.
Num contexto onde os negros nunca podiam prever quanto tempo estariam juntos, que forma o amor tomaria? Praticar o amor nesse contexto poderia tornar uma pessoa vulnerável a um sofrimento insuportável. De forma geral, era mais fácil para os escravos se envolverem emocionalmente, sabendo que essas relações seriam transitórias. A escravidão criou no povo negro uma noção de intimidade ligada ao sentido prático de sua realidade. Um escravo que não fosse capaz de reprimir ou conter suas emoções, talvez não conseguisse sobreviver.
Emoções Reprimidas: A Chave da Sobrevivência
A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.
Tradicionalmente, as famílias do Sul do país ensinavam as crianças ainda pequenas que era importante reprimir as emoções. Normalmente as crianças aprendiam a não chorar quando eram espancadas. Expressar os sentimentos poderia significar uma punição ainda maior. Os pais avisavam: "Não quero ver nem uma lágrima". E se a criança chorava, ameaçavam: "Se não parar, vou te dar mais uma razão para chorar." Como é possível diferenciar esse comportamento daquele do senhor de engenho que espancava seu escravo sem permitir que ele experimentasse qualquer forma de consolo, ou mesmo que tivesse um espaço para expressar sua dor? E se tantas crianças negras aprenderam desde cedo que expressar as emoções é sinal de fraqueza, como poderiam estar abertas para amar? Muitos negros têm passado essa idéia de geração a geração: se nos deixarmos levar e render pelas emoções, estaremos comprometendo nossa s obrevivência. Eles acreditam que o amor diminui nossa capacidade de desenvolver uma personalidade sólida.
Em Algum Momento Você Nos Amou?
Quando eu era criança, percebia que fora do contexto da religião e do romance, o amor era visto pelos adultos como um luxo. A luta pela sobrevivência era mais importante do que o amor. Somente as pessoas mais velhas - nossas avós e bisavós, nossos avôs e bisavôs, nossos padrinhos e madrinhas -pareciam dedicadas a arte e ao ato de amar. Elas nos aceitavam, cuidavam de nós, nos davam atenção e principalmente, afirmavam nossa necessidade de experimentar prazer e felicidade. Eram carinhosas e o demonstravam fisicamente. Nossos pais e sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a impressão de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um ato que os impedia de lidar com coisas mais importantes.
Quando eu dava aulas sobre o livro Sula, de Toni Morrison, reparava que minhas alunas se identificavam com um trecho no qual Hannah, uma mulher negra já adulta, pergunta a sua mãe, Eva: "Em algum momento você nos amou?" E Eva responde bruscamente: "Como é que você tem coragem de me fazer essa pergunta? Você não tá aí cheia de saúde? Como não consegue enxergar?" Hannah não se satisfaz com a resposta, pois sabe que a mãe sempre procurou suprir suas necessidades materiais. Ela está interessada num outro nível de cuidado, de carinho e atenção. E diz para Eva: "Alguma vez você brincou com a gente?" Mais uma vez, Eva responde como se a pergunta fosse totalmente ridícula: Brincar? Ninguém brincava em 1895. Só porque agora as coisas são fáceis, você acha que sempre foram assim? Em 1895 não era nada fácil. Era muito duro. Os negros morriam como moscas... Cê acha que eu ia ficar brincando com cr ianças? O que é que iam pensar de mim?
A resposta de Eva mostra que a luta pela sobrevivência não significava somente a forma mais importante de carinho, mas estava acima de tudo. Muitos negros ainda pensam assim. Suprir as necessidades materiais é sinônimo de amar. Mas é claro que mesmo quando se possui privilégios materiais, o amor pode estar ausente.
E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais.
Não é por acaso que o diálogo sobre o amor no livro Sula se dá entre duas mulheres negras, entre mãe e filha. Sua relação simboliza uma herança que será reproduzida em outras gerações. Na verdade Eva não alimenta o crescimento espiritual de Hannah, e Hannah não alimenta o crescimento espiritual de sua filha, Sula. Mas Eva simboliza um modelo de mulher negra "forte", de acordo com seu estilo de vida, por sua capacidade de reprimir emoções e garantir sua segurança material. Essa é uma forma prática de se definir nossas necessidades, como naquela canção de Tina Turner: "O que é que o amor tem a ver com isso?"
Se Conhecêssemos o Amor
O amor precisa estar presente na vida de todas as mulheres negras, em todas as nossas casas. É a falta de amor que tem criado tantas dificuldades em nossas vidas, na garantia da nossa sobrevivência. Quando nos amamos, desejamos viver plenamente. Mas quando as pessoas falam sobre a vida das mulheres negras, raramente se preocupam em garantir mudanças na sociedade que nos permitam viver plenamente.
Geralmente enfatizam nossa capacidade de "sobreviver" apesar das circunstâncias difíceis, ou como poderemos sobreviver no futuro. Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor.
Para conhecermos o amor, primeiro precisamos aprender a responder as nossas necessidades emocionais. Isso pode significar um novo aprendizado, pois fomos condicionadas a achar que essas necessidades não eram importantes. Por exemplo, no seu livro, O Hábito da Sobrevivência: Estratégias de Vida das Mulheres Negras, Kesho Scott relata uma experiência importante que a ensinou a sobreviver: Medindo treze anos, permaneci parada em frente a porta da sala. Minhas roupas estavam molhadas. Meus cabelos pingando. Estava chorando, chocada, precisando do colo da minha mãe. Ela me olhou de cima a baixo, devagar, levantou-se do sofá e caminhou ao meu encontro com o corpo carregado de críticas. Parada, com as mãos na cintura, sua sombra caindo sobre meu rosto, perguntou sem conseguir esconder a raiva: "O que aconteceu?" Hesitei como se surpresa por sua raiva e respondi: "Elas colocaram minha cabeça na privada. Disser am que não posso nadar com elas". "Elas" eram oito meninas brancas da escola. Tentei abraçá-la, mas ela se afastou bruscamente dizendo: "Que inferno! Pegue seu casaco e vamos embora".
Naquele momento Keshno estava aprendendo que suas necessidades emocionais não eram importantes. Logo depois ela escreve: "Minha mãe me ensinou uma valiosa lição naquele dia. Aprendi que deveria lutar contra a discriminação racial e sexual". É claro que essa é uma lição importante para as mulheres negras. Mas Keshno estava também aprendendo uma lição dolorosa, ao sentir que não merecia ser consolada após uma experiência traumática, como se não devesse nem mesmo esperar por isso, como se suas necessidades individuais não fossem tão importantes quanto a luta de resistência coletiva contra o racismo e o sexismo. Imaginem como essa história seria diferente se, ao entrar na sala tão abalada, Keshno tivesse recebido o consolo de sua mãe, e se primeiro sua mãe a ajudasse a se pentear e arrumar, para depois então explicar a necessidade de confrontar (talvez não naquele momento, se Keshno não e stivesse preparada emocionalmente para o confronto) as alunas brancas que a atacaram. Dessa forma Keshno teria aprendido, aos treze anos, que sua saúde emocional era tão importante quanto o movimento contra o racismo e o sexismo - que na verdade essas duas experiências estavam interligadas.
Muitas de nós, mulheres negras, aprendemos a negar nossas necessidades mais íntimas, enquanto desenvolvíamos nossa capacidade de confrontar a vida pública. É por isso que constantemente parecemos ter sucesso no trabalho, mas não na vida privada. Vocês entendem o que estou querendo dizer. Quando vemos uma mulher negra aparentemente segura de si, de seu trabalho, é bem provável que se formos visitá-la sem avisar, com exceção da sala, todo o resto da casa vai estar a maior bagunça, como se tivesse passado um furacão. Creio que esse caos representa uma reflexão de seu interior, da falta de cuidado consigo própria. A partir do momento que acreditarmos, de preferência desde crianças, que nossa saúde emocional é importante, poderemos suprir nossas outras necessidades.
Muitas vezes confundimos o reconhecimento de nossas emoções com o desejo de se manter em controle. Quando ignoramos nossas reais necessidades, a tendência é nos fragilizarmos, nos tornarmos vulneráveis e emocionalmente instáveis. As mulheres negras se esforçam muito para esconder essa situação.
Voltando a falar da mãe de Keshno, é provável que a dor de sua filha tenha trazido recordações de suas próprias feridas, nunca reveladas. Será que assumiu aquela atitude crítica, dura, ou mesmo cruel, para não se expor, chorar, e deixar de ser "uma mulher negra forte"? Mas se tivesse chorado, sua filha saberia que ela se identificava com aquela dor, que seria possível falar sobre o assunto, que não precisaria guardar essa dor.
Essa atitude representa o que muitas de nós presenciamos em circunstâncias semelhantes - ela mantinha o controle. Até mesmo sua postura física significava que mantinha o domínio da situação. Claro que, como mulher negra, essa mãe queria que sua presença fosse mais poderosa do que as meninas brancas. Um modelo de mãe que sabe como apoiar sua filha numa situação de sofrimento é representado no romance Sassafrass, Cypress e Indigo, de Ntozake Shange. Esse livro retrata mulheres negras como personagens fortalecidos pelo amor de sua mãe. Mesmo quando não concorda com certas opções de suas filhas, essa mãe as trata com respeito e oferece consolo. Esse é um trecho de uma carta que ela escreve para Sassafrass, que passa por dificuldades e quer voltar para casa. A carta começa assim: "Claro que você pode voltar pra casa! Aconteça o que acontecer, nunca vou deixar de te amar". Primeiro ela demonstra seu amor, depois aconselha, e volta a expressar seu amor: Você e Cypress me deixam louca com seu estilo de vida alternativo. Vocês precisam parar de nadar contra a corrente.
Você sabe o que quero dizer... Lembre-se disso. Volte para casa e vamos resolver essa situação. Você terá muitas opções e ninguém vai te chatear ou te enganar. Nada como um dia depois do outro. Você acorda. Você come, vai trabalhar, volta pra casa, come outra vez, descansa, e vai dormir. Nossa situação melhorou. Continuo me perguntando onde foi que errei. Mas no fundo sinto que não estou errada. Estou certa. O mundo está de cabeça pra baixo e está tentando enlouquecer as minhas filhas. Agora chega. Eu te amo muito. Você está se tornando uma mulher adulta e sei o que isso significa. Volte para casa. Sei que vai descobrir algo mais sobre você. Com amor, Mamãe.
Amando Aquilo Que Vemos
A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens. Tenho percebido que às vezes não amo a imagem ali refletida. Eu a inspeciono. Desde que acordo e me vejo no espelho, começo a me analisar, não com a intenção de me afirmar, mas de me criticar. Isso era comum lá em casa. Quando eu e minhas cinco irmãs descíamos as escadas em direção àquele território ocupado por meu pai, minha mãe e meus irmãos, entrávamos no mundo da "crítica". Tudo era observado e tudo estava errado conosco. Raramente uma de nós era elogiada.
Quando substituo a crítica negativa pelo reconhecimento positivo, sinto-me mais forte para começar o dia. A afirmação é o primeiro passo para cultivarmos nosso amor interior. Uso a expressão "amor interior" e não "amor próprio" porque a palavra "próprio" é geralmente usada para definir nossa posição em relação aos outros. Numa sociedade racista e machista, a mulher negra não aprende a reconhecer que sua vida interior é importante.
A mulher negra descolonizada precisa definir suas experiências de forma que outros entendam a importância de sua vida interior. Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas.
Onde está o amor, quando uma mulher negra se olha e diz: "Vejo uma pessoa feia, escura demais, gorda demais, medrosa demais - que não merece ser amada, porque nem eu gosto do que vejo" Ou talvez: "Vejo uma pessoa tão ferida, que é pura dor, e não quero nem olhar pra ela porque não sei o que fazer com essa dor". Aí o amor está ausente. Para que esteja presente é preciso que essa mulher decida se olhar internamente, sem culpa e sem censura.
E ao definir o que vê, talvez perceba que seu interior merece ou precisa de amor. Nunca ouvi uma mulher negra dizer num grupo de apoio que não precisa de amor. Ela pode até querer esconder essa necessidade, mas não é preciso muito tempo de análise para que reconheça isso. Se perguntarmos diretamente a uma mulher negra se ela precisa de amor, a resposta provavelmente será positiva. Para nos amarmos interiormente, precisamos antes de tudo prestar atenção, reconhecer e aceitar essa necessidade. Se acreditarmos que não seremos punidas por reconhecermos quem somos ou o que sentimos, poderemos entender melhor nossas dificuldades.
Normalmente entrevisto a mim mesma e acho que outras mulheres devem fazer o mesmo. Às vezes é difícil entrar em contato com meus sentimentos, mas ao me fazer uma pergunta, geralmente encontro a resposta.
Algumas vezes a gente se olha e vê tanta confusão, tanta dor, que não sabemos o que fazer. Então precisamos procurar ajuda. Às vezes ligo para meus amigos e digo: "Não consigo entender o que sinto e não sei o que fazer, você pode me ajudar?" Muitas mulheres negras não têm coragem de pedir ajuda, pois isso significaria um sinal de fraqueza. Precisamos nos livrar desse condicionamento. Ter capacidade de pedir ajuda significa que temos poder.
Cada vez que buscamos ajuda nosso poder aumenta, ao invés de diminuir. Experimente. Geralmente buscamos ajuda em momentos de crise. Mas podemos evitar a crise se reconhecermos nossa dificuldade em lidar com uma determinada situação. Para as mulheres negras acostumadas a manter o controle das situações, pedir ajuda pode significar a prática do amor, da confiança, reconhecendo que não precisamos resolver tudo sozinhas. A prática de se amar interiormente nos revela o que o nosso espírito necessita, além de nos ajudar a entender melhor as necessidades das outras pessoas.
As mulheres negras que escolhem ( e aqui enfatizo a palavra "escolhem") praticar a arte e o ato de amar, devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor. Outro dia minha amiga T. me contou que faz questão de visitar e conversar com o senhor de idade que trabalha numa loja perto de sua casa. E recentemente ele expressou sua gratidão pelo carinho que recebe dela. Anos atrás, quando ela passava por um processo de autodestruição, não tinha "vontade" de mostrar seu carinho. Hoje ela passa para ele o mesmo carinho que espera receber de outras pessoas.
Quando eu era criança algumas mulheres negras me amaram de forma "incondicional". Assim aprendi que o amor não precisa ser conquistado. Elas me ensinaram que eu merecia ser amada; seu carinho nutriu meu crescimento espiritual.
Muitos negros, e especialmente as mulheres negras, se acostumaram a não ser amados e a se proteger da dor que isso causa, agindo como se somente as pessoas brancas ou outros ingênuos esperassem receber amor. Uma vez disse para algumas mulheres negras que gostaria de viver em um mundo onde existisse amor, onde pudesse amar e ser amada. Depois disso elas passaram a rir de mim sempre que nos encontrávamos. Para que esse mundo possa existir é preciso acabar com o racismo e todas as formas de dominação. Se escolho dedicar minha vida à luta contra a opressão, estou ajudando a transformar o mundo no lugar onde gostaria de viver.
O Amor Cura
O "Poema da Mulher" de Nikki Giovanni foi importante para que eu percebesse o processo de autodestruição das mulheres negras. Publicado no livro, A Mulher Negra, editado por Toni Cade Bambara, esse poema termina assim: "olhe para aquela que teve toda sua vida marcada pela infelicidade porque é a única verdade que conheço". Nesse poema, Giovanni não apenas sugere que as mulheres negras foram socializadas para cuidar dos outros e ignorar suas necessidades, como também mostra como a autodestruição nos faz abandonar aqueles que nos querem. A mulher negra diz: "Como você se atreve a me querer - isso não faz sentido - porque se eu sou uma merda, você deve ser pior ainda".
Esse poema foi escrito em 1968. Algumas décadas depois, as mulheres negras continuam lutando para reconhecer sua dor e encontrar formas de curá-la. Aprender a amar é uma forma de encontrar a cura.
A idéia de que o amor significa a nossa expansão no sentido de nutrir nosso crescimento espiritual ou o de outra pessoa, me ajuda a crescer por afirmar que o amor é uma ação. Essa definição é importante para os negros porque não enfatiza o aspecto material do nosso bem-estar. Ao mesmo tempo que conhecemos nossas necessidades materiais, também precisamos atender às nossas necessidades emocionais. Gosto muito daquele trecho da bíblia, nos "Provérbios", que diz: "Um jantar de ervas, onde existe amor, é melhor que uma bandeja de prata cheia de ódio".
Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.
Fonte: MULHERES NEGRAS |
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"Eu gostaria de homenagear o rosto jovem da adolescente, a mulher negra que ainda é marginalizada. O rosto indígena, com toda a problemática que vive, também merece uma homenagem. A mulher executiva, a mulher acadêmica, a mulher doméstica."
Amanhã, dia 08 de março, as mulheres de todo o mundo comemoram o seu dia. Um dia que, em sua origem, há cem anos, é marcado pela luta que as mulheres vivem em seu cotidiano, seja em casa, seja no mercado de trabalho. "Eu diria que hoje a mulher se contextualiza em várias direções, por conta disso, as preocupações são bem amplas", aponta Darli Sampaio em entrevista, feita por telefone, à IHU On-Line.
Darli fala dos movimentos de mulheres e dos movimentos feministas, suas diferenças e suas contribuições para a sociedade, além de fazer um balanço das lutas que as mulheres têm feito durante esses cem anos de ‘08 de março'. "De lá para cá, as mulheres conquistaram muitas coisas, mas, na medida em que isso aconteceu, a mulher perdeu muitas coisas também", reflete.
Darli de Fátima Sampaio é graduada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e mestre em sociologia pela Universidade Federal do Paraná. Trabalha na área de pesquisa e assessoria do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat), em Curitiba, PR.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Fazendo um balanço das lutas das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos e de sua dignidade, o que as mulheres têm para comemorar, reivindicar e lamentar neste dia 8 de março
Darli Sampaio - São cem anos de lutas, de organização e instituição do 8 de março. São cem anos que estamos refletindo, chorando e reivindicando muito. Essa data já começa em cima de um fato triste, foi uma declaração em memória de mulheres que foram assassinadas por uma reivindicação em função do mundo de trabalho. Ou seja, já começa a partir de um fato lamentável. De lá para cá, as mulheres conquistaram muitas coisas, mas, na medida em que isso aconteceu, a mulher perdeu muitas coisas também. A divisão do trabalho continua injusta e ajudando a manter a situação de opressão contra as mulheres. No mercado de trabalho, a mulher continua ganhando menos do que o homem, mesmo que desempenhem as mesmas funções. Das grandes empresas mundiais, apenas 2% são dirigidas por mulheres.
Mais de seis milhões de mulheres trabalham em condições precárias, sem condições de direitos sociais, são mal remuneradas e tudo mais. Temos avanços, mas ainda há uma exigência maior com relação à atuação das mulheres no mercado de trabalho.
IHU On-Line - A entrada das mulheres no mercado de trabalho é interpretada como emancipação, libertação do lar, autonomia financeira, elevação da autoestima, porém, ao mesmo tempo, significou na prática a dupla jornada de trabalho, privação de um convívio maior com a família, desigualdade salarial etc. Já há um balanço sobre aspectos positivos e negativos relacionado ao tema da mulher e o mercado de trabalho?
Darli Sampaio - É positivo, porque houve a entrada da mulher no mercado de trabalho e, com isso, ela se tornou independente, responsável, chefe de família. E ela traz para dentro da empresa as preocupações de mulher, com filhos e com a família. A mulher deu características novas para as empresas, como intuição e o fato de estar antenada para várias tarefas ao mesmo tempo. Os homens não foram treinados para isso. São coisas que hoje o mercado de trabalho valoriza muito.
Ainda assim, a jornada é muito exaustiva, espera-se muito da mulher, e ela não ganha como os homens. Essa é uma tendência mundial, embora elas estejam mais qualificadas do que eles. Isso é uma dificuldade que a mulher está enfrentando. Do ponto de vista da sua contribuição, da sua independência, da sua autosustentação é muito bom. Tem muitas teóricas feministas que acham que a entrada da mulher no mercado de trabalho não foi tão positivo assim. Elas dizem que se trocou uma prisão por outra, e, na empresa, há ainda um controle sobre o seu corpo e seu comportamento.
IHU On-Line - O que representa para a sociedade a participação feminina em lideranças de movimentos sociais e trabalhistas?
Darli Sampaio - Isso é extremamente importante porque, dos movimentos sociais, nós somos maioria. Somos a metade da força de trabalho nos países desenvolvidos, e, nos movimentos sociais, somos mais da metade dos participantes. Nos movimentos sociais de base, na Economia Solidária, a grande força é formada por mulheres, alguns sindicatos já têm uma representação muito grande de mulheres que estão exercendo também cargos de direção. É a mulher que traz para dentro do movimento a discussão sobre gênero. É por conta disso que o próximo 1º de maio vai trazer a pauta da igualdade no mundo do trabalho.
IHU On-Line - Você se considera uma feminista. O que é ser feminista, hoje?
Darli Sampaio - Eu sou uma feminista em construção porque o tempo todo estou refletindo, não posso fechar essa questão. Feminismo já foi ligado a radicalismo pela luta por seus direitos. O feminismo não é o contrário de machismo. Ser feminista é trazer a questão de gênero, isso quer dizer que estamos comprometidas com questões de homens e mulheres, com reflexões e problemas da sociedade que atingem mulheres e homens. Tem muitos homens feministas também.
IHU On-Line - Há diferenças entre o movimento feminista e o movimento de mulheres?
Darli Sampaio - Há diferenças sim. O importante é que existem esses movimentos. As preocupações são diferentes, têm movimentos de mulheres que têm pautas mais ligadas às problemáticas vividas pelas mulheres. Movimentos feministas atuam em várias direções. Pode haver outras diferenças, mas eu vejo essas como as principais.
IHU On-Line - Qual a contribuição do movimento feminista e os seus limites para a sociedade contemporânea?
Darli Sampaio - O movimento feminista colocou a mulher no cenário. Nós somos a outra metade da população, somos as responsáveis por tarefas que são vitais para a produção e reprodução humana. O movimento feminista trouxe isso para a sociedade porque lutou por direitos importantes, como a inserção da mulher no mercado de trabalho, a denúncia da violência e a divisão sexual no trabalho etc. Isso deu visibilidade à mulher. Ainda falta dar visibilidade ao trabalho desempenhado pela mulher, tanto é que muitas vezes somos consideradas indivíduos de segunda categoria. O questionamento é permanente: a mulher está satisfeita no mundo do trabalho? Tem coisas para mudar? Muitas! A reflexão do aborto, embora seja polêmica, precisa também de reflexão.
IHU On-Line - Em sua opinião, o que a mulher deseja mais fortemente?
Darli Sampaio - Eu falo do ponto de vista do que eu quero, enquanto mulher, e do que eu percebo em outras mulheres. As mulheres querem ser reconhecidas, ser valorizadas, querem ter acesso a várias coisas. Elas não querem ser sobrecarregadas, não querem ser tão exigidas, não querem ser essa supermulher. Elas querem dignidade e espaço nessa sociedade.
IHU On-Line - Nesse dia 08 de março, qual mulher você gostaria de homenagear e por quê?
Darli Sampaio - São tantas. Me passam muitas mulheres pela cabeça. O que pode estar presente nas nossas reflexões de mulheres hoje são todas as mulheres contemporâneas que são frutos das mulheres do passado. Eu gostaria de homenagear o rosto jovem da adolescente, a mulher negra que ainda é marginalizada. O rosto indígena, com toda a problemática que vive, também merece uma homenagem. A mulher executiva, a mulher acadêmica, a mulher doméstica.
Fonte: Racismo Ambiental
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Por: MÍRIAM LEITÃO
É a temporada. Tempo de sofismas e argumentos tortos. Tempo das mesmices repetidas com ares de descobertas recentes. Hora de escapar do debate sobre a questão racial brasileira.
Não precisava ser assim. Podia ser um tempo de avanços. Mas os que negam o racismo brasileiro preferem esse cerco à inteligência, ao óbvio, ao progresso.
Num ambiente negacionista, foi um alívio ouvir as explicações simples e diretas da secretária de Estado americana Hillary Clinton na Faculdade Zumbi dos Palmares, onde escolheu debater com estudantes. Hillary defendeu as ações afirmativas dizendo que, com elas, os EUA estão deixando para trás os vestígios da escravidão: - Temos feito um grande progresso com as ações afirmativas em aumentar as oportunidades na educação, no emprego para os afro-americanos. Elas são o reconhecimento de que as barreiras históricas criam um funil que impede o acesso do grupo discriminado a níveis superiores de educação.
É preciso alargar a entrada e deixar mais gente entrar. O talento é universal, mas as oportunidades, não. O acesso na universidade não é, no entanto, a garantia da graduação.
Hillary contou que, como professora de Direito, percebeu que muitos alunos que entraram por ação afirmativa tiveram dificuldades maiores pelas falhas da educação anterior. Ela se dedicou a esses alunos no sistema tutorial: - Simplesmente não podemos aceitar os estudantes na universidade para deixar que eles falhem. Eles têm que ser ajudados.
O sistema americano é diferente do nosso, mas discriminação é parecida em qualquer país do mundo. Ela barra com obstáculos sutis ou explícitos, negados ou assumidos, a ascensão de grupos discriminados por qualquer motivo, racismo, sexismo, ou outras intolerâncias.
Lá, eles não têm cotas, não têm vestibular; o sistema, como se sabe, é o de application, o de se candidatar a uma vaga apresentando suas credenciais escolares. Ao avaliar quem entra, as escolas dão pontuação maior a quem vem de um grupo discriminado.
Cada universidade tem um critério, um método e uma meta diferente, mas todas buscam um quadro de alunos com diversidade.
Os alunos com menos chance de estar lá têm preferência nas bolsas para as caríssimas universidades privadas americanas.
- Estou muito orgulhosa das conquistas dos últimos 50 anos do movimento dos direitos civis, pelos que lutaram como Martin Luther King e outros, mas não posso dizer que o meu país não tem racismo, não tem sexismo - disse a mulher que comanda a mais poderosa diplomacia do mundo e é chefiada por um negro, que preside o maior país do mundo. Ela não vê a sua ascensão, nem a do presidente Obama, como provas de que não há barreiras para negros e mulheres.
Essa sinceridade é encantadora porque é rara no Brasil.
Esse reconhecimento da existência do problema, e de que ele é vencido por ações concretas de políticas públicas e de empresas, dá esperança.
No Brasil, o esforço focado nos negros é chamado de discriminação. E os brancos pobres? Perguntam.
Eles estão também nas ações afirmativas, e nas cotas, mas o curioso é que só se lembre dos brancos pobres no momento em que se fala em alguma política favorável a pretos e pardos.
É temporada da coleção de argumentos velhos que reaparecem para evitar que o Brasil faça o que sugeriu Joaquim Nabuco, morto há 100 anos, em frase memorável: "Não basta acabar com a escravidão. É preciso destruir sua obra." Diante de qualquer proposta para reduzir as desigualdades raciais, principal obra da escravidão, aparece alguém para declamar: "Todos são iguais perante a lei." E são. Mas o tratamento diferenciado aos discriminados existe exatamente para igualar oportunidades e garantir o princípio constitucional.
O senador Demóstenes foi ao Supremo Tribunal Federal com um argumento extremado: o de que os escravos foram corresponsáveis pela escravidão. "Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para a Europa.
Não deveriam ter chegado na condição de escravos, mas chegaram. Até o princípio do século XX, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana." Pela tese do senador, eles exportaram, o Brasil importou.
Simples. Aonde o crime? Tratava-se apenas de pauta de comércio exterior.
Por ele, o fato de ter havido escravos na África; conflitos entre tribos; tribos que capturavam outras para entregar aos traficantes, e tudo o mais, que sabemos, sobre a história africana, isenta de culpa os escravizadores.
Trazido a valor presente, se algumas mulheres são vítimas de violência dos maridos, isso autoriza todos a agredi-las. Ou se há no Brasil casos de trabalho escravo e degradante, isso permite aos outros povos que façam o mesmo conosco. Qual o crime? Se brasileiros levam outros brasileiros para áreas distantes e, com armas e falsas dívidas, os fazem trabalhar sem direitos, qualquer povo pode escravizar os brasileiros.
O senador Demóstenes é um famoso sem noção e com ele não vale a pena gastar munição e argumentos. Que ele fique com sua pobreza de espírito. O que me incomoda é a incapacidade reiterada que vejo em tantos brasileiros de se dar conta do crime hediondo, do genocídio que foi a escravidão brasileira.
Não creio que as ações afirmativas sejam o acerto com esse passado.
Não há acerto possível com um passado tão abjeto e repulsivo, mas feliz é a Nação que reconhece a marca dos erros em sua história e trabalha para construir um futuro novo. Feliz a Nação que tem, entre seus fundadores, um Joaquim Nabuco, que nos aconselha a destruir a obra da escravidão.
Fonte: ARQUIVO DE ARTIGOS ETC
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Por: ELIO GASPARI
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é uma espécie de líder parlamentar da oposição às cotas para estimular a entrada de negros nas universidades públicas. O principal argumento contra essa iniciativa contesta sua legalidade, e o caso está no Supremo Tribunal Federal, onde realizaram-se audiências públicas destinadas a enriquecer o debate.
Na quarta-feira o senador Demóstenes foi ao STF, argumentou contra as cotas e disse o seguinte:
"[Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual".
O senador precisa definir o que vem a ser "forma muito mais consensual" numa relação sexual entre um homem e uma mulher que, pela lei, podia ser açoitada, vendida e até mesmo separada dos filhos.
Gilberto Freyre escreveu o seguinte:
"Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime".
"O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço. Desejo, não: ordem."
"Não eram as negras que iam esfregar-se pelas pernas dos adolescentes louros: estes é que no sul dos Estados Unidos, como nos engenhos de cana do Brasil, os filhos dos senhores, criavam-se desde pequenos para garanhões. (...) Imagine-se um país com os meninos armados de faca de ponta! Pois foi assim o Brasil do tempo da escravidão."
Demóstenes Torres disse mais:
"Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (...) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da economia africana".
Nós, quem, cara-pálida? Ao longo de três séculos, algo entre 9 milhões e 12 milhões de africanos foram tirados de suas terras e trazidos para a América. O tráfico negreiro foi um empreendimento das metrópoles europeias e de suas colônias americanas. Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres.
No início do século 20 os escravos não eram o principal "item de exportação da economia africana".
Àquela altura o tráfico tornara-se economicamente irrelevante. Ademais, não existia "economia africana", pois o continente fora partilhado pelas potências europeias. Demóstenes Torres estudou história com o professor de contabilidade de seu ex-correligionário José Roberto Arruda.
O senador exibiu um pedaço do nível intelectual mobilizado no combate às cotas.
Fonte: Folha de S.Paulo |
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Por: LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO
Pacto entre proprietários de escravos constitui o pecado original da sociedade e da ordem jurídica do Brasil
Em 2010, os negros brasileiros passam a formar a maioria da população do país. A mudança vai muito além da demografia. Ela traz ensinamentos sobre o nosso passado e desafios para o nosso futuro.
No século 19, o Império do Brasil aparece como a única nação que praticava o tráfico negreiro em larga escala.
Alvo da pressão britânica, o comércio de africanos passou a ser proscrito por uma rede de tratados que a Inglaterra teceu no Atlântico. Na sequência do tratado de 1826, a lei de 7 de novembro de 1831 proibiu o comércio de africanos no Brasil.
Entretanto, 760 mil indivíduos vindos da África foram trazidos entre 1831 e 1856, num circuito de tráfico clandestino.
Ora, a lei de 1831 assegurava a liberdade imediata aos africanos introduzidos no país após a proibição.
A partir daí, os alegados proprietários desses indivíduos livres eram considerados sequestradores, incorrendo nas sanções do artigo 179 do Código Criminal de 1830.
Porém, o governo imperial anistiou, na prática, os senhores culpados do crime de sequestro, deixando livre curso ao crime correlato, a escravização de pessoas livres.
Imoral e ilegal Os 760 mil africanos desembarcados até 1856 -e a totalidade de seus descendentes- continuaram sendo mantidos ilegalmente na escravidão até 1888. Ou seja, boa parte das duas últimas gerações de indivíduos escravizados no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda -primeiro e sobretudo- ilegal.
Tenho para mim que esse pacto dos sequestradores constitui o pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira. Firmava-se o princípio da impunidade e do casuísmo da lei. Consequentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista.
Outra deformidade gerada pelo sistema refere-se à violência policial. Depois da Independência, no Brasil, como no sul dos EUA, o escravismo passou a ser consubstancial à organização das instituições nacionais.
Entre as múltiplas contradições engendradas por essa situação, uma relevava do Código Penal: como punir o escravo delinquente sem encarcerá-lo, sem privar o senhor do usufruto do trabalho do cativo que cumpria pena de prisão? O quadro legal definiu-se em dois tempos. Primeiro, a Constituição de 1824 garantiu, no artigo 179, a extinção das punições físicas. "Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente e todas as mais penas cruéis."
Conforme os princípios do iluminismo, ficavam preservadas as liberdades e a dignidade dos homens livres. Num segundo momento, o artigo 60 do Código Criminal reatualiza a pena de tortura: "Se o réu for escravo e incorrer em pena que não seja a capital ou de galés, será condenado na de açoites...".
Com o açoite, com a tortura, podia-se punir sem encarcerar: estava resolvido o dilema. Oficializada até o final do Império, essa prática punitiva atingiu as camadas desfavorecidas, travando o advento de uma política fundada na liberdade individual e nos direitos humanos. Uma terceira deformidade gerada pelo escravismo afeta o estatuto da cidadania.
É sabido que até a Lei Saraiva, de 1881, os analfabetos, incluindo negros alforriados, podiam ser eleitores de primeiro grau, que elegiam eleitores de segundo grau, os quais podiam eleger e ser eleitos parlamentares. Depois de 1881, foram suprimidos os dois graus de eleitores. Em 1882, o voto dos analfabetos foi vetado.
Decidida no contexto pré-abolicionista, a proibição buscava barrar o acesso do corpo eleitoral aos libertos. Gerou-se uma infracidadania que perdurou até 1985, quando foi autorizado o voto do analfabeto. Mas a exclusão foi mais impactante na população negra, em que o analfabetismo registrava, e continua registrando, taxas proporcionalmente mais altas do que entre os brancos.
Nascidas no século 19, as arbitrariedades engendradas pelo escravismo submergiram o país inteiro. Por essa razão, ao agir em sentido contrário, a redução das discriminações que ainda pesam sobre os negros consolidará nossa democracia.
Democracia Não se trata aqui de uma lógica indenizatória, destinada a garantir direitos usurpados de uma comunidade específica -como foi o caso, em boa medida, nos julgamentos sobre as terras indígenas. Trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre as cotas no aperfeiçoamento da democracia.
Nesse sentido, a arguição de inconstitucionalidade impetrada no Supremo Tribunal Federal [que analisa a constitucionalidade do sistema de cotas da Universidade de Brasília] revela-se obsoleta. Na verdade, as cotas raciais beneficiaram e beneficiam dezenas de milhares de estudantes nas universidades privadas no quadro do ProUni e 52 mil estudantes nas universidades públicas, funcionando há vários anos, com grande proveito para a comunidade acadêmica e para o país.
Os incidentes suscitados pelas cotas raciais são mínimos e muitíssimo menos graves do que as truculências perpetradas nos trotes universitários. Como no caso do plebiscito sobre o presidencialismo e o parlamentarismo, o debate sobre as cotas raciais atravessa as linhas partidárias. Aliás, as primeiras medidas de política afirmativa relativas à população negra foram tomadas, como é conhecido, pelo governo FHC.
A existência de alianças transversais deve nos conduzir, mesmo em ano de eleição, a um debate onde os argumentos possam ser analisados a fim de contribuir para a superação da desigualdade racial que pesa sobre a democracia brasileira.
Fonte: Folha de S.Paulo
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Vice-secretária-geral da ONU, Asha-Rose Migiro, diz na abertura da 54ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher que ainda existe a necessidade de transformar promessas e palavras em ações concretas em várias áreas.
Apesar dos progressos registrados nos últimos 15 anos no avanço da igualdade de gênero e capacitação das mulheres, ainda existe a necessidade de transformar promessas e palavras em ações concretas em várias áreas.
A afirmação foi feita nesta segunda-feira, em Nova York, pela vice-secretária-geral da ONU, Asha-Rose Migiro, durante a abertura da 54ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher.
Avanços
Ela ressaltou que muitos países conseguiram avanços em diversos setores, como a educação e adoção de leis, programas e políticas nacionais.
Migiro afirmou que um número crescente de pessoas compreende agora que a igualdade de gênero e capacitação de mulheres não é apenas um objetivo em si, mas a chave para um desenvolvimento sustentável, crescimento econômico, paz e segurança.
A sessão deste ano da Comissão sobre o Estatuto da Mulher marca o 15º aniversário da adoção da Declaração de Pequim.
Graça Samo, directora-executiva da rede moçambicana de ONGs, Fórum Mulher, disse à Rádio ONU, em Nova York, que o contexto da reunião atual é completamente diferente de Pequim.
"Estamos perante crises econômicas e financeiras. Quando fomos a Beijing não tínhamos o problema de terrorismo que hoje é uma questão da agenda global. Como é que vamos enfrentar esses problemas colocando como prioridade a agenda dos direitos das mulheres. A questão do acesso a financiamento é um outro problema importante", afirmou.
Prioridade
O encontro de Nova York, que deve durar duas semanas, reúne representantes de governos, sociedade civil e setor privado.
Migiro disse que o Secretário-Geral, Ban Ki-moon, apontou a igualdade de gênero e a capacitação das mulheres como áreas prioritárias de ação para o sistema das Nações Unidas.
*Apresentação: Eduardo Costa Mendonça, da Rádio ONU em Nova York.
Para ouvir esta notícia clique em: http://downloads.unmultimedia.org/radio/pt/real/2010/10030115i.rm ou acesse: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/177040.html
Fonte: ENVOLVERDE |
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Por: Mario Osava
No Brasil, por exemplo, 53,3% dos que entraram na universidade em 2007 eram mulheres. Essa proporção quase sempre foi superior a 55% nos últimos 15 anos. E a participação aumenta em mais de cinco pontos percentuais entre os que concluem cada curso, o que confirma que elas são melhores estudantes.
As mulheres são maioria em todos os níveis de ensino e sua escolaridade supera em mais de um ano a masculina. Porém, seus salários são 30% inferiores aos dos homens na mesma função, e elas ocupam apenas 56 das 594 cadeiras do Congresso Nacional.
Nas Filipinas, onde há muito as mulheres alfabetizadas são mais do que os homens, 17,8% delas se graduam na universidade, contra 8,2% dos homens, segundo a Comissão Nacional sobre o Papel da Mulher.
Mas as filipinas se concentram em carreiras como educação e saúde, e ficam fora das de engenharia e direito, áreas dominadas em mais de 80% por homens.
Também na África do Sul elas são maioria nas universidades, embora não em carreiras de tradição masculina, como engenharia. E tampouco ocupam posteriormente muitos cargos de direção.
No Chile, as mulheres também superam os homens em educação, segundo o governamental Índice de Iniquidade Territorial de Gênero 2009, que considera o analfabetismo, anos de escolaridade e cobertura do ensino básico e médio.
Porém, as chilenas perdem em participação trabalhista, com 42%, e seu nível salarial é 30% inferior ao de seus colegas homens.
"A educação sozinha não faz milagres", pois mudar valores é mais complexo e "enquanto não houver creches para todas as famílias, não haverá mudanças estruturais na participação feminina no mercado de trabalho", disse Fulvia Rosemberg, pesquisadora da brasileira Fundação Carlos Chagas, ao lançar um olhar sobre a desigualdade de oportunidades entre os gêneros.
O Brasil vale como exemplo. Apenas 18% dos meninos de zero a três anos frequentam creches, disse ao TerraViva. Além disso, em geral as escolas recebem as crianças por apenas meio período, impondo tripla jornada de trabalho às mulheres, privando-as de "condições comparáveis" às dos homens, afirmou a também professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
A isso se soma o mesmo ensino. O currículo, os livros e a forma de educar reproduzem preconceitos que desvalorizam o papel feminino, o confinam no lar, a trabalhos e carreiras pouco valorizadas, acrescentou. Na universidade, a maioria das mulheres escolhe as ciências humanas e os homens as áreas de exatas e tecnológicas.
A escolaridade feminina progrediu rapidamente, mas as mudanças culturais são lentas e as institucionais ainda mais, disse Moema Viezzer, socióloga fundadora da Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e do Caribe, cuja campanha por uma educação não sexista acontece, há 29 anos, todo dia 21 de junho.
Foram necessárias décadas de luta do movimento antes da admissão de mulheres no governo e no Supremo Tribunal brasileiro. A VI Conferência Mundial sobre a Mulher, de 1995, em Pequim, representou "um salto quantitativo", ao impulsionar políticas públicas, com o Estado assumindo programas antes limitados a organizações não governamentais, disse Viezzer.
Desde ontem e até o dia 12 deste mês acontece, na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, a conferência da Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher, para avaliar o cumprimento dos compromissos assumidos há 15 anos. O acesso das mulheres a todos os níveis educacionais foi uma das 12 prioridades da Plataforma de Ação de Pequim.
Além de um ensino com enfoque de gênero adequado, são necessárias muitas ações afirmativas e uma educação popular para a igualdade de gênero, defendeu Viezzer.
A melhor escolaridade feminina se impõe onde conta o esforço pessoal e a capacidade, mas não quando entram em jogo relações, negociações, a promoção por recomendação de chefes, disse Schuma Schumacher, coordenadora da não governamental Rede de Desenvolvimento Humano do Brasil.
Um quadro pior na África
No plano mundial, a porcentagem de meninas sem instrução caiu de 58% para 54% entre 1999 e 2007, segundo o Informe de Acompanhamento da Educação para Todos no Mundo 2010. Isto é, o acesso feminino no ensino primário continua abaixo do masculino.
Na África subsaariana havia 89 meninas para cada cem meninos na escola primária em 2006, segundo o Informe dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A situação é pior no ensino secundário, onde as adolescentes caem para 80 para cada cem. No conjunto do ensino, elas constituem 55% das excluídas.
A realidade subsaariana, de muita pobreza, fome, guerras e epidemia de síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids), trava a escolaridade e fomenta a deserção escolar, especialmente de meninas, disse a sul-africana Muleya Mwananyanda, coordenadora da Semana de Ação da Campanha Mundial pela Educação.
Estima-se que 12 milhões de meninas nunca irão à escola, contra sete milhões de meninos. As atitudes estão mudando lentamente nessa parte do mundo. Ainda se vê "com suspeita a educação feminina, sobretudo nas comunidades onde o modelo patriarcal corre risco de se desbaratar", disse Mwananyanda.
Mas há razões para otimismo, se considerarmos o efeito multiplicador. "Uma mulher me disse assim ‘educar uma menina é educar uma aldeia inteira', pois as mulheres instruídas enviarão suas filhas para a escola", afirmou.
Dezessete dos 41 países subsaarianos estudados no informe da Educação para Todos alcançaram a igualdade de meninas e meninos na escola primária.
Exceções
Essa região africana vai contra a corrente da tendência mundial. Na América Latina e no Caribe havia 107 meninas para cem meninos na escola secundária em 2006, enquanto na Ásia oriental e no sudeste asiático a proporção era de 101 e 102 para cem, respectivamente, superando inclusive a paridade das regiões do Norte industrial.
Entretanto, no segundo maior país latino-americano, o México, perderam força as políticas educacionais com perspectiva de gênero, impulsionadas a partir de Pequim.
Um avanço em matrícula e presença escolar produziu uma "equiparação de matrícula entre homens e mulheres" e atenção para os temas de educação profissional, pós-graduação e eliminação de estereótipos, disse ao TerraViva Clara Jusidman, presidente da não governamental Iniciativa Cidadã e Desenvolvimento Social.
Entretanto, desde 2000, quando chegou ao poder o conservador Partido Ação Nacional, primeiro com Vicente Fox e desde 2006 com Felipe Calderón, a educação retomou os antigos valores e estereótipos nos papeis dos homens e das mulheres.
Ainda em pleno século XXI, "há Estados mexicanos governados por conservadores que não permitem livros com texto contendo informação sobre educação sexual e direitos reprodutivos", disse Jusidman.
Educação machista dada por mulheres
Em todo o mundo as educadoras são maioria. Mas isso não evita que o ensino tenha um caráter sexista, pró-masculino e discriminador difícil de corrigir, segundo as mulheres organizadas.
O machismo sobressai nos livros didáticos, onde personagens femininas, minoritárias e secundárias, aparecem mais no contexto familiar, em trabalhos domésticos, como seres passivos e servis, contrastando com os masculinos ativos, autônomos e criativos.
As autoridades educacionais das Filipinas ofereceram treinamento em gênero para autores e editores de livros escolares, quando um Comitê das Nações Unidas condenou, em 1997, os estereótipos em textos e materiais de instrução que reforçam a imagem de subordinação feminina.
Mas essas iniciativas ficaram na fase-piloto, e faltam políticas para integrar a igualdade de gênero aos programas educacionais desde o jardim da infância, disse a professora Aurora de Deus, diretora do Instituto de Mulheres e Gênero, de Manila.
"O lugar da mulher é a cozinha" soa muito antigo, mas é um preconceito que persiste na sociedade como um dos fatores que faz "o mundo do poder e do domínio ser quase essencialmente masculino", disse a brasileira Vera Vieira, da Rede Mulher de Educação. São visões reafirmadas pelos livros infantis.
No Chile, os textos escolares têm enfoque de gênero desde 2008. "Houve uma intervenção na linguagem, tornando visíveis ‘meninas' e ‘meninos', e as imagens, evitando figuras estereotipadas como mulheres fazendo trabalho doméstico", e assim resgatando a contribuição feminina para o desenvolvimento do país, explicou Juana Aguirre, responsável de gênero do Ministério da Educação.
A reforma curricular de 2009 incorporou a dimensão de gênero em cinco áreas, como matemática e linguagem, além de estratégias para corrigir o "currículo oculto" nas relações entre educadores e alunos, acrescentou.
No Brasil, o Ministério da Educação adotou, em 1996, uma avaliação dos mais de cem milhões de livros didáticos que compra e distribui anualmente nas escolas, vedando os que expressam "preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discriminação".
Fulvia Rosemberg, da Fundação Carlos Chagas, duvida dos critérios aplicados por avaliadores especializados em suas disciplinas, mas não em "sexismo e racismo discursivo". Além do mais, o Ministério condena "preconceitos", não "estereótipos".
O ensino discriminador não impede, porém, que as meninas e mulheres tenham melhor desempenho do que os homens, colocando em xeque as análises sobre os efeitos do sexismo nos livros, acrescentou. IPS/Envolverde
Fonte: ENVOLVERDE
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"Não tem como ter esse apoio (a Bassuma) , porque isso seria contra os interesses do partido"
Por Rafael Albuquerque
Bahia Notícias: Fazendo um balanço do Carnaval, qual a sua visão dos blocos afro em geral e do Olodum, que tem mais divulgação e é conhecido internacionalmente?
João Jorge: Os blocos afro vivem um momento de transição entre o sucesso inicial, a novidade dos anos 70, e a necessidade de se profissionalizar, ter outro tipo de apelo para a própria população afro mestiça. No campo da cultura afrobrasileira, posso dizer que o destaque hoje é do Gandhy, Olodum, Ilê e um pouco o Cortejo Afro. Só que as dificuldades dos blocos afro estão ligadas à estrutura da sociedade, de como ela se organiza desde 1549. Não é um aspecto que só interessa aos blocos afro, mas é uma fotografia da desigualdade que a Bahia vive e que solidamente consegue pensar isso como se fosse uma coisa normal, banalizada. Um exemplo disso é que nos últimos 12 anos, em todo o período perto do carnaval se falava na dificuldade de os blocos afro obterem patrocínio. Diziam que era porque a população negra não estava consumindo, mas nos últimos cinco anos, o consumo na Bahia e em Salvador está sendo liderado pelas classes C, D e E, compostas pelo público do bloco-afro. Agora, os blocos afro precisam se reinventar, que é o que o Olodum está fazendo nesse momento. Nós estamos com muita prudência para manter a cultura, a tradição, a filosofia, mas fazendo as mudanças necessárias.
BN: Mesmo o Olodum sendo uma marca conhecida internacionalmente, ainda há tanta dificuldade com relação a patrocínios?
JJ: Não, porque além do carnaval, temos um trabalho social durante o ano. Então, nossos parceiros que são a Petrobras, o Bradesco e a Embasa participam generosamente com o Olodum no carnaval e, na maioria das vezes, nas atividades do ano inteiro. Só que o Olodum é o bloco afro de maior despesa do carnaval, pois é o único que tem uma banda internacional que se apresentou em 35 países do mundo. Temos maior despesa com segurança, com tecnologia etc.
BN: Os blocos afro pagam todas as taxas exigidas para que uma agremiação desfile no Carnaval de Salvador?
JJ: Pagam todas as taxas. Por ironia, mesmo com os setores que apoiam, há taxas caras. No caso da prefeitura, há um fato inusitado. Alguns blocos afro recebem o apoio da Petrobras, e a prefeitura diz que abre mão do recurso e passa para a empresa. Só que o município tributa isso duas vezes, da Petrobras e dos blocos afro que estão recebendo o incentivo. Nós não repassamos esses custos para o nosso associado, pois isso é subsidiado pelos patrocinadores.
BN: E como você avalia o apoio da Prefeitura e do Governo para os blocos afro?
JJ: A prefeitura na gestão de João Henrique tem sido uma lástima para os blocos afro e afoxés, porque havia uma política pública no governo de Antônio Imbassahy que era destinação de recursos para o Fórum de Entidades Negras, blocos afoxés e afro, e a prefeitura de João Henrique conseguiu acabar com isso. O governo Wagner empreendeu o caminho do "Ouro Negro", que é bom para os blocos pequenos e médios, mas que pune os blocos grandes, pois cortou recursos. O problema é que os apoios saem perto do carnaval, quando todos os custos estão estourados. O carnaval deveria ser pensado com relação a patrocínios a partir de agosto. Os incentivos e programas precisam de reavaliação, pois este é o mesmo Estado que paga valores altos para o Festival de Verão, para a Stok Car, para campeonato de surf na praia, mas que aos blocos afro paga um valor ínfimo. O que eu penso, é que os blocos afro não podem continuar pedindo dinheiro à prefeitura e ao governo. É preciso gerar mais receita.

BN: Qual a importância dos blocos afro para a Bahia?
JJ: O mundo dos blocos afro me parece fundamental para a Bahia. Para Salvador, os blocos afro, afoxés, de percussão têm um impacto grande e precisaria que as autoridades olhassem com outro viés.
 BN: Falando de política, qual a principal motivação para o lançamento de sua candidatura ao Senado?
JJ: A principal motivação é a herança de um sonho baiano de 1798, que é o sonho da Revolta dos Alfaiates, dos Búzios, que era de liberdade. Na época isso não se realizou, e cabe aos baianos e baianas realizar esse sonho. É um compromisso que todos os baianos têm que ter, e fazer com que a Bahia, além da terra da felicidade, seja também da igualdade. Eu sou da comunidade negra, dos direitos humanos, trabalho desde os 15 anos, tenho 54 anos, andei pelo mundo defendendo a Bahia, criei uma marca dos baianos, e espero que a Bahia generosamente me ajude a ser senador para que eu possa a ajudar a Bahia a se desenvolver. É uma equação muito simples: a Bahia só será democrática quando puder ter homens, mulheres, negros e índios no poder. Enquanto não houver isso, estaremos à parte do resto do mundo. Na Bahia, temos tido no governo sempre o mesmo tipo de gente: o homem branco, de origem europeia, de família rica que cresceu no aparelho do Estado, enquanto que da população que é maioria na Bahia, não há representantes. Também tenho motivos de ordem cultural e educacional para lançar minha candidatura. Se nós pegarmos Mandela, Marina Silva, Lula e Obama, a origem dessas pessoas é parecida com a minha. Sou mestiço, filho de negro com branco, sou advogado, mestre em direito público, fiz a minha vida dirigindo um táxi, trabalhei 11 anos no pólo petroquímico, sou resultado da cultura baiana para conquistar o mundo, e ao mesmo tempo estou esperando que a Bahia escolha novas ideias.
BN: Mas você nunca foi candidato a nenhum cargo eletivo.
JJ: Sou o único que nunca exerceu cargo eletivo e nunca foi candidato. Fui diretor da fundação Gregório de Mattos no governo de Mário Kertész, fui do grupo de trabalho interministerial do governo de Fernando Henrique, tenho sido conselheiro de várias organizações, tenho título de cidadão americano da cidade de Atlanta. Tenho formação, conhecimento e amor pela Bahia que vai fazer com que deixe de ser o sexto para ser o terceiro estado do Brasil através do desenvolvimento. Se tivesse tudo bem na Bahia, eu continuaria fazendo minhas ações com o Olodum, com a vida acadêmica, com o grupo de pesquisa que tenho em Brasília de direitos humanos e ações afirmativas, mas a situação exige intervenção humana muito maior do que ser eleitor. E minha candidatura em 2010 representa uma pergunta: é possível que a população pobre, os afrobrasileiros só possam eleger ou possam também ser eleitos? A representação política da Bahia precisa de quadros novos, que apresente a Bahia para o mundo.
BN: Podemos afirmar que o mote de sua campanha e de seu mandato, caso seja eleito, passa pela questão da igualdade étnica?
JJ: Para pela igualdade geral, ampla e irrestrita. Como sou de um segmento amplo, todas as políticas que eu vou propor serão focadas na Bahia como um todo. Posso dizer que o benefício será para toda a comunidade baiana. Então, essa não é uma candidatura negra, da comunidade negra, é uma candidatura dos baianos e das baianas. A Bahia como ideia abstrata é bem bacana, mas ela só se realiza quando os baianos e baianas tiverem mais condições de vida, de participar da vida pública democraticamente. A Bahia tem tudo para ser o terceiro estado do Brasil, mas não pode ser enquanto houver essa pobreza endêmica. Isso não é do governo atual nem do passado, vem desde as capitanias hereditárias. Queria lembrar também que uma das minhas principais lutas será pela educação, segurança e infraestrutura e desenvolvimento do estado.
BN: Mas você aposta tudo nessa eleição?
JJ: As pessoas precisam participar do projeto político para a Bahia. É o momento de que, caso eu venha ser eleito, e estou colocando uma energia muito boa nisso, tenhamos no pequeno PV uma boa votação para Senado. O objetivo é beneficiar o partido e criar uma bancada de deputados com o PV podendo interferir nas políticas do Estado da Bahia. Quero destacar também que toda essa ação tem apoio de um grande baiano que é o ministro da cultura Juca Ferreira, que também é um homem de vivência internacional e que pensa a Bahia a longo prazo.

BN: Como você percebe dentro do PV a divisão de ideais que tem separado os integrantes entre Wagner e Bassuma? Você considera como um racha?
JJ: Isso é importante e comum em todos os partidos do Brasil. Eu considero como visões diferentes que precisam ser harmonizadas em uma direção. O partido não tinha candidatura majoritária, houve discussão em cinco lugares da Bahia, e terminou por optar por uma candidatura própria. Essa opção significaria que depois teríamos que listar quais seriam os candidatos e os projetos. Mas isso foi antecipado e saíram o candidato ao governo, Bassuma, e ao Senado, Edson Duarte, e consequentemente outras pessoas também se lançaram. Havia uma necessidade nacional da nossa candidata Marina Silva de ter palanques nos estados, mas depende das necessidades regionais. Temos as possibilidades para o Senado, além de mim, a Beth Wagner e o Edson Duarte; para governador tem o Ruy de Ilhéus e Bassuma. Neste momento, há fortes indicativos de grande rejeição ao nome de Bassuma, pois ele pontuou 1% na pesquisa.
BN: Então, politicamente e estrategicamente seria melhor para o PV apoiar a reeleição do governador Jaques Wagner?
JJ: Seria melhor apoiar a reeleição de Wagner e lançar candidatos próprios ao Senado, e trabalhar intensamente para a bancada de deputados federais e estaduais. A minha candidatura está sendo colocada pelo interesse do PV.
BN: Independentemente de o PV lançar ou não candidato próprio ao governo, como você avalia a gestão de Jaques Wagner?
JJ: É a primeira etapa da redemocratização da Bahia. É um governo que vem após a era em que um grupo dominava a Bahia. O modelo de gestão do Estado, do ponto de vista democrático avançou, e os benefícios como programas de água e luz para todos e casas populares não são fatores anti-Bahia. Isso estimula o desenvolvimento.
BN: E como será a governabilidade caso o candidato do PV seja eleito?
JJ: O PV, independentemente do resultado das eleições, deverá dialogar com as forças políticas da Bahia. Esse é o papel do partido político. Não pode dizer que vai isolar o PV, muito pelo contrário. No Rio de Janeiro, Gabeira disse que não sairia candidato sozinho porque não teria tempo para dialogar. Tem que se levar em conta as diferenças regionais.
 BN: Mas o PV vai mesmo lançar candidato próprio?
JJ: O PV tem candidatura para governador e para senadores, e isso será discutido na convenção de junho. O partido poderá fazer uma política de alianças, mas também poderá sair sozinho se achar que nossa força política seja suficiente para as conquistas. Nem o PT, nem o PMDB e nem o PSDB têm isso aqui na Bahia, tanto que estão atrás de Cesar Borges e ACM Neto.
BN: Diante da divisão estabelecida no PV, como será o apoio do seu grupo a Bassuma caso ele seja realmente o candidato ao governo?
JJ: Caso essa hipótese venha a acontecer, o partido vai conviver com um dilema que muitos partidos viveram na Bahia. Não sei se você se lembra do episódio em que o PSDB apoiou Lula e não apoiou FHC. Às vezes há candidatos que criam tal afastamento do partido e dos interesses da população, que acontece isso. No caso da Bahia, não houve convenção para escolher o candidato Bassuma. Mas tem que se discutir e se colocar o candidato que menos resistência traga ao partido, pois isso é péssimo a qualquer partido político.

BN: Então o apoio a Bassuma seria complicado para a legenda?
JJ: Não tem como ter esse apoio, porque isso seria contra os interesses do partido. O interessante é que no programa do PV esse ano, Marina em nenhum momento disse que não fez parte do projeto de Lula. Ela não está no PV para atacar o partido que estava antes. Esse parece ser o componente básico de Bassuma. Ele é candidato a governador, a mulher dele é candidata a deputada e tem o mesmo nome. Essa é uma prática antiga que existe por aí.
BN: Você acha que o PV apresenta força para lançar duas candidaturas ao Senado com possibilidades reais de vitória?
JJ: O PV apresenta fôlego para duas candidaturas e para vitória de uma. São nove candidatos a senador até agora, e no momento que a Bahia está, um dos senadores será do PV e eu espero que seja a nossa candidatura. Evidentemente que cabem dois senadores disputando pelo PV, assim como nos outros partidos. São dois candidatos que contribuem para a votação do partido e para o apoio a Marina.
 BN: Qual mensagem você deixa aos leitores do Bahia Notícias e aos eleitores baianos?
JJ: O que eu quero é que todas as vezes que tenha demanda da população, que o senador esteja presente. O senador tem um papel humano muito importante. Essa é a hora de fazer a diferença e estabelecer novos parâmetros para a política baiana. É só imaginar o Olodum que em 1983 tinha só sete instrumentos, não tinha quase nada, e hoje é uma marca dos baianos. Na política, quero fazer algo parecido. Trabalhar intensamente para que a Bahia deixe de ser o sexto e passe a ser o terceiro estado da nação, através de um novo modelo de desenvolvimento e permitindo que as novas vozes se expressem. Eu quero ser senador dos baianos. Considero também importante que não podemos estimular a dicotomia entre a capital e o interior. Temos que pensar em política em que interior e capital harmonizem seu desenvolvimento.
Fonte: Bahia Notícias |
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por: MARCUS ORIONE GONÇALVES CORREIA
Ações afirmativas, como as cotas para negros no ensino superior, podem ser eficiente meio para a queda de alguns desses mitos
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ESTÁ PREVISTA para o início de março, no Supremo Tribunal Federal, audiência pública sobre políticas de ação afirmativa de reserva de vagas no ensino superior, em vista de ações judiciais que tratam do tema das cotas raciais. A relevância da matéria, e da manifestação a esse respeito pela suprema corte, é óbvia.
Enfrentando a questão das minorias, dentre elas a racial, percebe-se o seu tratamento na perspectiva essencialmente positivista.
Por minorias, entendem-se aqui grupos que, na perspectiva das relações de poder, encontram-se em estado de sujeição em face de outros a partir de certos aspectos, como racial, de gênero ou de etnia. Isso se dá ainda que tais agrupamentos sejam numericamente expressivos.
Já o positivismo, em apertada síntese, trata-se de método que almeja uma racionalidade para a explicação dos fatos sociais semelhante àquela típica das ciências naturais, prestigiando, com isso, as noções de organização e de uma suposta cientificidade hasteada na neutralidade axiológica. O tema das cotas, não raro, sucumbe à tentação de ser tratado a partir de tais postulados. Para comprovar a assertiva, inicio pela ideia, advogada por vários, de que não existiria mais a noção de raça, o que seria confirmado pelo que há de mais moderno no estudo da genética. Com isso, não seriam possíveis ações afirmativas com base em algo que não existe.
Trata-se de constatação tipicamente positivista, que submete o tema da raça a uma investida meramente biológica, com clara insuficiência na resposta de matéria tão complexa. Aliás, o positivismo tem o costume de se apropriar das questões sociológicas a partir de categorias tipicamente biológicas, retirando a complexidade de algumas categorias e naturalizando as consequências mais nefastas.
Assim, quando se afirma que não existe mais sentido em falar em raça, especialmente em países como o Brasil, em que houve um elevado grau de miscigenação, olvida-se que, aqui, os principais centros de poder são ocupados por brancos.
Esquece-se, assim, que a matéria envolve o poder, o que afasta a disputa racial de meras ilações de natureza biológica -até mesmo porque a luta pelo poder se processa de forma distinta entre os animais irracionais.
Aliás, essa questão, para o direito e, portanto, em certa perspectiva do poder, já se encontra resolvida. A Constituição admite o conceito de raças em diversas oportunidades (como no seu artigo 3º, inciso IV).
Nos mesmos moldes, pode-se inserir, por exemplo, a discussão relativa às mulheres. Para essas, não raro se diz ser natural que, em vista da maternidade, sejam-lhes atribuídas mais funções no âmbito da vida privada do que ao homem.
Em um mundo tão competitivo e em que se fala constantemente em escassez de recursos, vive-se o pior pesadelo positivista: o de naturalizar a exclusão de alguns, por critérios como o racial ou o de gênero, para que outros possam melhor viver. E fica a triste constatação de que, se a natureza é seletiva porque é da sua essência, o mesmo jamais poderia se dar com seres humanos em suas relações sociais. Caso contrário, estaria autorizado, a partir de interpretações legalmente consentidas, verdadeiro estado de barbárie, em que se referendaria dissimulada antropofagia social.
Isso o direito não pode convalidar. Na realidade, o que se percebe é que tais argumentos, de índole positivista e que frequentemente assumem lugar no imaginário popular, escondem aspectos ideológicos de uma sociedade que pretende deixar claro o lugar que deve ser ocupado por cada um dos grupos eleitos como oprimidos. Redundam, portanto, em aspectos, aparentemente científicos para a preservação, por alguns, de seus espaços de poder, e precisam, para o bem de nossa sociedade, ser desmistificados.
Ações afirmativas, como as cotas para negros no ensino superior, podem consubstanciar, no contexto de uma política pública de inclusão social bem organizada, eficiente meio para a queda de alguns desses mitos.
O Brasil tem uma dívida social que precisa ser urgentemente resgatada.
Não podemos mais nos entregar a propostas que, de forma idealizada, sejam protraídas no tempo.
Afinal de contas, considerada a abolição da escravatura, o atraso para a solução do problema data de apenas mais de cem anos.
MARCUS ORIONE GONÇALVES CORREIA , 45, doutor e livre-docente pela USP, professor associado do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social e da área de concentração em direitos humanos da pós-graduação da Faculdade de Direito da USP, é juiz federal em São Paulo (SP).
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Recurso Extraordinário 597.285/RS
Excelentíssimo Senhor Ministro Ricardo Lewandowiski.
Nobre Julgador.
"A missão do Conselho da Comunidade Negra de São Paulo é com a população negra e o seu compromisso com a verdade e a Justiça!"
Criado em maio de 1984 pelo notável jurista, democrata de escol e compromissado com as causas sociais André Franco Montoro, à época, Governador do Estado de São Paulo, o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo tem como seu principal objetivo a promoção da igualdade racial, através da implementação de políticas públicas, compromisso que vem honrando ao longo dos seus vinte e cinco anos de existência.
No momento em que o Supremo Tribunal Federal se prepara para julgar o sistema de cotas nas universidades públicas, um dos mais polêmicos e importantes julgamentos de sua gloriosa história, somos surpreendidos com a utilização deste Conselho Estadual que representamos, para de forma ilegítima, garantir a presença do senhor José Roberto Ferreira Militão para se posicionar contra aquilo que é unanimidade entre todos os conselheiros:
O CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE NEGRA DO ESTADO DE SÃO PAULO, PELA UNANIMIDADE DE SEUS MEMBROS É A FAVOR DA ADOÇÃO/MANUTENÇÃO DE COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS.
Este órgão público de garantia dos direitos da cidadania, da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, não pode permitir que um ex-Conselheiro, como é o caso do senhor José Roberto Ferreira Militão, cujo período se encerrou há 15 anos (quinze anos) e que nunca mais aqui voltou, sem mandato para tal mister, se sinta autorizado a falar em nome do Colegiado que presido e que representa, milhões de negros do Estado de São Paulo, certamente a maior população da comunidade negra do Brasil em números absolutos.
Para que não reste dúvidas de que o Governo do Estado de São Paulo vem adotando política de ações afirmativas que busquem diminuir as desvantagens da população afro-brasileira e indígenas, que são históricas, tomamos a liberdade de citar alguns exemplos das políticas públicas aqui adotadas:
(1) optou pelo sistema de pontuação acrescida para afro-descentes e indígenas egressos de escola pública nos exames seletivos para ingresso nas Escolas Técnicas Estaduais e nas Faculdades de Tecnologia;
(2) na Universidade de Campinas - Unicamp foi implantado o PAAIS _ Programa de Ação Afirmativa sem reserva de cotas, através de pontos à nota final dos vestibulandos tanto egressos da rede pública quanto alunos afro-brasileiros.
A pessoa que se apresentou como representante do CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE NEGRA DO ESTADO DE SÃO PAULO está desautorizada a manifestar-se em nome deste Órgão Público e sua oitiva se pela Egrégia Corte Superior do Brasil, deverá ser em seu nome pessoal, seja ela qual for.
Temos a certeza que este Supremo Tribunal Federal saberá manter a sua histórica participação nos destinos da República Brasileira, decidindo pela manutenção das cotas nas universidades públicas, como uma forma de compensar os braços que escravizados, construíram essa grande Nação, tirando-os da desvantagem secular em que se encontram como uma forma de lídima JUSTIÇA!
Despedimo-nos renovando a Vossa Excelência e a seus pares os nossos protestos de estima e distinta consideração.
Elisa Lucas Rodrigues Presidenta do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo
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O governo de São Paulo acaba de criar uma ferramenta online, carinhosamente apelidada Salariômetro, para calcular salário médio de admissão para um cargo.
O cálculo considera o salário dos admitidos nos últimos seis meses no mercado de trabalho formal, com carteira assinada. Além do código do cargo é preciso fornecer estado, cidade, grau de escolaridade, gênero, cor, idade e setor. É lento, mas saiu.
Fiz alguns testes:
1) Jornalista BRANCA, 30 a 39 anos, formada, mora em SP e trabalha no setor de serviços

2) JornalistaNEGRA, 30 a 39 anos, formada, mora em SP e trabalha no setor de serviços

3) Jornalista BRANCO, 30 a 39 anos, formado, mora em SP e trabalha no setor de serviços

4) Jornalista NEGRO, 30 a 39 anos, formado, mora em SP e trabalha no setor de serviços

Fonte: Estadão
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Edson França *
O Supremo Tribunal Federal - STF convocou para os dias 03, 04 e 05 de março, Audiência Pública sobre Políticas de Ação Afirmativa de Reserva de Vagas no Ensino Superior, para subsidiar o Ministro Ricardo Lewandowski, relator da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF, proposta pelo Partido Democrata - DEM, contra o sistema de cotas, em vigor desde 2005, na Universidade de Brasília - UNB.
Na Audiência, 5ª na história do STF, será debatida a pertinência constitucional das cotas para negros e indígenas. Considerando que o instrumento jurídico denominado ADPF tem objetivo de analisar existência de incompatibilidade entre atos do poder público com preceito constitucional fundamental, o resultado da sentença, em princípio, tem caráter retroativo e universal. Em outras palavras, o resultado terá incidência sobre todas as ações afirmativas, especialmente cotas para negros e índios, pois esse é o objeto essencial da ADPF, em vigência em todo território nacional, bem como poderá, se indeferida, acelerar um processo bem sucedido em curso. O DEM, as ações afirmativas e o antirracismo no Brasil No Congresso Nacional, o DEM - partido dos filhos de senhores de engenho e da direita branca mais obtusa do Brasil, conforme argüição de Claudio Lembo (DEM/SP), ex-governador de São Paulo - se constituiu no inimigo número um das principais propostas de ação afirmativa em trâmite: PLs que instituem o Estatuto da Igualdade Racial, cotas nas universidades federais públicas, feriado no dia 20 de novembro em memória a Zumbi dos Palmares e o total congelamento do Estatuto do Índio. Há outras iniciativas de promoção da igualdade racial sob a mira do DEM. Entrou com Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADI contra: o Decreto Presidencial 4887/03, que regulariza a titulação de terras quilombolas; contra o PRO-UNI sistema que transforma a elisão fiscal das universidades privadas em bolsa de estudo para estudantes de baixa renda, com reserva para negros e índios. Os Demos quando perde no Congresso apela para o STF, tentam judicializar definições políticas aprovadas com apelo e apoio popular. Passou da hora do movimento negro e indígena recorrer à consciência antirracista dos brasileiros para não votarem em candidaturas do DEM. Esse partido se definha a cada eleição, temos que impor mais uma fragorosa derrota a ele e aos seus aliados nas urnas, para riscar do mapa político nacional os postulados reacionários emanados pelo DEM. Com objetivo de acabar com as experiências de ações afirmativas para negros e indígenas e enterrar a crescente política de promoção da igualdade racial que prolifera em todo país, o DEM foca um ponto aparentemente sensível: a UNB. Acredita que se desmoralizar uma experiência exitosa, que reserva 652 vagas para negros e índios, num universo de 3280 vagas, ou seja, 20% do total de vagas em todos os cursos, abrirá caminhos para derrota definitiva das ações afirmativas no Brasil. O objetivo central do DEM é garantir a manutenção da estrutura hierárquica da sociedade, em outras palavras, manter as coisas como estão, vencer qualquer veleidade libertária na sociedade brasileira. Na Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF os Democratas sustentam postulam: 1. Suspender a matrícula dos alunos da UNB, prevista para os dias 23 e 24 de julho de 2009. 2. Obrigar o CESPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade de Brasília) a divulgar nova listagem dos candidatos aprovados, com base nas notas obtidas, desconsiderando os critérios raciais, e só então reabrir o prazo para matrícula. 3. Determinar ao CESPE e à UNB que se abstenha de selecionar ou classificar candidatos com base em critérios raciais, ou a indicar quem é negro dentre eles, suspendendo-se o funcionamento da comissão instituída para evitar fraude, denominada ofensivamente pelo DEM como: comissão racial. 4. Determinar a todos os órgãos do Poder Judiciário brasileiro que suspendam os processos judiciais que envolvam o tema de cotas raciais para o ingresso em universidades. 5. Suspender, com eficácia retroativa, todas as decisões judiciais que tenham reconhecido a constitucionalidade da política de cotas raciais instituídas pela UNB. Os mentores do DEM, responsáveis pela base argumentativa que sustentou a ADPF, graças as grandes empresas capitalistas de comunicação em massa (Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Editora Abril), são conhecidos do grande público: Yvonne Maggie, Demétrio Magnóli, Bolívar Lamounier, Marcos Chor Maio. Argumentam que a medida é inconstitucional; que a proposta de implantação de cota é um mimetismo ao modelo norte americano, desconsiderando as diferenças histórico-social entre os dois países. Dizem que raça, no Brasil, não opera exclusão, além da cansativa ladainha sobre a inexistência biológica de raça, superada em todos os debates sobre o tema, por sabidamente, se encontrar no campo das ciências sociais, não biológica. Questionam a teoria da justiça compensatória e a atribuem como fundamento das ações afirmativas, dizendo que a medida visa retificar no presente, injustiça cometida no passado. Vaticinam que a implantação de cota criará divisão e conflitos entre negros e brancos pobres. O Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da Declaração e do Plano de Ação de Durban, por isso deve observância às ações afirmativas baseadas em raça, a fim de favorecer minorias em situação de desvantagens. As diretrizes que os tratados, convenções e pactos internacionais expressam, quando ratificados pela autoridade constitucionalmente competente, passam a compor o ordenamento jurídico nacional - conforme disposto no artigo 5º, § 2º da Constituição. Por isso, os Demos erram nas afirmações de ordem legal. Além de acolhimento da constitucionalidade baseado em compromissos internacionais consolidados e o pronunciamento favorável da PGR e da AGU, várias instâncias do judiciário foram individualmente provocadas e deliberaram pela constitucionalidade das ações afirmativas, ou seja, encontramos jurisprudência pró ação afirmativa e cotas para negros e indígenas nas universidades em órgão inferiores, o que reforça a falácia dos argumentos dos demos. O DEM finge ignorar que cotas foi uma medida foi aplicada com sucesso nos Estados Unidos, Índia, Nigéria, China, Malásia, Austrália, dentre outros, não se trata de mimetismo, mas uma ação pública consagrada em vários países, cuja minoria étnica/racial sofre graves desigualdades. Eles copiam a tese de Ali Kamel apresentada no livro Não Somos Racistas, para negar evidências empíricas e científicas da desigualdade socioeconômica entre negros e brancos, demonstrados pelos mais sérios institutos de pesquisas (IBGE, IPEA, PNUD), onde constatam a presença de negros na base da pirâmide social. Escamoteiam os princípios da justiça distributiva, da promoção do pluralismo e da superação de estereótipos negativos sobre os negros, todos fundamentais para sustentação das ações afirmativas - bem lembrados e sustentados em manifestação dirigida ao Presidente do STF, Ministro Gilmar Mendes, por Roberto Monteiro Gurgel Santos, Procurador Geral da República. O Partido Democrata faz vista grossa a uma realidade concreta: o Brasil nunca registrou conflitos raciais diante da implantação das ações afirmativas. Ainda que 83 universidades públicas brasileiras tenham alguma experiência de ação afirmativa; que o PRO-UNI tenha concretizado o acesso e permanência de aproximadamente 250 mil alunos negros nas universidades privadas; que o Brasil tenha aproximadamente 20% dos municípios com órgãos de promoção da igualdade racial, propondo ações de promoção social aos negros e indígenas (coordenadorias, conselhos, assessorias, secretarias); que progressivamente o currículo escolar está sendo adequado à Lei 10.639/03 - lei que institui a obrigatoriedade de incluir no currículo escolar história da África e da cultura afrobrasileira; além de tramitar nas Casas Legislativas (câmaras de vereadores, assembléias legislativas e Congresso Nacional) uma infinidade de proposituras com objetivo de fortalecer o combate ao racismo e a promoção social de negros e indígenas. A retórica desenvolvida pelo DEM é frágil, apesar de sensibilizar um largo espectro ideológico. Tanto a esquerda, como a direita política brasileira, por razões diferentes - os primeiros embebidos por um acentuado grau de dogmatismo adotam um olhar essencialmente economicista sobre os problemas sociais brasileiros, vêem nas demandas específicas elementos de divisão entre os explorados; os segundos assumem a ótica e o projeto do dominador, tem interesse de classe nos resultados materiais da opressão racial, bem como, sabem o significado social na massificação de negros, índios e pobres nas universidades - advogam que a compensação (através de qualquer política pública focada) dos crimes da escravidão, do genocídio indígena e da marginalização do negro nas décadas iniciais da República, atenta contra o universalismo e, conseqüentemente, contra a unidade nacional. A vida vem demonstrando, na prática, aos do lado de cá, que unidade nacional se conquista e fortalece com justiça e resgate de direitos sociais negados ao povo, considerando as singularidades que o compõe, não com belas proclamações, mesmo quando bem intencionadas. Essa constatação é suficiente para aproximar os setores progressistas que vacilam diante da importância da promoção da igualdade entre negros e brancos no Brasil. Considero equivocada a constatação de que estamos (os negros) por nossa própria conta, parafraseando o ativista sul-africano Steve Biko. Acredito, tal como, Solano Trindade e Clóvis Moura, na aliança do movimento negro com os diversos movimentos sociais e que o antirracismo não se dissocia, ao contrário, compõe os mais profundos ideários de justiça, defendido pelo pensamento progressista. Um momento importante para a nação Apesar do perigo que ronda todos os julgamentos, considero o cenário positivo para decretação da constitucionalidade das ações afirmativas. O STF, apesar de ser presidido por um homem conservador, tem se posicionado satisfatoriamente em temas polêmicos, como a demarcação das Reservas Indígenas Raposa e Terra do Sol em Roraima, contrariando interesses comerciais e políticos locais, aval para pesquisas em células troncos, decisão que confrontou a Igreja e reafirmou a laicidade do Estado. Dentre os Ministros há quem deu sinais favoráveis as ações afirmativas: Joaquim Barbosa, Ayres Brito, Carmen Lucia, Marco Aurélio, José Antonio Dias Tofolli. Órgãos de Estado importantes para formulação da opinião do STF manifestaram favoravelmente as cotas: Procuradoria Geral da República, Advocacia Geral da União, IPEA e a própria entidade de classe de todos os advogados do Brasil: a OAB. Haverá, também, pronunciamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Secretaria de Direitos Humanos, Ministério da Educação e FUNAI, além de pronunciamentos de especialistas e ativistas da sociedade civil representando diversos posicionamentos, sendo a maioria favorável a implantação de ação afirmativa para negros e índios no Brasil. Ao chamar a audiência o Ministro relator, Ricardo Lewandowski, sinaliza a relevância que dá a esse tema, abre espaço para debatê-lo na esfera adequada: política. Não podemos negar que o STF é, também, uma casa política, daí a importância da mobilização social em defesa as cotas e o motivo da gritaria e da agressividade do guru da resistência conservadora, Demétrio Magnoli, no jornal O Estado de São Paulo. Considero essa audiência um momento importante para nação, essa pauta é mais uma no cenário da luta de classes no Brasil, visto que as universidades públicas se transformaram em espaço de brancos e ricos. Brasil estará atento. Está em debate na mais Alta Corte, com 122 anos de atraso, um tema caro ao desenvolvimento social e a verdadeira construção da unidade nacional. Responderemos como e se desejamos promover socialmente uma significativa parcela da sociedade brasileira que, em razão da política do Estado e das classes dominantes, sofre com os efeitos do racismo e acumula, no presente, desvantagens sociais, econômicas, políticas, educacionais, dentre outras. A vitória do DEM repercutirá negativamente aos milhares de jovens beneficiados pelas cotas e outras formas de ação afirmativas. Haverá grande frustração na militância do movimento negro que, após décadas de luta, vislumbra resultados positivos. É bom lembrar que esse mesmo partido se posiciona historicamente contra as causas dos oprimidos e contra as reivindicações sociais organizadas (vide as sucessivas CPIs contra o MST e a ADI contra as Centrais Sindicais). Do outro lado, a vitória da UNB, é a vitória do povo brasileiro, significa sinal verde para o Brasil continuar avançando na superação do racismo e na promoção social dos negros. Significa, também, o tardio enterro do DEM e daqueles que se solidariza ao seu ideário racista e tosco. O Brasil não pode retroceder nossa experiência de implantação de políticas públicas para igualdade racial, apesar da insuficiência diante a demanda, se constitui numa referência aos países que sofrem com o impasse do racismo. A consciência pública nacional apóia as ações afirmativas, a sociedade se unificará ainda mais quando verificar que a cor da pele não é um elemento de acumulação de desvantagens e humilhação. *Edson França é Coordenador Geral da UNEGRO e membro do Comitê Central do PCdoB
Fonte: Lista de Discriminação Racial |
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Por: FERNANDO DE BARROS E SILVA
SÃO PAULO - José Roberto Arruda pulou o Carnaval no xilindró. Gilberto Kassab se vê às voltas com a Justiça Eleitoral, que ameaça cassar seu mandato. Eram essas as estrelas do Democratas, em quem o partido até ontem depositava esperanças de renovação política.
As situações do governador preso e do prefeito em apuros são distintas. Kassab deve ficar no cargo. Mas ambas as crises, embora diversas, são sintomas do esfarelamento da legenda que pretendeu encampar valores de uma nova direita no país. Antes mesmo de se tornar Democratas, em 2007, o PFL já buscava transitar da representação oligárquica e patriarcal, que marcou sua identidade histórica, para um conservadorismo de perfil mais moderno, capaz de disputar o poder nos centros urbanos da região Sudeste.
Imaginava-se um partido que pudesse galvanizar as camadas médias da sociedade contra os impostos excessivos ou a presença ostensiva do Estado na economia. Um partido francamente a favor da iniciativa privada, que viesse unir a defesa da ética e a primazia do indivíduo em torno de uma política liberal.
O papel aceita tudo. A realidade é que atrapalha. Kassab já era "Taxab" antes que as chuvas de verão transformassem São Paulo na Veneza do fim do mundo. E Arruda virou assunto para a polícia e os humoristas -nada mais.
No final dos anos 90, o antigo PFL tinha seis governadores e mais de cem deputados -quase o dobro do que o DEM reúne hoje. A geração júnior de Rodrigo Maia e ACM Neto parece nascer mais velha que seus antepassados. Os coxinhas da Câmara exibem o olhar triste e o semblante sempre alarmado.
O DEM, que imaginava migrar dos grotões do Nordeste para o Sudeste, ainda tem seu destino atrelado ao pasto. Sua fronteira é o Centro-Oeste, onde de fato vocaliza os interesses do agrobusiness. Kátia Abreu, a senadora do Tocantins, é a valente do Democratas. A dama do cerrado é o que resta como força viva de uma legenda que luta para sobreviver como satélite do tucanato.
Fonte: Folha Online
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Seminário sobre liberdade de expressão reunirá em São Paulo a nata da plutocracia. O interessante é que o Instituto que o promove tem o mesmo nome de uma conceituada casa de prazeres
por: Gilberto Maringoni
Acabou o carnaval, mas a festa continua. Vem aí, gente, o Fórum Democracia e liberdade de expressão, promovido pelo Instituto Millenium . O acontecimento será no dia 1º de março, no Hotel Golden Tulip, na capital paulista. A inscrição é uma pechincha: R$ 500 por cabeça.
A lista de palestrantes é de primeira. Lá estarão o dr. Roberto Civita (Abril), o ministro Hélio Costa (Globo), Marcel Granier (dono da RCTV, famosa por tramar e propagar o golpe de 2002 na Venezuela), Demétrio Magnoli (venerando Libelu de direita, que está decidindo se o melhor é ser contra a política de cotas ou contra a política de quotas), Denis Rosenfield (entidade do folclore gaúcho que ainda não tomou conhecimento do fim da Guerra Fria), Arnaldo Jabor (o espirituoso), Carlos Alberto Di Franco (dirigente da organização democrática Opus Dei), Marcelo Madureira (humorista neocon), Reinaldo Azevedo (claro!), Roberto Romano (ético ao quadrado) e os modernos deputados Fernando Gabeira e Miro Teixeira.
Intelectuais de programa
O Instituto Millenium veio para ficar. Foi fundado em 2005, no Rio de Janeiro. Não se sabe se tem algo a ver com o conceituado Café Millenium, estabelecimento classe A, onde gente de primeira ia buscar diversões, digamos, adultas até julho de 2007, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O Café Millenium não escondia seu negócio. O slogan era "Sua noite de primeiro mundo". Com belíssimas garotas a excitar a imaginação e a ação de senhores de fino trato, vendia o que anunciava. Deve-se à fúria moralizante do prefeito Gilberto Kassab - um "Jânio sem alcool", na genial definição de Xico Sá - o fechamento desta e de outras instituições semelhantes, nos tempos em que as enchentes não eram preocupação de um alcaide movido a reeleição.
No site do Instituto Millenium não há nenhuma informação sobre o paradeiro do Café. Os proprietários devem ter feito alguns arranjos aqui e ali, para não dar muito na vista e resolveram tocar o pau. Para manter o embalo dia e noite, aparentemente já contrataram alguns intelectuais de programa, vários articulistas que não estão no mapa, inúmeros jornalistas de vida fácil e go-go-oldies. Discrição total. O distinto senhor ou senhora comprometida pode ir sem medo, que é todo mundo limpinho, o ambiente está aparelhado para experiências das mais exóticas. Há estacionamento e os acompanhantes falam inglês e são educados.
O tal do fórum
O máximo do prazer será a atração deste início de março, o Fórum Democracia e liberdade de expressão. Entre os apoiadores do evento, sempre segundo o site do Millenium, estão a Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), entidades que envolvem a Globo, o SBT, a Record, a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, a RBS e outras empresas que decidiram boicotar a I Conferência Nacional de Comunicação, numa demonstração de forte apreço pela democracia. Figura lá, além do Instituto Liberal, um sensacional Movimento Endireita Brasil (MEB), cujo nome diz tudo.
A Carta de Princípios do Café, digo Instituto, é das mais edulcoradas. Entre tantos pontos, está lá: "promover a democracia, a economia de mercado, o estado de direito e a liberdade". Assim, o mercado, quase como sinônimo de democracia. Mais adiante são enunciados seus valores e princípios: "o direito de propriedade, as liberdades individuais, a livre iniciativa, a afirmação do individualismo, a meritocracia, a transparência, a eficiência, a democracia representativa e a igualdade perante a lei". Jóia! Vamos todos aderir!
Entre os conselheiros "de governança" e mantenedores está a fina flor da sociedade brasileira. Entre outros, figuram João Roberto Marinho (vice-presidente das Organizações Globo), Jorge Gerdau Johannpeter, Roberto Civita (Abril) e Washington Olivetto (presidente da W/Brasil). Já no Conselho Editorial está o sempre alerta Eurípedes Alcântara (diretor da redação de Veja) e no Conselho de Fundadores e de Curadores está ninguém menos que Pedro Bial, o grande comandante do programa cultural Big Brother Brasil, um modelo do que se pode fazer com a liberdade de expressão às mancheias. Coroando tudo está o Gestor do Fundo Patrimonial, Dr. Armínio Fraga, que dispensa maiores apresentações.
Com o empenho do Café, digo do Instituto Millenium, a democracia e a liberdade de expressão passam a ser mais valorizadas no Brasil. Por baixo, por baixo, a valorização deve ser de 500% em fundos off shore.
Todos dia 1º. de março ao Millenium, gente. A sua noite - ou dia - de primeiro mundo!
Em tempo: Não se sabe ainda se os antigos proprietários do Café Millenium entrarão na Justiça contra os mantenedores do Instituto Millenium. A ação se daria não apenas por plágio, mas por comprometer o bom nome do Café em uma possível volta ao mercado.
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de "A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez" (Editora Fundação Perseu Abramo).
Fonte: Carta Maior |
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A tragédia do Haiti desatou um formidável movimento internacional de solidariedade. Mas, segundo o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o terremoto também provocou outras réplicas. São, explica em artigo publicado no El País, tremores de hipocrisia, racismo e amnésia que nenhum sismógrafo é capaz de detectar. A tradução é do Cepat.
Pat Robertson, teleevangelista de ampla audiência, explicou claramente o assunto do terremoto. O pastor de almas cantou a bola: as placas tectônicas não têm nada a ver. O terremoto é uma consequência do pacto que os negros haitianos haviam feito com o diabo há dois séculos. Satã os libertou da França, mas o Haiti se converteu em um país maldito.
O bom Pat não está sozinho. São muitos os que acreditam, ou ao menos suspeitam, que a liberdade foi o pecado que condenou o país à desgraça perpétua. O Haiti não seria um país maldito se tivesse aceitado seu destino colonial.
Mas, maldito por quem? Os negros haitianos haviam humilhado o Exército de Napoleão Bonaparte, que nessa guerra perdeu 18 oficiais, e a França cobrou caro a expiação. Durante mais de um século, o Haiti pagou à França uma indenização equivalente hoje a quase 22 bilhões de dólares, por ter cometido semelhante sacrilégio.
O novo país nasceu endividado e arruinado, arrasado pela guerra da independência, que a tantos matou ou mutilou, e também arrasado pela exploração desapiedada de seus solos e de suas pessoas extenuadas no trabalho escravo. A prosperidade da França havia sido a ruína do Haiti. Todo o país se havia reduzido a uma imensa plantação de açúcar, que aniquilou as florestas e secou a terra. Os negros livres herdaram um reino sem sombra e sem água.
Nestes dias, a imprensa divulgou resenhas históricas. Supõe-se que ajudam a entender o que acontece. Em quase todos os casos, nos contam que o Haiti foi o segundo país livre das Américas, porque havia seguido o exemplo da independência dos Estados Unidos. A verdade é que não foi o segundo. Foi o primeiro, o primeiro país realmente livre, livre da opressão colonial, sim, mas também livre da escravidão. E foi o primeiro, exatamente porque não seguiu o exemplo dos Estados Unidos: o Haiti foi um país sem escravos 60 anos antes dos Estados Unidos, cuja primeira Constituição estabeleceu que um negro equivalia a três quintas partes de uma pessoa.
E o Haiti nasceu, por isso, condenado à solidão. O Haiti difundia, apenas com seu exemplo, uma peste contagiosa. Nenhum outro país reconheceu sua existência. Todos lhe deram as costas. Nem sequer Simon Bolívar, quando governou a Grande Colômbia, pôde recordar que devia sua glória aos haitianos, porque eles lhe haviam dado navios, armas e soldados, quando estava vencido, com a única condição de que libertara os escravos.
Outra réplica do terremoto: são muitos os que creem, e não poucos a afirmarem, que toda a ajuda será inútil, porque os haitianos são incapazes de se auto-governarem. Levam na testa a marca africana. Estão predestinados ao caos. É a maldição negra.
Pelo mesmo motivo, os Estados Unidos não tiveram outro remédio que invadir o Haiti em 1915. Robert Lansing, secretário de Estado, explicou então que "a raça negra é incapaz de se governar a si mesma e tem uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização".
O presidente Woodrow Wilson, prêmio Nobel da Paz, fervoroso admirador da Ku-Klux-Klan, assinou a ordem de invasão, para restabelecer a ordem, evitar o caos e, de passagem, já que estavam aí, cobrar o que o Haiti devia aos bancos norte-americanos. As tropas foram para ficar apenas um curto período de tempo, mas acabaram ficando 19 anos. Não puderam restabelecer a escravidão, como haviam feito no Texas e na Nicarágua, mas ao menos impuseram um regime de trabalho forçado que era bastante parecido, e enquanto durou a ocupação militar proibiram que os negros entrassem nos hotéis, restaurantes e clubes reservados aos estrangeiros. Também proibiram que o presidente do Haiti cobrasse seu salário, até que emendou a sua conduta e presenteou o Banco da Nação ao City Bank.
Quando as tropas se retiraram, deixaram um país bastante pior do que aquele que haviam encontrado.
Oxalá, não se repita a história, agora que as tropas norte-americanas retornaram, trazidas pelo terremoto, e sobre as ruínas exercem o poder absoluto.
Terra desolada, gente desesperada: o Haiti viveu mal a sua vida, quase sempre submetido a ditaduras militares. Ditadura após ditadura: para que calem os muitos e mandem os poucos.
Um dos ditadores, Baby Doc Duvalier, escapou da fúria popular em janeiro de 1986. Fugiu, acompanhado por milhões de dólares, no avião militar que o presidente Ronald Reagan lhe enviou, em agradecimento pelos serviços prestados.
Tempos depois, por ocasião do terremoto, Baby Doc anunciou, do exílio, que doaria ao Haiti uma parte do dinheiro que havia roubado. Foi comovedor. Quase tanto como o gesto do Fundo Monetário Internacional, que decidiu emprestar ao Haiti 100 milhões de dólares.
A experiência demonstrou, na América Latina e em todo o mundo, que os especialistas internacionais são tão úteis quanto os ditadores militares, talvez mais, e são muito mais apresentáveis, porque matam para ajudar as suas vítimas.
No Haiti, como em muitos outros países, foram o Fundo Monetário e o Banco Mundial que pulverizaram o poder público e eliminaram os subsídios e as tarifas alfandegárias que de alguma maneira protegiam a produção nacional de arroz. Os camponeses que viviam de sua produção foram convertidos em mendigos ou balseiros, jogados nas ruas ou aos tubarões, e o Haiti passou a importar o arroz, esse sim subsidiado, esse sim protegido, dos Estados Unidos.
Graças aos bons serviços destes filantropos internacionais, o terremoto aniquilou um país aniquilado: sem Estado, sem instituições, sem hospitais, sem escolas.
Sem nada? Sem nada de nada?
Em 1996, o deputado alemão Winfried Wolf, que passava alguns dias no Haiti, consultou as estatísticas internacionais. Havia escutado milhares de vezes que o Haiti é um país superpovoado. Surpreendeu-se ao saber que a Alemanha está quase tão superpovoada quanto o Haiti. Mas admitiu: "Sim, o Haiti está superpovoado... de artistas".
Winfried percorria os mercados sem se cansar nunca de tanto admirar as criações da arte popular deste país. As haitianas e os haitianos têm mãos magas, que revolvem o lixo e do lixo tiram ferro velho, cristais quebrados, madeiras gastas, coisas que parecem mortas, e essas escultoras e escultores lhes dão vida e alegria.
O Haiti é um país jogado no lixo, terra desprezada, terra castigada, que agora parece, depois do terremoto, mais morta que nunca. Restaram mãos magas capazes de ressuscitá-lo?
Um dos sobreviventes, que perdeu mulher, filhos, casa, tudo, respondeu à pergunta de um jornalista: "E agora? Agora choro. Todas as noites choro. Aqui, na praça onde durmo, choro. E depois me levanto e caminho. Sem destino. Caminho. Sigo. Busco a vida. Não me perguntes por quê".
Fonte: Vermelho |
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Por: Carlos Alberto Saraiva
Nos próximos dias 3, 4 e 5 de março, o Supremo Tribunal Federal promoverá uma série de audiências públicas envolvendo acadêmicos e ativistas políticos que discutirão a política de cotas raciais nas universidades públicas. Tais audiências buscam subsidiar decisão que a Suprema Corte tomará contra ou a favor da política afirmativa do governo Lula.
As cotas foram o primeiro assunto tratado neste blog. Na verdade, a interdição desse debate na mídia em 2006, ano da criação desta página, foi uma das causas de sua criação ao lado da tentativa da mídia e da oposição, naquela época, de derrubarem o governo Lula por conta do "mensalão" .
Escrevo inspirado por um texto sobre as audiências no STF que li no blog do Luis Nassif, no qual o ativista negro anticotas José Roberto Militão, que se diz "membro efetivo da Comissão de Assuntos AntiDiscriminatórios - CONAD-OAB/SP", engrossa o coro de mentiras de que essa questão é alvo toda vez que é discutida publicamente.
Este post tentará mostrar, de forma direta e simples, por que as cotas para negros são uma exigência moral.
Antes, porém, devo esclarecer que sou branco, estudei em caras escolas particulares paulistanas tais como Dante Aligheri, São Luis e São Bento, e que meus filhos, hoje cursando o ensino superior - com exceção da caçula, que tem onze anos e é portadora de paralisia cerebral, e da segunda filha, que estuda inglês na Austrália -, também estudaram em escolas particulares da capital paulista (Regina Mundi e Cristo Rei).
A questão das cotas me revolta porque, para combatê-la - a meu ver numa tentativa vil de preservar a desigualdade de oportunidades em um dos países mais injustos do mundo -, seus inimigos chegam ao ponto de mentir descaradamente como o tal Militão fez no blog do Nassif ao dizer que 63% dos negros seriam contrários às cotas.
A mentira de Militão é facilmente desmontada por uma pesquisa de opinião do instituto Datafolha. Apesar de intencionalmente truncada por uma exposição de dados que permite confundir percentuais sobre grupos sociais com percentuais sobre o total da amostragem, a pesquisa revela que 66% dos afrodescendentes apóiam as cotas.
O que é doloroso nessa discussão é a mentira. E o mentiroso mais notório é o acadêmico de plantão da mídia para essa questão, Demétrio Magnoli, que sempre se cerca do cuidado de nunca debater de frente o alvo de sua campanha inglória a fim de poder mentir à vontade, participando de debates só com quem concorda com ele.
Sou alguém que não tem nenhum interesse particular nessa questão. Defendo as cotas raciais porque são a única forma de acabar com essa vergonha que era a (hoje) etnia majoritária da população brasileira responder por apenas 2% dos universitários no primeiro ano do governo Lula - hoje já são 10%, o que ainda é muito pouco porque os afrodescendentes já são mais de 50% dos brasileiros.
O que a discussão anti-cotas procura escamotear é que sem as cotas toda uma geração de jovens negros - e descendentes de negros, ditos "mestiços" - estaria condenada a não se formar.
Sob uma argumentação malandra de que seria preciso "melhorar a escola pública" em vez de instituir cotas raciais, os defensores da segregação intelectual étnica e dos privilégios para os filhos da elite branca tentam esconder que é impossível melhorar a escola pública ao ponto necessário em menos de uma geração.
A escola pública é obrigação de Estados e municípios. Quando vemos que o Estado mais rico da Federação tem uma escola pública que está entre as piores do país, só aí já se pode perceber que essa melhora ainda irá demorar muito e só acontecerá na hipótese ainda improvável de a população paulista, por exemplo, começar a eleger governos mais afinados com as demandas sociais.
Mesmo que, num passe de mágica, fosse possível igualar o nível das escolas públicas ao das escolas privadas a fim de que toda esta geração de jovens em idade escolar pudesse disputar uma vaga na universidade pública e gratuita (sustentada pelos impostos de brancos e negros), as disparidades de renda impediriam a igualdade de condições.
Uma questão desnuda o problema todo: como c que não têm meios de comprar livros, viajar, ir ao cinema e ao teatro como os filhos das classes sociais mais abastadas poderiam competir com eles intelectualmente?
As cotas, enfim, são necessárias porque o atual sistema de seleção de universitários, o famigerado "vestibular", coloca jovens negros e pobres que não tiveram as mesmas oportunidades que jovens brancos de classe média e alta para disputarem com estes vagas em universidades públicas em igualdade de condições.
Meus filhos são prejudicados porque nem podem contar com crédito educativo dos bancos oficiais por terem estudado sempre em escolas particulares. Hoje custeiam seus estudos com o próprio trabalho porque, como tenho uma filha com paralisia cerebral (tendo que arcar com terapias caríssimas, pois o Estado não me dá nada), não posso ajudá-los. Mas não me queixo porque as escolas, o padrão de vida que pude lhes dar, permitiram que conseguissem melhores empregos.
Não quero privilégios para os meus filhos sobre aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eles porque não quero um país injusto. Como bem preconizava o iluminista Montesquieu, "A injustiça que se faz a um é ameaça que se faz a todos". Enquanto o Brasil for tão injusto, todos, em algum momento, estarão ameaçados.
Fonte: Blog do Saraiva |
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Por: CONTARDO CALLIGARIS
Basta olhar as filas das visitas nos presídios para saber que lealdade não é qualidade masculina
NA TARDE de quinta-feira passada, estive no Presídio Feminino do Butantã, situado na rodovia Raposo Tavares, longe do bairro paulistano do Butantã.
Aconteceu assim: antes do fim de ano, Wagner Paulo da Silva, que eu não conhecia, me escreveu explicando que ele organizava um grupo de leitura regular para detentas desse presídio. O grupo (mais ou menos 25 mulheres) tinha discutido uma de minhas colunas; quem sabe eu me dispusesse a proporcionar um "encontro com o autor"?
Soube depois que Wagner da Silva e Durvalino Peco animam há anos esse grupo de leitura para detentas do presídio do Butantã e, agora, com o apoio do Estado de São Paulo, estendem o programa a 26 penitenciárias da região metropolitana (para isso, eles promovem, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, um curso gratuito de formação de mediadores -as inscrições já estão encerradas, mas vale a pena conferir: www.fespsp. org.br/leiturativa/).
Enfim, voltando das férias, liberei uma tarde para aceitar o convite e encontrar minhas leitoras. Ficamos conversando mais ou menos duas horas, e saí de lá com algumas reflexões. Eis uma delas.
A prisão, para as mulheres, é uma punição mais severa do que para os homens, e a causa dessa diferença é um atributo feminino.
Claro, há homens leais e mulheres desleais, mas, em regra, a lealdade é uma qualidade mais feminina do que masculina. Não estou pensando na fidelidade amorosa e sexual -nesse campo, homens e mulheres são capazes das mesmas "traições". Penso numa lealdade mais fundamental, que uma comparação vai explicar facilmente.
Em dia de visita numa penitenciária masculina, a fila de mulheres (esposas, mães, filhas, irmãse) é longa: facilmente, é mais de uma visita feminina por cada preso.
Em dia de visita numa penitenciária feminina, a fila é curta e, em sua grande maioria, composta pelas mães das detentas; os homens aparecem num número irrisório. Sei lá, por 700 mulheres no presídio, uma dúzia de gatos pingados visitando. Os homens se esquecem de suas companheiras assim que as portas do presídio se fecham sobre elas. Abandonada pelo companheiro ou marido, a mulher (outra prova de lealdade) prefere duvidar de si: será que o marido nunca comparece porque ela não é, nunca foi, a mulher que ele queria?
A deslealdade masculina aparece também quando os homens são presos; eles são bem felizes de receber a visita das mulheres que voltam a cada semana, lealmente, anos a fio, mas, com frequência, se esquecem dos filhos que deixaram fora do presídio.
As mulheres presas, ao contrário, só pensam nas crianças que estão lá fora (em geral, com a avó; quase nunca com o pai). E, de novo, a lealdade com as crianças as leva a duvidarem de si mesmas: no dia em que sairão do presídio, os filhos não as reconhecerão, ou então, de qualquer forma, eles já gostam de avós, vizinhas, tutores e tutoras mais do que delas -e por aí vai.
Facilmente, as mães detentas vivem o afastamento das crianças não como consequência da punição pelos crimes que elas cometeram, mas, bem mais sofrido, como punição por elas não "merecerem" ser mães -como se os filhos estivessem longe porque elas não souberam e não saberiam ser mães.
As mulheres, qualquer criminologista sabe, agem criminosamente por razões diversas das dos homens. Em regra, matam por paixão amorosa; quando traficam ou assaltam é, frequentemente, para acompanhar o parceiro.
Com isso, a prisão feminina é uma espécie de pena do talião: crimes cometidos por amor são punidos pelo sumiço dos homens amados e pelo medo da perda do amor das crianças.
Na época em que trabalhei em instituições psiquiátricas fechadas, quando o expediente terminava e estava na hora de ir embora, no fim do dia, eu era acometido por uma tristeza profunda. Acabava de compartilhar um bom tempo com os que estavam lá internados, e eis que, agora, eu ia embora, para uma casa, uma companhia, o convívio dos amigos. E eles, não; eles ficavam. A tristeza era uma espécie de culpa por abandoná-los no que era, de fato, uma desolação. Pois bem, ao sair da penitenciária do Butantã, não senti nada disso, pois não havia desolação.
Não teria como fazer elogio maior à direção do presídio, à equipe que lá trabalha e às detentas que encontrei, pela resiliência de sua vontade de viver.
Fonte: Folha de S.Paulo |
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por: ELIO GASPARI
Se eu dissesse que existiam duas Paris, a dos bairros e a dos não bairros, a guilhotina teria sido reinaugurada
PREZADO governador José Serra,
Fora da França pouca gente lembra de mim. Chamo-me Aristide Briand e era o primeiro-ministro no dia 21 de janeiro de 1910, quando o rio Sena subiu oito metros, inundou Paris, desalojou 200 mil pessoas, matou umas vinte e, em dinheiro de hoje, destruiu um patrimônio avaliado em um bilhão de dólares. Minha enchente começou no mesmo dia em que, cem anos depois, os rios de São Paulo alagaram uma parte de sua cidade e oito pessoas morreram.
Soube que o senhor poderá ser candidato a presidente do Brasil e acho que posso ajudá-lo com algumas ideias gerais e uma sugestão prática. Antes, permita que me credencie: a enchente foi em janeiro e eu ganhei a eleição em abril. (Ao todo, ganhei outras dez.)
Vossa enchente haverá de passar. Com isso, baixarão as tensões e o senhor poderá se dedicar ao combate a alguns vícios de gestão e de política. Entendamo-nos: o rio Tietê está assoreado, o manejo das águas foi inepto e a defesa civil, quase inexistente. Esses fatores não impediriam o desastre, mas poderiam reduzi-lo. Aqui, por exemplo, os túneis dos esgotos e do metrô aumentaram a vulnerabilidade da malha urbana.
Há outros vícios, d'alma. São Paulo não ama seus rios. Basta olhar a feiura das vossas pontes. (Está aqui o Le Corbusier dizendo que há uma nova, bonita.) Os administradores da cidade desdenham as vicissitudes dos moradores das áreas que são inundadas e frequentemente culpam os cidadãos por morar em localidades de ocupação irregular. Um administrador não pode dizer que é irregular a ocupação de uma área onde há edificações com mais de dez anos. Não existem uma cidade e uma não cidade. O senhor acha que alguém mora em Jardim Pantanal porque não gosta da Avenue Foch? Não conheço político que deixe de pedir votos nesses Jardins. Por falar nisso, por que vocês chamam essas áreas de Jardins?
A responsabilização dos moradores busca esconder a responsabilidade dos administradores. Se ousássemos recorrer a esse tipo de argumento em Paris, a guilhotina teria voltado à Place de la Concorde, que esteve inundada em 1910. O Luís 16 chorou ao ver uma fotografia do seu prefeito visitando o Jardim Romano, encolhido na caçamba de uma camionete. Pensou que o levavam para a lâmina.
Governador, procure entender a oposição. D. Helder Câmara me mostrou alguns papéis do Partido dos Trabalhadores e acho que fazem sentido. Não me entenda mal. Apesar de ter começado na política pela esquerda, baixei-lhe o sabre quando foi necessário.
Finalmente, a proposta prática: faça como fizeram em Paris. Providencie mapas de suas cidades, detalhadas ao nível de quarteirão, e identifique as áreas onde há riscos de transbordamento dos rios, onde há o perigo de empoçamento do subsolo e quais os lugares onde o fornecimento de energia ficará vulnerável. Em Paris, por exemplo, sabemos que pode faltar luz no Banco de França, a prefeitura pode ser inundada de baixo para cima e o Sena pode alagar um trecho da Avenue Montaigne.
Coloque esses mapas à disposição do povo. O senhor jogará luz sobre os riscos da população e sobre as responsabilidades dos administradores. Amem vossos rios, amem toda a cidade, amem vosso povo. (Eu sou um romântico, mas ganhei o Prêmio Nobel da Paz.) Saudações parisienses,
Aristide Briand
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por: Flavia Guerra
Primeiro longa de Jeferson De, criador do Dogma Feijoada, Bróder tem première hoje na Alemanha e projeta Capão Redondo na tela de um dos maiores festivais do mundo

RETA DE CHEGADA - Após quatro anos de trabalho, Jeferson De conseguiu terminar seu primeiro longa quatro dias antes da exibição na Alemanha; filme contou com colaboração de Ferréz e a bênção de Mano Brown
"Todo maloqueiro tem em si motivação para ser Adolf Hitler ou Gandhi", canta o rapper E.M.I.C.I.D.A. enquanto o que se vê na tela é uma panorâmica do Capão Redondo, um dos bairros mais famosos e, ao mesmo tempo, esquecidos de São Paulo. "Dá para tirar este Hitler e botar um bip no lugar?", pede Jeferson De. "Por quê?", rebate o "supervisor" da trilha sonora João Marcelo Bôscoli. "Como o filme vai passar na Alemanha, acho que não vai pegar bem falar em Hitler", responde De.
O filme em questão é Bróder, que faz sua première mundial hoje no Festival de Berlim. Primeiro longa do diretor, representa o Brasil na Panorama, uma das mais prestigiadas mostras competitivas do festival que termina sábado. Detalhe: o diálogo acima ocorreu há menos de uma semana. "Que estranho saber que meu filme vai ser exibido, que o festival já começou e eu ainda não terminei!", comentou De ao Estado enquanto "apagava" o Hitler de sua história, em um estúdio da gravadora Trama em São Paulo. "Berlim vai mostrar o preto que voa e o preto que não voa, que usa bilhete único." Assim De comentou a participação de outro filme do Brasil, Besouro (o "do preto que voa", de Daniel Tikhomiroff), e do seu Bróder na mesma seção.
É de fato irônica e complementar a escolha dos dois filmes. Besouro conta a história de Besouro Mangangá, o capoeirista que desafiava as leis da gravidade e os senhores de engenho em um Brasil recém liberto da escravidão. "No Brasil de 1897, quase todos os negros ainda sem a plena consciência de sua cidadania" diz a história de Besouro. No Brasil de 2010, não se pode afirmar que essa consciência tenha evoluído muito. O negro de Bróder não voa, continua tendo de se desdobrar para conseguir sair das três "opções profissionais" para se incluir no mercado de trabalho: "Morador da perifa tem o direito de virar jogador de futebol ou bandido. Quem não "opta" por nenhuma dessas rala muito para pagar o aluguel no fim do mês", sentencia De.
Se o "bróder" da perifa não voa, Jeferson De voou contra o tempo para terminar seu filme. Ele embarcou há dois dias para Berlim e Bróder, o filme, seguiu dois dias antes, no sábado, recém-saído da sala de montagem. De, que anda de ônibus, trabalhou quatro anos para encerrar Bróder com a canção de E.M.I.C.I D.A que vem a calhar: Triunfo.
O Estado acompanhou a última semana de trabalho e conferiu de perto o frio na barriga de um diretor estreante para botar seu filme na lata e na tela de um grande festival internacional. "Cheguei a parar por quase um ano e a pensar que nunca terminaria, mas a seleção para Berlim deu novo fôlego. Esse é um projeto com grande potencial comercial. Há uma imensa galera da perifa e fora dela que tem tudo para gostar."
Orçado em R$ 3milhões, Bróder é uma produção da Barraco Forte (sua produtora) e da Glaz Enternaiment, e conta ainda com a Columbia e a Globo Filmes. "Queremos lançar tanto em grandes salas quanto nas comunidades."
Bróder conta a história de três amigos de infância, Macu (a semelhança com Macunaíma não é coincidência), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane). Jaiminho virou jogador de futebol. Pibe é corretor de imóveis. Macu (Caio Blat) foi seduzido pelo crime e "alugou" sua casa para uma gangue de traficantes que pretende sequestrar uma criança. Tudo vai bem até que a gangue decide sequestrar Jaiminho.
Mais que botar seu filme na fita, De conclui com Bróder um projeto que nasceu há 13 anos, quando criou o Dogma Feijoada (leia quadro). De dogmático, o Dogma não tem muito. A começar pela escolha do herói (ou quase) da história, que é, por si só, uma contradição. Macu é branco. Será? Quando De convidou Caio Blat para viver o personagem, ouviu: "Obrigado, eu sempre quis ser negro."
Assim sendo, pode-se dizer que Berlim também vai mostrar o filme do branco que é negro. O diretor resolveu dar a um ator branco o papel de seu primeiro longa para, na verdade, questionar o que é ser negro e o que é ser branco em um país em que, como diz a canção, as riquezas são diferentes, mas miséria ainda é miséria em qualquer canto. Não é por acaso que Bróder é o primeiro longa a projetar o mítico Capão na tela. "Nenhum cineasta paulista cumpriu bem a tarefa de retratar a periferia paulistana. Está na hora dos diretores tirarem suas lentes da Vila Madalena e mirarem a perifa", provoca De. E filmes como Antônia, Os 12 Trabalhos, Contra Todos, Linha de Passe? "Respeito meus colegas, mas nenhum conseguiu traduzir bairros complexos como o Capão."
Seja como for, o fato é que Bróder traz finalmente um diretor negro à frente de um filme sobre essa fatia ainda tão mal entendida do Brasil. "É um projeto de dentro para fora. Não importa quem é negro ou branco. Importa quem é excluído. É uma história de irmandade, para pegar pela emoção e não um manifesto."
Caio Blat diz que o mais importante foi conhecer as pessoas no Capão e ter a bênção para representá-las. "Conheci muitas histórias como a do Macu, muitas mães que perderam seus filhos. Mas o clima lá agora é de superação. Os dias de guerra dos anos 90 passaram, e, por incrível que pareça, o que pacificou o bairro não foram programas de governo. O que mais contribuiu foi a organização do crime, a unificação, acabando com as disputas entre gangues."
Caio sabe do que fala. Para se preparar para viver Macu, mudou-se por conta própria para o Capão. "O Brasil é um país jovem e negro. Espero que se reconheça no filme." Para diretor e ator, tão aguardada como a sessão em Berlim será a sessão no Capão "para a molecada ver o bairro dela no telão." É nóis na fita, mano!
Entenda que 'Dogma' é este
UMA QUESTÃO DE INCLUSÃO: Dogma Feijoada é fruto dos estudos que Jeferson De realizou em 1997 e 1998 sobre diretores cinematográficos dos negros brasileiros, para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Em vez de exclusivista, esse "dogma" é universal e não prevê tratar somente de questões negras, mas dar maior visibilidade aos negros e tratar com naturalidade (não com clichês) a cultura negra brasileira no cinema. A inclusão vai desde os temas até trilha e elenco. Bróder, por exemplo, marca a estreia do rapper Du Bronk"s (do Rosana Bronks) como ator. Na trilha, tem de Racionais a Baden Powell, passando por Jorge Benjor.
Fonte: Estadão |
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Primeiro ator negro a ganhar um Oscar lança livro em que aborda lições aprendidas ao longo de seus 80 anos de vida Astro de "Ao Mestre com Carinho" fala de sua infância pobre nas Bahamas e diz que deixa "mundo fraturado" como herança
O título em português da autobiografia de Sidney Poitier, "Uma Vida Muito Além das Expectativas", pode soar pretensioso, mas ele tem mais a ver com sua infância do que com o que se deu na carreira do ator.
Ele nasceu prematuro de sete meses, com 1,4 kg, e longe de um hospital -o preconceito contra os negros era violento. Era 20 de fevereiro de 1927. Sua mãe foi buscar alternativas para salvar a criança, enquanto seu pai saiu para encontrar uma caixa de sapatos para enterrar o filho. Sem esperanças médicas, a mãe visitou uma vidente para saber o que aconteceria ao bebê. Ela previu: "Ele crescerá e viajará por quase todos os cantos do mundo. Caminhará ao lado de reis. Será rico e famoso". Acertou em tudo.
Então, aos 80 anos, extasiado por conhecer a primeira bisneta, Poitier resolve escrever sua terceira autobiografia, com esta e outras lições de vida. Após a turbulência precoce, ele teve uma infância pobre e simples na pequena Cat Island, nas Bahamas. De lá, foi para Nassau, onde se viu no espelho pela primeira vez aos dez anos. Em seguida, nos EUA, tirou sua primeira fotografia aos 16 e leu seu primeiro livro, aos 20. O dinheiro era contado. Muitas vezes faltava. Ingressou no Exército para fugir do frio e da fome. Depois trabalhou como lavador de pratos por anos, até ter seu destino desviado para uma seleção de atores.
Foi muito mal no teste, como era de esperar. Mas a dispensa pelo produtor só fez com que ele pusesse mais determinação em entrar no meio artístico. "Aos 23 anos, eu dera início à lenta ascensão na carreira de ator e fizera meu primeiro filme, "O Ódio É Cego" [1950]", conta na obra. Ganhou US$ 3.000. Com a "pequena fortuna", voltou para a casa dos pais pela primeira vez em oito anos, quando sua mãe, sem notícias, pensava que ele tinha morrido. "Essa é a minha vida. Quis que elas soubessem de tudo. Se tivessem 25 anos, poderia explicar. Mas não estarei lá. Fiz o livro porque não conheci meus bisavós, perdi a história de meus ancestrais. Não quis que isso acontecesse com elas."
O relato não se detém em Hollywood. "Os filmes estão à disposição. Agora, quis mostrar a elas quem eu era", explica. Ao todo, fez mais de 50 filmes e, em 1963, foi o primeiro ator negro a ganhar um Oscar, por "Uma Voz nas Sombras". Em 2002, levou mais uma estatueta pelo conjunto da obra.
"Foi o máximo [risos]. Filmes com negros não eram feitos. Mas havia quem visse a humanidade como uma família e não como senhores e escravos. Fui escolhido para o papel de um médico negro [em "O Ódio É Cego']. Com isso, Joseph L. Mankiewicz inspirou pessoas pelo mundo. Tínhamos uma democracia segregacionista, que não permitia que os negros participassem da sociedade. Era um resíduo da escravidão."
Contudo acha que a Terra "não está em sua melhor forma". "Deixo de herança um mundo fraturado. A religião e nossa imperfeição abusam dos dias de hoje. O universo nos fez imperfeitos para nos impulsionar a buscar pelo melhor. Estamos melhorando, mas não tão rápido quanto eu gostaria." Poitier já tem um novo livro: "Mas não terá nada da minha vida". Entregou os manuscritos de um romance de ficção científica. "Deve ser minha última empreitada literária. Será sobre como vejo a galáxia. Não temos para onde ir, mas podemos tentar. Assim evoluímos. Não venceremos. Se nascemos, vamos morrer. Mas é um momento ótimo para estar vivo."
Estou com 82 anos. Provavelmente não vou estar aqui quando [minhas bisnetas] fizerem 15 anos. Quis deixar minha visão do mundo. É um assunto pesado para crianças, mas, daqui a dez anos, poderão saber e sentir o que era a minha vida SIDNEY POITIER
Ator abriu as portas para artistas negros
A cena mais marcante da carreira de Sidney Poitier acontece em "No Calor da Noite" (1967), de Norman Jewison. Interpretando um policial chamado Virgil Tibbs, Poitier interroga um poderoso senhor de terras do Mississippi, Eric Endicott (Larry Gates) sobre um assassinato. O racista Endicott, sentindo-se humilhado, dá um tapa na cara de Tibbs. A reação é imediata: Tibbs devolve o tabefe, mais forte ainda. "Aquele tapa valeu por mil marchas contra o racismo", disse, quase 30 anos mais tarde, Rod Steiger, que levou Oscar de melhor ator pelo filme. "Foi um choque. Ninguém havia visto uma cena daquelas no cinema." O curioso é que o revide não estava no roteiro e só foi incluído por exigência de Poitier. No meio do caos social e dos conflitos raciais que sacudiam a América no fim dos anos 60, o tapa de Tibbs ecoou forte e fez de Poitier um ícone do movimento negro. Ali estava um sujeito fino e elegante, mas que não levava desaforo para casa. Primeiro ator negro a ganhar um Oscar (por "Uma Voz nas Sombras", 1963), Poitier abriu as portas de Hollywood para um sem número de atores negros. Sua influência é enorme e sua carreira, brilhante, como atestam "Ao Mestre com Carinho" (1967), "Adivinhe quem vem para Jantar" (1967) e tantos outros ótimos filmes.
UMA VIDA MUITO ALÉM DAS EXPECTATIVAS
Autor: Sidney Poitier Tradução: Catharina Pinheiro Editora: Larousse Quanto: R$ 44,90 (304 págs.)
Fonte: Folha de São Paulo
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Jocélio Teles analisa episódio de racismo institucional em show de Beyoncé. Foto: Iracema Chequer| AG. A TARDE
Jocélio Teles
Provocado pela mídia me desloquei com um amigo para o show de Beyoncé no Parque de Exposições. Havíamos comprado ingressos para a pista Vip, área restrita a quem pagasse R$ 370. Enquanto assistíamos ao show de Ivete Sangalo veio um exemplo de racismo institucional. Uma guarnição da Polícia Militar abruptamente abordou o meu amigo, circundando-o e já levando-o de modo truculento, sem nada perguntar.
Ao me aproximar para saber o que estava acontecendo, os soldados me afastaram. A resposta do corpo policial traduziu força e ameaça, mesmo que implícita, sem nenhum texto, a não ser o gestual, e demonstrou que não há verbo capaz de estabelecer um diálogo entre sujeitos que detém e os que devem ser alijados de alguma relação com aqueles que personificam o poder.
O meu amigo estupefato não reagiu. Foi levado para um canto da pista VIP, próximo aos holofotes e humilhado pela revista policial, como se estivesse cometido um delito. Por fim, após a crueldade de todo o rito da PM, ouviu a seguinte frase: "houve um roubo aqui na área VIP e soube que a pessoa era do seu estilo". Qual estilo, cara pálida? Respondo: o da cor/raça. Meu amigo é negro retinto.
A área VIP era formada majoritariamente por indivíduos de classe média e branca. Se comparada com a área de pista mais barata, ali havia uma proteção policial considerável, mesmo sendo uma área reservada e sem grande fluxo de pessoas. A lógica da distribuição policial em espaços de eventos elitizados parece obedecer a critérios. Quais? Procuremos os sentidos implícitos, já manifestos na distribuição desigual da PM na cidade do Salvador.
Diante desse fato de racismo explícito, o que dizer dos olhares das pessoas diante de tal brutalidade? Ao ver um negro sendo levado por policiais, mesmo ele estando na área VIP, algo que indica um diferencial em termos de classe, um sentimento de proteção emana das cabeças ali situadas.
A naturalização do racismo - uma pessoa negra sempre é suspeita - associa-se aos que imaginam estarem sempre sendo protegidos pela corporação militar. Exemplos como esse abundam no País. O diferencial é que foi na ala VIP de um show. Lembro-me que no debate sobre as cotas raciais nas universidades os que eram contrários insistiam em dizer que no Brasil era difícil definir quem é negro. A resposta dos ativistas atualizou-se na área VIP para ver Beyoncé: "pergunte a polícia. Ela saberá".
Jocélio Teles é doutor em antropologia e coordenador do Programa de Pós Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Ufba ( Pós Afro)
Fonte: Mundo Afro
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ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, voltou a falar sobre o Programa Nacional dos Direitos Humanos. Segundo o ministro, apesar do fim da ditadura no país, ainda há uma "dificuldade no aprendizado da democracia" no Brasil, o que poderia explicar as polêmicas que surgiram com a divulgação do programa.
"O Brasil tem 21 anos de democracia contra quase 500 anos de escravidão, de genocídio indígena, de ditaduras, de repressão. Em 500 anos de violência e de desrespeito, 21 anos de democracia ainda são suficientes para criar cultura nova", afirmou. Segundo ele, a reação ao programa reflete "o pensamento antigo, que não aceita que ciganos, homossexuais e pessoas discriminadas pela condição econômica, por serem índios, afrodescendentes ou mulheres, tenham direito a voz".
"É preciso que uma conferência de direitos humanos da Bahia ou do Brasil assegure essa voz e a organize num documento, que não é lei, e que é apresentado aos poderes públicos para que estes, assim o entendendo, a transforme em lei", disse.
De acordo com Vannuchi, os primeiros debates a respeito do plano começaram em "forma de pancadaria", mas agora estão ocorrendo também fora do governo tais como em universidades e na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Vannuchi assumiu que, caso erros existam, são de sua inteira responsabilidade. Sobre o tema do aborto, por exemplo, que ele assumiu como equívoco, prometeu encaminhar uma correção, mas somente após discutir o assunto com outros setores além da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
"Em direitos humanos precisamos tentar sempre construir o máximo de consenso possível. Não é ficar brigando entre partidos, entre adversários eleitorais", ressaltou.
O ministro também comentou sobre a discussão envolvendo a homossexualidade nas Forças Armadas. Para Vanucchi, o fato de o general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho ter enviado uma carta ao Senado se retratando de declarações consideradas homofóbicas pode ser considerado um avanço.
"O velho vai sendo superado pela abertura, pelo pensamento novo e a cada dia mais as pessoas compreendem isso", afirmou. "Não importa a sexualidade. Se a pessoa é um bom militar, disciplinado e cumpre suas missões, não há porque haver preconceito. É isso o que a Constituição diz", ressaltou.
Fonte: Correio Braziliense
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Por: Admin
Descaso com políticas públicas de habitação é marca do primeiro ano de governo do prefeito Eduardo Paes
Olimpíadas ameaçam outras comunidades Modelo é o mesmo desde o século 19 Construção simbólica sobre as favelas justifica arbitrariedades Outra visão sobre o "crime organizado"
No início deste ano, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PMDB) já deu mostras de que vai continuar pecando em relação às políticas públicas de habitação e no tratamento dispensado à população pobre das favelas. No dia 7, a Secretaria Municipal de Habitação divulgou uma relação de 119 comunidades que serão removidas até 2012. O motivo seria o fato de estarem em locais de risco de deslizamento ou inundação; em áreas de proteção ambiental; ou em espaços que deverão ser destinados a investimentos públicos.
Mas, de acordo com Marcelo Braga, da coordenação nacional da Central dos Movimentos Populares (CMP), a definição de "áreas de risco", usada normalmente como justificativa para as remoções, é muito vaga e pode ser aplicada a diversos lugares, segundo vontades individuais. Ele destaca que esse mesmo motivo não costuma valer para bairros como Ipanema, Urca e Leblon, áreas nobres do Rio. "Será que vão ser derrubados também os grandes prédios da Zona Sul, condomínios e mansões em situação de risco? Será que serão feitas obras de contenção nesses locais, como muros e barreiras? Existe alguma dúvida do que será feito, e onde?", provoca. Para ele, o que está por trás do anúncio de remoção das favelas é uma velha política que só visa atender aos interesses de um pequeno setor da sociedade ligado à especulação imobiliária.
A advogada Célia Ravera, ex-presidente do Instituto de Terras do Estado do Rio (Iterj), também critica a remoção das famílias. Para ela, a ocupação dos centros urbanos é fundamental. "Acho que os movimentos sociais devem continuar batalhando para que as áreas centrais da cidade sejam ocupadas por comunidades de baixa renda".
Segundo Célia, que hoje está trabalhando com regularização fundiária na Secretaria do Patrimônio da União (SPU), órgão ligado ao Ministério do Planejamento, a população deve reivindicar seu direito sobre os prédios abandonados há muitos anos, sobretudo construções públicas, porque como o Rio de Janeiro foi a capital federal, esta é uma das cidades que tem mais prédios abandonados e não utilizados para serviço público. "Essa destinação social a prédios ociosos está inclusive prevista por lei. O que as organizações fazem ao lutar pelas ocupações é somente materializar leis que já existem, mas não são cumpridas".
Já em relação às favelas, de acordo com ela, qualquer decisão tomada pelo poder público, como reassentamento ou desocupação, tem que ser vista em parceria com os moradores, garantindo condições justas de acordo.
Violência
Entretanto, a realidade parece bem distante desse ideal. Marcelo Braga, da CMP, conta um caso que testemunhou em 2009. Os moradores da ocupação do antigo Hotel Bragança, que fica na Lapa, procuraram a CMP no final do ano passado dizendo que representantes da Prefeitura estiveram por lá, fizeram o cadastro de quem ocupava o local e falaram que eles teriam que sair, pois o prédio estava condenado pela Defesa Civil. "Segundo a Prefeitura, eles receberiam o aluguel social de R$ 250 e seriam incluídos no programa Minha Casa, Minha Vida. As pessoas, pressionadas, acabaram aceitando a proposta, sob a ameaça de que viria o choque de ordem".
Segundo o militante, algumas dessas pessoas viviam lá há 20 anos e receberam um documento sem assinatura e sem a especificação do tempo em que seria dado o aluguel. "Diante dessa situação de incertezas, conseguimos uma negociação com a Secretaria Municipal de Habitação. Será feito um outro documento que afirma o compromisso do aluguel social, desta vez assinado pelo secretário [Jorge Bittar]. Isso até que recebam a chave de uma casa, de preferência na área central, conforme a vontade e o interesse dos moradores", esclarece Braga.
Para o coordenador, essa foi uma maneira de melhorar a situação, pois muitos já haviam assinado o acordo. "A nossa posição inicial, entretanto, era a de que não deveriam assinar nada e nem aceitar cheque algum, pois quem mora há 20 anos em algum local possui certos direitos. E, além disso, não havia ordem judicial", relatou.
Modelo é o mesmo desde o século 19
Desigualdade do espaço urbano do Rio é resultado de descaso histórico com grande parte da população
Para entender a composição urbana atual do Rio de Janeiro, é necessário pensar nas profundas mudanças ocorridas na cidade nos últimos tempos. No início do século 20, a situação se mostrava bastante promissora para a então capital federal, que se constituía como o principal centro comercial brasileiro de então, além de possuir uma população em grande número capaz de oferecer às indústrias uma alta quantidade de consumidores e também de mão-de-obra.
Porém, a imagem de insalubridade que era marca da cidade precisaria ser extinta para se conseguir alcançar todas as possibilidades de crescimento que apareciam. Naquela época de vielas imundas e ruas estreitas e em declive, típicas do período colonial, era comum ver no centro do Rio habitações coletivas desconfortáveis e irregulares, como os cortiços. Para piorar, foi um período de doenças. Ocorreu uma série de epidemias, como a da febre amarela, peste bubônica e também a da varíola, esta última famosa por ter sido o estopim do episódio conhecido como Revolta da Vacina, em 1904.
Para acabar com a imagem de cidade suja e habitada por gente rude, era preciso higienizar, embelezar e transformar o Rio em centro atrativo para o capital estrangeiro, "vitrine" de um país civilizado e pronto para os avanços e o progresso. Com esse objetivo, uma série de "melhoramentos" tomaram corpo na gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), nomeado pelo presidente Rodrigues Alves.
Bota-abaixo
Deu-se início à política de urbanização, saneamento e modernização que ficou conhecida pelo nome de "bota-abaixo". Os antigos casarões coloniais foram demolidos, as ruas, alargadas, e foram construídas as grandes avenidas, como a Rio Branco, antiga Avenida Central. As práticas religiosas populares passaram a ser vítimas da intolerância do poder público, importou-se a moda estrangeira e inclusive o nosso carnaval passou a ser o europeu das emoções comedidas, em que figuram os arlequins, pierrôs e colombinas. A tentativa de igualar o Rio à capital francesa, Paris, gerou alguns absurdos, como uma lei que obrigava os homens a andarem de terno no centro da cidade.
Apesar de bastante elogiado pela elite local e pelos principais jornais e articulistas da época, esse processo não possibilitou a inclusão dos pobres e dos ex-escravos, que formavam uma parcela considerável da população. Como analisa o professor do Instituto de Geografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Andrelino Campos, as políticas excludentes de então foram mais algumas dentre todas as que fizeram parte da história de formação da cidade do Rio, atrelada desde sempre à produção de injustiça social e de desigualdade do acesso ao espaço pelos indivíduos. "Todo esse processo não permitiu a produção de igualdade entre todos. Se por acaso fosse diferente, não estaríamos falando de cidades capitalistas", avalia Campos.
O caso do Rio ainda é bastante significativo, pois era "onde havia uma massa imensa de escravos que produziam a e na cidade, em um espaço que não era destinado para eles", analisa.
Desde o Império
Apesar da intervenção do poder público no espaço urbano ter sido mais drástica durante o nascer do período republicano, principalmente no início do século 20, as ações de modernização do Rio de Janeiro não foram diferentes das produzidas pelo Império. Andrelino Campos, que também é autor do livro Do quilombo à favela e um dos organizadores do volume Metrópole em mutação, lembra que as políticas produzidas no município desde 1870, como o assentamento dos trilhos de bondes e as reformas de parte do centro, geraram também impedimentos de construções ou ampliação de imóveis, além de ter havido demolições de locais que serviam justamente para abrigar as populações pobres.
Para Campos, o surgimento das favelas no Rio é "resultado de um processo histórico de apropriação desigual do tecido urbano", pois as políticas levadas a cabo no Rio de Janeiro não ofereceram condições de instalar as massas dos egressos do sistema imperial, e nem os deslocados pelos impactos da reforma urbana ocorrida no início do século 20. Isso pode ser percebido, por exemplo, pela situação anterior, e que ainda se mantém, de precariedade de políticas urbanas de habitação e de transporte, além da especulação imobiliária em torno dos centros urbanos. Esses são alguns dos fatores que impediam o acesso a moradias nos centros urbanos, e não permitiam o deslocamento dos trabalhadores, levados a subirem os morros e lá improvisarem sua moradia.
Morro e emprego
Com o passar do tempo, a permanência das favelas e o fim de antigos empreendimentos fizeram com que muita gente se esquecesse desse vínculo entre a população dos morros e a batalha por emprego. Andrelino Campos lembra, por exemplo, o caso da Leopoldina (Bonsucesso, Ramos, Penha, Olaria etc), cortada pela linha férrea, e também o trecho da Avenida Brasil que vai de Benfica a Guadalupe. Antigamente, nesses espaços localizaram-se grandes plantas industriais e/ou armazéns de empresas importantes, que depois acabaram se retirando. "Saíram os setores de negócios e ficaram as favelas, a pobreza, os problemas da falta de emprego, a precariedade da infraestrutura e a falta de sonhos", esclarece o pesquisador.
Para ele, não há razões para estar otimista em relação a melhoria das favelas e das condições de vida de seus moradores, nem mesmo após a escolha da cidade do Rio como sede da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. "Já tivemos na cidade dois grandes eventos internacionais: ECO-92 e o Panamericano. As apropriações dos equipamentos e dos benefícios pelos cariocas foram ínfimas. Será que precisamos esperar alguma coisa diferente dos momentos anteriores?", questiona.
Fonte: Brasil de Fato |
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No caso das enchentes, há um bloqueio da opinião pública quanto a medidas fora daquilo que o senso comum considera razoável
ENCHENTES e desabamentos de morros monopolizam o noticiário. São cenas recorrentes em todos os verões, agravadas agora pelas transformações ambientais e pelo acúmulo de pessoas sem condições de morar em lugares adequados.
Recorrentes também são as críticas da oposição e as justificativas dos governos. Contudo, ambas apresentam as mesmas propostas: remoção de populações, auxílio monetário para alojamento, verbas para afundamento da calha dos rios, obras de proteção de encostas. Paliativos logo esquecidos.
O diagnóstico do problema é simples: "alagamentos decorrem da ocupação do leito dos rios; desabamentos, da ocupação de terrenos impróprios para a construção de casas. Só que não há nada a fazer, porque obviamente não é possível desocupar as casas nas áreas de risco nem construir outras para todos os moradores ameaçados. O custo ultrapassaria o limite do possível".
Resposta padrão, repetida monotonamente para todos os demais problemas do país: violência nas favelas e morros, situação dos presos, abandono dos menores, fracasso do sistema educativo etc.
Resposta que revela a incapacidade das classes dominantes de resolver qualquer problema que implique a restrição de seus privilégios.
Mais grave, porém, é o bloqueio da opinião pública a respeito de qualquer medida fora daquilo que o senso comum considera razoável. Qualquer proposta que saia desse script é logo descartada por reducionista, propagandística, radical.
Num quadro desse tipo, não haverá possibilidade de solucionar o problema das enchentes e dos desabamentos, bem como todos os outros graves problemas que caracterizam a situação de barbárie social em que se encontra o país.
É indispensável, por isso, enfrentar esse bloqueio e propor as soluções efetivas dos problemas nacionais, ainda que, num primeiro momento, elas possam não ser entendidas pela maioria do eleitorado.
Por exemplo: no caso das enchentes, é preciso propor a desocupação da calha dos rios.
No caso das favelas, é preciso propor o adensamento da malha urbana, com a construção de edifícios para abrigar a população das áreas impróprias nas zonas centrais das cidades, perto de seus locais de trabalho.
Mas atenção! Primeiro proporcionar habitações aos moradores dessas áreas de risco, depois efetuar a operação de devolução do leito e das encostas à natureza. Novamente, atenção! Não apenas os moradores devem sair. Empresas como a Bauduco, a Votorantim e várias outras que se estabeleceram nessas várzeas também devem ser retiradas desses lugares.
Mas e o dinheiro para isso? O dinheiro virá das mesmas fontes que irrigaram o sistema financeiro para evitar o colapso dos bancos e para premiar especuladores.
Uma população condicionada ao conformismo não se arrisca a exigir seu direito nem consegue solidarizar-se com os demais para enfrentar coletivamente a dominação.
Caio Prado Jr. e Celso Furtado mencionaram várias vezes que o maior problema brasileiro era a ignorância acerca de suas limitações e de suas possibilidades. Por isso, alimenta ilusões de grandezas que não tem e descarta as ações que estão dentro das suas possibilidades.
Dispomos de todos os recursos necessários para resolver o nosso gravíssimo problema social. Mas, como esses mesmos autores esclareceram, a decisão de resolver os problemas implica o enfrentamento com adversários externos e internos e, consequentemente, o risco de sofrer retaliações.
É o preço da independência. Um povo que descarte essa hipótese, na verdade, não a merece.
Fonte: Folha de S.Paulo
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por: Marcos Rezende
"O carnaval tem outra face outra versão,
Todo mundo sabe todo mundo vê
Só não passa na televisão"
Trecho de música de Tom Zé
Para Lazzo Matumbi
Mais um carnaval de tristeza.
A idéia de que podemos resolver questões do carnaval com algum dinheiro, não resolve e nem resolverá. Também ficar acreditando em uma política salvadora por parte do governo para a população negra parece esgotada. Aliás, o modelo é esgotado. Não funciona. É medíocre.
Hoje a tarde conversei com Lazzo Matumbi, aliás, fiquei mais uma vez impressionado com Lazzo Matumbi. Pois é difícil, muito difícil conversar com Lazzo e não ser interrompido a cada minuto por pessoas que querem tirar foto, cumprimentar e fazer todos os tipos de tietagens que grandes personalidades são acometidas.
Mas enfim voltamos a conversar, e novamente no meio da conversa fomos interrompidos por mais algumas pessoas que queriam tirar fotos. Mas antes de Lazzo ir dar a atenção necessária aos seus fãs perguntei-lhe a respeito da saída do importante e reverenciado Bloco Coração Rastafari ao que recebi atônito a resposta de que este ano o Coração Rastafari não vai sair.
Como assim não sair? Como é possível no carnaval da Bahia o bloco de Lazzo não sair. O bloco da nossa alma não sair. O cantor dos nossos amores e de tudo o que tem de dentro de nós não cantar.
Como tem carnaval sem a "Alegria da Cidade". Sem aquela voz forte, vibrante, doce e intensa quase a sussurrar no nosso ouvido estrofes poderosas como "a minha pele de ébano é, a minha alma é nua" ou "Eu sou parte de você, mesmo que você me negue".
Como pode Lazzo não sair no carnaval com a infra-estrutura necessária e parecer que está tudo normal. Não está. Temos a obrigação de fazer uma reflexão séria a respeito.
O Coração Rastafari não vai sair porque o valor que se paga para nós negros de blocos afros é irrisório, é uma piada e de péssimo gosto, e olha que melhorou muito nos últimos anos, e nós do CEN tivemos uma grande contribuição para tal, lutamos por um carnaval com critérios, mas o Ouro Negro ainda é de tolo e ainda falta muito. A política cultural nesse Estado não existe. É uma mentira. Embromação. Hipocrisia.
Aqui neste estado o cantor tem que deixar de ser cantor e ser esmole, bater todo dia na porta da secretaria, do parceiro, das empresas, e deixar o sorriso e a alegria da cidade de lado. Tem que se ajoelhar para receber um recurso que chega ou não, que depende das análises dos burocratas, que nada sabem sobre nós negros a não ser em marketing de out-doors com as suas campanhas milionárias a utilizar as peles de ébano das nossas baianas de acarajé de sorriso largo ou do corpo bem feito dos capoeiristas ou os encantos dos terreiros de candomblé.
Mas como estão todos eles, ou cada um dos nossos pedaços espalhados nesta cidade? Estão destruídos pelo crack e pela negligência do Estado, estão a margem de tudo, abandonados a própria sorte em uma estrutura que não dá a mínima.
Vamos lá ver a Praça do Reggae e a luta de Albino Apolinário para sobreviver e manter a tradição frente a toda a perseguição. Dois Mundos desejando um trio que caiba no orçamento, Alaíde do Feijão, mãe preta de todos nós, sustentando o mundo ao seu redor e sem qualquer apoio qualificado a sua altura, vamos olhar o Opo Afonjá e o descaso que existe com o que há de mais sagrado e ancestral para o nosso povo. Vejamos o nosso Mestre Curió e a sua caminhada cotidiana pela defesa da capoeira, Rita e as nossas baianas da ABAM que mesmo tendo o ofício tombado lutam contra os bolinhos de Jesus. Os nossos jovens das periferias atingidos por projéteis pelas costas, os nossos afoxés desesperados com fantasia de morim em alas de dança decrépitas, ou utilizando camisas de tecido sintético. Os blocos afros desesperados para tentar pagar as bandas percursivas, ou vender fantasia para uma comunidade preta, pobre e marginalizada.
Está tudo aí, podre e exposto, mas é tempo de carnaval e não de lágrimas, são milhões de reais movimentados pela festa. Muito dinheiro, muitos camarotes, muitas exibições em televisão de todo o mundo.
Do outro lado João cata lata, Maria faz churrasquinho, meninas e meninos pretos tal qual bichos na multidão, dormindo uma semana na rua, faça chuva ou faça sol acompanhando a mãe, pois o pai. Ah! O pai...
E tem gente que acredita e resiste, combate as DST´s, use camisinha, se for dirigir não beba, se for pipoca não pule, se pular se ligue, se olhar apanha, combata o trabalho infantil.
É Lazzo: "apesar de tanto não, de tanta dor que nos invade somos nós alegria da cidade", e ainda tem muita poesia dentro de ti e em cada um de nós e tem gente que sente sim, que liga e sofre por saber que está tudo errado. Sem o Coração Rastafari na avenida as nossas vozes, a energia dos nossos ancestrais vai sentir falta. Você é nossa voz, nosso ídolo, nosso representante. É através de ti que os nossos corpos falam.
Como dizia Malcolm X: "A liberdade nunca será dada voluntariamente pelo opressor terá que ser conquistada pelo oprimido", então cabe á nós mesmos resolvermos as nossas próprias questões.
E foi assim que eu aprendi, bem ali embaixo do trio sem cordas, eu seguindo você e o Coração Rastafari e a certa altura, quando o seu olhar atento me viu e você disse o meu nome em plena avenida com a sua voz dourada metalizada, você meu amigo Lazzo me ensinou naquela noite que: "Ele queria igualdade entre as raças, e batalhava nos palcos de praças, cantando reggae, Ele era o seu povo rasta, falando da dor que fere a negra e oprimida raça, a muita gente que não tem cidade, Ele deixou amor, tristeza e saudades, e uma voz que floresce e invade e fortalece o grito de liberdade, liberdade, eu grito, eu grito Liberdade. Grito aflito, eu grito ao meu coração Rastafari Liberdade, eu grito Liberdade..."
Meu parceiro, amigo, irmão, a bem da verdade, no final, somos todos escravizados cordeiros a procura de liberdade, destes trios negreiros que agitam as águas turvas do Carnaval.
Marcos Rezende é Ogan do Terreiro de Oxumare, Coordenador-geral do Coletivo de Entidades Negras(CEN), Conselheiro Nacional de Combate a Discriminaçao da Sec. especial de Direitos Humanos/PR, Conselheiro Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Licenciado e Bacharel em História
Fonte: Lista de Discriminação Racial |
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Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada.
por: Gilson Caroni Filho
Em seu texto "Luto e Melancolia", Freud diz que manifestações melancólicas assumem várias formas clínicas, se caracterizando, entre outros sintomas, "por uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, diminuição do sentimento de auto-estima e inibição de todas as atividades." A identificação com o objeto perdido é inevitável e, na medida em que não consegue incorporação simbólica, o que sobra ao sujeito é a identificação com o vazio de um pai ausente.
Se a psicanálise sofre hoje contestações de diferentes ordens, as palavras do seu criador sobre o comportamento melancólico se encaixam como uma luva para o amontoado de sandices que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu e disse no último domingo, 7/02, tentando deter e repudiar a impopularidade que o persegue desde o segundo mandato.
Há alguns anos, Carlos Heitor Cony, em artigo na Folha de São Paulo, não poupou palavras para melhor definir o "príncipe dos sociólogos: "Diziam seus admiradores que FHC era uma cabeça, um intelectual, um produtor de coisas inteligentes. Sua exposição no cargo mais alto do país rebaixou-o à dimensão de um demagogo banal, incapaz de articular um argumento alem do insulto aos que não acreditam nele e o acusam inclusive de improbidade."
Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Um prócer a ser evitado em anos eleitorais. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada. Afinal, deve ser duro para quem esteve no poder durante oito anos, constatar que o resto do mundo político não reconhece sua importância. Pior, o que ganha realce são os erros grosseiros de um dirigente que governou de acordo com os humores do capital financeiro.
Seu governo passou para a história como um modelo que acentuava a exclusão social e penalizava as classes de menor renda. A estratégia de estabilização de preços baseada na captação de capital externo de curto prazo, através da sobrevalorização da moeda e da manutenção de elevadas taxas de juros, levou o país a níveis de desemprego sem precedentes, à desarticulação da estrutura produtiva e à deterioração do tecido social no campo e na cidade.
O mau desempenho do comércio brasileiro na época foi minuciosamente construído pela equipe de FHC que, realizando uma abertura irresponsável da economia, pôs em prática políticas monetárias e cambiais que minaram em grande parte nossa capacidade de competição internacional.
Mostrando a miopia fiscalista que o orienta até hoje, Cardoso escreveu em seu artigo ("Sem medo do passado"), publicado no Globo: "Esqueceu-se [Lula] dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal."
A entrega do patrimônio público ainda é apresentada como fórmula eficaz de fazer caixa. O que FHC faz questão de esquecer faz parte de sua história: grande parte do programa de privatização brasileiro foi financiada pelo BNDES. No cassino tucano, muitas empresas privatizadas não queriam fazer investimento aqui e se aproveitavam de polpudos créditos que também beneficiavam transnacionais já instaladas no país. O argumento utilizado era o de que a vinda desses setores permitiria agregar elementos de financiamento ao desenvolvimento nacional.
Quando se lê um artigo assim, descontextualizado, mal costurado em seus argumentos, é que nos damos contas da importância de olhar pelo retrovisor. É ele que sinaliza as perspectivas do futuro. Nesse ponto, o texto de Cardoso é didático, quase leitura obrigatória.
FHC sabe que a grande mídia corporativa exercerá o prestimoso papel de guiar suas mãos na hora de legitimar a irrelevância dos seus escritos. Somente os exércitos de colunistas destacados pelas famílias que controlam os meios de comunicação garantem sua vida política vegetativa.
Quando compara a ministra Dilma Rousseff a um boneco manipulado pelo presidente Lula não faz qualquer ponderação política, apenas evidencia que sua cabeça está longe de ser privilegiada. É uma mente que destila bile (que está na raiz da palavra melancolia) para desqualificar seus adversários. É o menestrel da política pequena buscando a facilidade da ribalta midiática.
Antes de dizer que "o PT "tenta desconstruir o seu mandato", o "príncipe" deveria dedicar mais tempo à leitura do que andaram falando sobre seu governo as principais lideranças do seu partido, em especial o governador de São Paulo. Uma boa sugestão seria o livro "Conversas com Economistas Brasileiros II", que a Editora 34 lançou em 1999. Lá ele encontraria o seguinte trecho:
"A política cambial do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi um desastre gratuito e total. Foi resultado de pouca reflexão analítica de seus condutores. Suas conseqüências foram devastadoras em muitas áreas da economia, inclusive comprometendo as metas fixadas no processo de privatização."
Essa crítica, das mais contundentes feitas por um economista que participou dos dois mandatos do governo FHC, é de José Serra em entrevista a dois professores da FGV, Guido Mantega e José Márcio Rego. E agora, quem é o boneco de quem? Nem mesmo um governador que submergiu com as enchentes em São Paulo, levando com ele a suposta capacidade gerencial do tucanato, pôde endossar a política arrasada do ex-presidente. O que esperar da oposição? A compaixão que deve ser concedida aos incapazes?
As palavras do ex-presidente devem ser vistas como movimentos de descompressão da realidade. Quando, a partir da melancolia e solidão de sua maturidade, um ator político faz a volta à infância, o ridículo se apodera do cenário. Fernando Henrique precisa de amigos.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
Fonte: Carta Maior
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por:Francisco Carlos Teixeira.
A Classe "C" vai ao paraíso!
Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos. O Nordeste cresceu a um ritmo "chinês" atingindo 7.7% ao ano. Mesmo sofrendo os efeitos da crise, o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros.
Vejam essa maravilha de cenário É um episódio relicário Que o artista num sonho genial Escolheu para este Carnaval" (Aquarela Brasileira, Silas de Oliveira, Império Serrano, 1964).
A Fundação Getúlio Vargas (Rio), através do seu Centro de Políticas Sociais, publicou uma recente pesquisa na qual vemos a chamada classe "C" - aquelas pessoas cujos lares recebem entre R$ 1.115 e R$ 4.807 por mês - tornarem-se 49.22% do total da população brasileira. Houve, na verdade, um salto fantástico: em 2003 eram 37.56% da população, passando em 2008, para 49.22% do total de brasileiros. Podemos acreditar que não fosse a crise econômica mundial de 2008/09 este coeficiente seria bem mais alto. A luta contra as desigualdades Qual o verdadeiro significado destes números? Simples e direto: a desigualdade social foi, em cinco anos, reduzida drasticamente. Mesmo com um crescimento baixo, mesmo sofrendo os efeitos da crise (nem "marolinha", nem tsumani!) o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. Para tornar mais claro o impacto podemos citar um jornal que não pode ser, de forma alguma, considerado "chapa-branca", O GLOBO: "... essa migração em massas alterou o rumo da divisão historicamente desigual do bolo no Brasil...". Desde os anos '30, do século XX, quando a Questão Social deixou de ser caso de polícia e virou desafio do Estado, a discussão sobre os métodos de sanar as justiças sociais tem sido o centro do debate político no país. Durante os anos '30, de 1930 até 1945, Getúlio Vargas acreditou que o autoritarismo político, a repressão, e um jogo dual entre patrões e trabalhadores seriam o suficiente para alterar a injusta divisão social do país. Foram dados, então, passos enormes, se comparamos com o imobilismo e a repressão vigente na República Velha (1889-1930). Justiça do Trabalho, sindicalismo oficial, CLT forma passos de refundação da Questão Social no Brasil. Porém, o autoritarismo político, a perseguição da esquerda não varguista e o atrelamento ao Estado constituíam o lado quase oculto da "dádiva" varguista. Após a estagnação de Dutra - de quem Pablo Neruda disse ter "ojos de cerdo" - voltou-se, ainda com Vargas, agora entre 1951-1954, para um modelo mais descomprimido de distribuição social. Ainda aí o Estado foi o agente básico da justiça social, estabelecendo o salário mínimo como referência de justiça (o então ministro do trabalho, Joao Goulart, dará um aumento de 100% do mínimo, despertando a ira da classe patronal. No Primeiro de Maio daquele fatídico ano de 1954 o salário mínimo era descongelado, para horror das associações patronais. Abriu-se aí a crise cujo desfecho será um tiro solitário num dos salões do Palácio do Catete, em agosto de 1954. 1954 contra 1964 Com um tiro no peito, Getulio adiou em 10 anos o golpe da UDN: os políticos de direita do país, cansados de perder as eleições e a escolha popular, e com calos nos dedos de tanto bater à porta dos quartéis (expressão do amigo, Marco Aurélio Garcia!) foram enfim atendidos. Deu-se, então, o Estado Novo da UDN. Uma "santa aliança", quer dizer bendita pela Igreja organizada nas "Marchas da Família com Deus pela Liberdade ( ou seria pela Propriedade?)", entre empresários, mídia, classe média (assustada, com a maré montante de um jovem proletariado urbano). Desde 1964, todos se reuniram em torno da ditadura civil-militar (não podemos esquecer a participação, o apoio civil - os governadores eleitos do Rio, São Paulo e Minas Gerais eram as lideranças do Golpe - e das entidades ditas "de classe", quer dizer patronais) ao regime que durou de 1964 até 1985. Mesmo aí, as classes patronais ficaram insatisfeitas com os rumos da Questão Social: os sindicatos dos trabalhadores estavam amordaçados, suas direções presas, exiladas ou ainda pior... Arrocho salarial, reforma regressiva da CLT, fim da liberdade de expressão, etc... eram as marcas do novo regime. Mas, após o surto liberal - Roberto Campos, ex-embaixador nos EUA, assumiu o ministério do Planejamento e em nome do combate à inflação reduziu drasticamente os direitos dos trabalhadores! - os próprios militares foram tomados de uma febre nacionalista e desenvolvimentista. Malgrado a repressão, brutal entre 1969 e 1978, anos de chumbo, anos de terror (onde mais uma vez os civis tiveram um papel central, como na Operação Oban), vários setores da ação do Estado foram fortalecidos e alguns programas sociais foram montados, tais como o Estatuto da Terra (1964 ) e o Funrural (1967). Trata-se, é claro, de medidas preventivas, visando esvaziar o movimento social, e não a fim de atendê-lo. Contudo, mesmo isso, migalhas da mesa do "Milagre Brasileiro", era demais para as "classes patronais". Democratização e Imobilismo Pegando carona, de forma imoral, posto que só elas lucrassem com a ditadura, estes mesmos setores embarcaram na luta pela democratização. Inscreveram, aí, ao lado das exigências básicas da população, uma enorme lista de ações que deveriam reduzir o Estado, transformá-lo em Estado Mínimo. Acusavam os militares de "estatismo". Eram dados os exemplos de Thatcher ou Reagan, os teóricos da chamada Escola de Chicago, the chicago's boys, para "consertar" o país. Um país que nunca dera escola às suas crianças, onde a fome batia à porta de milhões (salve, salve, Betinho!), onde faltava água limpa e esgoto corrente, deveria ter seu Estado reduzido ao mínimo. As exigências (neo)liberais, em tal contexto, assemelham-se, nos países pobres, ao genocídio puro e simples. O Consenso de Washington seria, em verdade, economizar em escolas, em merenda escolar, em estradas, em hospitais para, em fim, pagarmos a dívida sem risco para os fundos de pensões norte-americanos e europeus. Nossa elite aplaudiu. Aplaudiu a maior transferência de renda regressiva da história, canalizando o fruto do trabalho dos povos do hemisfério sul para as economias centrais do capitalismo. Contudo o projeto de modernização autoritária e regressiva faliu. Deu-se a crise do petróleo. A crise da dívida externa. A crise dos preços das commodities - da re-inteiração da condição colonial. O movimento social, autônomo desde as greves do ABC, em 1980, fortemente ancorado numa opinião pública exigente e crítica baniu, em um final melancólico, o regime autoritário. Esperanças e Frustrações A redemocratização trouxe grandes esperanças. Principalmente a idéia generosa que os direitos cívicos não mais se resumiam em votar e ser votado, em poder exprimir sua crítica presa na garganta, em gritar o grito daqueles desde sempre sem voz. A redemocratização do Brasil, no início dos anos '80 do século XX - bem como de toda a América do Sul - exigia os direitos cívicos básicos e muito mais. Cidadania era, então, um conceito expandido, alargado para abranger educação, saúde, moradia, transporte e, mais além, igualdade social, racial, de gênero e de opção sexual. Contudo, desde a reunião da Assembléia Nacional Constituinte, a direita tradicional e a nova direita liberal uniram-se, no chamado "Centrão", para paralisar as reformas necessárias. E aí vivemos anos seguidos de incompetência - governos Sarney, Collor e Itamar - somados aos anos de reformas regressivas, na Era FHC. Esta se inicia, no próprio discurso de posse do Presidente FHC, prometendo encerrar a "Era Vargas". Ora, o que seria a "Era Vargas"? Tratava-se, em verdade, de impor o Estado Mínimo, aceitar a captura do Estado pelos interesses privados, acobertados pela instituição de agências reguladoras, a ameaça de um Banco Central dito "independente" (mas, constituído de personagens saídos e chegados da grande banca) e a total ausência de qualquer política pública de desenvolvimento, emprego ou trabalho. O fundamentalismo monetário, o medo pânico de destruir uma arquitetura de controle da inflação tão frágil que qualquer solavanco de crescimento do PIB poderia derrubar o Plano Real. Era como o médico que para extinguir a febre mata o paciente. Acreditava-se que o país, para controlar a inflação, não poderia crescer. Inflação ou crescimento: este era o falso dilema do liberalismo. Rompendo com o passado A vitória do Partido dos Trabalhadores veio exatamente romper, como no caso do nó górdio, o dilema. A questão é: como crescer, como erradicar a desigualdade social, sem inflação? O papel do Estado como condutor do processo, a criação de políticas corretivas das desigualdades sociais e regionais, bem como olhar o povo como cidadão, e não como mão de obra fácil e disponível, eis a resposta proposta desde 2003. Tudo isso recusando o autoritarismo e o paternalismo. Não se tratava de "encerrar a Era Vargas". Tratava-se de ir mais além! Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. São novos consumidores, que exigem seus direitos sociais expandidos: "... os anos 2000 permitiram ao [novo] consumidor não só comprar, mas escolher o produto com que mais se idêntica" (O GLOBO, 7/02/2010). Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos: segundo Marcelo Néri, o Nordeste - aquele mesmo Nordeste de personagens como Baleia, de Graciliano Ramos ou do "lobisomem amarelo" (o homem atingido pelas doenças) de José Lins do Rego - cresceu a um ritmo "chinês" atingindo 7.7% ao ano. Em suma: vivemos num país melhor, mais justo e menos desigual. Francisco Carlos Teixeira Da Silva, professor da UFRJ, é autor, com Maria Yedda Linhares, de "Terra Prometida: uma história da questão agrária no Brasil".
Fonte: Carta Maior
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BOA APARÊNCIA:
Norte/Centro-Oeste: 9 (3,0%) Nordeste: 39 (7,0%) Sudeste: 80 (9,4%) Sul: 21 (7,2%)
Ter estudo:
Norte/Centro-Oeste: 57 (18,9%) Nordeste: 182 (32,5%) Sudeste: 222 (26,2%) Sul: 76 (26,1%)
Ser indicado por alguém:
Norte/Centro-Oeste: 32 (10,6%) Nordeste: 67 (12,0%) Sudeste: 158 (18,7%) Sul: 43 (14,8%)
Boa formação profissional:
Norte/Centro-Oeste: 203 (67,2%) Nordeste: 268 (47,9%) Sudeste: 379 (44,7%) Sul: 150 (51,5%)
Não sabe/não respondeu:
Norte/Centro-Oeste: 1 (0,3%) Nordeste: 4 (0,7%) Sudeste: 8 (0,9%) Sul: 1 (0,3%)
A CC deu como destaque o elevado número de respostas falando sobre boa formação profissional no Norte e no Centro-Oeste, com seus 67,2%, bem como fala do alto número de respostas falando do poder do QI (AKA "quem indica", AKA networking, para usarmos um eufemismo dos gurus de RH). E diz também que isso é sinal do fortalecimento do patrimonialismo urbano e o enfraquecimento do coronelismo rural.
Porém, seria bom que transcendêssemos um pouco as coisa também. Note-se que o Sudeste é a região com maior número de respostas para "boa aparência", sendo seguida por Sul e Sudeste, com Norte e Centro-Oeste lá pra trás. E aí caímos em um detalhe interessante: Sudeste, Sul e Nordeste são as regiões com o maior número de negros e afrodescendentes em geral em relação à população total e quem é atento sabe que termos como "boa aparência", "boa apresentação" e "mandar currículo com foto" são os eufemismos mais comuns das empresas para dizerem nas entrelinhas que não aceitam quem tem raízes mais ou menos recentes na mãe solteira que trabalha de empacotadeira nas Casas Bahia (livremente parafraseando Chico César), mesmo que quem se candidate a emprego seja belo sob qualquer padrão estético. Não duvido que muitos, ao terem sido abordados na pesquisa e lido o termo, associaram imediatamente com o preconceito que sofrem diuturnamente no mercado de trabalho. E por aqui, note-se a surpresa de que no Sudeste a vida profissional do afrodescendente pode estar muito mais difícil que no Sul.
Novamente, vamos também lembrar que os números de Norte e Centro-Oeste que dão ampla vantagem para o binômio "ter estudo"/"boa formação profissional" suplantando por larga margem "boa aparência" e "ser indicado por alguém" refletem tanto o alto crescimento econômico (neste caso do Centro-Oeste) como a carência de mão de obra de alto gabarito, independente de que função se esteja falando. Podemos inferir que há um grau de carência da tal mão de obra gabaritada, ainda que menor, no Nordeste (região com maior resposta para "ter estudo") e no Sul (segundo maior número para "ter boa formação profissional").
Sobre "ser indicado por alguém", os 18,7% do Sudeste em parte mostram que a região está saturada em matéria de mercado de trabalho geral, mas também demonstram que infelizmente o QI anda forte pelas bandas de onde eu teclo, talvez demonstrando que aqui seja mais provinciano do que parece. E isso limita sobremaneira o acesso do trabalhador ao mercado de trabalho. De repente um fulano que estudou em Harvard, fez especialização em Coimbra, mestrado em Princeton e doutorado na Sorbonne é preterido em uma empresa séria em função de uma toupeira que estudou mal e porcamente em uma UniSeiLáOQue ter um amiguinho que trabalha na referida firma.
E quando a pessoa é continuamente desprezada, mesmo com todo mundo falando que seu currículo é bom e soltando chiacchiere de que quem é bom sempre terá trabalho, pedir para ficar otimista é de um cinismo sem tamanho. E aí não pude deixar de lembrar de uma coluna do Ugo Giorgetti no Estadão do domingo retrasado falando do impressionante poder da rede de influências no Brasil, a ponto de alguém que tenta lamber os próprios cotovelos poder ter uma vida profissional tranquila, mesmo fazendo absolutamente nada ou sendo um incompetente total. E quantos aqui não conhece uns aspones tão aspones que é necessário falar as duas últimas sílabas com mais ênfase que o normal, só para demonstrar que estão lá por indicação?
Em todo caso, fica aquela mostra de que no Centro-Oeste e no Nordeste de fato as coisas estão efervescentes no que tange a trabalho. Não sei se a CNT/Sensus fez pesquisa parecida antes dessa, mas se existir, seria interessante para confrontar dados.
Fonte: Luis Nassif |
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Por: FERNANDO DE BARROS E SILVA
SÃO PAULO - As 800 vagas que a Escola Politécnica da USP ofereceu este ano aos novos alunos estão entre as mais disputadas do país. A nota de corte na primeira fase foi uma das mais altas do vestibular. Havia 13 candidatos por vaga. Os futuros engenheiros da USP pertencem à elite intelectual brasileira. São, na sua maioria, jovens oriundos das boas escolas privadas de São Paulo.
Anteontem, calouros da Poli foram recepcionados pelos veteranos. Banhos de lama, cabelos raspados, ovos na cabeça, tinta e farinha pelo corpo -é o que chamam de trote "sem violência". Um dos felizardos admite que aquilo é "um pouco humilhante", mas diz que "aguenta" para "poder jogar lama nos calouros nos anos seguintes".
Imitando a estátua da Liberdade, a futura engenheira empunha sorridente um vibrador de borracha. É tudo "brincadeira", dizem. O trote da Poli tinha DJ patrocinado por uma marca de energético e espaço vip para os pais acompanharem na sombra o dia de fúria da garotada.
Não se trata apenas de explosão hormonal, própria da idade. Humilhação e submissão de uma ou mais pessoas por um bando são os traços comuns aos rituais de iniciação dos universitários no país. Todos "eleitos", vítimas e carrascos mimetizam aspectos da sociedade autoritária e de privilégios em que vivem.
Há, nesse ambiente já monótono de selvageria ritual, um histórico de ocorrências trágicas, apesar dos esforços de parte de comunidade acadêmica para desbarbarizar o trote. Em 1999, um calouro morreu afogado na piscina do centro acadêmico da medicina da USP; no ano passado, um estudante de veterinária no interior paulista foi atirado contra uma mistura de esterco e restos de animais em decomposição -depois passou horas desacordado por ingestão excessiva de álcool.
Embebedar estudantes à força ainda é uma das formas mais comuns de trote. Tão comum quanto obrigar calouros a pedir esmola nas ruas. Meninos ricos brincando de mendigos, universitários escarnecendo do pobre brasileiro. Mas é só "brincadeira". Então, tudo bem.
Fonte: Folha de S. Paulo |
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Por: Paula Viana
O governo brasileiro almeja uma liderança política no cenário internacional em relação a temas sociais e humanitários. Desta forma, é com surpresa que nos deparamos com a sua mudança de postura em relação ao tema da descriminalização do aborto e a sua recente declaração no sentido de modificar o texto do Plano Nacional de Direitos Humanos. O governo brasileiro assumiu compromissos junto a órgãos internacionais das Nações Unidas de rever a legislação que pune o aborto e de garantir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Porém até o momento isso não se concretizou.
A rede pública de atenção e proteção aos direitos humanos das mulheres evoluiu muito nos últimos anos, inclusive com a criação de dispositivos legais como a Lei Maria da Penha. No entanto, é inegável a fragilidade sentida de perto por quem precisa acessar os serviços públicos de atenção às mulheres vítimas de violência em suas diversas formas. O fato é que a existência no Estado Brasileiro de Marcos Legais Nacionais e Internacionais de proteção dos direitos humanos das mulheres no âmbito da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos, não tem, no entanto, se revertido em mudanças significativas nos indicadores de qualidade de vida das mulheres principalmente as negras, as indígenas, as jovens e mulheres da zona rural.
O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) é resultado de dezenas de conferências estaduais, com milhares de participantes da sociedade civil e do governo, o documento reflete as políticas de interesse da população brasileira em seus mais variados setores. No entanto, alguns grupos com perfil conservador e fundamentalista têm pressionado, e desmedidamente reagido, contra o Poder Executivo por mudanças no texto do Programa.
O PNDH3 incorpora o eixo que objetiva combater as desigualdades estruturais, as ações que visam garantir os direitos das mulheres com o estabelecimento das condições necessárias para a sua plena cidadania, apoiando a aprovação do projeto de lei quedescriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos.
O impacto negativo da ilegalidade do aborto na vida e na saúde das mulheres brasileiras é enorme.Não basta tipificar o aborto como crime para preveni-lo. Aborto não é caso de polícia e sim, de saúde pública. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 250 mil mulheres são internadas por complicações decorrentes do aborto inseguro. O aborto inseguro constitui a quarta causa de mortalidade materna no Brasil e desvenda graves falhas na atenção à saúde e o baixo grau de autonomia das mulheres para o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos.
Nos países onde o aborto é legalizado, além de diminuir os números de complicações e mortes, o número absoluto de realização de aborto tem diminuído. Queremos acabar com o problema ou criar outros? É preciso entender que sem os direitos das mulheres, os direitos não são humanos.
Fonte: EXPRESSÃO FEMINISTA
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Por Juan Morenilla
Poucos gestos significaram tanto no esporte. O protesto feito pelos norte-americanos Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos do México, em 1968, simbolizou a luta contra a segregação racial. Ainda que, como recorda 40 anos depois do ouro olímpico, ele tenha destruído algo mais que sua carreira. Tommie Smith olha fixamente ao falar. Em seus olhos não há ódio. Mas sim uma mescla de tristeza e orgulho pelo que foi sua vida. Seu gesto no alto do pódio depois de ganhar o ouro nos 200 metros (19,83 segundos) nos Jogos Olímpicos do México em 1968, com uma mão envolvida por uma luva negra em defesa da igualdade entre as raças, é um dos símbolos universais do esporte. Aquela mão direita fechada (assim como a esquerda de John Carlos) representava a luta contra a segregação racial que sempre sofreu nos Estados Unidos. Era o black power [o poder negro]. Mas também foi uma condenação para o resto de sua vida. Este texano de 64 anos, que na quarta-feira recebeu em Madri o primeiro prêmio dedicado aos valores universais do esporte do jornal "As", ainda se emociona ao ver aquela imagem. Pergunta: O que o senhor se lembra da sua infância? Resposta: Sou o sétimo de 12 irmãos. Crescemos no campo. Meus pais eram sitiantes. Cultivávamos a terra de uns brancos no sítio deles e parte da colheita ficava para nós. Quando eu tinha seis anos, mudamos para a Califórnia e continuamos trabalhando no campo, mas já cobrando. Lembro de uma boa ética de trabalho. Era uma vida muito religiosa. Íamos muito à missa. Os meninos brancos, é claro, zombavam de mim no colégio porque eu usava roupas de pobre. P. Que tipo de marginalização sofriam? R. Não podíamos fazer quase nada porque nos viam como pessoas de segunda categoria. Não podíamos andar na mesma calçada que os brancos. Se víssemos um branco, tínhamos que sair imediatamente da calçada. Também não podíamos compartilhar os mesmos serviços públicos. Havia banheiros para brancos, muito limpos, e para negros, mais sujos. Não havia igualdade em nenhum sentido. P. O esporte era uma válvula de escape? R. Era a única forma de diversão no colégio: correr, jogar beisebol... E se transformou em parte da minha vida. Eu não cresci aspirando ser um atleta olímpico. Mais tarde usei o esporte, a partir dos 15 anos, para nos fazer ouvir. Meus pais me disseram: "Enquanto você ganhar corridas, não precisará trabalhar aos sábados". Era fantástico para mim. Comecei a ganhar e faltar ao trabalho. Claro que não tínhamos dinheiro nem para sapatos. Nós ganhávamos. Havia uma organização beneficente que nos dava roupas e sapatilhas. Eu não tinha nem agasalho, só uma calça curta e uma camiseta. P. E assim o senhor se tornou, no México, o primeiro a fazer 200 metros em menos de 20 segundos, e seu recorde de 19,83 segundos se manteve durante 11 anos. Como o senhor se transformou em um dos melhores do mundo? R. Com muito trabalho. Tinha a bênção de Deus para me dedicar ao atletismo: a estatura, o corpo, a velocidade. Fiquei forte assim, brigando com meus irmãos, trabalhando todas as horas no campo. Foi assim que pude me transformar em alguém. Não tínhamos nada, dessa forma não tive outra possibilidade na vida a não ser lutar. Não tinha nem sequer tempo para treinar. Eu não fui treinado como um atleta. Minha preparação foi unicamente o trabalho no campo. Quando eu voltava para a escola no outono, os rapazes me perguntavam: 'Como você é tão rápido? Fez musculação?' Eu não entendia o que eles diziam. Eu só havia estado no campo. Usava umas botas muito pesadas e carregava todas as ferramentas, como pás, que pesavam muito. Até ir para o instituto não havia começado a trabalhar seriamente como atleta. P. Ali o senhor uniu o esporte com a luta contra a segregação racial. R. Vi tantas injustiças que não podia ficar sem fazer nada. Não fiz aquele gesto de 68 por moda, mas para transformar alguma coisa. Nós, atletas afro-americanos, organizamos o OPHR [Projeto Olímpico para os Direitos Humanos]. Nossa idéia era boicotar os Jogos, mas não foi assim, e decidimos que cada um organizaria seu protesto como quisesse. Minha vez chegou nos 200 metros. A corrida foi incrível. Eu me resguardei para a última reta, mas não tinha nem idéia do que poderia acontecer na cerimônia, como eu me sentiria no pódio, o que faria... Não soube até o último momento, até que John Carlos [bronze] me disse no túnel de saída. P. Sua mulher já havia comprado umas luvas negras. R. Sim, havia algo previsto, ainda que não soubéssemos muito bem o quê. Foi um gesto de um impacto mundial. Não era só o grito de dois negros pela cor de sua pele, mas fizemos isso pelos direitos da humanidade. P. Convenceram o australiano Peter Norman [prata] a usar o adesivo da OPHR? R. Sim, mas eu não queria que um homem branco o usasse. O Projeto era para todas as pessoas do mundo, negras ou brancas, e eu não queria que ninguém tivesse problemas por causa disso. A idéia de que Norman usasse o adesivo foi de John Carlos e ele também quis usá-lo sobre o escudo do comitê australiano. Eu conhecia a história da Austrália sobre como eles haviam tratado os aborígenes. Sabia que isso podia ser um problema para ele porque seria interpretado como se ele estivesse do lado dos negros dos Estados Unidos. E foi isso que aconteceu. Assim como nós, ele foi expulso da Vila Olímpica, maltratado em seu país, segregado socialmente. P. O senhor teve medo quando fechou e ergueu o punho? R. Tive medo minha vida inteira. Não é uma coisa que se supera em dois ou três anos. Os jovens afro-americanos, ainda hoje, são alvo nos Estados Unidos, simples assim. P. Nada mudou? R. Claro que sim, muitas coisas. Nosso presidente-eleito, Barack Obama, é afro-americano. E isso não foi uma coisa que aconteceu em um dia. Lutamos por uma melhora e, como conseqüência dessa luta, agora há um presidente negro. Foi um processo muito lento. Isso não quer dizer que tudo vai bem. Mas, graças à forma que Obama pensa sobre a mudança social, a luta não terminou. Apenas acabou de começar. P. Como sua vida mudou depois do gesto? R. Tudo mudou para sempre. Recebemos ameaças de morte, cartas, telefonemas... Depois dos Jogos Olímpicos, todos os meus amigos desapareceram. Tinham medo de perder suas amizades brancas e seus empregos. Eu tinha 11 recordes mundiais, mais do que qualquer pessoa no mundo, e o único trabalho que encontrei foi lavando carros num estacionamento. E me mandaram embora porque meu chefe disse que não queria que ninguém trabalhasse comigo. Não queria que alguém que defendesse a igualdade de direitos estivesse em sua equipe. P. Ninguém o ajudou? R. Todo mundo tinha muito medo. Meus irmãos foram expulsos do colégio. Outros, que estavam na equipe de futebol da universidade, foram proibidos de competir por causa do que eu fiz. P. Você chamou os membros do COI [Comitê Olímpico Internacional] de estúpidos. Ninguém lhe pediu desculpas? R. Não, nunca. Em particular me dizem: "Sinto muito pelo que lhe fizeram, foi uma pena...". Mentira. Destruíram minha vida, a de John, a de Norman... A esposa de John se suicidou, eu me divorciei... Tudo por pedir que as pessoas sejam iguais. O COI permitiu tudo isso e o comitê norte-americano não fez nada para impedi-lo. P. O senhor ainda vê racismo no esporte? R. Enquanto o homem existir, haverá racismo. Temos um presidente negro e já avançamos muito, mas isso não quer dizer que tudo o que é negativo tenha sido eliminado. P. Quando olha para trás, sente orgulho de sua vida? R. Tenho muito orgulho. Meus pais lutaram muito para que fossemos adiante trabalhando. Minha força vem da minha origem. Minha força nasce da minha base pessoal e familiar. Nada pode destruir como eu me sinto. P. O senhor ainda corre? R. Sim, tenho uma academia na minha casa. Saio para correr no parque da Geórgia. Há muitos caminhos que antes eram locais de reunião da Ku Klux Klan. Os negros não podiam pisar nesses parques do sul dos Estados Unidos e hoje eu moro lá. Agora vivemos onde queremos e não onde nos colocam. E viajo pelo mundo inteiro para contar a minha vida. P. O que significa a eleição de Obama? R. Precisamos de uma mudança assim. Não porque ele seja negro, mas sim pelo que representa, a luta de toda a minha vida. Tradução: Eloise De Vylder
Fonte: El País |
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O principal objetivo de "Racismo e Sociedade", novo livro de Carlos Moore, doutor pela Universidade Paris VII, é desmontar a estrutura simbólica do racismo. "O racismo é algo que permeia toda a sociedade.
As relações interpessoais são o reflexo do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade", defende o autor, na entrevista a seguir, concedida com exclusividade a este jornal: Gazeta Mercantil - O senhor diz que "o racismo é prejuízo para o racista".
O Brasil vive hoje uma realidade repleta de desigualdade. O senhor alia essas desigualdades ao racismo?
Sim. O racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são o reflexo do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade. São as relações interpessoais, elas por si, que são o refúgio exclusivo do racismo. É uma, metaconsciência que permeia toda a sociedade.
Gazeta Mercantil - A idéia de um mundo "democraticamente racial" é mito?
É claro que é mito. A mestiçagem é um fator dominante na sociedade. Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo das índias e das africanas. Você está falando de mestiçagem, mas você esquece como o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas. Ou seja, é a inseminação violenta das fêmeas do grupo dominado pelo macho do grupo dominante e a eliminação física dos machos do grupo dominado-conquistad o. O hino à mestiçagem está dizendo "nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo". A mestiçagem é isso e toda a ideologia da "democracia racial" é essa: "Vamos mudar o fenótipo do negro, não mudar o fenótipo do branco. Vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano".
Gazeta Mercantil - Entre preconceito e racismo o senhor faz uma diferenciação clara. Qual é?
Racismo é algo histórico, uma forma de consciência. Preconceito é qualquer coisa. Eu posso ter preconceitos contra as pessoas que eu considero como feias e essas pessoas não têm que ser brancas ou negras. Podem ser de qualquer cor porque se eu tenho um padrão fenotípico na cabeça, este é o padrão que eu considero bom. Por exemplo, Gisele Bündchen, eu posso considerar que seja o padrão e geralmente esse é o padrão para o mundo ocidental. Ele padronizou e estabeleceu a imagem normativa, que é ariana. Eu posso discriminar e ter preconceito com qualquer pessoa que se afaste dessa imagem normativa dominante. O racismo é uma questão de querer exterminar o outro. Aqui neste País, depois de 1888, a decisão foi mestiçar os negros. Inundaram o País de branco, de "sangue branco" como eles diziam e acabavam com eles assim. Não se podia matar 70% da população. Isso também foi feito em outros países da América Latina. Na Republica Dominicana, em 1935, milhares de negros foram exterminados, o que evidencia essa decisão de não compartilhar recursos. É muito importante saber que racismo se elabora em torno da partilha de recursos. Os negros sempre têm que ser os vetados. Veja, por exemplo, a discussão sobre a cota para negros nas universidades públicas. Porque se eles entram, a classe média negra vai surgir, vai se expandir. Se a classe média se expande vão surgir novas demandas pela repartição dos recursos neste País.
Gazeta Mercantil - E quando o senhor fala em "desracialização", o que o senhor quer dizer com isso?
Desracializar quer dizer, em primeiro lugar, tirar o fenótipo do lugar onde ele está. O fenótipo está normatizando as relações. Entre os negros se pratica esta maneira de eugenismo, de se casar com as pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com o cabelo mais liso, de escolher um tipo de nariz que seja leptorino, com um septo alto. Os narizes que eles chama de "chato" não são privilegiados nesta sociedade. Os lábios carnosos não são privilegiados e os cabelos crespos não são privilegiados e a pele bem preta não é privilegiada. Há uma espécie de eugenismo individual em que as pessoas já foram programadas para escolherem parceiros cujo fenótipo se aproxima ao fenótipo do padrão estabelecido que é um padrão ariano, nórdico, de loiros, cabelos lisos, loiros e olhos verdes. Desracializar é destruir esta imagem normativa. O fenótipo dita quem vai ser o seu parceiro. Os próprios pais negros ensinam que seus filhos precisam "adiantar a raça". A sociedade é a grande professora.
Gazeta Mercantil - Como o senhor pensa que vai ser a recepção de seu novo livro no Brasil e no mundo?
Os racistas vão receber um golpe duro. Eles se aproveitam da ignorância para fazer avançar as redes deles. Quanto mais ignorância há na sociedade, mais os racistas ficam contentes. O Brasil é contrário as correntes progressistas que estão aí no mundo. Então, podem existir monstruosidades como essa idéia da "democracia racial". O branco brasileiro normal está convencido de que vive no melhor País do mundo e que os negros estão contentes. Tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se eles não mexerem no sistema vão perder o País. E ninguém quer, ninguém que seja sensato quer que o Brasil se desintegre, que termine no caos como terminou a União Soviética.
Gazeta Mercantil - O senhor afirma que a história da humanidade é uma história de imperialismos, de massacres, de genocídio, de opressão e de ódio. Conseguiremos reverter tudo isso?
Constantemente, a sociedade está sendo atravessada por duas correntes diferentes e opostas. Uma corrente de barbárie, regressão e animalização e, outra corrente, que está constantemente chamando a atenção para outra maneira de viver, na busca de uma sociedade ideal. É uma luta. Mas, há outro caminho para o ser humano, não para negros ou para brancos. Não há caminhos separados. Esta bifurcação racial foi criada historicamente, mas se você olhar de maneira bem objetiva e concreta a História, a finalidade da espécie é única. Não há outro caminho.
Fonte: AfroKut |
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Com quem o governo dialoga? A quem o governo respeita?
Católicas pelo Direito de Decidir vem a público manifestar sua surpresa e indignação frente ao recuo do Governo Federal em relação a posições tomadas anteriormente no III PNDH, resultado de ampla discussão realizada por instâncias governamentais com a sociedade brasileira. Um governo que é respeitado no cenário internacional como democrático e defensor dos DH, dobra-se à pressão política da hierarquia católica, sobrepondo interesses eleitorais à vida das mulheres e à dignidade de pessoas homossexuais.
O III PNDH corajosamente abordou questões complexas que há muito tempo deveriam ser enfrentadas, tais como a autonomia das mulheres para tomar decisões sobre a sua vida reprodutiva, o casamento homossexual e a adoção por casais homoafetivos, bem como as graves questões relativas à distribuição da terra e ao direito de estabelecer a memória e a verdade sobre o período da ditadura militar. O Programa, fiel à separação Igreja-Estado, também evidenciou a inadequação de que símbolos religiosos sejam ostentados em estabelecimentos públicos da União. Não é de menor importância que tais questões ganhem o reconhecimento do Governo depois de ouvir a sociedade brasileira organizada.
Católicas pelo Direito de Decidir que, como parte do povo de Deus, integra a Igreja e está em sintonia com a maioria das mulheres católicas brasileiras, não se identifica com as críticas da CNBB ao III PNDH, além de considerar desrespeitosa e inadequada a identificação do Presidente da República à figura bíblica de um homicida (Herodes).
O Estado, numa sociedade realmente democrática, deve ser laico e não pode se pautar pelas exigências e pressões políticas de nenhuma religião, nem mesmo da religião majoritária. O governo brasileiro, que tem o dever de cumprir acordos internacionais dos quais é signatário (Conferências ONU, OEA e CEDAW), sucumbiu de forma vergonhosa à pressão da CNBB e vai, segundo declarações do Ministro dos Direitos Humanos, retirar do texto final as referências ao aborto como um direito das mulheres.
Católicas pelo Direito de Decidir repudia tanto o intervencionismo autoritário da hierarquia da Igreja, quanto a subserviência do Governo Federal, que visando às eleições, joga no lixo o processo de debate público realizado amplamente com a sociedade brasileira para chegar ao texto do PNDH lançado em dezembro de 2009.
Denunciamos que, mais uma vez, são os direitos das mulheres e de pessoas homossexuais que entram como moeda de troca num contexto de jogo político de forças em que toda a sociedade brasileira perde. Em consonância com inúmeros outros setores da sociedade civil, vimos a público cobrar coerência e consistência do Presidente Lula, do Ministro Paulo Vannuchi e demais setores do governo envolvidos nesse retrocesso frustrante e indigno.
Chega de defender o princípio abstrato da vida ao preço da morte de milhares de mulheres.
Fonte: www.catolicasonline.org.br |
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Cantora norte-americana torna-se única ao aliar uma voz potente a uma performance enérgica

BEYONCÉ ESTÁ chegando ao Brasil. E traz com ela seis Grammy recebidos no último final de semana; o maridão Jay-Z, um dos mais influentes rappers da história; e o título de artista da década. Artista da década? Bem, não fui eu quem soltou essa, mas concordo.
Muitos dizem que Lady Gaga é a nova Madonna -e não é exagero-, mas e Beyoncé? É a nova quem?
Talvez Beyoncé esteja inaugurando um novo nicho de cantoras pop. Porque seria reducionismo colocá-la na tradição das cantoras negras de língua inglesa. Tina Turner? Whitney Houston? Janet Jackson? Donna Summer? Diana Ross?
Beyoncé é diferente. Consegue unir o vozeirão das citadas acima com performances enérgicas que vemos em shows de gente como Britney Spears, por exemplo, e um apuro pop que remete a Madonna.
"Beyoncé possui um senso estético que a torna uma artista mais completa do que alguém que conte "apenas" com uma boa voz."
Fonte: Folha de São Paulo |
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Por: Fernando de Barros e Silva
SÃO PAULO - O discurso eleitoral do PT já se fixou em torno da comparação entre os governos de Lula e FHC. Simplificado ao máximo, ele insiste na ideia de que "eles" (tucanos) governavam para os ricos, e "nós" (petistas) governamos para os pobres (ou para todos).
Essa estratégia está em curso e foi usada de maneira ostensiva no programa de TV petista, no final do ano passado. Dizer, à moda tucana, que o mundo real é mais complexo ou que tudo na vida é "um processo" pode até sensibilizar a USP, mas dificilmente vai atrair os votos que importam.
O mote do contra-ataque que o PSDB ensaia na verdade é outro. Interessa aos tucanos contrastar as biografias, não os governos. Serra contra Dilma, e não Lula contra FHC. É o que fez no domingo o cientista político Sergio Fausto, diretor-executivo do iFHC, no artigo "Liderança à altura", publicado em "O Estado de S. Paulo".
Lá, Fausto diz que Serra, ao contrário de Dilma, é alguém "cuja liderança não terá de ser forjada a golpes de marketing eleitoral", pois já "precede a sua candidatura". O tucano teria, além da legitimidade formal para governar, que se conquista nas urnas, uma "legitimidade substantiva", que "só a biografia política pode conferir".
Sobre Dilma, o tucano questiona: "Que cargos eletivos disputou? Quando e onde foi testada nas habilidades que se requerem de uma pessoa que almeja ocupar o principal cargo político do país?". Diante da temeridade de enfrentar Lula, o PSDB busca descredenciar sua pupila. Vejam -dizem eles- o "artificialismo" dessa candidatura, que nasce da escassez de nomes no PT.
É um argumento válido. Mas alguém deve perguntar se o fenômeno Gilberto Kassab não é uma liderança sem "legitimidade substantiva", forjada "a golpes de marketing"? A não ser que os tucanos digam que a Prefeitura de São Paulo é desimportante e qualquer um pode ocupá-la, ainda precisam defender a escolha da "Dilma de Serra", inclusive debaixo d'água.
Fonte: Folha de S. Paulo |
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Praticado pelas estruturas públicas e privadas do país, o racismo institucional é o responsável pelo tratamento diferenciado entre negros e brancos em políticas como a de educação, trabalho e segurança pública, e também nos meios de comunicação brasileiros. Para os participantes do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, combatê-lo de forma sistemática é central para que o desenvolvimento do Brasil não se dê sem a conquista da democracia racial.
Bia Barbosa
"O racismo é a obviedade mais escancarada da sociedade brasileira", declarou o professor Helio Santos, doutor em economia, administração e finanças e militante do movimento negro brasileiro. E assim ele deu o tom de um dos debates do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, que discutiu racismo e institucionalidade, na tarde desta sexta (29), em Salvador.
Ao contrário do racismo individual, que se aproxima do preconceito, quando alguém se acha superior ao outro por conta de sua raça, o racismo institucional é desencadeado quando as estruturas e instituições, públicas e/ou privadas de um país, atuam de forma diferenciada em relação a determinados grupos em função de suas características físicas ou culturais. Ou então quando o resultado de suas ações - como as políticas públicas, no caso do Poder Executivo - é absorvido de forma diferenciada por esses grupos. É, portanto, o racismo que sai do plano privado e emana para o público.
Na avaliação dos participantes do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, este racismo institucional é estrutural de tal forma em nossa sociedade que deveria ser o centro do debate sobre as desigualdades na América Latina. "Muitas vezes não se tem a percepção real do racismo embutido nas instituições públicas e privadas, sobretudo porque o Brasil cresceu sobre o mito da democracia racial. O movimento negro, agora, tem sido responsável pelo desmascaramento deste mito", conta Maria Julia Reis Nogueira, Secretária Nacional de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT). "Afinal, depois de 300 anos de escravidão, não seria possível que as estruturas institucionais do país não tivessem sido construídas com base no racismo", completou o deputado federal Luiz Alberto (PT/BA).
Para o professor Hélio Santos, que acredita que a especialidade mais antiga do Estado brasileiro é tratar os grupos étnicos de maneira diferenciada, a política pública brasileira de maior sucesso foi a de imigração, que beneficiou a chegada de grupos estrangeiros no país sem dar o mesmo auxílio àqueles que aqui estavam 300 anos antes. "Na época, todos os recursos foram para o sul e o sudeste, onde estavam os imigrantes. Hoje, a concentração de renda é mais aguda no Brasil onde a população negra é maioria", afirma.
Foi somente em 1992, em função das exigências da Convenção 111 da OIT, sobre discriminação em matéria de emprego e profissão, que o governo brasileiro reconheceu que havia um problema racial na sociedade brasileira. De lá pra cá, no entanto, apesar da luta do movimento negro, a batalha pela desconstrução do racismo institucional tem enfrentado enormes obstáculos, com instituições públicas e privadas formando um bloco contra as políticas de ação afirmativa em debate no país.
"Há uma contradição entre as nossas propostas de políticas públicas para a questão racial e a resistência das instituições em executar essas políticas. Esta é uma experiência que se acumula em diversos confrontos no governo federal brasileiro", relata o deputado Luiz Alberto. "No Congresso Nacional, o Estatuto da Igualdade Racial, que é discutido há mais de 10 anos, não é reconhecido por uma parte dos parlamentares, e acabou sendo inviabilizado no Senado", criticou.
Na escola pública, estão alguns dos exemplos mais emblemáticos deste racismo institucional: as enormes dificuldades de implementação da lei 11645/08 - que modificou a lei 10639/03 -, que determina o ensino da história da África no ensino fundamental, e o debate sobre as cotas nas universidades públicas brasileiras. "Por que tanta má vontade em implementar a lei 10639? Porque esta lei nos humaniza. Eles nos coisificaram e nos transformaram em mercadoria e máquina de trabalho. E a lei muda tudo isso, nos tira do submundo da história, e nossa história nos humaniza", afirma Olivia Santana, vereadora de Salvador pelo PCdoB e militante da União de Negros pela Igualdade na Bahia.
Nos meios de comunicação, também sobram casos. Além da campanha da mídia contra as cotas, há uma ofensiva permanente dos grandes veículos contra a titulação de terras quilombolas. "Quem é daqui da Bahia sabe o que aconteceu com a comunidade de São Francisco do Paraguaçu. Um grande conglomerado de comunicação fez uma campanha contra a população negra na cidade. E agora estão fazendo contra a comunidade da Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Há uma aliança política ideológica entre esses meios e a bancada ruralista do congresso", avalia Luiz Alberto. "As instituições estão unidas neste propósito: o Judiciário, o Legislativo, e uma parcela do Executivo, que quando tenta avançar esbarra nessa contradição", acrescenta.
Racismo e genocídio
Os resultados mais graves do racismo institucional podem estar, no entanto, no campo da segurança pública. Nos anos 70, por exemplo, o chamado Esquadrão da Morte, que atuava no eixo Rio-São Paulo, matou mais negros do que a polícia da África do Sul durante o regime do apartheid. "Uma coisa é quando há carências nas escoas, outra é quando o Estado, armado, está do outro lado. O racismo institucional na segurança pública tem características de genocídio no Brasil. Tanto que os demógrafos da Unicamp já conseguiram perceber uma escassez de população masculina negra nas regiões metropolitanas. Dar visibilidade a isso é uma tarefa do movimento", aponta Hélio Santos.
Para o economista, o desenvolvimento que o Brasil vem conquistando, e que pode colocar o país entre as cinco maiores economias do mundo nas próximas décadas, não pode se dar com a manutenção do que chama de apartheid da população negra. "Para termos uma verdadeira democracia, é fundamental que se instale uma democracia racial no país. É importante trazer este tema para as eleições deste ano; fazer com que os partidos políticos entendam que o desenvolvimento brasileiro precisa de sustentabilidade moral, além da social, da econômica e da ambiental. O Brasil é um país insustentável do ponto de vista moral. É o país mais desigual do mundo, e desigualdade aqui tem cor", protesta.
"Já lutamos muito para mostrar para o mundo que o Brasil é um país racista e derrubar esta mascara da cordialidade racial. Se quisermos que o século XXI tenha a dimensão da reparação, temos que enfrentar o racismo corporificado nas instituições, com conquistas mais objetivas e concretas. A questão racial não é uma questão de minorias. É uma questão que deixa de fora metade deste país", concluiu Olívia Santana.
Fonte: Carta Maior |
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Em debate realizado sábado (30) em Salvador, durante do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, pesquisadores e ativistas do movimento social afirmaram a urgência de se descolonizar o pensamento e o conhecimento na África e América Latina. Para o africano Samba Buri MBoup, é preciso descolonizar a globalização, recuperando o patrimônio intelectual deixado pelos africanos e a contribuição do continente no desenvolvimento da história e da economia o mundo.
Bia Barbosa
Um dos principais desafios para construção de um outro mundo possível, na busca pela igualdade entre os seres humanos, é fazer aquilo que está simbolizado na própria logomarca do Fórum Social Mundial: tratar os continentes de forma igualitária. E um dos primeiros e mais estratégicos passos neste sentido é o desafio da descolonização do pensamento e do conhecimento produzido e distribuído nas duas regiões mais pobres do planeta: a África e a América Latina. Este foi um dos temas debatidos neste sábado (30), em Salvador, durante do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, onde professores, pesquisadores e militantes do movimento social chegaram à conclusão de que a própria globalização também precisa ser descolonizada.
"Descolonizar o pensamento é enfrentar os desafios colocados pelo eurocentrismo e pelo etnocentrismo como modos de pensar dominantes. No quadro histórico marcado pelo colonialismo europeu, quando essa visão, centrada na Europa, é utilizada como grade de leitura e interpretação da realidade de todo o mundo, constrói-se uma visão distorcida dos padrões e da natureza dos povos", explica o senegalês Sampa Buri Mboup, professor da Universidade da África do Sul.
Essência do pensamento colonial, o eurocentrismo foi, durante séculos, a base do projeto predatório e opressivo aplicado pelas elites e povos do continente Europeu, garantindo a manutenção de seus interesses. No Brasil, o colonialismo e o pensamento produzido no período estão diretamente relacionados à construção da sociedade brasileira. Era preciso construir um discurso que justificasse a escravidão e a opressão contra os povos indígenas e negros.
"Os dominadores se utilizaram de um discurso religioso, que dizia que os negros precisavam ser purificados através do batismo. Todos os que aqui chegavam eram batizados e catequizados. O discurso ideológico, aliado à força, foi um instrumento usado para manter o poder e construir a estabilidade para a classe dominante", conta Edson França, coordenador da Unegro.
Com a crise provocada pela Reforma e a ascensão do Iluminismo, foi preciso encontrar uma justificativa racional para a supremacia do eurocentrismo e a conseqüente manutenção da escravidão no Brasil. Chega então ao país o discurso chamado de racismo científico, cuja base é a classificação racial, onde o branco está no alto da pirâmide, do ponto vista da sua superioridade biológica, e o negro abaixo de qualquer etnia.
"Esse discurso permitiu animalizar e fazer dele o uso necessário dele. Durante todo o processo de dominação ele não foi contestado na academia e acabou assimilado pelo senso comum. Quando o papa disse que negro não tinha alma, ninguém se contrapôs. Era preciso não apenas justificar a escravidão para as classes dominantes, mas fazer com que o próprio dominado também absorvesse o discurso. A baixa auto-estima da população negra permitiu, então, a intensificação na fragmentação, em vez da unidade para fazer o combate ao pensamento e à estrutura social vigente", explica Edson França.
Quando o racismo deixou de servir aos interesses do capitalismo moderno - e veio a idéia de que era preciso libertar os escravos para aumentar a massa de consumidores -, o discurso colonizado apostou na miscigenação como forma de "branquear o Brasil". E até hoje os efeitos provocados pelo pensamento colonial são estruturantes para a desigualdade entre brancos e não brancos em nosso país.
Descolonizar a globalização
Para os movimentos que se organizam em torno do Fórum Social Mundial, há um número de desafios e apostas estratégicas que se colocam pela frente na construção deste outro mundo possível no que diz respeito à descolonização do pensamento. Para o professor Samba Buri MBoup, é preciso começar descolonizando a compreensão do próprio conceito de globalização, já que o mundo global também tem sustentado essa desigualdade. São tarefas que vão da desconstrução do mito da África como um continente sem história ao combate à idéia da marginalidade do continente no comércio e na economia.
"Apesar do discurso dominante, há muitas provas de que a África foi palco de uma história e ciência tão antigas quanto os primórdios do mundo e central em todos os momentos da economia mundial: na fase de acumulação primitiva, na colonização, na revolução industrial, na era pós-colonial e até hoje. A realidade é apresentada de cabeça pra baixo, para que olhemos para nós mesmos como se fôssemos menores, enquanto nosso continente é o berço da civilização humana. É preciso reavaliar o potencial da herança africana", cobra MBoup.
No continente mais esquecido do planeta, a alternativa ao discurso colonial da África é chamada de Renascimento Africano, um projeto global de sociedade e civilização construído na resposta coletiva e organizada da África aos desafios da globalização. O projeto, já encampado por 20 países, propõe o domínio do conhecimento científico e da tecnologia; a autonomia e rejuvenescimento da consciência política africana - como resposta à crise de lideranças no continente -; e a conscientização baseada na unidade dos povos africanos.
"Há estudos que demonstram de forma clara e irrefutável a profunda unidade cultural dos povos africanos. Hoje interceptam o potencial de desenvolvimento africano, a serviço de uma causa que não é nossa, ao imporem uma situação de monolitismo e intolerância religiosa, quando a historia africana é de pluralismo. Esta é uma tarefa que também temos que ensinar nas escolas", conclui Samba Buri MBoup.
Fonte: Carta Maior |
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O artigo abaixo foi escrito pela deputada federal Janete Rocha Pietá, que foi discriminada por uma funcionária do Cerimonial da Presidência da República durante o lançamento dos programas Bolsa Copa e Bolsa Olímpica, em Brasília, no dia 26/01/2010. O texto traz a dor da mulher e militante negra, que mesmo antes de ser eleita deputada federal sempre batalhou pelos direitos de todos os brasileiros, sejam mulheres, afrodescendentes e minorias.
A senhora, deputada!!!???... Como é que eu nunca lhe vi.... ?
Chove em Brasília e na minha face correm lágrimas. Não há consolo para julgamento sumário. Saí com vida, porém a dor, a humilhação, a indignação cidadã me corroem a alma. Em pleno século XXI sinto o açoite da chibata. As diferenças que ferem a cidadania. O milenar olhar de superioridade e de indicação da porta da cozinha ou da senzala. Como uma mulher afrodescendente, que ousa fazer um penteado afro, de tranças rasteiras, que não chega arrogante, olhando de cima, ostentando brancura, ouro, e cercada de um séquito de assessores, é deputada federal!?.. Não pode ser deputada. Está mentindo! Não lhe permito o acesso e com olhar soberbo a humilho frente à platéia que espera a vez de passar pela revista para acessar o evento com a presença do presidente da República. Tenho poder de julgar, esnobar e colocá-la no seu devido lugar. Tenho o poder de poder oprimir deste lugar em que estou, vestida e investida de autoridade.
Cumpri todas as formalidades de quem acessa ao evento. Entrei na fila, esperei minha vez para buscar meu pin de acesso às cadeiras de deputados(as). A única regalia para nós deputadas é não passar pela revista da bolsa e sabe-se como é uma bolsa de mulher... Aliás, hoje quando vou ao Banco também deixo minha bolsa nos armários que ficam do lado de fora. É sempre catastrófico, chaves, celulares, moedas, sombrinha... e a porta eletrônica a trancar e apitar. Eis a mulher que me olhou de cima e me ouviu dizer as palavras inacreditáveis, em tom baixo quase coloquial: "Sou deputada federal". Ao que ela me interpelou severa: "A senhora, deputada!!!???... Eu nunca lhe vi nos eventos presidenciais!" Calmamente respondi: "A senhora não é obrigada a conhecer os 513 deputados e deputadas, mas como pessoa do cerimonial deveria olhar para minha lapela e reconhecer meu broche de deputada, cartão de visitas aqui e em qualquer ministério". Ao que me respondeu com grande autoridade: "Sou do cerimonial da presidência". Ao que respondi: "Vou procurar o responsável pelo cerimonial". Fui, e ela de longe me olhava com desprezo. Depois descobri que era terceirizada, o que é secundário pelo que o feito revela.
Sei que hoje uma parlamentar que zela por ser séria tem que enfrentar desprezo e zombarias por causa dos que não se comportam com ética, e porque em regra tudo acaba em pizza (ou panetone). É doloroso, porém, esse sentimento generalizado contra os políticos, uma vez que boa parte dos que se elegem são pessoas sérias. Mas, a secular discriminação racial e social contra aqueles que foram oprimidos e seus descendentes, ainda mais por quem tem a tarefa de recepcionar na República, é muito mais dolorosa. É intolerável. É de chorar, como chorei copiosamente depois.
A cerimônia, com a presença do presidente Lula, governador e prefeito do Rio, ministros da Justiça, Esporte, Turismo e da Casa Civil, era para apresentar mais um passo num novo paradigma de segurança pública, um avanço para a categoria policial militar, que através da Bolsa Copa e da Bolsa Olímpica trará capacitação e aumento do soldo dos profissionais de segurança e bombeiros envolvidos nas operações de segurança nas sedes dos dois eventos esportivos. Certamente fará parte da capacitação dos agentes de segurança destacar a chaga da discriminação racial no Brasil e os caminhos para evitá-la.
Nós, negros e negras do Brasil, temos o direito à visibilidade e ao respeito em qualquer lugar. Chega de julgamentos sumários, negados quando se exerce o direito de defesa, mas reiterados pelo silencioso e frio olhar seguinte. Chega de ter que fazer sincretismos para sermos aceitos pela casa grande. Chega de invisibilidade forçada.
Acreditem, somos menos de 5% de deputados e deputadas federais negros. É hora de o Senado aprovar o Estatuto da Igualdade Racial, que teve que ser muito atenuado para passar na Câmara. É hora de uma nova educação para aplicar o princípio constitucional de que todos somos iguais. É hora de não se conformar, de protestar em cada caso, num mutirão prático-educativo assumido por dezenas de milhões de negros e negras. Lembrar que assim como lugar de operário também é na presidência da República, nos ministérios, no Parlamento, o lugar do negro e da negra é em qualquer lugar de poder: na política, na administração, no judiciário... A maioria da nação, negros e negras, quer a visibilidade a que tem direito. E, por suposto, quer respeito.
Janete Rocha Pietá (Mulher e militante negra, política fundadora do PT e atualmente deputada federal pelo PT-SP) |
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Eles se autoproclamam não racistas e acusam os negros desse crime. Escondidos atrás da cortina da "democracia racial" brasileira e apavorados com a legalização de políticas compensatórias reivindicadas pelos movimentos sociais, representantes do pensamento conversador do país usam todos os sofismas possíveis nos meios de comunicação para, a pretexto de defender direitos para todos, manter a população negra no degrau debaixo.Se possível, ainda na senzala... Lincoln Secco e Marcos Cordeiro Pires
Duas frentes de luta contra a adoção de cotas pelo Estado brasileiro têm chamado a atenção1. No Parlamento e na Justiça, o DEM (Partido dos Democratas), fiel intérprete do pensamento conservador, lidera os questionamentos à transformação em lei de demandas do movimento negro.
A segunda frente é a mídia. Não por acaso, recentemente dois livros foram lançados para combater o que eles chamam de "políticas racialistas" do Estado.
Em 2006, Ali Kamel, diretor da Central Globo de Jornalismo, fez publicar um livro com o título autodefensivo Não Somos Racistas.
Agradecendo à família Marinho pela "pluralidade de ideias" que a Rede Globo garante,o autor escreveu um libelo contra o que chama de "nação bicolor", a qual apagaria a mestiçagem brasileira.
Menos original, o jornalista e sociólogo, doutor em Geografia pela USP, Demétrio Magnoli lançou com grande apoio da imprensa escrita e falada, em 2009, a obra Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial. Se por um lado repete algumas ideias de Kamel, por outro adensa muitas análises e faz retrospectivas sutis para reforçar a tese central daquele: somos um povo único, mestiço, e a promoção de cotas institui o ódio racial entre nós.
Magnoli faz incursões cirúrgicas e seletivas em várias regiões e épocas da História para repor aquela tese central.
Todavia, suas derrapagens são sempre sutis. Um leitor desavisado sempre achará estranho ver num mesmo rol o Mein Kampf de Hitler, o "racialismo" de Evo Morales, a "mitificação" de Palmares, a "depreciação" da Abolição por parte de uma "elite negra", a "ocultação" de que a escravidão na África já existia antes do tráfico internacional introduzido por europeus e o "fato" de que a escravidão mercantil só perdurou com o apoio de elites e Estados africanos que apresavam outros negros e os vendiam aos brancos.
Cada um desses argumentos é uma meia-verdade e, por isso mesmo, uma meia-mentira. Cada um deles é sofisticado o suficiente para isentar o autor da manifestação de um sentimento racista. Quando o livro se volta para o genocídio de Ruanda, ele diz que em 1973 uma lei limitou a "9% as vagas que poderiam ser preenchidas por candidatos tútsis" ao funcionalismo.
Bem, como decênios depois houve um massacre de tútsis, podemos imaginar que as cotas e a "recriação" da História por ideólogos e historiadores hútus foram os responsáveis2. O autor quer nos induzir a acreditar, maliciosamente, que quaisquer cotas raciais levam a genocídios.
Além disso, o que ele não quer perceber é que lá as cotas limitavam o acesso de um grupo etnico, já no Brasil, ao contrário, incentivam a integração dos negros e pobres em universidades. Ainda assim, o autor poderá sempre afirmar que não fez tal ilação. Afinal, ele não é racista.
Assim como Magnoli, outros autores, de ontem e de hoje, buscam se escorar numa cientificidade acadêmica e distorcer a realidade com o objetivo de frear a ascensão social e o consequente aumento da concorrência em setores em que a elite branca local sempre teve 100% das cotas. Vejamos a seguir.
O Haiti é aqui
Já no século 19 o ensaísta Silvio Romero dizia que "o negro é um ponto de vista vencido na escala etnográfica, e o Brasil não é, não deve ser, o Haiti". De certa forma, a imagem haitiana contida na afirmação de Romero evoca duas categorias de problemas que permeiam a vida social brasileira: a arrogância de uma elite que tem seu poderio político e econômico baseado na escravidão e um medo incontido de uma revolta das classes populares contra os próprios privilégios. Por conta disso, qualquer contestação das classes subalternas foi combatida com a maior ferocidade pelas forças militares da ordem, como expressão desse medo incontido de um levante da maioria massacrada.
Para amenizar esse receio, já sob a lógica de uma ordem capitalista em que formalmente as pessoas deveriam ser iguais, são entronadas as ideias de Gilberto Freyre acerca da brandura do escravismo brasileiro e de seu grande legado, que foi a "tolerância" criada por nossa mestiçagem. Em contraposição,tem-se a violenta experiência norte-americana que situou o debate no "branco e preto", sem concessões para qualquer dégradé. O ideário freyriano cria a ideologia oficial brasileira sobre o debate racial no Brasil, valorizando o mestiço e a democracia racial e fazendo vistas grossas a todo tipo de sordidez a que é submetida diariamente a população negra brasileira.
O receio do imaginário haitiano ou qualquer outro que possa inspirar as camadas populares a questionar a ordem vigente traz consigo a face menos cordata da elite brasileira e de seus aparelhos no Estado, não só o aparato repressivo, mas a pena e a boca de certa fração da intelectualidade, que busca justificar a realidade social do país como "o melhor dos mundos possíveis, em constante progresso civilizatório". Em verdade, deparamos com uma situação de completa marginalização a que estão sujeitas parcelas significativas da população brasileira, marginalização essa que, em última instância, é atestada pelas disparidades de renda que separam negros e não negros.
Por outro lado, quando se procura encontrar mecanismos para minorar essa situação angustiante, como políticas de reforma agrária ou ações afirmativas, parcela dessa intelectualidade, fortemente enraizada na Universidade e na imprensa, busca desacreditar os movimentos sociais. Isso vale tanto para o movimento negro organizado como para as lutas dos trabalhadores rurais sem terra, que se irmanam com os negros como alvos preferenciais das elites.
Especificamente quanto ao primeiro caso, os detratores de qualquer iniciativa política que signifique melhorias para a população negra no Brasil usam argumentos sutis para se contrapor às ações afirmativas. Kamel e Magnoli são meros musicistas numa orquestra bem articulada. Tomemos outro exemplo característico: o Manifesto contra as Cotas Raciais, assinado por parcela da intelectualidade dita "progressista".
Queremos um Brasil onde seus cidadãos possam celebrar suas múltiplas origens, que se plasmam na criação de uma cultura nacional aberta e tolerante, no lugar de sermos obrigados a escolher e valorizar uma única ancestralidade em detrimento das outras.O que nos mobiliza não é o combate à doutrina de ações afirmativas, quando entendidas como esforço para cumprir as declarações preambulares da Constituição, contribuindo na redução das desigualdades sociais, mas a manipulação dessa doutrina com o propósito de racializar a vida social no país3.
A esses argumentos poderíamos acrescentar outros, pinçados aqui e ali em debates em comissões parlamentares, programas de entrevistas, fóruns de alguns partidos ditos "de esquerda" ou outras fontes impressas. Por exemplo: o Brasil é uma "democracia racial e a exclusão decorre menos da cor da pele do que da condição social"; o país não precisa importar "modelos norte-americanos que não se aplicam ao Brasil"; "a contradição fundamental da sociedade brasileira é a luta entre exploradores e explorados e soluções parciais visam arrefecer o fervor revolucionário das massas"; "políticas universalistas são a melhor solução para as desigualdades sociais no Brasil"; e "a introdução de mecanismos de promoção social baseados na raça tende a criar conflitos raciais até então inexistentes no Brasil".
Mais uma vez, meias-verdades e meias-mentiras. Em abstrato, todas são verdadeiras. Na vida concreta tornam- se o seu contrário, ou seja: frases ocas que visam impedir a igualdade racial. Não é difícil entender que pelo próprio movimento de suas antinomias internas os belos princípios do Iluminismo se inverteram e serviram por muito tempo para impedir as mulheres, por exemplo, de exercitar sua diferença e, assim, obter direitos iguais.
O manifesto contra as cotas se previne contra isto: "As leis que oferecem oportunidades de emprego a deficientes físicos e que concedem cotas a mulheres nos partidos políticos são invocadas como precedentes para sustentar a admissibilidade jurídica de leis raciais. Esse segundo sofisma é ainda mais grave, pois conduz à naturalização das raças. Afinal, todos sabemos quem são as mulheres e os deficientes físicos..."
E isso é bem verdadeiro. Como dizia o velho Marx, "um negro é um negro, só em certas condições ele se torna um escravo". Nunca foi difícil reconhecer um escravo. Assim como hoje, à polícia, aos porteiros de prédio e aos professores universitários não tem sido difícil reconhecer os negros (em sua maioria pobres ou com essa marca em sua pele e em seu corpo). É certo que os signatários do manifesto, mesmo sendo intelectuais, nunca foram gentilmente abordados à porta de um centro cultural ou de uma megastore com a frase: "Pois não?" E ninguém lhes deu, num estacionamento, a chave para manobrar o carro.
Um sofisma interessante é mencionado pelo discurso antipolíticas compensatórias, quando afirma indiretamente que os racistas são os negros e, mais ainda, quando os acusa de atentar contra os princípios da Constituição ao manipular os preceitos de redução das desigualdades sociais, "com o propósito de racializar a vida social no país". Isto é uma impostura: criminalizar a vítima e vitimizar o criminoso! Ora, a vida social do país já é racializada, o que cabe agora é lutar para que ninguém crie obstáculos a outras pessoas por conta de sua cor de pele, o que implica adotar políticas que reparem o massacre a que foi submetida a população negra no Brasil.
Diante dessas questões, como pode um intelectual dizer que políticas compensatórias seriam um grave atentado ao Estado democrático porque racializariam a política e criariam um perigoso potencial de conflitos para o futuro? De onde viria esse "perigo haitiano"? Das populações negras que seriam beneficiadas por ações que minorassem seu calvário ou de ressentimentos de parcela racista da população branca que viu sua cota de privilégio mitigar de 100% para 80%?
Em defesa de quem?
Sofisma, todos sabem, é uma maneira de induzir ao erro por meio de argumentos aparentemente lógicos, como vimos. Um bom sofista pode até mesmo fazer uma inesperada defesa da classe trabalhadora e de tradicionais bandeiras da esquerda. O jornalista Ali Kamel, por exemplo, criticava o Bolsa Família por supostamente não atender aos mais pobres. Outros insistem em lembrar o quanto o "PT radical" dos anos 80 era bom para o país. Agora, o partido teria abandonado o socialismo... É evidente que o leitor bem informado sabe que eles nunca ligaram para trabalhadores e nunca gostaram do PT, radical ou não.
O jornalista Magnoli segue pela mesma via. No capítulo de seu livro intitulado "A cor da pobreza", mostra como a desigualdade não se dá pela raça, e sim pela renda. Decerto saudoso de seus tempos engajados à esquerda, o professor apoia o "Movimento Negro Socialista", que seria estimulado por uma tendência de natureza trotskista e reafirma o critério "de classe".
Se não conhecêssemos suas outras opiniões, é do que se trata, poderia até ser confundido com um marxista ortodoxo. Para difundir a ideia de que as cotas só servem a uma "burguesia negra", distorce a estatística e se vale da exceção da UnB para negligenciar o fato de que as universidades brasileiras, em geral, usam o critério étnico combinado com o econômico. A cota não é só racial, é também para alunos (quase) brancos de escola pública.
Se a igualdade vigorasse e estivéssemos todos numa sociedade socialista, cotas talvez fossem desnecessárias. Até lá (ou talvez antes) elas precisarão ser usadas. De certa maneira, os críticos têm uma razão. Elas não foram pensadas para ajudar os negros a se conscientizarem. Sua consciência é forjada por eles próprios em sua vida social. Elas servirão para educar as elites brancas, pois agora terão de olhar os ex-escravos na mesma mesa, na mesma sala, na mesma escola.

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP
Marcos Cordeiro Pires é professor de Economia na Unesp - Marília (SP)
1 Retiramos o título de um discurso do deputado Emiliano José - PT-BA (Câmara dos Deputados, 11/8/2009).
2 Ignora o geógrafo que a delimitação das fronteiras que colocaram tútsis e hútus em diferentes Estados nacionais (Ruanda, Congo,Burundi, Tanzânia e Uganda) decorreu do imperialismo europeu que, em 1885, retalhou o continente africano na Conferência de Berlim e que os processos de independência não conseguiram superar esse pecado original de cada novo Estado nacional?
3 Cidadãos Antirracistas contra as Leis Raciais. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u401519.shtm
Fonte |
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por: BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
Nos últimos tempos, surgiram dúvidas sobre o real impacto do Fórum Social Mundial e sobre a sua sustentabilidade futura
REÚNEM-SE em Porto Alegre milhares de ativistas e líderes de movimentos sociais e ONGs para fazer o balanço dos dez anos do Fórum Social Mundial, um processo que nasceu no Brasil no início da década que seria também a da afirmação internacional do país. Nos últimos tempos, surgiram dúvidas sobre o real impacto do FSM e sobre a sua sustentabilidade futura.
O impacto do movimento do FSM foi muito superior ao que se imagina.
A ascensão ao poder dos presidentes progressistas da América Latina não se pode entender sem o fermento de consciência continental por parte dos movimentos sociais gerado no FSM ou potenciado por ele.
O bispo Fernando Lugo, hoje presidente do Paraguai, veio ao primeiro FSM de ônibus. A luta travada com êxito contra a Alca e os tratados de livre-comércio foi gerada no FSM.
Foi no primeiro FSM que se discutiu a importância de os países de desenvolvimento intermédio e com grandes populações -como Brasil, Índia, África do Sul- se unirem como condição para que as regras do jogo do capitalismo mundial fossem alteradas. Um dos participantes nas discussões viria a ser logo depois um dos articuladores da política externa brasileira. E os Brics e o G20 aí estão.
O FSM teve uma importância decisiva em denunciar a hipocrisia e a injustiça da ortodoxia financeira e econômica do Banco Mundial, do FMI e da OMC, abrindo espaço político para comportamentos heterodoxos de que se beneficiaram sobretudo os países ditos emergentes. Foi também sob a pressão das organizações do FSM especializadas na dívida externa dos países empobrecidos que o Banco Mundial veio a aceitar a possibilidade de perdão dessas dívidas.
O FSM deu visibilidade às lutas dos povos indígenas e fortaleceu-lhes a dimensão continental e global das suas estratégias. Deu igualmente visibilidade às lutas das castas inferiores da Índia (os dalits), particularmente a partir do FSM realizado em Mumbai.
Acima de tudo, o FSM deu credibilidade à ideia de que a democracia pode ser apropriada pelas classes populares e que os seus movimentos e organizações são tão legítimos quanto os partidos na luta pelo aprofundamento da democracia. A resposta à dúvida sobre a sustentabilidade do FSM deve centrar-se num balanço do futuro. Primeiro, o FSM tem de mundializar-se. O FSM da última década foi sobretudo latino-americano. Foi nesse continente que a ideia do FSM cativou verdadeiramente a imaginação dos movimentos sociais e se transformou numa fonte autônoma de energia contra a opressão.
Essa fertilização do inconformismo teve repercussões nos processos políticos que tiveram lugar em muitos países do continente.
Está a emergir uma consciência continental que, embora difusa, tem como ideias centrais a recusa militante da concepção imperial da América Latina como quintal dos EUA e a reivindicação de formas de cooperação econômica e política que se pautam por princípios de solidariedade e reciprocidade, alternativos aos que subjazem aos tratados de livre-comércio.
Para ser sustentável, o FSM tem de fazer um esforço enorme no sentido de densificar a sua presença nos outros continentes. Segundo, o FSM vai ter de produzir pensamento solidamente crítico e propositivo. O FSM não será sustentável se a sua voz, mesmo que plural, não se ouvir sobre os problemas que afligem o mundo. Não se compreende que o FSM, enquanto tal, não tenha tido voz (ou um conjunto de vozes estruturadas) sobre a reforma da ONU, sobre a mudança climática ou sobre a guerra infinita contra o terrorismo.
Terceiro, o FSM vai ter de apoiar ações coletivas e novas internacionais. O capitalismo tem uma capacidade enorme de regeneração. Os mais furiosos adeptos do neoliberalismo nem sequer pestanejaram para aceitar a mão do Estado na resolução da crise, o que por vezes envolveu nacionalizações, a palavra maldita dos últimos 30 anos. Por isso, o ativismo global do FSM vai aprofundar as suas agendas tendo em mente esse realismo, na base do qual podem construir novas lutas pela justiça social.
Têm vindo a surgir várias propostas no sentido de tornar o movimento da globalização alternativa mais afirmativo e vinculativo em termos de iniciativas mundiais. É o caso da proposta recentemente feita pelo vice-presidente da Bolívia de criar a Internacional dos Movimentos Sociais ou da proposta do presidente da Venezuela de criar a Quinta Internacional, congregando os partidos de esquerda em nível mundial. A primeira proposta é inspirada no FSM, e a segunda, talvez numa crítica ao FSM. Para ambas o fórum é relevante.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).
Fonte: Folha de São Paulo
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por: MARINA SILVA
COMEÇA HOJE , em Porto Alegre, mais uma edição do Fórum Social Mundial. Em dez anos de existência, muita coisa mudou pelo planeta. Ataque do 11 de Setembro, Guerra do Iraque, crise financeira mundial, Obama, Lula, ascensão dos Bric, fortalecimento da agenda ambiental e, ao mesmo tempo,
agravamento da crise planetária expressa nas mudanças climáticas. Mas, em todo esse tempo, o espaço multicêntrico de poder e conhecimento que é o FSM teve um papel sinalizador e criou uma referência.
"Um outro mundo é possível", avisava, de pronto, o ousado movimento, que, de Porto Alegre, fazia ecoar a voz de atores políticos e sociais envolvidos com as mais variadas causas, estabelecendo um contraponto com o Fórum Econômico Mundial, que se realiza anualmente em Davos, na Suíça.
Nesse tempo, o FSM foi ganhando estatura e correu o mundo. Agora retorna a Porto Alegre como um espaço já consolidado e descentralizado do debate livre da sociedade civil global, lembrando a cada ano que as grandes questões contemporâneas não são monopólio do poder econômico ou do poder de Estado. Elas são pensadas, sentidas e compartilhadas fora das regras excludentes das vontades hegemônicas, sem direcionamento e sem donos, demonstrando que há uma fonte poderosa de energia de onde pode emergir um mundo melhor, mais justo e equilibrado.
Talvez o principal produto dessa energia seja a visibilidade dada à necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de participação na democracia representativa, como forma, inclusive, de renová-la e reconectá-la urgentemente com a sociedade.
Não se trata de desconstituir Davos. Mas, mais do que nunca, é preciso afirmar que os problemas do mundo não são apenas da conta de um pequeno grupo de atores políticos e econômicos. Assim como o G7 hoje tem menos peso ante o G20, que inclui os países emergentes, e reconhece sua força, Davos e seu modo economicista de ser já reconheceu a força do ponto de vista socioambiental e a perspectiva de direitos humanos que são a alma do FSM.
Lá estarei uma vez mais. Para ouvir, trocar e debater, como é o espírito do Fórum. Não com a pretensão de chegarmos a um detalhado e generalizado consenso sobre os melhores caminhos para a política e a sociedade. Mas com a certeza de que muitos consensos se formarão e gerarão ações, compromissos, articulações e atitudes convergentes em todo o mundo. E muitos dissensos ficarão evidentes, o que é bom para avançar na direção de uma sociedade mais generosa, plural, capaz de dividir e de conviver com a discordância.
Fonte: Folha de São Paulo |
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A realidade é crua: a natureza não precisa de nós
por: Marcelo Gleiser
É impossível encontrar palavras para descrever a tragédia no Haiti. De longe, lemos depoimentos e jornais. Assistimos às notícias na TV, chocados em ver uma população inteira em profunda agonia, num estado de total fragilidade e de caos. Crianças perdidas de seus pais (ou órfãs) e milhares de pessoas morrendo de fome e sede.
Gangues de jovens -mais de 50% da população tem menos de 18 anos- atacando aqueles que tem algo para comer ou tentando roubar tudo o que podem. Nenhuma água, gasolina ou qualquer forma de comunicação. A vida forçada a parar por completo, um apocalipse real, provocado por forças muito além do nosso controle.
Mesmo que a ciência possa explicar as causas dos terremotos e das erupções vulcânicas, permanece incapaz de prever quando irão ocorrer. Saber a localização das falhas geológicas onde os terremotos ocorrem claramente não é suficiente. Modelos e explicações permanecem especulativos. Por exemplo, existe uma proposta que terremotos tendam a ocorrer quando há um aumento na força das marés, como em torno da época de um eclipse. De fato, um eclipse anular ocorreu três dias após o terremoto do Haiti. Infelizmente, previsões dessa natureza raramente são precisas o suficiente para salvar vidas.
A Terra é um planeta ativo, borbulhando em suas entranhas, com uma crosta formada de placas que tendem a mudar de posição em busca de um maior equilíbrio quando a pressão subterrânea aumenta. Obviamente, fazem isso sem dar a menor importância para a destruição que causam. Cataclismos naturais, como o do Haiti ou o tsunami de 2004 no oceano Índico, que causou em torno de 230 mil mortes, expõe a crua realidade da vida na Terra: precisamos da natureza, mas a natureza não precisa de nós. No nosso desespero, e sem poder prever quando cataclismos dessa natureza irão ocorrer, atribuímos tais eventos a "atos divinos". Nisso, não somos muito diferentes de nossos antepassados, que associavam divindades a quase todos os aspectos e fenômenos do mundo natural.
Talvez a transição do panteísmo ao monoteísmo, sobretudo no ocidente, tenha removido Deus do contato mais direto com os homens, relegando-o a uma presença etérea, distante da realidade do dia-a-dia. Mas muitos continuam atribuindo o que não entendem a "atos divinos", seguindo a receita tradicional do "deus das lacunas": a fé começa onde a ciência termina.
Talvez faça mais sentido associar esses cataclismos a uma indiferença divina. É horripilante testemunhar a crueldade -e até mesmo a estupidez- de certos homens de fé nesses momentos difíceis. Um exemplo é do pastor evangélico americano Pat Robertson, que recentemente atribuiu o terremoto a uma punição divina contra o povo haitiano, que supostamente assinara um pacto com o diabo para conseguir obter sua independência dos franceses. Nossos antepassados nas cavernas teriam concordado.
Dentro do contexto desta coluna, a tragédia provocada pelo tremor no Haiti nos ensina ao menos duas coisas. Primeiro, que a ciência tem limites, e que existe muito sobre o mundo que ainda não sabemos. Porém, não é por isso que devemos atribuir o que não sabemos explicar a atos sobrenaturais. Nossa ignorância deve abrir caminho ao conhecimento e não à superstição. Segundo, aprendemos que a vida -e aqui estamos nos incluindo- é extremamente frágil e deve ser protegida a todo custo. Nosso planeta, apesar de demonstrar fúria ocasionalmente, é nossa única morada viável. Devemos tratá-lo com o respeito que merece.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo".
Fonte: Folha de São Paulo
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A maioria dos americanos aprova as medidas adotadas pelo presidente dos EUA, Barack Obama, para ajudar o Haiti. Pesquisa realizada pelo Pew Research Center mostra que 64% dos americanos concordam com as decisões tomadas pelo presidente após o terremoto. Mesmo entre os republicanos, 51% apoiam a ajuda aprovada por Obama. Para 58% dos americanos, o governo está agindo na medida certa para auxiliar o país. Mas 16% dos republicanos e 6% dos democratas avaliam que Obama está fazendo mais do que deveria. A resposta rápida do presidente, que ofereceu recursos e suporte, surpreendeu até mesmo adversários políticos. O terremoto no Haiti é também a notícia mais acompanhada pelos americanos, segundo a pesquisa -70% dizem que estão discutindo o tema com amigos. Nos dias que se seguiram ao terremoto, 18% dos entrevistados ou alguém em suas casas fizeram doações para ajudar as vítimas da catástrofe, e 30% disseram que planejam fazer uma doação. A maioria dos que já fizeram doações (59%) disse ter dado o dinheiro para organizações não religiosas. As redes de informação como Facebook e Twitter foram usadas por 13% dos americanos para obter informações sobre o terremoto no Haiti. Entendimento
Os EUA e a ONU assinaram ontem um acordo que formaliza o papel dos EUA no suporte ao Haiti. Segundo o documento, os americanos têm papel de apoio em ações humanitárias, mas continuam no comando do aeroporto, portos e estradas. A embaixadora americana na ONU, Susan Rice, disse que segundo o acordo as tropas americanas continuam sob seu próprio comando, mas que as autoridades americanas estão definindo uma força-tarefa para dar apoio aos esforços humanitários. A polícia haitiana e os 12.650 soldados da missão de paz da ONU continuam os principais responsáveis pela segurança.
Fonte: Folha de São Paulo |
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Há o que comemorar no aniversário de 456 anos da cidade de São Paulo?
ODED GRAJEW e PADRE JAIME NO MOMENTO em que a população paulistana volta a enfrentar situações até então tida como superadas -alagamentos catastróficos, recordes de congestionamentos, habitações insalubres, entre tantos outros problemas que vêm à tona diariamente-, fica difícil encontrar motivos para comemorar os 456 anos de São Paulo.
Os fatos concretos fazem com que a cidade enfrente uma grave crise de credibilidade perante seus cidadãos. E a insatisfação dos paulistanos está retratada na recém-lançada pesquisa do Movimento Nossa São Paulo encomendada ao Ibope. De 1 a 10, os paulistanos avaliam sua qualidade de vida com uma média de 4,8 -nota que se reflete em outros dados importantes: 87% das pessoas consideram São Paulo um lugar inseguro e, se pudessem, 57% sairiam da cidade.
Essas são apenas algumas das dezenas de questões abordadas na pesquisa que, de forma inédita, avaliou o grau de satisfação da população sobre os indicadores de bem-estar levantados durante a fase de consulta pública do Irbem (Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município), realizada entre junho e outubro de 2009 com mais de 36 mil pessoas.
Em dezembro, o Ibope foi às ruas e perguntou sobre o grau de satisfação da população em 25 áreas temáticas, detalhadas em 174 itens. Destes, só 39 receberam nota acima da média.
Outro dado revelador foi obtido com a pergunta sobre o tempo de espera no sistema público de saúde. Entre os usuários, a média ficou em 65 dias para consultas, 77 dias para exames e 162 dias para procedimentos mais complexos, como cirurgias. Como podemos falar em comemoração quando outra pesquisa do Nossa São Paulo com o Ibope revelou que o paulistano passa em média duas horas e 43 minutos por dia no trânsito? Quando nossos rios, que poderiam servir para transporte, esporte e lazer ou como fonte de água, são verdadeiros esgotos a céu aberto?
A insatisfação generalizada está calcada em dados objetivos, já que os indicadores sociais e econômicos continuam atestando a marca cruel da desigualdade na capital paulista.
Por exemplo, na Subprefeitura da Sé, 0,31% dos domicílios são favelas, enquanto no Campo Limpo esse percentual é de 40,4%. A diferença (que chamamos de desigualtômetro) é de 130 vezes. Várias regiões são absolutamente carentes de empregos, leitos hospitalares, áreas verdes e equipamentos públicos culturais e esportivos (pode-se conferir no site www.nossasaopaulo.org.br).
É bem verdade que a força da sociedade civil é um fato que merece comemoração em São Paulo. Força esta que proporcionou o início de uma verdadeira revolução na administração pública municipal, com a aprovação da lei do Programa de Metas (que obriga todo prefeito recém-empossado a apresentar, em até 90 dias, um conjunto de metas para toda a gestão), apresentada pelo Movimento Nossa São Paulo e que, justiça seja feita, contou com o apoio do Poder Executivo e da Câmara Municipal.
Hoje, qualquer cidadão pode acompanhar, via internet, a execução de cada uma das 223 metas apresentadas pela prefeitura. Muitas das metas, se cumpridas, ajudarão a reduzir as diferenças internas em nossa cidade, além de elevar o grau de satisfação da população com o lugar onde vive.
Nós, do Nossa São Paulo, movimento apartidário que busca o desenvolvimento justo e sustentável da cidade, esperamos que os dados do Irbem sobre a grande insatisfação da população com a qualidade de vida, somados a uma análise responsável dos indicadores sociais e econômicos que revelam enorme desigualdade e exclusão em São Paulo, promovam uma saudável autocrítica na sociedade e no poder público.
Torcemos para que não tomem atitudes defensivas ou busquem culpados, mas que assumam as responsabilidades e reorientem ações e prioridades para que possamos ter realmente muitos motivos para comemorar nos próximos aniversários da cidade.
ODED GRAJEW, 65, empresário, é um dos integrantes do Movimento Nossa São Paulo. É também membro do Conselho Deliberativo e presidente emérito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do presidente da República (2003).
JAMES CROWE, 65, o padre Jaime, teólogo, é presidente da Associação Sociedade dos Santos Mártires e integrante do Movimento Nossa São Paulo. Foi organizador da Caminhada pela Vida e pela Paz e criador do Fórum em Defesa da Vida e pela Superação da Violência.
Fonte: Folha de São Paulo |
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