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A Bahia e o direitismo como doença adulta do colaboracionismo de centro-esquerda

A historiadora Patrícia Valim escreve sobre os impasses que marcam o PT baiano: “Se Lênin estivesse vivo e morando em Salvador hoje (..) teria escrito outro livro, ‘Direitismo: a doença adulta do colaboracionismo de centro-esquerda’, pra designar o desvio ideológico à direita que tanto tem fortalecido o bolsonarismo”

Por Patrícia Valim, do Brasil 247

O presidente Jair Messias Bolsonaro foi duramente criticado no editorial desta quarta (19) da Folha de S. Paulo em razão de seus ataques misóginos e abusos de poder contra uma jornalista do mesmo jornal. Nas minhas redes sociais, vários colegas concordaram com os termos da crítica do editorial, mas lembraram do colaboracionismo do jornal na eleição do bolsonarismo, da adesão em bloco do jornal às políticas neoliberais de desmonte do Estado do pauloguedismo e do silêncio quando a ex-presidenta Dilma Rousseff foi vaiada e xingada em um estádio durante a abertura da Copa, transmitida para boa parte do mundo.

Vários colegas daqui da Bahia também criticaram a perseguição da família Bolsonaro à jornalista, mas ficaram mais uma vez em silêncio sobre uma das maiores arbitrariedades do governador Rui Costa. Explico: em 08 de janeiro de 2020, a Defensoria Pública do Estado ajuizou ação civil em caráter de urgência para barrar a apresentação de exames ginecológicos das candidatas que tinham sido aprovadas no concurso público de formação de oficiais da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia.

A urgência da ação ocorreu porque apesar de haver um acúmulo teórico sobre a impertinência dessa exigência em concursos públicos e de vários órgãos públicos de outros estados da federação terem abolido o exame ginecológico, altamente invasivo às mulheres, o governo do estado da Bahia desconsiderou essas informações e indicações, e naquela altura estava convocando as mulheres aprovadas no concurso para a apresentação dos referidos exames.

Nessa semana, uma desembargadora da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Salvador suspendeu a realização do concurso para PM, Corpo de Bombeiros e Agentes da Saúde da PM, argumentando que as exigências dos concursos públicos do estado da Bahia violam os princípios constitucionais “da dignidade da pessoa humana, razoabilidade, proporcionalidade, isonomia e igualdade de gênero, já que existe a exigência de exames invasivos para as mulheres, o que não acontece com os concursados homens”.

Qualquer governante de centro-esquerda, ou só de centro mesmo, preocupado em não fortalecer o fascismo do bolsonarismo teria entendido que a Defensoria Pública do Estado da Bahia cumpriu com seu dever ao defender os interesses da população, de sorte que esse governante teria acatado a decisão da desembargadora e refeito o edital dos concursos, garantindo os princípios constitucionais exigido pela Lei Editalícia e sem transformar esse episódio em mais um fato político que arranharia mais ainda sua atuação pública no governo do estado.

Mas o governador da Bahia, Rui Costa, parece que anda deslumbrado com o alto índice de aprovação do seu governo em 2019, de maneira que na correria usual não tem sobrado tempo para ele se preocupar com o mérito e o método de suas atitudes políticas em público, muito menos com a escalada crescente do fascismo bolsonarista. Na segunda-feira à noite, durante seu programa  “papo correria”, o governador Rui Costa depois de afirmar que não conseguia entender os propósitos de “duas defensoras públicas” (trata-se de uma mulher e um homem), divulgou os nomes da dupla de defensores públicos que ajuizaram a ação civil e incitou a população a constrangê-los: “procurem pelo endereço de e-mail e telefone, dá uma ligada pra Defensoria, pra ver se convence os defensores pra retirar a ação posta junto à Justiça (sic)”.

Governador da Bahia, Rui Costa (Foto: Fernando Vivas/GOVBA)

Nessa conjuntura de desespero, miséria e desemprego crescentes em razão das políticas bolsonaristas e das reformas pauloguedistas, imaginem o que pode vir a acontecer quando um governador incita publicamente a população a tomar satisfação e pressionar a dupla de Defensores Públicos do Estado da Bahia pela retirada da ação ajuizada por contrariar os interesses do governador do estado e não da população, cuja maioria é mulher. Quantas vezes Jair Messias Bolsonaro incitou sua malta de apoiadores a constranger publicamente uma mulher que o contrariou na política? Esse tipo de prática é usual em governadores de um partido de centro-esquerda? Não, senhoras e senhores, não é. Trata-se de uma misoginia irresponsável e do tipo que a esquerda denunciou no carlismo contra a então prefeita de Salvador, Lídice da Mata. O tipo de misoginia que a esquerda acertadamente denuncia no bolsonarismo, mas que o adesismo dos apoiadores do governador da Bahia, incluindo algumas mulheres, têm silenciado reiteradamente porque “não é tempo” de criticá-lo. E quando é?

Oxalá não aconteça nada com a dupla de Defensores Públicos do Estado e nem com quem se vê obrigada a criticar publicamente o governador do estado da Bahia do seu próprio partido para evitar o desarmamento ideológico da militância  e, consequentemente, do Partido dos Trabalhadores por meio de um conjunto de erros crassos de Rui Costa que tanto tem fortalecido o bolsonarismo e constrangido o petismo. Quando Vladimir Safatle escreveu que a esquerda morreu como metáfora hegeliana, muita gente fingiu que não entendeu o argumento da crítica: justamente o conjunto de atitudes autoritárias e algumas políticas adotadas equivocadamente pelo governo do estado da Bahia hegemonizadas pelo neoliberalismo, que tem comprometido o projeto político de oposição ao bolsonarismo  do PT nacionalmente.

Porque fazer oposição não é se alinhar ao bolsonarismo e colaborar com ele, mas tensioná-lo diariamente em todas as suas esferas. Até porque o colaboracionismo com profissionais do ramo fascista tem um preço altíssimo: em uma única nota à imprensa, Bolsonaro conseguiu jogar a acusação de execução sumária da principal testemunha no esquema de corrupção das “rachadinhas”, que comprometeria sua família no governo, no colo da PM da Bahia, de Rui Costa e do PT Nacional – como Lula o havia advertido -, obrigando o governador da Bahia a afirmar publicamente que não sabia da operação. Reinaldo Azevedo escreveu em sua coluna no site UOL que de duas, uma: ou o governador da Bahia não controla a polícia do estado, ou o setor de relações públicas do seu governo está batendo cabeça.

Ou as duas. E criticar esses erros de Rui Costa publicamente não é “esquerdismo infantil”, o diagnóstico leninista para designar desvio ideológico à esquerda, como tenho sido acusada por alguns decanos queridos, outros nem tanto, do PT. Como historiadora que sou, confesso que adoro argumentos datados, sobretudo quando a própria história se encarrega de subvertê-los, esse verbo tão bonito, quando não se aprende com ela. Porque o ato de criticar é ação derivada da racionalização que se sobrepõe ao adesismo, é o dever político de qualquer militante que tem em seu horizonte de expectativa o fortalecimento do maior partido de centro-esquerda, o PT, como oposição ao bolsonarismo por meio de projetos políticos polarizados.

Se as mulheres não são PRIORIDADE no governo de Rui Costa – como também não o são no bolsonarismo -, uma vez que o governador da Bahia também fechou o VIVER, espaço público de acolhimento e apoio às mulheres vítimas de violência sexual em Periperi, subúrbio de Salvador, por que as mulheres devem apoiar esse projeto político? Se as mulheres não são PRIORIDADE em um projeto político de centro-esquerda e ao criticarem o machismo e a misoginia do governador da Bahia são ridicularizadas, por que devemos apoiar a escolha monocrática de uma mulher para a prefeitura de Salvador com um trabalho respeitável, mas sem autonomia política porque foi escolhida à revelia da militância e das mulheres da cidade das mulheres?

Como dialogar e convencer a militância sobre mpoderamento feminino durante uma possível candidatura da Major Denice à prefeitura de Salvador, se o governador Rui Costa não respeita o trabalho de uma Defensora Pública que agiu acertadamente e a expõe publicamente de maneira absolutamente condenável, mesmo com todas as críticas que tenho sobre a atuação pouco ortodoxa de alguns membros do judiciário da operação Lava-Jato, publicadas no livro “Relações Obscenas”, em 2019?

Se as mulheres não são PRIORIDADE no governo de Rui Costa, isso me obriga, por uma questão de sobrevivência e vivência, a ser resistência e oposição. A própria existência das mulheres há é resistência e oposição. E depois do Golpe de 2016, não há mais esquerda possível sem colocar como prioridade de um projeto político o fim do feminicídio e do genocídio da população negra e da população indígena. E tratando os problemas de segurança pública com mais violência e encarceramento. Não iremos muito longe, senhoras e senhores, sem essas pautas democráticas porque um ciclo está se encerrando para a chegada de outro em 2020.

E precisamos coletivamente fortalecer o PT para estar à altura dos desafios enormes que teremos em 2020. Porque em verdade vos digo, se Lênin estivesse vivo e morando em Salvador hoje – a capital mais negra e com índices alarmantes de feminicídio e genocídio – , ele jamais consideraria isso como “esquerdismo infantil”. Ao contrário. Inspirado nas atitudes políticas de Rui Costa, Lênin teria escrito outro livro, “Direitismo: a doença adulta do colaboracionismo de centro-esquerda”, pra designar o desvio ideológico à direita que tanto tem fortalecido o bolsonarismo.

 

Patrícia Valim

Professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia. Conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo

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