Hilton Cobra: Por uma política cultural honesta, inclusiva e verdadeiramente democrática

Ascom/FCP

Em sua primeira semana à frente da Fundação Cultural Palmares (FCP), Hilton Cobra fala da importância e responsabilidade em assumir a presidência da instituição pública vinculada ao Ministério da Cultura. “Estou entrando na Palmares à convite da ministra Marta Suplicy, no  tempo certo para realizar o que penso que deve ser realizado: revitalizar e profissionalizar a FCP para que ela atenda aos anseios da gente negra brasileira”,

O presidente pretende colocar a FCP no rumo de uma instituição de proposição e articulação, junto a outros órgãos do MinC (Fundação Nacional de Artes, Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Casa de Rui Barbosa, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Instituto Brasileiro de Museus e Agência Nacional do Cinema) e empresas pública e privada, para implementar políticas públicas que ampliem o acesso de produtores, artistas, escritores, intelectuais, pesquisadores e as comunidades quilombolas e religiosas negras aos meios econômicos e financeiros do país.

De acordo com Cobra, nos últimos anos, a Fundação tem sido conhecida como uma produtora de grandes eventos. “Sou absolutamente contra a participação da Palmares na produção/execução de eventos dessa natureza. A Palmares deve ser uma instituição fomentadora de discussões acerca do fazer artístico, criando fóruns para o aprimoramento estético artístico, a profissionalização dos meios de produção, o enriquecimento intelectual e a produção do conhecimento”, explica. “Em lugar de produzir/executar grandes eventos como, por exemplo, shows musicais em praça pública, buscaremos dar condições para que os produtores produzam e realizem”, acrescenta.

Amparado a esse compromisso é também sua meta estruturar e modernizar as áreas finalísticas da instituição. O propósito é potencializar de fato o Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC), um setor que para ele é a alma da FCP, cujo principal objetivo é “apoiar a produção e disseminação de informações e conteúdos sobre a cultura afro-brasileira”, ou seja, incentivar e produzir conhecimento.

Além de estreitar a parceria com a Biblioteca Nacional, Associações de Pesquisadores(as) Negros(as), Editoras e outros segmentos afins, como também, incentivar a realização de Encontros de Escritores(as) e Poetas Negros(as) e de Feiras Literárias, o presidente entende que cabe ao CNIRC registrar, sistematizar e difundir os saberes negros produzidos em espaços diversos, a exemplo das rodas de capoeira, carnaval, templos religiosos, comunidades rurais e nas movimentações político-culturais.

No Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro, setor que trata do reconhecimento de terras ocupadas pelas comunidades remanescentes dos quilombos e das religiões de matriz africana, entre outras ações voltadas ao nosso vasto patrimônio cultural, é onde está sua maior preocupação. “No que diz respeito às terras quilombolas, reconhecendo alguns avanços, principalmente, por conta da atenção dada na gestão do professor Ubiratan Castro, ou se cria uma frente para uma solução colegiada, afim de fortalecer a legislação em prol das comunidades, ou continuaremos tratando de uma das demandas mais urgentes e sensíveis a passos de tartaruga”, destaca Cobra.

“É urgente o empenho de todas e de todos, inclusive das organizações civis no sentido de encontrar uma solução definitiva para que essas comunidades tenham o que lhes é de fato e de direito: a titulação definitiva de suas terras e suas necessidades sociais e culturais atendidas”, defende.

No Departamento de Fomento e Promoção da Cultura Afro-brasileira, área na qual atua mais diretamente, Hilton Cobra afirma que buscará criar “meios capazes de atender às demandas dos artistas e produtores negros brasileiros, propondo um maior entendimento, junto a outros órgãos do MinC, principalmente, Funarte, Ancine , Sav e empresas pública e privada, para uma solução equilibrada e definitiva para o que hoje é o nosso grande problema: Captação”.

“Já foram pensados e propostos inúmeros mecanismos, os quais mostraram-se insuficientes, porque o racismo institucional é evidente. Se não chegarmos a um acordo, nossa proposta é que o MinC institua uma política de cotas para a arte e cultura negras”, destaca.

De acordo com o presidente, uma das prioridades da gestão será a criação e construção do Museu Nacional Afro-brasileiro de Cultura e Memória, espaço que será gerenciado pela Fundação Cultural Palmares. Os princípios fundamentais do museu serão a valorização da dignidade humana, a promoção da cidadania, a universalidade do acesso ao rico universo cultural africano e afro-brasileiro, o intercâmbio institucional, expressos de forma dinâmica e tendo como referência as experiências negras na África e na diáspora.

“Este museu será também um importante laboratório para a Lei 10.639/2003, dando suporte aos diversos profissionais do campo da educação e da pesquisa em diferentes áreas do saber e disponibilização de materiais didáticos em distintas linguagens”, ressalta.

Entre outros objetivos está a implantação de um plano de ações para a Década dos Povos Afrodescendentes, decênio proposto pela ONU, após debates em torno do racismo e das situações social, econômica e política da população negra mundial.  No bojo da programação, que a FCP pretende desenvolver, está a proposta de reexaminar ações desenvolvidas pela instituição no universo internacional, a exemplo do Encontro Afro-latino, da Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, do Quilombos das Américas, Rota do Escravo, Conexão Brasil-África e outros.

“É preciso prospectar o que resultou desses eventos e com isenção e maturidade avaliar seus efeitos e o potencial que os mesmos têm no fortalecimento da FCP em âmbito internacional. Com essa consciência, a reedição desses eventos será repensada”, disse. “O desenvolvimento de ações que dêem visibilidade a população negra em âmbitos nacional e internacional e a implementação de políticas de cultura de Estado contribuirão para a democratização da cultura”, acredita.

Para o presidente, nada em sua proposta de gestão é sonho ou entusiasmo demasiado. “É compromisso, é necessário e absolutamente possível de se realizar, porque o que de fato faltava enquanto responsabilidade nossa era uma equipe afinada, com autoestima elevada e força de trabalho e isso já estou percebendo que nos sobrará. Faltava também vontade política e isso já estou percebendo que sobra na ministra Marta Suplicy. Estamos aqui para fazer a diferença”, conclui.

Reconhecimento

“Não posso deixar de parabenizar a equipe da FCP pela dedicação, que mesmo trabalhando em condições adversas, certamente foi decisiva para a sobrevida da instituição. Lembro também  as importantes contribuições dos meus antecessores Carlos Moura, Adão Ventura, Joel Rufino, Dulce Maria Pereira, Ubiratan Castro, Zulu Araújo e Eloi Ferreira. À todos e todas  afirmo que chego para somar e fazer trepidar os alicerces para atingirmos os objetivos pelos quais essa Fundação foi criada. Agradeço a todos que torcem pelo sucesso dessa minha nova empreitada, à equipe do MinC e da FCP que me acolheram e à ministra Marta Suplicy pela confiança.

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