Lei Antibaixaria para a MPB também!

por: Marcos Aurélio dos Santos Souza

 

Estou voltando e limpando a poeira do blog. Quero retomar, falando sobre música e letra de música. Esse tema já estava germinando na minha cabeça quando escrevi o texto “Perereca pra frente”, e isso já faz algum tempo. Era uma crônica que falava sobre a mulher soteropolitana e usava como mote o título de uma música de pagode, que ficou bem conhecida por aqui (em Salvador e Recôncavo, principalmente).

O tema de retorno highlander a esse espaço blog foi motivado por uma discussão recente com estudantes de Ciencias Sociais da UNEB e, também, pela recente discussão da lei antibaixaria, cujo principal alvo de ataque é o chamado “pagode baiano”.

Para começar vejam a letra dessa musiquinha: “Não sou de briga/ Mas estou com a razão/ Ainda ontem bateram na janela/ Do meu barracão/ Saltei de banda/ Peguei da navalha e disse/ Pula muleque abusado/ Deixa de alegria pro meu lado/ Minha nega na janela/ Diz que está tirando linha/ Êta nega tu é feia/ Que parece macaquinha/ Olhei pra ela e disse/ Vai já pra cozinha/ Dei um murro nela/ E joguei ela dentro da pia/ Quem foi que disse/Que essa nega não cabia”? Essa letra, cujo título é “Minha nega na janela”, não é do Psirico nem do conjunto sestroso Black Style ela saiu da cabeça de Germano Mathias, representante do samba paulistano, que teve a grande interpretação de Gilberto Gil, no mesmo estilo sincopado original do compositor, na clássica coletânea “Antologia Samba-Choro”, insigne da MPB de 1978!

E que tal essa daqui reproduzida em trechos? “De tudo que é nego torto/ Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi namorada./O seu corpo é dos errantes,/Dos cegos, dos retirantes;/ É de quem não tem mais nada./ Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina,/ Atrás do tanque, no mato […] Joga pedra na Geni!/ Joga pedra na Geni!/ Ela é feita pra apanhar!/ Ela é boa de cuspir!/ Ela dá pra qualquer um!/ Maldita Geni!”. Essa é de Chico Buarque, intitulada “Geni e Zepelin”, pertencente ao seu álbum, outro clássico da MPB, Ópera do Malandro, do final da década de 70, quando movimentos feministas e gays estouravam em todos os cantos do mundo.

Mais letras: Ataulfo Alves em “Mulata Assanhada” e Lamartine Babo em “O teu cabelo não nega”, presenças obrigatórias na discoteca dos adoradores da “verdadeira música nacional”. O primeiro cantava de cá: “Ai, mulata assanhada/ Que passa com graça/ Fazendo pirraça/ Fingindo inocente/ Tirando o sossego da gente/[…] Se voltasse a escravidão/ Eu pegava a escurinha/ Prendia no meu coração/E depois a pretoria/ É quem resolvia a questão”. O outro cantarolava de lá:”O teu cabelo não nega mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega mulata/ Mulata eu quero o teu amor”. A Cor negra é doença (não contagiosa) para Babo: ele suspira aliviado.

João Gilberto e Caetano Veloso também gostam de cantar músicas, que abordam a mulher exótica, negra, feiticeira ou endiabrada, enlaçando a todos em sua lascívia. Assim diz a canção “A baiana” na voz enfadonha de João Gilberto: “Não vou porque não posso resistir a tentação/ Se ela sambar, eu vou sofrer/Pois esse diabo sambando é mais mulher/ E se eu deixar ela faz o que bem quer/ Não vou, não vou, não vou/ Nem amarrado, porque sei/ Se ela sambar, eu vou sofrer”.

Caetano, presença confirmada todos os anos na saída do Ilê, adora o Curuzu no Carnaval. O Curuzu continua pobre, precisando de investimento público, sem um movimento ou discurso sequer do cantor baiano, que canta (confesso adorar o suingue dessa música): “Não me amarra dinheiro não!/ Mas formosura/ Dinheiro não!/A pele escura/ Dinheiro não!/A carne dura/Dinheiro não!… Moça preta do Curuzu/ Beleza Pura! Federação/ […]Quando essa preta/ Começa a tratar do cabelo/É de se olhar/Toda trama da trança/Transa do cabelo/ Conchas do mar/Ela manda buscar/Prá botar no cabelo/Toda minúcia, toda delícia”. Caetano rico, dinheiro sim, corpos negros, pobres e “deliciosos”, dinheiro não.

A lista é grande, veja e analise outras letras de figurões da MPB, das mais atuais às mais antigas. “Morena Boca de Ouro” (outro melô chato da mulher feiticeira, cantada por João Gilberto), “Lobo bobo” (quem não gostou do Lobo Mau do Psirico porque viu conotação pedófila, tem que conhecer essa daqui), “Amélia” ( “a que era mulher de verdade”, de Ataulfo Alves, já virou clichê do clube do bolinha, interpretada ainda hoje por grandes nomes da MPB, como Roberto Carlos), Emília (a “irmã” de Amélia, do compositor Wilson Batista, intepretada por carnavalescos clássicos como Harolo Lobo), “Mulher indigesta” (que para Noel Rosa, o patriarca da MPB, “merece um tijolo na testa”), “Minha Namorada” (do Vinícius de Morais inseguro, exigindo de sua amada-objeto, que só pense nele), “Um homem pra chamar de seu” (Erasmo Carlos lembrando da “necessidade” feminina de ter um homem, um cafajeste qualquer).

Mas deixemos os homens e seus olhares misóginos, machistas, racistas, libidinosos… “O Negócio é Amar”: essa música, letra de Carlos Lyra e Dolores Duran, cantada por uma beldade da MPB, Nara Leão, tem outra intepretação interessante através da parceria Fafá de Belém e Nelson Gonçalves. Embora a música seja bem agradável, com várias imagens cotidianas sobre as diversas e esquisitas formas de amar, a presença de um verso incômodo (e um verso faz toda diferença na música) não deixa escapar a estrutura patriarcal e machista em que vivemos, quando enfatiza, em outras palavras, o amor válido da “mulher maluca, que atura porrada”. Parece-me que quando uma mulher canta uma música de teor machista, essa música se transforma em outra, como uma rasura no texto original. Como se a mulher pudesse tomar a voz masculina, sobrescrevendo com sua própria voz a intenção original (eu percebo isso, por exemplo, quando Marina canta “Um homem pra chamar de seu” de Erasmo Carlos)

Para ser realmente justo, o DOI-CODI da lei antibaixaria, que grita e esperneia quando ouve uma música do Raghatoni, Pagodart, e Parangolé, dizendo prezar pela imagem e dignidade da mulher, deve fazer primeiro uma devassa nas músicas de “gente culta”. Sim, gente que se acha melhor que outras gentes e só ouve música de “bom gosto”, MPB e bossa nova. Gente, por exemplo, que fica esperando o lançamento de uma música monótona e lamuriosa de Adriana Calcanhoto – a cantora parece de outro mundo: pessoas de carne e osso não existem para ela, parece uma alienígena morrendo de frio, sob o sol escaldante do Rio de Janeiro.

Para não ser injusto com a MPB, principalmente com os clássicos, vou lembrar do velho e bom Cartola. Numa música intitulada “Vou Contar Tintim por Tintim”, ele dá voz a uma mulher, espancada pelo seu amante. “Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto/ Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”. Resta saber, se o distrito vai prender o machão. Mas isso já é bem diferente das letras de Chico Buarque, cuja voz feminina se apresenta sempre frágil, passiva e impotente.

Boa noite. Vou descansar um pouco e, para desintoxicar de tanta música ruim para as mulheres, vou ouvir Tati Quebra Barraco. Numa voz ativa, invertendo valores patriarcais, misóginos e sexistas de nossa sociedade, a cantora entoa, corajosamente, um alucinante funk “Sou feia, mas tô na moda”. “Eta lele/ eta lele/ Eu fiquei 3 meses sem quebrar o barraco,/ Sou feia mas tô na moda,/tô podendo pagar hotel pros homens/ isso que é mais importante”.

Fonte: Bolo do Mundo

 

 

 


Marcos Aurélio dos Santos Souza

Professor Adjunto de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Doutor em Literatura e Cultura e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural, respectivamente, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Pesquisador da Crítica cultural e dos Estudos Culturais. Desenvolveu tese sobre as narrativas dos escritores baianos Jorge Amado, Adonias Filho e Sosígenes Costa, abordando a relação literatura e história. Atualmente, pesquisa a literatura brasileira do final do século XIX, principalmente em sua relação com a ciência e o pensamento raciológico.

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