sexta-feira, dezembro 2, 2022
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O incrível hulk negro

Por: Zarcillo Barbosa

 

Hoje vou torcer para Mário Balotelli, goleador da seleção italiana de futebol, na partida decisiva contra a Espanha. Fiquei encantado com a disposição (“raça”) daquele negro de 22 anos, abandonado na maternidade pelos pais ganeses e criado até os dois anos pelos médicos. Adotado pela família Balotelli, com certeza teve o mesmo carinho dedicado aos dois irmãos brancos, “filhos de sangue”, como se diz no Brasil. Hoje, os irmãos são seus procuradores e Balotelli dedica gols à mãe adotiva, a quem fez questão de abraçar entre a torcida no estádio.

O mais importante dessa saga toda, muito além dos dois gols contra a desmistificada seleção alemã, foi o desabafo do craque diante de toda uma existência de humilhações fora da família. O racismo europeu é cruel. Jogam bananas para os adversários negros. Cada gol tem uma celebração para Balotelli. No primeiro jogo foi substituído logo após perder uma oportunidade de gol. O técnico italiano Cesare Prandelli nem teve preocupação de disfarçar a punição pelo erro, em meio aos cantos racistas da torcida adversária. No jogo seguinte, Balotelli garante a vitória com o seu gol e faz um gesto girando o dedo indicador, como a dizer ao seu técnico: “Me substitui agora!”

O companheiro de equipe tapa sua boca com uma das mãos, para impedir que os impropérios possam prejudicá-lo. Os movimentos labiais captados pelas câmeras podem ser “lidos”. No jogo de classificação para a final, o gigante negro dispara um pelotaço que estufa as redes do goleiro alemão. Na comemoração, retira a camisa e contrai os músculos do peito em um gesto imitando o Incrível Hulk. O super herói criado por Stan Lee e Jack Kirb (1962) para as histórias em quadrinho da Marvel sempre representou a luta feroz contra as forças do mal.

A dominação totalitária do colonialismo europeu na África, no século 19, representa hoje uma dívida que os cidadãos da União Europeia se negam a pagar. Gana, de onde imigraram os pais de Balotelli, foi ocupada por europeus e escandinavos. A população foi dominada e o território desmembrado. Os invasores alimentaram o ódio tribal em proveito próprio, sob argumentos racistas. Para os europeus, os povos colonizados jamais ascenderiam à condição de seres humanos à altura da civilização ocidental. Abandonados à própria sorte no século passado, depois de intensa exploração das suas riquezas e em meio a guerras tribais, a Europa reluta até hoje em receber imigrantes negros. Muitos deles, como os pais do artilheiro, sequer poderiam lá continuar face às atrocidades cometidas entre tribos rivais. Balotelli conseguiu receber a cidadania italiana somente aos 18 anos. Joga no Manchester City, da Inglaterra.

No Brasil, tivemos a colonização portuguesa. De início quiseram transformar os índios em cristãos. Dessa forma, eles se tornavam “seres humanos”, como eu e você. Depois vieram os negros, “mais dóceis” ao trabalho. Hoje, temos no mundo o problema do colonialismo sem colonos. A intervenção dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão é um neocolonialismo. Uma forma de regressão ao colonialismo europeu do século 19. O racismo continua. O discurso antirracista é fácil, porque é fácil ser antirracista. Os filósofos de língua inglesa chamam isto de “wishfull thinking” – pensamentos contaminados por desejos escondidos.

Entretanto, diante de situações de desigualdade, de concorrência, a primeira reação dos indivíduos é racista. Veja a questão das cotas nas universidades. A democracia racial no Brasil é um mito. Há resistência para enfrentar os erros, para liberar os tabus da história. O dever de memória pode ser exercido reconhecendo-se os prejudicados em todos os níveis. No Brasil, também já tivemos nossos doidos maravilhosos. Garrincha foi chamado de “Alegria do Povo”. Dele, o poeta Carlos Drummond de Andrade dizia que estava incumbido por um Deus irônico para “zombar de tudo e de todos”. Pelé foi outro ídolo de ébano a provar que a superioridade branca não existe. Quem sabe Romarinho possa confirmar o novo herói a celebrar o gol, como obra de arte.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

 

Fonte: JC Net

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