sexta-feira, novembro 26, 2021
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Ser feliz é obrigatório?, por Eliana Rezende

Há algum tempo atrás escrevi sobre direitos que queria de volta. Dentre eles, figurava o direito à infelicidade!

Por Eliana Rezende, do GGN

Talvez questionável por alguns, estranho para outros. Para mim, uma observadora contumaz da sociedade uma necessidade fundamental.

É interessante como essa sociedade que nos impõe tantas obrigações como levantar, trabalhar, escovar os dentes, fazer atividades físicas, nos relacionar…também queira que tudo ocorra sem falhas, titubeios e, em muitos casos fracassos. Mas será mesmo possível?

Ainda outro dia lia sobre se preferiria viver ou ser feliz. E me lembro de ter dito que preferia a vida: o que significa dizer que há ondas com momentos que vem e que vão de felicidade alternadas com tristezas…nem sempre tudo corre bem. A felicidade linear e constante é utopia e absurda se colocada no plano do real.

palhaça triste

A felicidade como obrigação é em nossa sociedade igual a se obter sucesso profissional ou pessoal.

O sujeito precisa todo o tempo estar feliz, saltitante e em constante alegria para não ser questionado. E é de tal forma exigido que num comprimento cotidiano quando nos perguntam “tudo bem?” ninguém espera ouvir algo diferente de um sim!

Será mesmo possível tal situação? Será mesmo possível tudo sempre correr bem e certo todo o tempo?

Impossível não lembrar nesse ponto do grande poeta Fernando Pessoa pelas linhas de seu heterônimo Álvaro de Campos no “Poema em Linha Reta”. Lembram-se? Transcrevo-o:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

 

Esse é o sentido da poesia e dos poetas: parecer sempre ter as palavras que precisamos para nominar e interpretar o mundo…

Sempre encontramos um que nos represente e achei que Pessoa casava como luva para este tema.

Não vejo a felicidade como obrigação e considero que vez por outra a sensação de infelicidade pode dar-nos o sentido de realidade que em algumas circunstâncias perdemos. Faz-nos ver que a vida possui ciclos e que nem tudo em todo o tempo pode ser 100% como desejamos.

Em verdade, a felicidade é muito mais um conta-gotas. E saber experimentá-la nas doses adequadas nos fará sem dúvida maiores apreciadores destes breves momentos. Entenderemos a vida e a felicidade decorrente e possível como uma conquista diária e não como um dado obtido por sermos o que somos.

Assim, fica no rol dos cultivos.

Tão essenciais para nos dar o sentido de humanos que somos.

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