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A cidade do Piauí que quer se tornar a Finlândia brasileira da educação

Oeiras, primeira capital do Estado, conseguiu atingir nota 7,1 no Ideb, índice maior do que o esperado para o país em 2021. A qualidade do ensino público já fez três escolas particulares fecharem por falta de alunos

por Regiane Oliveira no El País

O dia amanhece “bonito pra chover” no inverno de Oeiras. Na cidade do sertão do Piauí, dezembro é um alívio ao temível be-erre-ó-bró, como é popularmente conhecida a temporada de calor intenso, superior a 40 °C, dos meses terminados em b-r-o. As chuvas que esverdeiam a paisagem trazem diferentes desafios para quem trabalha com educação no município de 37.000 habitantes. Se o ar condicionado, ou a falta dele, já não preocupa tanto, é a frequência das crianças às aulas que toma o protagonismo. Quando o rio Corrente transborda, alunos da área rural ficam isolados. Na cidade, muitos pais decidem que o aguaceiro é justificativa para poder faltar. E dá-lhe a direção das escolas ligar ou bater nas portas para cobrar presença. “Se chuva fosse desculpa, em São Paulo não haveria aula”, argumentam.

Problemas da educação de um Brasil real passam todos os dias pelo divã de Tiana Tapety, como a secretária de educação de Oeiras chama seu período de atendimento das 7h as 13h. Sobre sua mesa, nenhum computador. Pastas e livros dividem o espaço com uma pequena imagem de Jesus, que assiste ao entra e sai de funcionários, pais e professores, e às discussões sobre estratégias para driblar recursos escassos, problemas sociais de todo tipo, o excesso de calor e, quem poderia imaginar, até mesmo os transtornos causados pela tão esperada queda da temperatura, como a chuva de besouros bufão.

O céu bonito pra chover visto da Igreja Matriz, no centro de Oeiras – Imagem El País

Oeiras é hoje uma cidade que respira educação. Enquanto em Brasília se discutia o Escola sem Partido, projeto que visa proibir posicionamento ideológico ou político na sala de aula —arquivado recentemente na Câmara—, o foco da primeira capital do Piauí era garantir equidade nas escolas rurais, crianças 100% alfabetizadas, cultivo do gosto pela leitura e abordagem individual do ensino.

É assim desde 2013, quando Tapety assumiu a Secretaria Municipal de Educação (SEMED), que atende a 6.200 crianças no ensino fundamental (da educação infantil ao 9º ano), e que em 2017, conseguiu atingir 7,1 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) no 5ª ano. O indicador, que varia de 0 a 10, é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar e médias da Prova Brasil, que avalia o conhecimento em língua portuguesa, com foco em leitura, e em matemática, voltado para a resolução de problemas. Oeiras superou a meta proposta pelo Inep para 2021, quando, espera-se, todo o Brasil deve alcançar a nota 6,0 —o que corresponderá a um sistema educacional com o mínimo de qualidade para arriscar uma comparação com alguns países desenvolvidos. Em 2017, a média do país ficou em 5,8 nos anos iniciais.

À primeira vista, o salto de Oeiras na educação até parece conto de vendedor, mas não é preciso mais do que meia hora de conversa com educadores e alunos para saber que o olhar da cidade está muito mais para Finlândia, que tem um dos melhores sistemas de educação do mundo, do que para Brasília. As metas pouco ambiciosas do INEP, assim como os temas que distraem o debate sobre educação não parecem interessar. ‘Kit gay’? “Não existe”, afirma Tapety. Escola sem partido? “Coisa de quem quer censurar a sala de aula, negar a criticidade”, resume a secretária, sem dar muito assunto.

Tapety tem clara qual é a sua prioridade: “Oferecer condições para que os estudantes disputem em pé de igualdade e possam se sobressair”. O 10 no IDEB é desejável, mas a prova não é prioridade. Há outros benefícios na evolução da educação além do destaque em avaliações. O resgate da credibilidade da escola e a melhoria da autoestima da população, por exemplo. “Você é de São Paulo?”, pergunta Washington Luís Santos, diretor da escola de educação infantil Girassol. “Temos recebido muitas crianças de lá sem saber ler”, comenta o diretor com um tom de decepção, mas sem esconder o orgulho de quem pode se comparar com a rica metrópole do Sudeste.

Nem sempre foi assim. A extrema vulnerabilidade econômica tornou o Piauí um dos principais polos exportadores de mão de obra escrava do país. A baixa qualificação dos trabalhadores locais, muitos analfabetos, aliada à pouca oportunidade de emprego, até hoje atrai aliciadores de fazendeiros e empreiteiros da construção em busca de mão de obra barata. Ser reconhecido pela excelência da educação e se tornar um exportador de cérebros será uma mudança de paradigma. “Agora as escolas particulares ligam para oferecer ajuda aos meninos, como se eles já tivessem vindo prontos”, conta Tapety, que ainda não sabe como lidar com o assédio sobre os estudantes que ganharam 18 premiações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), sendo uma medalha de ouro, duas de prata e quatro de bronze.

O esquema é conhecido. Escolas particulares de todo o país caçam na rede públicas alunos de excelência para alavancar seus resultados nas avaliações governamentais. Talvez não saibam que o menino de ouro da rede, Igor Gabriel Oliveira da Silva, de 12 anos, ganhador da medalha de ouro da OBMEP 2018, estuda na Escola Juarez Tapety, até pouco tempo atrás chamada de Carandiru, uma homenagem pouco honrosa à penitenciária de São Paulo, com quem compartilhava um histórico de violência, indisciplina e a incapacidade de educar (ou reabilitar) alguém.

A mudança na escola é recente e foi sentida pelos alunos. “Minha impressão não foi das melhores quando mudei para cá”, conta o estudante Pedro Campos, de 14 anos, sobre sua chegada ao Juarez Tapety. A maior escola da rede atende 735 alunos do 6° ao 9° ano. “Vim de uma instituição particular pequena, era muito tímido”, conta. Hoje quem conversa com Pedro já não nota a timidez. “Infelizmente vou ter que sair [da escola]”, lamenta, já a caminho do ensino médio.

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