sexta-feira, dezembro 9, 2022

Aimé Césaire

NEGRO SOU, NEGRO FICAREI!
Aimé Cesaire

Entrevista com Françoise Vergès. Paris: Albin Michel, 2005.

Aimé Césaire nasceu aos 26 de Junho de 1913 no seio de uma família numerosa que habitava na “Basse Pointe”, uma comuna do Nordeste da Martinica, limitada pelo oceano Atlântico cujo a “serventia” veio rimar mais tarde com os seus poemas.

O seu pai era um pequeno funcionário, e a sua mãe era costureira. Aimé Césaire, aluno brilhante do Liceu Schœlcher de Fort-de-France, prossegue os seus estudos secundários como bolseiro do governo francês no Liceu “Louis le Grand”, em Paris.

É nos corredores deste grande liceu parisiense que, logo à sua chegada, o jovem Aimé Césaire encontra Léopold Sédar Senghor, seu mais velho de alguns anos, que o toma sob a sua asa protectora.

No contacto com os jovens Africanos estudantes em Paris, Aimé Césaire e o seu amigo guianês Léon Gontran Damas, que ele conhecia desde o Liceu Schœlcher, descobre progressivamente uma parte repelida da identidade martiniquesa, a componente africana da qual tomam progressivamente consciência ao mesmo tempo que emerge uma consciência forte da situação colonial.

Em Setembro de 1934, Césaire fundou com outros estudantes antillo-guianeses e africanos (Léon Gontran Damas, os senegaleses Léopold Sédar Senghor e Birago Diop), o jornal ” L’Étudiant noir ”

Aimé Césaire
Aimé Césaire

(O Estudante negro). É nas páginas desta revista que aparecerá pela primeira vez o termo “ Négritude ”. Este conceito, forjado por Aimé Césaire em reacção à opressão cultural do sistema colonial francês, visava rejeitar de uma parte o projecto francês de assimilação cultural e de outra parte a desvalorização de África e da sua cultura, referências essas que o jovem autor e os seus camaradas honravam.

Construído contra o projecto colonial francês, o projecto da négritude é mais um projecto cultural do que político. Tratava-se, além de uma visão partidária e racial do mundo, de um humanismo activo e concreto, destinado à todos os oprimidos da planeta. Césaire declara com efeito: “Estou da raça dos que são oprimidos”.

Admitido na Escola Normal Superior em 1935, Césaire começa em 1936 a redacção da sua obra prima ” Cahier d’un Retour au Pays Natal “, (Caderno de um regresso ao país natal) , Casou em 1937 com uma estudante também ela martiniquesa, Suzanne Roussi, Aimé Césaire, Licenciado em Letras, regressa em Martinica em 1939, para ensinar, assim como a sua esposa, no Liceu Schœlcher.

Em reacção contra o statu quo cultural martiniquês, o casal Césaire, ajudado por René Ménil e Aristide Maugée, fundaram em 1941 a revista ” Tropiques “, da qual o projecto é a reapropriação Martiniquesa do seu património cultural.

A segunda guerra mundial traduz-se para a Martinica por um bloqueio que corta o abastecimento da ilha pela França. Além de uma situação económica muito difícil, o enviado do governo Vichy, o Almirante Robert, instaura um regime repressivo, cuja censura visa directamente a revista ” Tropiques ” . Esta aparecerá, com dificuldade, até 1943.

A guerra marca também a passagem na Martinica de André Breton. O mestre do surréalismo descobre com estupefação a poesia de Césaire e encontra-o em 1941. Em 1944, André Breton redigirá o prefácio do recolhimento ” Les Armes Miraculeuses ” (As Armas Miraculosas), que marca a ligação de Césaire ao surréalismo.

Convidado em Port-au-Prince pelo doutor Mabille, adido cultural da embaixada de França, Aimé Césaire passará seis meses em Haiti, dando uma série de conferências cuja repercussão nos meios intelectuais haitianos foi formidável. Esta estadia haitiana terá uma forte marca sobre a obra do Aimé Césaire, que escreverá um ensaio histórico sobre Toussaint Louverture e consagrará uma peça de teatro ao rei Henri Christophe, herói da independência.

Enquanto que o seu compromisso literário e cultural constituia o centro da sua vida, Aimé Césaire é engulido pela política a partir do seu regresso em Martinica. Pressionado pelas elites comunistas, à procura de uma figura que encarnava o renascimento político depois dos anos sombrios do amirante Robert, Aimé Césaire é eleito presidente da câmara municipal de Fort-de-France, a capital da Martinica, em 1945, com 32 anos de idade. No ano seguinte, é eleito deputado da Martinica na Assembleia Nacional.

O deputado Césaire será, em 1946, o relator da lei que fazia das colónias de Guadelupe, da Guiana Francesa, da Martinica e da Reunião, dos Departamentos Franceses. Esta mudança de estatuto correspondia à um forte pedido do corpo social, desejando aceder aos meios de uma promoção social e económica.Consciente do papel da departamentalisação como repararação dos estragos causados pela colonização, Aimé Césaire estava igualmente consciente do perigo de alienação cultural que ameaçava os martiniqueses. A preservação e o desenvolvimento da cultura martiniquesa foram desde então as suas prioridades.

Partilhando a sua vida entre Fort-de-France e Paris, Césaire funda, na capital francesa, a revista ” Presences Africaines ” ( Presença Africana ), ao lado do Alioune Diop do Senegal, e dos senhores Paul Níger e Guy Tirolien da Guadelupe. Esta revista tornar-se-á de seguida numa editora que publicará mais tarde, entre outros, os trabalhos do egiptologo Cheikh Anta Diop, assim como os romances e as novelas de Joseph Zobel.

Em 1950, é na revista ” Presença Africana ” que será publicado pela primeira vez o ” Discurso sobre o colonialismo “, carga virulente e análise implacável da ideologia colonialista europeia, que Césaire comparou com audácia ao nazismo pelo qual a Europa viria a escapar. Os grandes pensadores e homens políticos franceses são convocados neste texto pelo autor que põe à nu as origens do racismo e do colonialismo europeu.

Pouco propenso ao compromisso, Aimé Césaire, revoltado pela posição do Partido Comunista Francês sobre a invasão soviética na Hungria em 1956, ele publica “ Uma carta para Maurice Thorez ” para explicar as razões da sua partida do Partido. Em Março de 1958, ele cria o Partido Progressista Martiniquês (PPM), que tem por ambição instaurar “ um tipo de comunismo martiniquês mais resolvido e mais responsável no pensamento e na acção ”. A palavra de ordem da autonomia da Martinica é situada no meio do discurso do PPM.

Paralelamente à uma actividade política contínua (conservará o seu mandato de deputado durante 48 anos, e será presidente da câmara municipal de Fort-de-France durante 56 anos), Aimé Césaire continua a sua obra literária e publica várias compilações de poesia, sempre marcados pelo surrealismo.

Ao total Aimé Césaire publicou mais de catorze obras, compilações de poesias, peças de teatro e ensaios.Vários colóquios e conferências internacionais foram organizados sobre a sua obra literária que é conhecida universalmente. A sua obra foi traduzida em várias línguas, entres as quais a lingua inglesa, espanhola, alemãs, etc…

Aimé Césaire faleceu em Fort-de-France no dia 17 de Abril de 2008 com a idade de 94 anos. Várias personalidades do mundo inteiro renderam homagem ao poeta, o homem de acção e do pai da negritude.

Bibliografia

CAHIER D’UM RETOUR AU PAYS NATAL ( Caderno de um regresso ao país natal ) – Poesia, in revista Volontés, Paris 1939, editado em 1947 pelas Edições Bordas com um prefácio de André Breton escrito em 1943 . As reedições foram desde 1956, editadas pelas edições ” Présence Africaine ” ( Presença Africana ).

LES ARMES MIRACULEUSES (As Armas miraculosas ) – Poesia, Ed. Gallimard, Paris 1946, reeditado em 1970 na colecção de bolso ” Poésie” vários poemas tinham aparecidos na revista ” Tropiques ” entre 1941 e 1944.

SOLEIL COU COUPÉ ( Sol Pescoço Cortado ) – Poesia, Ed. K., Paris 1948.

CORPS PERDU ( Corpo perdido ) – Poesia, ilustrações de Picasso, Ed. Fragrance, Paris 1949.

DISCOURS SUR LE COLONIALISMO ( Discurso sobre o colonialismo ) – Ensaio, Ed. Réclame, Paris 1950, reeditado pela ” Présence Africaine ” em 1955, a edição de 1973 é já a sexta.

ET LES CHIENS SE TAISAIENT ( E os cães calaram-se ) – Teatro, Ed. Présence Africaine, Paris, reeditado em 1962, apareceu desde de 1946 nas Armas miraculosas, sob a forma de poema.

LETTRE À MAURICE THOREZ ( Carta para Maurice Thorez ) – Ensaio, Ed. Présence Africaine, Paris 1956.

FERREMENTS ( Ferramentas ) – Poesia, Ed. do Seuil, Paris 1960.

TOUSSAINT LOUVERTURE – Ensaio, Clube Francês do Livro, Paris 1960, reeditado pela Presença Africana em 1962.

CADASTRE ( Cadastro ) – Poesia, Ed. do Seuil, Paris 1961, versão definitiva e ” resumida ” dos precedentes ” Sol, pescoço cortado e Corpo perdido “.

LA TRAGEDIE DU ROI CHRISTOPHE ( A Tragédia do Rei Christophe ) – Teatro, Ed. Presença Africana, Paris 1963, edição de bolso em 1970.

UNE SAISON AU CONGO ( Uma temporada no Congo ) – Teatro, põe em cena a tragédia de Patrice Lumumba, pai da independência do Congo Belga. Ed. do Seuil, Paris 1965, edição alterada em 1967, edição do texto definitivo: 1973.

UNE TEMPÊTE ( Uma tempestade ) – Teatro, Ed. do Seuil, Paris 1969 tinha aparecido em 1968, no numero 67 da revista Presença Africana.

MOI, LAMINAIRE ( Eu, laminar ) – Poesia, Ed. do Seuil, Paris 1982.

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