sábado, janeiro 15, 2022
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Biografia de Barack Obama chega às livrarias brasileiras nesta semana

Por: Isabel Fleck

 

O personagem escolhido para sua segunda biografia ainda está no auge da carreira, já escreveu dois livros sobre si mesmo e ocupa o cargo mais alto do país. Nada disso intimidou o jornalista norte-americano David Remnick. Pesquisar e redigir sobre Barack Obama, na verdade, foi um divertimento para o editor da conceituada revista New Yorker, que descobriu, nas entrevistas realizadas e documentos encontrados, um Obama “muito mais interessante, de origem muito mais rica e complexa do que ele mesmo transmitiu”. Remnick se arrisca a dizer que, neste momento, com o presidente no meio de seu mandato, “nenhum livro traz pesquisas mais aprofundadas ou contém mais informações sobre Obama” como o seu A ponte – Vida e ascensão de Barack Obama, que será lançado no Brasil nesta semana. “Desculpe a falta de modéstia, mas é verdade”, assegurou, em entrevista ao Correio.

E Remnick realmente se dispôs a escrever o mais completo relato da história de Obama, desde antes de seu nascimento, trazendo um perfil inédito dos pais do presidente, o polêmico queniano Barack Hussein Obama e a sonhadora norte-americana Stanley Ann Dunham. Em 670 páginas, ele percorre a infância de Obama no Havaí e na Indonésia, sua passagem por três universidades, o início de sua vida política em Chicago e a chegada a Washington — tudo por meio do relato de amigos, parentes e ex-professores. Remnick se interessou, em especial, por uma parte do passado de Obama que muitos relevaram: a sua iniciação política nas bases, nas comunidades de Chicago. “A maioria dos dias de Obama era de pura frustração. Pela norma, trabalhava-se durante anos num projeto até uma aparente vitória, só para ver a ideia engavetada por um burocrata. Mas Obama estava recebendo uma educação política, racial e sentimental”, conta.

 

Mais do que fatos, Remnick tentou mostrar a fundo a busca de Obama por sua própria identidade, principalmente suas raízes negras. “A identidade racial de Obama foi tão propiciada quanto escolhida; ele a buscou e a aprendeu”, observa o autor, que associa, em grande parte, o fato de ele ser afro-americano à sua ascensão política. Remnick assume como verdade absoluta a afirmação do político e ativista John Lewis, de que Obama é “o que há no final daquela ponte em Selma”. Ponte na qual militantes dos direitos civis foram brutalmente reprimidos por policiais, em 1965, na pequena cidade do Alabam

Em seu livro, a questão racial é a que mais define o perfil e a trajetória de Barack Obama. Mas também fica claro que Obama teve que buscar essa identidade, mergulhando na cultura afro-americana, que, naquela época, lhe era tão distante. Qual é real a importância, para Obama, de sua identidade racial? E esta importância mudou ao longo da sua vida?
Se você cresce em uma casa de brancos e vê, todos os dias, o rosto de um homem negro no espelho, a vida pode ser extremamente confusa. Quando jovem, Obama teve que descobrir as coisas, ele teve de conciliar o seu passado e a sua identidade, e, por causa de sua situação peculiar, alguns dizem que ele se tornou um afro-americano por reconhecimento próprio. Acho que ele só se focou mais nessa questão quando terminou a faculdade.

O senhor destaca que Obama sempre foi “seletivo” ao abordar a questão racial, mesmo no Senado, onde era o único representante afro-americano. Mesmo assim, ele se viu envolvido em diversas polêmicas sobre o tema desde a sua candidatura à presidência. Na sua opinião, ele lidou bem, politicamente, com a questão racial? E qual o peso que isso teve na sua escolha pela população?
O fato de ele ser negro foi um fator enorme em sua ascensão política: o que é, na verdade, o tema predominante de A ponte. Certamente, há aqueles que nunca votariam em um homem negro – um contingente de racistas ou pessoas medrosas que provavelmente nunca votariam em um democrata de qualquer maneira. Mas muito mais pessoas ficaram animadas com ele – primeiro em Illinois, e depois em todo o país –, pelo menos em parte, porque ele representa uma nova geração de afro-americanos. Ele não era Jesse Jackson. Ele não tinha como foco principal a questão racial. Ele falou em termos universais. Além disso, um de seus muitos dons é a capacidade de evocar o movimento dos direitos civis, cujo auge ocorreu antes mesmo de ele ter nascido.

Qual é melhor qualidade de Obama? E qual sua característica que mais teve impacto em sua trajetória política?
A sua melhor qualidade é uma espécie de inteligência focada e imperturbável. Mas isso também pode ser visto por muitos como arrogância, desconfiança e frieza.

Obama é exatamente como se mostra publicamente – um homem conciliador, centrado e bem-humorado, ou há um Obama que apenas seus amigos e família conhecem?
Em sua privacidade, ele é mais engraçado, mais solto, menos formal. Mas não existe um “lado B”, como ocorria de forma tão dramática com figuras como (Richard) Nixon e (Lyndon) Johnson. Não há crises de temperamento em casa, ele é praticamente igual em um ambiente privado e em público. O processo político americano é falho em muitas maneiras, mas ele expõe as pessoas tão completamente, que, especialmente agora, seria muito difícil esconder um outro Obama.

O senhor disse que, apesar de Obama ter muitas qualidades, ele precisa trabalhar sua modéstia. Em outro momento, afirmou que Obama tem um “ego considerável”, mas uma “ambição serena”. Obama consegue lidar bem com suas ambições e seu ego?
Bem, qualquer pessoa que concorre à presidência não pode ser tímida ou particularmente modesta. Ela está, afinal de contas, pedindo que toda a nação confirme que ela é singularmente qualificada para liderar um país de 300 milhões de pessoas. Johnson, Nixon, Carter, Reagan, Bush – todos eles tinham um ego substancial. O próprio Obama reconheceu que o ato de concorrer à presidência representa uma forma de grandiosidade meio louca.

No livro, Obama aparece como alguém que tem uma grande capacidade de mediar e conciliar diferentes pontos de vista. No entanto, nos dois primeiros anos de governo, ele não só não conseguiu conciliar um diálogo com a oposição, como o país está politicamente mais polarizado hoje. Por que ele não conseguiu ter sucesso no diálogo com os republicanos e como ele pode usar essa capacidade para governar daqui para frente, com menos apoio no Congresso?
Quase tudo o que foi alcançado nos dois primeiros anos foi conseguido sem o apoio de republicanos – tentativas de mediação não levaram a lugar algum. E eu temo que a situação vai ficar ainda pior, agora que os republicanos ganharam mais cadeiras nas duas casas do Congresso. Chegamos à maravilhosa terra do impasse.

Em janeiro, Obama chega oficialmente ao meio do mandato, para o qual foi eleito com a promessa de “mudança”. É possível falar que já houve alguma mudança no país? E que outras ele ainda pode trazer para os EUA?
Mudança? O fato de haver um presidente afro-americano já representa uma mudança histórica profunda. A aprovação da reforma da saúde é outra mudança enorme. O resgate de grandes setores da economia é uma conquista importante, mesmo que os republicanos queiram negá-lo. Infelizmente, muitas das mudanças que exigimos – do meio ambiente até o próprio sistema político – não são possíveis de serem realizados em uma atmosfera de partidarismo violento e profundos impasses. Mediação e compromisso não são opções consideradas pelo Partido Republicano, cuja prioridade é derrotar Obama em 2012.

Há dois anos, o senhor viu de perto a euforia dos americanos na festa da vitória no Grant Park, em Chicago. Hoje, no entanto, Obama tem a rejeição de quase metade da população. A decepção dos americanos é resultado de um trabalho mal feito por Obama ou simplesmente de uma expectativa extremamente alta depositada em um homem tido como um salvador?
A emoção vista no Grant Park tem duas razões. Primeiro, essa foi a celebração de uma nação historicamente dividida pela escravidão, por Jim Crow e pelo racismo – nosso mais doloroso legado –, mas que agora elegia um homem negro à Casa Branca, uma casa construída por escravos. Em segundo lugar, havia o grande alívio da saída de George W. Bush, um presidente horrível. Havia o que muitos chamam de expectativas messiânicas sobre Obama, e que, para mim, estavam ligadas, sobretudo, uma sensação de alívio de ter ultrapassado uma barreira racial imensamente complexa e de ter deixado os dias de Bush para trás. Não tenho dúvida de que as expectativas eram muito altas, mas também penso que os problemas acumulados foram tão numerosos e tão profundos que a decepção era quase inevitável. E, neste país, quando se tem cerca de 10% de desemprego, uma grande quantidade de “subempregos”, e uma ansiedade econômica generalizada, a decepção é garantida.

Em 2008, Obama foi eleito como uma promessa. Em 2012, ele não poderá disputar a reeleição com esse perfil. Como ele deverá se mostrar aos americanos para ter chances de vencer?
Eu não acho que Obama vai concorrer da mesma maneira em 2012. Ele agora tem um histórico como presidente, e tem que manter o foco nisso. O tempo da magia acabou. Ele não pode concorrer como um ‘outsider’ ou um rosto novo. Ao mesmo tempo, acho que suas chances de vencer, se a economia se estabilizar, são muito boas.

Qual foi a história mais interessante que o senhor descobriu sobre Obama durante a pesquisa?
Eu estava profundamente interessado na sua iniciação na política, seus fracassos iniciais, seus primeiros esforços para se descobrir um político independente, quando, na verdade, ele não foi muito mais do que um advogado jovem e brilhante. Em outras palavras, eu gostei especialmente de relatar o início da sua vida política em Chicago, na década de 1990.

Não é muito cedo para lançar uma biografia livro sobre um político como Obama, que ainda tem, pelo menos, mais dois anos à frente do país? O senhor tem a intenção de continuar a escrever sobre ele?
Agora estou lendo uma nova biografia de Theodore Roosevelt – dificilmente é a primeira escrita no século passado. Não muito tempo atrás, eu li uma nova biografia de Tucídides. Quantas dessas já foram escritas desde a Guerra do Peloponeso? Em outras palavras, o processo da escrita da história não pára, e nunca deveria. Mas eu posso dizer que, neste momento, com Obama no poder, nenhum livro traz pesquisas mais aprofundadas ou contém mais informações sobre Obama como A ponte. Desculpe a falta de modéstia, mas é verdade.

Houve alguma coisa que o senhor queria publicar no livro, mas não pôde?
Isso eu nunca vou revelar. Mas é claro que deixei coisas fora. Coisas não passaram nos meus padrões de fonte e de verificação. Não publicaria boato ou absurdos sensacionais só para causar barulho.

Depois de todas as pesquisas e entrevistas, o senhor mudou sua ideia sobre Obama?
Honestamente? De verdade? Não. Mas esse homem é muito mais interessante, sua origem é muito mais rica e mais complexa do que ele mesmo transmitiu. O prazer de escrever o livro e, espero, de lê-lo, é o prazer da acumulação de milhares de detalhes, o retrato humano de um homem que se cria em meio a tantas influências complexas.

Que ponte Obama ainda terá que cruzar?
Uma muito, muito grande. O mundo está afundado em problemas: guerras, conflitos regionais, regimes instáveis, ambições nucleares, derretimento das calotas polares, uma pobreza incontável … e ainda assim a nossa política é dominada por joguinhos infantis, teatro, teorias de conspiração e calúnia, por políticos pouco inteligentes, que agora entraram na política porque não conseguiriam poder ou influência em nenhum outro lugar. É um espetáculo triste. Não podemos dar-nos ao luxo desse circo.


O papel de Mangabeira

O detalhado perfil de Barack Obama não deixou passar nem mesmo a atuação do brasileiro Roberto Mangabeira Unger, professor da Universidade de Harvard, na formação do presidente americano. Unger, que anos depois foi ministro de Assuntos Estratégicos do governo Lula, teria sido o “crítico mais importante para os estudos de Obama”, segundo Kenneth Mack, colega de classe de Barack e hoje também professor de direito em Harvard. Obama fez dois cursos com Unger: um de jurisprudência e outro de “Reinvenção da Democracia”. Nesse último, teria ficado decepcionado com o caráter “abstruso” do curso. Em entrevista a Remnick, Unger contestou: “Obama participou da parte mais filosófica da discussão com o mesmo vigor com que participou da parte mais orientada para o contexto. (…) Ele sempre se interessou pelas ideias, grandes e pequenas”. O brasileiro também justificou ao autor porque não quis se mostrar próximo ao pupilo durante a campanha. “Eu sou esquerdista, por convicção e temperamento, e revolucionário. Qualquer associação minha com Barack Obama durante a campanha só poderia prejudicá-lo.”

PERFIL
Do jornal ao prêmio Pulitzer
David Remnick iniciou sua carreira como jornalista com os olhos voltados para Moscou. No início da década de 1980, foi correspondente do jornal The Washington Post na Rússia, onde reuniu material para um de seus mais famosos livros, Lenin’s tomb (O túmulo de Lenin), sobre a queda da União Soviética. Publicado em 1993, quando Remnick já trabalhava para a revista The New Yorker há um ano, o livro ganhou os prêmios Pulitzer e George Polk, de excelência em jornalismo.

Na New Yorker, Remnick encontrou o tipo de jornalismo com o qual se identificou. Em 1998, virou editor da conceituada revista. Calcula-se que tenha escrito mais de 100 artigos para a publicação. No posto de editor, recebeu 30 prêmios National Magazine Awards, a maior láurea para revistas americanas. Antes de decidir escrever a biografia de Barack Obama, Remnick já havia se debruçado na história de outro ícone afro-americano: o pugilista Muhammad Ali, sobre quem redigiu O rei do mundo, sua primeira biografia.

A ponte é seu sexto livro, lançado nos Estados Unidos em março deste ano. Dos colegas de profissão, enfrentou muitas críticas por ter centrado a biografia do presidente especialmente na questão racial. Mas ele justifica: “O fato de ele ser negro foi um fator enorme em sua ascensão política”.

Trechos
“No início do outono de 1988, Obama chegou a Cambridge certo de que aprenderia o que mais tarde chamou de ‘um modo de pensar’, tendo assumido dívidas de milhares de dólares por esse privilégio. Ao contrário de muitos estudantes que seguiam o curso de direito sem outra razão — a não ser o valor como destaque no currículo —, Obama se matriculou em Harvard consciente, por ser um lugar sério, capaz de oferecer avanços no conhecimento que jamais adquiriria como organizador na zona sul de Chicago. Em Harvard, ele entraria para o mundo dos supermeritocratas de sua geração, passando de observador a participante.”

“Dois anos depois de deixar o Senado de Illinois, Obama mal tinha acabado de pagar suas dívidas da faculdade quando entrou para a disputa presidencial com uma plataforma política de centro-esquerda séria, mas sem nada de excepcional.”

“Quem Obama era, de onde vinha, como forjou sua personalidade e, finalmente, como conseguiu projetar seu temperamento e seu caráter como um reflexo das ambições e da esperança dos americanos se tornariam a fonte de sua retórica e de seu encanto.”

“A identidade racial de Obama foi tão propiciada quanto escolhida; ele a buscou e a aprendeu. Amparado por uma mãe branca amorosa e por avós brancos solidários, criado numa ilha multicultural onde sua tonalidade era ausente, Obama teve de reivindicar essa identidade depois de estudar, observar e até fazer suposições.”

“O relacionamento de Obama com Michelle não estava livre de complicações. As ambições e o ego considerável de Barack costumavam bater de frente com o desejo de estabilidade e companheirismo de Michelle. Mas o relacionamento era sua âncora afetiva.”

“Não falta humor a Obama na intimidade. Por vezes o gracejo irônico, zombeteiro, se intromete em suas aparições públicas.”

 

Fonte: Correio Braziliense

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