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Combate ao racismo e Monteiro Lobato

Por: André Ricardo N.Martins

WIKIMEDIA COMMONS

Jornalista, é membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial — Cojira-DF

Boa parte do debate que se faz sobre o racismo no Brasil apenas tangencia essa grave questão social, não a enfrentando em seu devido contexto. Políticas de ação afirmativa reivindicadas pelo movimento negro costumam ser vistas pelo impacto no consenso social e no cotidiano das pessoas, não se reconhecendo, de modo efetivo, sua necessidade nem mesmo a gravidade da discriminação racial. É essa a abordagem padrão sobre cotas raciais na universidade. Assim também se reage frente a conteúdos racistas na mídia e na literatura. É com esse recorte que precisamos ver o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do mandado de segurança contrário à anulação do parecer do Conselho Nacional de Educação que liberou a adoção do livro Caçadas de Pedrinho pelas escolas públicas. Antes de prosseguir, permitam-me contar um pequeno caso que ilustra o problema.

Dias atrás, meu filho caçula e um colega, um com 10 e o outro com 9 anos, conversavam, e o coleguinha acabou falando — de forma tranquila, sem afetação — da ascendência europeia dos pais. Nisso, meu filho, quiçá recordando papos que já tivemos, perguntou de nossos antepassados escravos. Confirmei a informação, sem negar a existência de pessoas de raiz europeia e indígena na família. Em tom descontraído, ele então comentou que era legal a ascendência de brancos e de índios. Mostrei que ele podia se orgulhar também de ter escravos entre os antepassados porque eles foram pessoas que, mesmo escravizadas, lutaram contra a escravidão. Eram, portanto, gente de fibra, guerreiros, heróis. À simples menção dessa perspectiva, foi a vez de o colegui- nha dele reconhecer na própria família pessoas de ascendência negra, recuperando uma percepção, já bastante corriqueira, de que a sua, como a maioria de nossas famílias, tem grande mistura.

O episódio mostra que mesmo filhos de pais conscientes do problema não escapam de um efeito específico do racismo — o embaraço ao lidar com as próprias origens. Ainda que eu milite na causa antirracista, meus filhos não são militantezinhos. Vão enfrentar eles mesmos essa confusão, fazendo as próprias descobertas. Devo, entretanto, dar-lhes informações e propiciar espaço para a construção de uma identidade (e autoimagem), individual e coletiva, verdadeira e vibrante. Seja quanto à espiritualidade, seja quanto à visão de mundo, não aposto numa doutrinação pesada, seca e nada dialógica. Eu e mi- nhamulher procuramos educar com o exemplo, partilhando princípios, valores e a própria caminhada, sabendo que tudo tem seu tempo certo. Entendemos ainda que os pais têm papel primordial, mas não exclusivo, na educação dos filhos. Igreja, escola, relações de amizade e vizinhança, a mídia e demais instituições cooperam na empreitada.

Dito isso, voltemos a Monteiro Lobato. Não se trata de censurar o escritor. Defendo a liberação da obra, ainda que tal posição não seja consensual no movimento negro. O que reivindico — em nome da dignidade da pessoa humana e do repúdio ao racismo, haja vista referências pejorativas, humilhantes a personagens negras — é que o livro seja publicado com nota explicativa que informe e municie tanto educadores como leitores, trazendo informações sobre o contexto em que foi publicado e os efeitos danosos de referências racistas na formação de crianças e adolescentes e na autoestima de toda uma comunidade. Isso não desmerece ninguém. Afinal, haverá obra-prima que, por mais relevante e magnífica, paire acima da lei e dos princípios da boa convivência?

Lobato foi moldado pelo pensamento racista de fins do século 19. Eu o admiro, não por isso, mas pela pregação nacionalista e pelo conjunto da obra. Quando criança, acompanhei as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo na TV. Trago essa recordação comigo, mas hoje, diferente dos tempos de criança, tenho elementos para reconhecer e rejeitar a subalternidade dos negros, ali presente. Trata-se de inferioridade perpetuada que simbolicamente ajuda a reproduzir a desigualdade de sempre nas relações raciais no Brasil, do que a teledramaturgia e o telejornalismo são exemplos. Negros e negras ocupamos apenas honrosas exceções nesse espaço de prestígio.

Denunciada em meados do século 20 como falsa e ideológica, a tese da democracia racial ainda é propagada por formadores de opinião. Até quando? Anseio e batalho por um Brasil mais igualitário. Sei que remo contra a maré, o que implica constrangimentos e dissabores. Mas, que é isso, diante da grandeza de viver por fé e convicção?

 

 

 

Fonte: Clipping MP

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