sexta-feira, dezembro 9, 2022
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Escola remota

Apaixonei-me pela educação dentro de uma sala de aula, como estagiária. Antes disso, era um misto de amor e ódio, porque ao mesmo tempo em que a escola parecia abrir portas e oferecer esperança, ela me aniquilava como ser, ao me subjugar por uma disciplina esterilizante.

Por Gláucia Portela*, enviado para o Portal Geledés 

Foto: Shutterstock

De aluna a professora e coordenadora, passei a ser uma estudiosa da cultura escolar, a fim de entender melhor os processos e aprimorar o meu fazer. Estes são os meus lugares de fala. E, depois de ler tantos escritos sobre a reinvenção da escola, espaço sagrado para mim, onde vivo mergulhada há exatos 35 anos, cheguei às reflexões que agora compartilho com vocês.

Muito tem sido dito sobre os destinos da escola em época de pandemia, por meio das falas de todos os tipos e vindas das diferentes vozes que compõem o universo escolar. As falas levam à seguinte síntese: escolas privadas desejam seguir abertas; as públicas aguardam recursos para iniciarem um plano de sobrevivência; famílias se dividem entre validar as atividades online porque querem que seus filhos prossigam com uma cultura de estudos gerenciada pela escola, e outras famílias negam esta prática e se dão ao direito de “ordenar” o fechamento das escolas, sob a acusação de que estas só querem receber as mensalidades. Enquanto isso, professores, atordoados, reclamam da falta de preparo para a reinvenção exigida e dão indícios de cansaço por conta de suas rotinas alteradas para dar forma a um novo modelo de educação, sem recursos estruturais para isso.

Sem a pretensão de ser referência nesta análise ou de criticar os posicionamentos tomados para a escola em situação de isolamento social, eu proponho uma análise da cultura escolar, com certa abrangência nos olhares e muito otimismo nas ações. Sempre se criticou a escola. Nunca houve consenso entre os pares que compõem este cenário. Não se deu o devido valor aos profissionais da educação, quer seja financeiro, quer seja reconhecendo o seu papel para a formação das juventudes.

Nos últimos anos, no Brasil, uma onda avassaladora de negação pairou sobre nós, que, acusados de utilizar a nossa intelectualidade a favor de ideologias, fomos condenados ao ostracismo no tocante à emissão de qualquer opinião sobre tudo. Vistos com essa desconfiança, passamos a vigiar, com o dobro de cuidado, nossas aulas, nossas metodologias, nossas abordagens. 

Acuados pelos “guardadores da boa moral e dos bons costumes”, fomos tecendo as novas tramas da educação para o século XXI, sem a liberdade necessária para criar, sem a formação adequada para mudar, sem as condições instrumentais, ou até mesmo vontade para acessar as novas tecnologias disponíveis. Não bastasse tudo isso, ainda tivemos de lidar com um ENEM no “fundo do túnel”, ditando os destinos de nossos componentes curriculares.

Paralelamente, uma nova geração, dentro das salas de aula, vinha desenhando outro modelo de relação social, marcado pela desconfiança numa velha geração que parecia não entender bem os costumes destas “tribos”. Enquanto professores insistiam em conteúdos, desafios, fatos, fórmulas, linguagens, exercícios, avaliações, sentidos para o seu fazer pedagógico, os estudantes buscavam alternativas para “burlar” este lugar, visto como ultrapassado, para se aventurarem nas telas poderosas de seus celulares, conectados ao mundo por uma rede de dados.

É fato que o vírus nos tirou o mundo como conhecíamos! Mas, pelo visto e lido, deixou as feridas abertas para que seguíssemos com a mesma dor. É o caso, por exemplo, dos pessimistas de plantão, que não abrem um projeto sequer sem antes jogar sobre ele suas maldições antecipadas, ou daqueles que apontam o dedo sempre para o professor, esquecendo-se de que a palavra culpa é suja demais para ser usada com este fim. Tem também os que se transformam, da noite para o dia, em grandes entendedores de coisas que nunca dedicaram um terço de tempo para lerem, ao menos, um artigo a respeito. A escola foi para o celular/computador, e muitos alunos dormem, reclamam do uso de câmaras e fingem estarem nos encontros virtuais. Será escola o que realmente se quer?

Apressados em dar respostas − sim, porque pressa é um componente de nosso tempo −, corremos em busca de soluções que fossem as mais próximas das estruturas conhecidas por nós. Quem não fez isso acessou seus escudos de proteção e partiu para a retaguarda, espiando quem estava fazendo e criticando, de seus lugares muitas vezes covardes. Isso só comprova que o que bem falta mesmo é coragem, num mundo que se acostumou com modelos prontos, referências e padrões criados sem consulta, mas legitimados cotidianamente pelas massas, cujas subjetividades estão sendo colonizadas há séculos.

Dentro de duas semanas, muitas escolas estavam nas plataformas online. Incrível essa capacidade de adaptação! Dentro de duas semanas, milhares de alunos seguiram sem acesso a um modo institucionalizado de aprender. Incrível a nossa dificuldade de inclusão! Mas vejam bem, entre essa constatação e as pedras lançadas sobre a reinvenção da escola, há um abismo que só será transponível se, humildemente, reconhecermos que sempre foi desse modo, desde a Grécia Antiga, para entendermos um pouco mais a profundidade do abismo.

Difícil acreditar em reconstrução quando não temos uma sociedade inteira voltada para isso. Partindo da premissa de que a escola é parte de um coletivo, sujeita à preservação dos valores da sociedade onde opera, mas também fomentadora de novos modelos, é que eu convido os interessados a aprofundar suas “falas” generosas sobre este lugar tão carregado de ambivalências e disputas.

Desculpa, Brasil! Sobretudo desculpas aos meus colegas de profissão. Do que menos precisamos agora são de falas soltas, carregadas de olhares universalizantes e narcísicos. Precisamos, a meu ver, de uma atitude radical, neste momento de rupturas: ou fechamos a escola e esperamos a pandemia passar para reabri-la como a conhecemos, ou reinventamos essa instituição de ensino como podemos, para garantir a sobrevivência não apenas de um vínculo, mas principalmente de famílias inteiras que dependem do salário de um professor para comer, vestir, se proteger e continuar vivendo, e também para garantir a continuidade da ação educativa que é a única forma de aprendizagem formal para muitos estudantes no mundo inteiro. São sobre vidas que estamos falando. Então, pensemos em prioridades e possibilidades.

Sei que há um movimento de “morte à Poliana que vive em nós”. Testemunhei diferentes estudiosos da educação afirmarem isso, em seus empoderados discursos, no último evento científico que participei. É como se aquele “jogo do contente” que salvou a nossa doce personagem de sucumbir às atrocidades de seu mundo só servisse para nos alienar. E eu pergunto: a serviço de que, ou de quem, está a morte dos sonhos, da esperança e dos devaneios? Para aonde vamos, muitas vezes, buscar reforços para seguir? Do mesmo modo que é perigoso o discurso de um “desgoverno” sobre o desconhecimento de uma pandemia mundial, é perigosa a recomendação sobre não acreditar no “inédito possível”, para fazer referência ao maior educador do Brasil.

Podemos fazer nada, qualquer coisa ou o melhor possível. Votei na terceira alternativa. Se estou me referindo a Paulo Freire, não estou pregando inocência, mas consciência! Estou pensando na ação como um poderoso verbo, arrebatador, coerente e político. Mas os governos não mandam recursos, os patrões só querem lucros, as universidades não ensinam a ensinar, alguns pais querem suspensão de mensalidades, o (des)ministro insiste na agenda do ENEM, a escola X manteve tudo do mesmo jeito, os sindicatos mandam respostas evasivas ao invés de respostas resolutivas, os conselhos de educação se renderam aos tempos de cólera e os secretários acham que será possível universalizar as ações simultaneamente…

São nessas condições que devemos manter as escolas vivas! Como? Optei por escutar algumas pessoas que foram cruciais em minha formação pessoal e profissional. Podemos começar com o reconhecimento da nossa ignorância, como bem disse o amadíssimo António Nóvoa. Vamos encarar a nossa fragilidade e abandonar a aura de super-heróis, afinal, segundo ele, há uma desigualdade para darmos conta e uma transição para ser vivida, então façamos a metamorfose, redesenhando as fronteiras de maneira colaborativa

Agindo assim, teremos obedecido a outros quatro comandos, que vieram de pessoas diferentes, em tempos diferentes, mas que parecem a mim, neste momento excepcional da história da humanidade, formarem um poderoso amálgama, capaz de nos dar o impulso fundante de uma nova prática possível: a crise é uma oportunidade, segundo Hobsbawm; podemos dar passos em direção à utopia, declarou Galeano; a vida tem infinitas lições, nós, péssimos alunos, que não as aprendemos, afirmava meu pai; e os homens se educam em comunhão, gritou Paulo Freire para o mundo.

A transição escolar pode ser feita com seriedade. Professores podem dar suas aulas − como sabem −, usando câmeras, áudios ou ao vivo, sem precisar ser comparados a youtubers ou digital influencers. Apenas sendo professores em processo de reinvenção, adaptação, sobrevivência. 

É urgente a manutenção dos contatos por algum meio, que não seja o físico, para assegurar a nossa humanidade, a nossa saúde mental e a alimentação de nossas memórias afetivas e de aprendizagem. Se for possível, podemos acessar as ferramentas tecnológicas disponíveis, para nos conectarmos, para mantermos diálogos, apesar das fronteiras de um isolamento social, para nos fazermos corpo, mesmo sem poder estar perto. Podemos acreditar, compartilhar, tentar, errar, sorrir, chorar duvidar, tentar de novo e acertar.

É assim, fazendo o nosso melhor possível, que seremos protagonistas de um novo tempo que emerge, sem a nossa vontade, mas com a força própria das transições. “E quando alguém perguntar o que fiz, neste estranho ano de 2020”, responderei que me empenhei para manter a escola aberta e viva!


*Gláucia Lilian Portela Nunes, Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), pedagoga, professora na rede pública do estado da Bahia, coordenadora na rede privada de Vitória da Conquista – Ba, autora do livro “Palavra de Papel: crônicas para encantar o cotidiano”. Palestrante, Consultora Pedagógica, mãe e aprendiz de cozinha. Criadora de conteúdos online, nas páginas: @afetoesabor e @comidinhasdagal.

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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