quarta-feira, fevereiro 1, 2023
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Na terra natal de Mandela, falar de morte é tabu

No povoado natal do herói e ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, Qunu, a hipótese de sua morte está na mente de todos os habitantes, mas ninguém ousa falar nisso.

“Uma coroa de flores? Isso não existe aqui”, comenta Penuel Mjongile, um pastor dessa localidade rural, a quase 900 km do coração econômico da África do Sul.

É neste local que Mandela, o pai da Nação, deverá ser enterrado. Em sua casa, situada na ladeira de uma colina, não se vê flores, velas, nem mensagens desejando pronta recuperação, ao contrário do que acontece no hospital de Pretória, onde o primeiro presidente negro do país está internado em estado crítico.

“Nossos pensamentos estão com ele”, afirma Penuel Mjongile, batendo no peito com orgulho. “Mas não se fala da morte de uma pessoa que ainda está viva”, explica o idoso, que evita responder diretamente à pergunta sobre o estado de seu ilustre vizinho.

“É um tabu enquanto não acontecer”, acrescenta, em voz baixa.

Na cultura africana e, mais especificamente, na cultura xhosa, a etnia de Mandela, falar da morte de uma pessoa que está agonizando é uma falta de respeito.

Por isso, a Presidência sul-africana, única habilitada a dar notícias sobre o doente, se limita a emitir comunicados lacônicos.

Em Qunu, a proibição é ainda maior. “É preciso respeitar a vontade de Deus e dos antepassados”, explica Lazola Nqeketo, outro morador local.

“Só podemos ter esperanças. Algumas vezes, a esperança aumenta, outras vezes se desvanece. Mas não podemos falar de sua morte enquanto não for um fato”, acrescenta.

Mesmo sem falar, os moradores de Qunu acompanham as notícias pela televisão. “Às vezes acho que gostaria de estar em Pretória, com ele, porque aqui não nos contam nada”, admite Lazola.

Durante os 27 anos em que permaneceu nas prisões do regime racista do apartheid, Mandela gostava de recordar seus anos em Qunu, as pescarias que fazia ou as lutas de brincadeira que travava com pedaços de paus com os amiguinhos.

Quando foi libertado em 1990, decidiu construir uma casa perto do túmulo de seus pais. Em julho de 2011, o ex-presidente mandou ampliar a construção na esperança de voltar a morar nela. Mas seus problemas de saúde o obrigaram a ir para Johannesburgo, para ficar mais perto dos melhores hospitais do país.

Os jornalistas se amontoam desde 8 de junho diante do Mediclinic Heart Hospital, mas o mesmo não acontece em Qunu.

Apenas alguns jornalistas esperam pelo desenlace diante da casa de Mandela, que também é alvo da curiosidade de pessoas de fora da aldeia.

A casa está situada perto da estrada que liga a Cidade do Cabo a Durban e, de vez em quando, os motoristas param para tirar fotos e depois prosseguir seu caminho.

“Não sabia que era a casa do Mandela, mas vi os jornalistas e então parei”, admite Jabulani Mzila.

Um casal acompanhado de seu filho também para diante da moradia. O menino coloca uma flor junto à porta e depois vai embora com os pais.

A flor do campo fica lá, sozinha, como o único testemunho do imenso afeto que os sul-africanos sentem por seu libertador.

 

 

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