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Novela bate em mulher desde cedo

Luana tem 30 anos, está estudando pra ser juíza (fica aqui minha torcida), e se chocou com uma cena da novela Em Família, que estreou recentemente.

 

por Lola Aronovich

 

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Amor à Vida, novela de 2013

 

Luana diz que só se descobriu feminista lendo o blog. Antes, ela “achava que era feminista ao mesmo tempo que achava que ‘mulher devia se valorizar’. Engraçado como é fácil reproduzir as ideias que são repetidas exaustivamente pela sociedade sem questionar”.

 

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Salve Jorge, novela de 2012

 

Eu não vejo novelas, aliás, nem tenho tempo pra ver TV, mas sei que a maior audiência de toda novela é quando uma personagem apanha violentamente. E toda novela tem várias cenas dessas. Geralmente, elas não servem pra denunciar ou pra combater a violência doméstica, mas pra “dar uma lição”, pra gerar ibope (tanto que a mídia se refere a elas como “as melhores surras”). Ou seja, não ajudam em nada. Só atrapalham.

 

 

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Novelas permeadas com estereótipos machistas não são novidade pra ninguém, mas eu queria, do fundo do meu coração, que isso mudasse! Desde que começou essa nova novela das 8, Em Família, é perceptível a quantia de clichês daquilo que há muito o feminismo combate.

 

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No entanto, teve uma cena exibida no dia 3 de março (início da semana do Dia da Mulher, só pra constar), que me incomodou muito.

 

Na cena, houve uma discussão entre seus protagonistas, e que culminou num tapa. Até aí, nenhuma novidade, certo? O problema é que não foi um simples tapa, foi um tapa desferido por um homem na cara de uma mulher.

 

 

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No desenrolar da cena (com uma excelente atuação, diga-se de passagem), Laerte (interpretado por Gabriel Braga Nunes) obriga Helena (Júlia Lemmertz) a ouvir o que ele tinha pra dizer, segurando-a com força (ela inclusive disse “você está me machucando”). Quando ele a soltou, trocaram ofensas, ele a chamou de vadia, e ela deu um tapa nele. Qual foi a minha surpresa (e a dela, imagino), quando ele DEVOLVEU O TAPA?

 

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Quando ela questionou a “coragem” dele de bater nela, ele respondeu o que tantos machistas respondem: “Acha que só você, por ser mulher, tem esse direito?”. Essa frase ficou ecoando na minha cabeça. Pensei: como assim?

Olha, eu não acho que uma mulher tenha direito de sair por aí, estapeando os homens, mas sei que usualmente há uma visível disparidade de força física entre ambos!

 

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Mas não foi isso que deixou transparecer a cena. Pelo que foi mostrado, os protagonistas estavam em pé de igualdade, ou seja, o tapa que a mulher levou teve força equivalente ao tapa que ela desferiu.

 

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Acontece que a realidade não é bem assim. E no Brasil, onde morrem 15 mulheres por dia, vítimas de violência (usualmente exercida pelo marido, companheiro ou ex), uma cena dessas é deveras arriscada, na medida que parece abonar esse tipo de comportamento contra mulheres.

 

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Pergunto: quantos casos de violência começaram com um simples tapa? Claro que há mulheres que também batem nos parceiros — e estão igualmente erradas. Mas o grau de violência costuma ser desproporcional.

Ok, pode ser que eu esteja exagerando, afinal foi só um tapa. Mas então eu lembro que a novela entra em praticamente todos os lares do país. Ela é assistida por grande parcela da população, inclusive pelas camadas menos favorecidas (que são as pessoas que mais sofrem com a violência).

 

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Mulheres Apaixonadas, 2003

 

Acredito que não tenha sido a intenção do autor encorajar  a violência contra a mulher, até porque em outra novela,Mulheres Apaixonadas, ele fez uma campanha muito importante contra a violência contra a mulher [Nota da Lola: infelizmente, no último capítulo ele fez o público festejar uma surra que o pai dá numa mulher adulta que era estúpida com os avós]. No entanto, achei irresponsável abordar o tema dessa forma, até porque, as novelas exercem um poder muito grande sobre sua audiência e muitas pessoas pautam seus comportamentos pelo que assistem na TV.

 

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De verdade, não gostei da circunstância da cena colocando (mais uma vez) a mulher como o “agente provocativo”. Quem assiste a novela já deve ter percebido que é uma constante a culpabilização da mulher, no entanto essa bofetada me chocou (e não vou nem comentar a incoerência de uma pessoa querer pedir perdão pra outra com uma bifa na orelha).

 

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Eu sinceramente esperava que Helena fosse procurar a delegacia da mulher, até por conta do histórico do agressor (que quase matou uma pessoa no começo da novela),  mas ela não foi. E ninguém falou nada… ficou como uma coisa “normal”. Uma briga “normal”, de casal.

 

 

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Eu sei que novela é apenas ficção, mas no site da globo está escrito que essa novela trata sobre “fatos cotidianos”. Sabe, eu não quero viver em uma sociedade onde é cotidiano a mulher ser culpada de tudo e, ainda por cima, vítima de violência.

 

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Fonte: Escreva Lola Escreva

 

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