O matador

Fonte: Folha de São Paulo –

Revelação do rap paulistano, Emicida reflete de forma poética sobre a periferia, inspirado por samba e jazz

Se não forem escolhidas as mesmas bandas emo de sempre, amanhã o Video Music Brasil pode premiar e apresentar ao grande público “o cara” do “hip hop” nacional.

É dessa maneira que bambas como KL Jay, produtor e DJ dos Racionais MC’s, se referem a Emicida, codinome de Leandro Roque, 24, que estreia na premiação da MTV concorrendo com o clipe da música “Triunfo” nas categorias rap, videoclipe e aposta MTV.

“O Emicida é muito original, a começar pelo nome”, fala KL Jay. “Como o [Mano] Brown, ele rima com palavras simples, mas que as pessoas não costumam usar no dia a dia, e as utiliza com talento, passando sinceridade e verdade no que está dizendo. Ouvindo suas letras, dá para imaginar um filme; são raras as pessoas que fazem isso.”

Ter o estilo ligado ao de Mano Brown é para poucos. E é explícita a influência do líder dos Racionais em suas letras. Emicida, no entanto, bebe da fonte da velha escola para fazer “outro tipo de rap”, que busca autenticidade no diálogo com o samba e o jazz.

“Se inspirar em elementos da cultura brasileira não quer dizer só fazer rap com cavaco”, afirma Emicida. “Quando ouço Cartola, é como se ele estivesse me contando sobre sua vida. As pessoas têm que ouvir a música e rir, chorar, dançar, porque a vida acontece dessa forma.”

É por referências como essas que o produtor Daniel Ganjaman, do coletivo Instituto, acredita que o MC vá transcender as fronteiras do “hip hop”: “O Emicida tem sagacidade para escrever e o domínio da técnica de rimar. Ele tem um futuro promissor não só no rap mas na música em geral”.

A fama de Roque se fez e espalhou graças às batalhas de “freestyle”, encontros em que o centro da disputa é a habilidade de improvisar as rimas ao vivo. Nos últimos anos, ele ganhou todas as pelejas e, em consequência, o apelido de Emicida, o matador de MCs.

Suas performances são um hit do YouTube, registradas em centenas de vídeos, alguns com mais de 400 mil visualizações. O único que ele próprio colocou no site foi o videoclipe da música “Triunfo”.

A faixa foi gravada num single, um CD-R empacotado por um tosco envelope amarelo, que vendeu 700 cópias por R$ 3 cada uma.

O sucesso dessa empreitada inspirou Emicida a se aventurar em uma mixtape (leia texto ao lado) com 25 músicas e produção exatamente igual à do single; só muda o preço, que caiu para R$ 2. Desde maio deste ano, foram vendidas 6.000 cópias delas.

Para Emicida, esse foi apenas mais um passo em sua obstinada trajetória que começou na Vila Zilda, uma quebrada muito distante da zona norte.
Foi lá que ele teve seu primeiro contato com a música, nos bailes de rua em que os rapazes esperavam o momento da música lenta “para chegar nas moças e dançar juntinho”.

Por estar num lugar “estratégico”, uma rua sem saída, sua casa se integrava às festas. “Na cozinha, ficavam fogão, geladeira, dois amplificadores gigantes, os “pickups”, vários discos e caixas de bebida”, lembra ele.

Seu pai era o DJ e, do som, saíam hits de James Brown, Earth Wind & Fire, Malcolm McLaren, samba-rock e rap das antigas: Racionais, Pepeu, da famosa “Nomes de Menina”, e Thaíde. “Ficava espiando tudo maravilhado. Encaro essa época como um estudo.”

A morte do pai, quando tinha seis anos, o tirou dos bailes e o colocou nas igrejas evangélicas, onde descobriu os hinos. “Nunca fomos evangélicos, mas, às vezes, minha mãe levava a gente [ele e os três irmãos] à igreja porque, depois dos cultos, rolava um rango. A gente colava lá para bater uma xepa.”
Pelo rap, Emicida se apaixonou aos 12 anos, quando ouviu “Sobrevivendo no Inferno”, disco clássico dos Racionais. “Aprendi sobre Martin Luther King, Malcom X e Zumbi dos Palmares porque ouvia rap.”

A vontade de conhecer o mundo o levou a transcender a zona norte em busca de informação em lugares como o Instituto Itaú Cultural e a gibiteca do Sesi -ele também desenha.

Nesse circuito, Emicida conheceu o produtor Felipe Vassão, responsável por “Triunfo”, e rappers como Kamau, que o introduziram às batalhas de MCs. O resto é história. Registrada passo a passo no YouTube. Basta ir lá para conferir.

 

MC paulistano se destaca como empreendedor do rap

 

A fala tranquila e delicada de Leandro Roque não demonstra o talentoso improvisador que ele é. Diante de sua habilidade se curvam até os rappers do Rio, lugar onde o “hip hop” tem longa tradição de batalhas de “freestyle”. Em 2006, ele protagonizou uma disputa que Cesar Schwenck, produtor da Liga dos MC’s e da Batalha do Real, considera “histórica”: venceu o MC Gil na final da Liga e foi o primeiro paulista a ganhar o evento carioca, onde o público é quem escolhe o melhor.

Esse pensamento ligeiro chamou a atenção do produtor Felipe Vassão -que já trabalhou com Elza Soares e Rock Rockets-, quando Roque nem pensava em ser Emicida. Foi Vassão quem o convidou para ser estagiário de uma produtora na época em que, adolescente, se dividia entre desenhar histórias em quadrinhos e compor suas primeiras letras.

O jeito com o traço rendeu a Roque a publicação de uma HQ pela Companhia das Letras, cujos 10 mil exemplares foram distribuídos em casas de cultura paulistas.

Dos quadrinhos para as rimas, Emicida segue sempre reinventando. Quando percebeu que é curta a fama dos MCs que vivem de “batalhar”, resolveu fazer um CD. Para isso, não se apertou: juntou 25 músicas, chamou parceiros como Vassão, Marechal e Slim Rimografia para produzir as faixas e botou nas ruas o CD-R “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida Até que Eu Cheguei Longe”, inspirado no esquema de vendas das mixtapes, comum nos Estados Unidos.

Lá, esses CDs mixados são utilizados por artistas como Kanye West e 50 Cent para bombar novas rimas nas ruas.
O disquinho aumentou seu cachê, rendeu shows por todo o Brasil e o convite de duas gravadoras para fazer seu disco de estreia -ele prefere manter os nomes em segredo. Mas Emicida quer muito mais. Criou um site, o www.noiz.com.br, que ele, ambiciosamente, pretende transformar numa revista de cultura urbana. (AFS)

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