O mundo sempre foi colorido. Mas estava reprimido no armário

– Cor?

– Hum… Não sei bem ao certo.
– Como assim?
– Ah, quais são as opções que você tem aí?
– Isso não uma casa de sucos! Além do mais, é autodeclaratório. Você tem que dizer qual a cor da sua pele por conta própria.
– Ah, mas eu não sei.
– O que está na certidão de nascimento?
– Ué, mas não foi você quem disse que é autodeclaratório? Eu não tinha idade para declarar nada naquela época.
– É tão difícil dizer de que cor você é?
– Mas para quê você precisa dessa informação, afinal? Faz diferença a minha cor?
– O questionário pede.
– E o questionário pede por quê?
– Não questiono o questionário. Apenas preencho.
– Ah, sim, claro. Olha, não sou negro. Também não sou branco. Quando era pequeno ficava irritado com aquelas crianças pintando as pessoas com seus desenhos com lápis cor de rosa. Parecia um monte de gente que havia tostado na praia sem protetor solar, meu Deus! Dava vontade de passar pintando todo mundo de lápis branco-cor-de-protetor-solar para ver se a queimadura diminuía! E – ridículo – ninguém era “rosinha” na sala de aula… Um dia a professora disse para eu pintar os meus bonequinhos de amarelo. Pô, mas não sou amarelo! Fiquei bege…
– Pardo?
– Não, fico bege com isso.
– Pula, depois a gente vê. Masculino ou feminino?
– Para que você quer saber disso também?
– O questionário pede.
– Só tem duas opções?
– Só são duas opções!
– Olha, não são, não meu bom homem…
– O resto não é reconhecido como tal.
– Resto? Meu amigo, não é, mas deveria! Ou, melhor, não deveria ter divisão nenhuma. Cada um vive como é, para que encaixotar sentimentos?
– Você é macho ou você é fêmea?
– Fala a verdade, isso aqui é só para vocês justificarem a contratação de estatísticos, não?
– É importante saber qual o seu sexo.
– Por que? As cadeiras são anatômicas? Eu ganho um parceiro?
– Para saber com quem estamos lidando.
– Não sei com quem vocês lidam, mas já sei com quem estou lidando…
– Depois a gente preenche. Religião?
– É tanta coisa junto e misturado, né? Olha, eu vou em missa de sétimo dia e quando tem batizado. Ah, e fui numa missa de Páscoa um tempo atrás levar a minha mãe, mas tava muito lotado, fiquei fumando do lado de fora. Também vou a um terreiro, todos os anos, perto da data do meu aniversário, tomar um passe, fazer a manutenção, sabe como é. E tenho este patuá aqui na carteira…olha só…Ogum. Tenho ido em um templo budista muito legal que abriu na minha rua para fazer uma meditação e ver se eu controlo a ansiedade. Hum, deixa eu ver… Por conta de uns problemas nas costas, fiz uma operação espiritual dia desses – funcionou que é uma maravilha. E a última coisa que fiz foi bater um papo com dois jovens loirinhos, com sotaque suuuuuper carregado, que bateram na minha porta dia desses. Gostei deles. Isso faz de mim o quê? Testemunha de Jeová?
– Vou colocar “ateu”.
– Ei, mas não sou ateu. Não dá para colocar algo genérico, tipo “brasileiro”?
– Pula. Casado, solteiro, separado ou divorciado?
– Agora, danou-se. A resposta é “depende”.
– (suspiro) Depende do que?
– Depende do dia. Dependo do humor das pessoas. Olha, no começo até achei que dava para ter uma vida pão-pão, queijo-queijo. Mas depois, desisti.
– Olhe, o senhor que acabou de sair marcou “casado”. Foi simples! Por que você não escolhe um desses também?
– Ele escolheu casado? Kkkkkkkk. Mas conheço a figura desde os tempo da faculdade. Não conta para ninguém, mas ele tem uma amante há anos!
– Mas, perante a lei, ele é casado.
– Meu filho, na hora em que a outra vier atrás do patrimônio para garantir o sustento do filho deles, acabou essa história de “casado”.
– Renda familiar mensal?
– Hum, moro sozinho, então sou só eu. Deixa ver…tem que somar aquilo também… é pouquinho, mas entra… isso, não, isso é prejuízo… pagar o contador… ah, varia de dois a 20 salários mínimos por mês.
– Essa faixa não existe
– Helloooo! Eu sou frila, meu bem. Depende do mês.
– Olha, todos os dias preencho dezenas desses questionários. E nunca teve problema!
– Se fosse para ser sincero, poucos iriam conseguir preencher isso aí com as opções travadas que vocês dão.
– Que droga de mundo é esse que não reconheço mais??? Na minha época, homem era homem, branco era branco, católico era católico e cada um sabia seu lugar.
– Olha, meu querido, o mundo sempre foi assim, mas tava dentro do armário de vergonha. Posso dizer que ele é muito mais divertido que você pensa.
– Humpf.
– E onde é que eu assino?

 

 Saia do armário

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Fonte: Blog Sakamoto

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