Por um tênis e um casaco?

Fonte: Folha de São Paulo
Por Denis Mizne

Não é o primeiro episódio de desmoralização de uma política de segurança fracassada. A hora agora é a de limpar a polícia

POR UM tênis e um casaco, um homem perdeu estupidamente a vida nas ruas do centro do Rio no último fim de semana. Uma vida interrompida à toa por dois garotos e um 38 numa noite qualquer.
Por um tênis e um casaco, um trabalho foi interrompido. A vida arriscada de educador social, atuando nas áreas mais violentas do Rio de Janeiro, atraindo garotos e garotas para que nunca roubassem nem matassem à toa pelas ruas da cidade, foi brutalmente estancada.

Por um par de tênis e um casaco, dois policias militares deixaram um corpo agonizando, venderam a liberdade de latrocidas e jogaram no lixo o que restava de credibilidade de sua corporação. Por um par de tênis e um casaco.

Por um par de tênis e um casaco, policiais irresponsáveis só fazem confirmar a incompetência crônica de um Estado omisso e colocam em risco exatamente aquelas poucas instituições que se esforçam para mostrar que há muitas coisas boas nas polícias, muitas coisas boas na cidade, luz no fim do túnel, esperança.

Não é o primeiro episódio de desmoralização de uma política de segurança fracassada, que não investe nem cobra seus policiais e que prefere que cortem a carne dos outros a cortar a sua própria. Também não é uma exceção. Não quando se vende a liberdade por um par de tênis e um casaco, no centro da cidade, do alto da patente e sob os olhos da população. A hora agora é a de limpar a polícia.

Dar força e razão àqueles que, como o AfroReggae, nós e tantos outros, defendem que existe uma polícia cidadã, comprometida, séria.

A luta pela boa polícia só dará frutos se o Estado demitir e punir sistematicamente os maus policiais. Passar recados diferentes. Não pode, não se faz. Polícia não se vende por arma, por droga, por muito dinheiro nem por um tênis e um casaco.

O combate à corrupção nas polícias, infelizmente, é o grande ausente na agenda da segurança. Na recente Conferência Nacional de Segurança Pública, nenhuma das 40 resoluções aprovadas toca no tema. Nem os projetos de lei em debate no Congresso.

Para que esse combate aconteça na prática, é necessário o fortalecimento das instâncias de controle interno e externo das polícias.

Só metade dos Estados contam com ouvidorias, muitas das quais pecam pela falta de independência e recursos para apurar abusos.

As corregedorias, como há muito se pleiteia, poderiam ser subordinadas diretamente aos secretários da Segurança Pública, e não aos comandos, reduzindo os riscos de corporativismo.

Elas deveriam contar ainda com carreiras próprias, como já ocorre em muitos países, fazendo com que se reduza o risco de promiscuidade e coleguismo entre aqueles que de tempos em tempos podem estar juntos na rua ou em lados opostos do balcão.

É inadmissível também o reiterado silêncio do Ministério Público, tão ativo no combate à corrupção em geral, mas que peca sistematicamente em suas atribuições de controle externo da atividade policial. Quantas operações foram feitas nesse sentido?

Ao mesmo tempo em que fortalecemos os órgãos de apuração, é essencial a criação de uma legislação que permita a rápida punição, mantido o direito de defesa, de qualquer policial envolvido em ações ilegais. Tal legislação já existe em alguns Estados e poderia facilmente ser aprimorada e implantada no Rio de Janeiro.

Claro que sempre defendemos o aumento de salários e a melhoria das condições de trabalho da polícia, fatores essenciais para sua profissionalização e para aumentar a dignidade da carreira.

Mas não aceito a ideia de que baixos salários justifiquem atitudes corruptas -milhões de brasileiros ganham salários ínfimos e nem por isso passam a cometer atividades criminosas para complementar a renda. Se salários altos fossem garantia de correição, não haveria corrupção nos altos escalões das polícias ou da política.

Corrupção é caráter. A mesma cobrança que fazemos às polícias temos de fazer ao resto da sociedade. Quem acredita que corromper o policial para evitar multa de trânsito, por exemplo, é aceitável deve saber que está diretamente contribuindo para a cultura existente e os crimes cometidos.

Se esse episódio não foi o primeiro, que seja o último. Se houver disposição de enfrentar realmente a corrupção da polícia, haverá disposição renovada do lado de cá de trabalhar junto, construir caminhos para uma nova realidade.

Se há compromisso com a vida, se há indignação real por trás dos discursos inflamados, que comecem as reformas estruturais das polícias, de limpeza das instituições, sem desculpas burocráticas ou medo de retaliação. Apoio não faltará. E coragem?

 

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