Prêmio Donna 2018: pesquisadora Giane Escobar dedica a vida a pequenas revoluções para promover a cultura afro

Giane faz de seu trabalho um tributo às suas origens e à sua raça. Doris, 80 anos, lança voo solo para valorizar a moda gaúcha. Madgéli conscientiza homens que agrediram suas mulheres. São elas as vencedoras da 3ª edição do Prêmio Donna Mulheres que Inspiram, escolhidas pela equipe Donna entre 10 indicadas por jornalistas e profissionais de diferentes áreas. Conheça suas histórias e seu exemplo.

Por Caue Fonseca, da Revista Donna 

Foto: Andrea Graiz

Quando as 10 finalistas ao 3° Prêmio Donna Mulheres que Inspiram estiveram em Porto Alegre para uma sessão de fotos, em março, foram também gravados pequenos vídeos de apresentação de cada uma delas. Começavam com cada uma dizendo seu nome, sua idade e um pequeno resumo da sua atuação. Na vez de Giane, houve uma quebra de protocolo:

– Meu nome é Giane Vargas Escobar, tenho 50 anos, sou bisneta da Avó Bela. Neta da Angelina e do Arnoldo. Da Marcinha e do Eduardo. Filha do Jorge e da Jonbelina…

Se optasse por citar algumas das siglas e títulos que compõem seu currículo, a apresentação ficaria ainda mais longa. Para resumir: Giane é graduada em Letras, mestre em Patrimônio Cultural, especialista em Museologia e doutora em Comunicação. Sua formação passou por quatro instituições entre Brasil e Portugal, a mais presente delas, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Como professora, foi substituta no curso de Museologia na UFRGS e desde o ano passado é concursada da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) – Campus Jaguarão, onde leciona no curso de História. Conversando com Giane, entende-se o porquê de ela destacar, antes de qualquer um dos títulos, a árvore genealógica.

– Muitas vezes, a gente não tem essa consciência. Mas costumo dizer sempre de onde eu venho porque, se hoje estou onde estou, é em razão de outras mulheres e homens negros que lutaram antes de mim. Outras mulheres me puxaram e me chamaram – declara.

Giane se enxerga como um exemplo vivo da mudança que o acesso à educação proporciona a uma família. Neta de trabalhadores de uma pedreira no Morro Cechella, em Santa Maria, seu pai esteve em um dos raríssimos casos de um negro que ingressou na universidade pública na década de 1960. Curiosamente, havia um sistema de cotas vigente no curso de Agronomia – mas não para negros ou para qualquer política de inclusão social, e sim para filhos de proprietários rurais. O pai de Giane teve de superá-lo para ingressar, em 1968, quando Giane era um bebê de colo.

Foto: Andrea Graiz

– Meu pai foi a exceção da exceção, mas já foi o suficiente para que a filha dele fizesse faculdade. Mas ainda não é na minha geração em que essa revolução acontece. Para você entender: sabe quantas professoras negras eu tive nos Ensinos Fundamental e Médio juntos? Duas. Na graduação e pós-graduação, nenhuma. De um quadro de 74 professores da Unipampa, são apenas dois.

Embora o currículo de Giane seja por si só uma vitória pessoal expressiva – para se ter uma ideia, apenas 0,05% de um universo de 48,5 milhões de mulheres negras brasileiras são pós-graduadas –, há uma missão adicional para quem chega a esse ponto da carreira acadêmica: fazer com que a cultura negra seja também objeto de estudo. Compromisso que Giane entendeu melhor mais uma década depois de graduada, em 2001, ao se envolver com o clube social negro Treze de Maio, em Santa Maria. À época, o clube fundado em 1903 por trabalhadores ferroviários negros se resumia a um prédio em ruínas no bairro Rosário. Sem luz e com documentos apodrecendo debaixo d’água, estava prestes a ser leiloado.

Motivada por uma especialização em Museologia na UFSM, Giane entrou em contato com a comunidade negra interessada e comandou a revitalização do espaço. O trabalho como diretora técnica entre 2003 e 2012 do que viria a ser um Museu Comunitário rendeu a ela o Museum Prize Winner 2014, promovido pela Fundação Hans Manneby, prêmio entregue em Gotemburgo, na Suécia. Hoje, Giane fala do Treze com um misto de lamento e orgulho.

– Lamento que, por uma série mudanças de comando, de governo e de situação econômica, não tenham conseguido manter o Treze de portas abertas. Desejo muito que a comunidade de Santa Maria volte a se apropriar dele. Mas me orgulho muito de ter visto surgir ali, naquela aproximação entre a universidade e a comunidade negra, o debate sobre a implementação do sistema de cotas na UFSM. Ele viria a ser aprovado em 2007 por apenas um voto – conta Giane.

Mas se o Treze ficou como uma lembrança agridoce, o interesse acadêmico pelos clubes sociais negros do interior do Estado se manteve. Recém-chegada a Jaguarão, Giane encontrou pulsante o Clube 24 de Agosto, que completa cem anos neste inverno em plena forma. Seu projeto, agora, é resgatar as histórias das antigas rainhas negras do clube. “Mulheres poderosas e apoderadas”, segundo a professora e pesquisadora:

– Jaguarão tem se revelado uma cidade surpreendente. Tem uma negritude forte, embora não se reconheça como tal. É de arrepiar, por exemplo, saber que ali na Praça do Desembarque chegava mercadoria e também chegava gente.

À frente do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas – que havia sido criado antes da sua chegada, mas não havia sido estruturado –, Giane comemora os primeiros contatos entre espaços até então nunca explorados pela academia. Duas alunas de História, por exemplo, fizeram estágio em um terreiro, fruto de uma parceria inédita no Brasil.

– Quando elas apresentaram o trabalho aos colegas, alguns não quiseram entrar. E não foram obrigados. Os que entraram, depois de conversar com Mãe de Santo, começaram a observar as imagens de São Jorge, de Iemanjá, de Oxum e dizer: “Olha, esse aqui tinha na casa da minha avó”, “Aquela ali tem na casa do meu pai”. Ou seja, já é uma religião praticada. Estudar esse tipo de cultura, de comportamento, é iluminar hábitos de origem afro que sempre passaram à margem da história.

No corpo docente da universidade pública ainda jovem, fundada em 2006, Giane observa a importância de ter em sala de aula um rosto semelhante ao de alunos negros de todo o Brasil que desembarcam no longínquo sul do Rio Grande do Sul via Sisu, sistema que unificou nacionalmente as seleções em universidades públicas.

– O ambiente acadêmico, especialmente para esses alunos que vêm com pouco poder aquisitivo para um lugar estranho, muitas vezes é hostil. Mas, quando chegam à universidade e deparam com professores negros, faz muita diferença pra eles. Porque é olhar para o espelho. E quando isso acontece, é uma revolução – diz ela abrindo o sorriso alvo no rosto negro. A revolução de uma doutora para inspirar outras.

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