terça-feira, setembro 21, 2021
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Única negra em universidade japonesa: “Pobre também pode estudar fora”

“De Itaquera pra atual universidade número um do Japão! Me formando de kimono e afro”. Foi com essa legenda em um post do Twitter que Marina de Melo do Nascimento, 29, viu sua formatura do mestrado em História na Universidade de Tohoku, uma das mais conceituadas no país oriental, repercutir nas redes sociais nos últimos dias.

Única estudante negra da área de Humanas na instituição de ensino japonesa, Marina escreveu uma dissertação, em inglês, sobre Kishida Toshiko (1863 – 1901), uma das primeiras feministas japonesas, e seus escritos em revistas femininas em uma época que as regras patriarcais no país oriental eram bem mais rigorosas.

“Ela foi uma das primeiras mulheres a estudar em escola púbica e fazer ensino superior em Kyoto, foi escolhida para ser tutora da imperatriz na época”, diz. “Só que ela não gostava da vida no palácio, se aproximou de um movimento popular pela liberdade e foi convidada a dar palestras sobre a vida das mulheres no Japão. E chegou a ser presa por questionar as regras.”

De Itaquera para o Japão, e o fascínio pela cultura do país

Moradora de Itaquera, zona leste de São Paulo, até os 15 anos, e formada em Letras na USP, Marina tem fascínio pela cultura japonesa desde pequena, quando embarcou na febre dos desenhos japoneses que apareciam na TV brasileira entre os anos 90 e 2000. A mãe a incentivava a consumir tudo da cultura do país. No ensino médio, Marina trabalhou em uma papelaria em que os donos eram japoneses e também a estimulavam a aprender o idioma.

Fora do ambiente familiar, no entanto, o acesso à cultura japonesa não era tão incentivado, e o racismo tem tudo a ver com o que Marina e outras pessoas negras passam quando se aproximam dos símbolos e produtos do lugar. “Uma vez, um professor não me aceitou no curso de japonês porque disse que eu não tinha a ver com a cultura e, por isso, não tinha por que eu aprender. Minha mãe foi lá e disse: ‘Quem é você para dizer o que minha filha pode aprender ou não?'”.

Muita gente acredita que pessoas negras não têm espaço na cultura pop, o que é triste e tira a vontade dos jovens de se interessarem por isso. Gostar de game, de cultura nerd, de anime desperta a vontade de aprender o idioma e tecnologias. Só que, por acharem que vão sofrer preconceito, as pessoas negras e pobres ficam tímidas em relação a isso.

“A gente deveria se jogar no mundo e ter a oportunidade de gostar do que a gente gosta. O racismo não pode parar a gente nesse quesito”, defende.

No Japão, ela afirma não ter passado situações racistas tão diretas. “Eles são bem discretos nesse quesito. Mas tem algo muito sério, que é perguntar por que minha palma da mão é mais clara do que o resto do corpo e tem uma coisa de pegar no meu cabelo, perguntar porque que ele é assim.”

No dia da formatura, o cabelo natural: “É visto como exótico”

Os cabelos naturais, aliás, foram uma dúvida até a noite anterior à formatura, conta Marina. O medo era que, na cerimônia as pessoas comentassem sobre ele e até dessem risada. Quem a ajudou a decidir foi o marido.

“A gente se impõe uma pressão muito grande para alisar aqui, porque ninguém tem o cabelo igual no Japão. E o olhar para os fios é sempre de uma coisa exótica, esquisita. Eu não alisei, porque demorou muito para eu assumi-los e jurei que nunca mais ia fazer alisamento. Hoje, uso trança e afro puff, o que usei na formatura e achei lindo”.

Formatura inspira outros jovens: “Pobre também pode estudar fora”

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Marina fez intercâmbio em 2013 e voltou a morar no Japão para dar continuidade aos estudos (Foto: Arquivo Pessoal)

O caminho de Marina até chegar à foto de kimono (que se chama “hakama” e é um tipo de vestimenta tradicional hoje usado em ocasiões formais) foi longo. De acordar antes das 4 h para chegar à USP às 8, com ônibus cheio e metrô lotado, a ter conseguido um intercâmbio pela primeira vez no Japão, em 2013, ela expõe que para quem mora na periferia tudo é mais difícil.

“Para o intercâmbio, eu ia várias vezes no Consulado e demorava muito para chegar lá. E ainda teve a questão da minha carta de aprovação na Universidade: como todo mundo na minha casa trabalhava, quem recebeu foi o tiozinho do bar da esquina da rua”, conta, aos risos.

Trabalhando como professora para filhos de brasileiros e morando com o marido, Júlio César, que também é brasileiro e estuda na Universidade de Tohoku, Marina conta que mantém uma rotina puxada para pagar a universidade e os boletos no Japão. “Ainda dou aula de inglês em um cursinho preparatório e sou intérprete na biblioteca da faculdade”.

Para ela, a sua formatura tem o poder de inspirar outros jovens das periferias, ao mesmo tempo que denuncia como para eles, principalmente os negros, as oportunidades são mais difíceis. “Primeiro, a gente tem que mudar a ideia de que pobre não pode estudar fora. E de que quem é da favela sempre vai estar lá, que não tem escolha”, opina. “Mas isso é tão enraizado no Brasil, um país tão desigual, que eu viralizei. Porque quando uma pessoa negra consegue fazer alguma coisa vira notícia. Não virei por ter entrado na USP, porque hoje pobre consegue entrar lá, mas porque fui estudar em uma faculdade número 1 no Japão, fazendo o curso em japonês, dissertação em inglês”.

O recado para quem está no corre para realizar o sonho de estudar fora (dica: ela fez até publicações no Twitter para ensinar tudo sobre os trâmites para quem tem interesse), diz Marina, é um só. “Queria que a gente não delimitasse quem a gente é. Claro que cada caso é um caso, nem todo mundo tem família que dá suporte e as chances que eu tive, mas queria que a gente mudasse a mentalidade. Trabalhar muda a vida, mas estudar também. E você tem o direito de escolher o que fazer, porque só fracassa quem tentou.”

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