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A vida de Jimi Hendrix: como o jovem James se tornou o gênio da guitarra

Hendrix morreu há exatos 49 anos, no dia 18 de setembro de 1970. Ele tinha só 27 anos

Na Rolling Stone

Jimi Hendrix em junho de 1967 (Foto:Bruce Fleming/AP Images)

James Marshall Hendrix (para nós, Jimi Hendrix) nasceu no dia 27 de novembro de 1942. Morreu aos 27 anos, no dia 18 de setembro de 1970 – há exatos 49 anos. No dia de sua morte, seu pai, James, paisagista, falou sobre a infância do filho. A família Hendrix morava em uma casa simples com gramado e jardim na melhor parte de Seattle – que na época, em meio à segregação racial dos EUA, era considerado um “bairro de negros” – perto do lago Washington.

Anos depois, em 2010, a estante da casa está cheia de fotos, correias de guitarra, recortes de revistas e outras evidências da ilustre carreira deJimi Hendrix. O pai se casou de novo e teve duas filhas no segundo casamento. Também tem um filho, Leon, do primeiro casamento. A última vez em que a família viu Jimi foi em 26 de julho de 1970, um dia depois de Leon, aos 22 anos, começar a cumprir pena por roubo. Como sempre fazia quando estava em Seattle, Jimi passou o fim de semana na casa da família.

James recorda que Jimi começou a se interessar por música quando tinha 10 anos. O pai se lembra de entrar no quarto de Jimi uma noite, no escuro, e tropeçar em uma vassoura. Perguntou a Jimi por que a vassoura estava ali, já que obviamente ela não estava sendo usada para limpar o quarto. “É minha guitarra, pai”, Jimi respondeu. “Estou aprendendo a tocar.”

De presente de aniversário de 11 anos, Jimi Hendrix ganhou de seu pai um violão barato e, quando chegou aos 12, Jimi ganhou sua primeira guitarra. Aprendeu rapidamente, e tocava em bandas já aos 13 anos. Quando tinha 14, sua primeira guitarra (com “Jimmy” gravado) foi roubada e ele só conseguiu recuperá-la no 2º ano do ensino médio.

Membros das bandas de infância de Jimi ficaram bastante surpresos quando ele se tornou um astro, porque parecia a pessoa com menos chance em todas elas de fazer sucesso. Então, era apenas um músico médio, e não dava indicação nenhuma da criatividade quase compulsiva que o consagrou. Também era conhecido por ser muito tímido e reservado, e não tinha presença de palco alguma.

Jimi abandonou o ensino médio no meio do último ano e foi trabalhar de faz-tudo para o pai, que na época trabalhava com jardinagem e podas. Um dia, enquanto estavam trabalhando, Jimi disse ao pai que achava o serviço chato e que havia simplesmente decidido entrar para o exército. Isso foi em 1963.

Ele saiu de Seattle poucos dias depois e entrou para a 101ª Divisão de Paraquedistas, alocada no sul. O pai se lembra de entrar no quarto de Jimi logo depois de ele ir embora, ver sua guitarra e ficar surpreso por ele não tê-la levado. Alguns dias depois, recebeu uma ligação de Jimi, que disse que o serviço militar estava deixando-o louco; ele precisava da guitarra “imediatamente”.

O blues de Hendrix

Exceto por uma foto recebida pelo correio, essa foi a última vez em que James teve notícias do filho até Hendrix chegar à Inglaterra em 1966. Ele havia sido dispensado do exército depois de 14 meses, quando machucou as costas em um salto de paraquedas, e tinha passado os anos seguintes cruzando os Estados Unidos, tocando com mais de 40 grupos de R&B. Usando o nome Jimmy James, tocou por seis meses com um grupo de Nova York chamado Blue Flames. Hendrix acompanhou Little Richard, Jackie Wilson, Isley Brothers, Wilson Pickett, Curtis Knight and the Squires e outros.

Em 1966, ele tocava (e, pela primeira vez, cantava) com um grupo no Cafe Wha?, na MacDougal Street, Greenwich Village, quando Chas Chandler, então baixista do Animals, se apresentou. Chandler ficou empolgado com Hendrix, que havia montado a banda apenas dois meses antes. Mas Jimi tinha dúvidas sobre sua própria capacidade musical. Duas semanas depois, após uma rápida turnê com o Animals, Chandler retornou a Nova York, confirmou suas primeiras impressões e convenceu Hendrix a ir para a Inglaterra com ele. Isso foi em setembro de 1966.

Alguns dias depois, James Hendrix recebeu uma ligação às 4 da manhã. “Sou eu, o Jimi. Estou na Inglaterra, pai”, disse a voz do outro lado da linha. “Conheci umas pessoas e eles vão fazer de mim um astro. Mudamos meu nome para J-i-m-i.”

O pai perguntou o motivo da mudança, e Jimi respondeu que era “só para ser diferente”. James se lembra de dizer a Jimi que, se ele realmente estava ligando de Londres, a chamada ficaria muito cara. Ambos começaram a chorar no telefone.

Na Inglaterra e sob o nomeJimi Hendrix, formou uma nova banda. Noel Redding, que tinha feito teste para tocar guitarra no The Animals, conheceu Hendrix através de Chandler. ” Você sabe tocar baixo?”, foi a primeira pergunta que Jimi fez a Redding. Ele nunca tinha tocado antes, mas imediatamente se tornou baixista, e guitarrista ocasional, da Jimi Hendrix Experience. Mitch Mitchell, outro inglês, foi escolhido para baterista. Seis semanas depois de sair de Nova York, quatro dias depois de formar o trio, Hendrix se apresentou no Olympia, em Paris, abrindo para o astro pop francês Johnny Halliday.

Eles partiram para uma turnê na Europa. Oito dias depois do Beach Boys bater recorde de público ao tocar para 7.000 pessoas em dois shows no Tivoli, em Estocolmo, a Experience atraiu 14.500 pessoas para dois shows, e se tornou a segunda banda a lotar o Sports Arena em Copenhague (os Rolling Stones foram a primeira). No Seville Theater, em Londres, foram os primeiros artistas a lotar dois shows, e quando uma nova apresentação foi agendada para um mês depois os ingressos se esgotaram logo no primeiro dia.

Sucesso na Europa, era hora de Jimi Hendrix voltar para os Estados Unidos. Com vários singles de sucesso e um álbum bem-sucedido na Europa, o Jimi Hendrix Experience fez sua estreia em solo norte- americano em 1967, no Monterey International Pop Festival. Poucos na plateia sabiam que, até nove meses antes, Hendrix tinha morado a vida inteira no país. Para muitos, esse “blueseiro inglês negro esquisito” estava fazendo sua “estreia americana”.

Lou Adler, co-produtor do festival de Monterey ao lado de John Phillips, afirma que Paul McCartney foi quem lhe contou sobre Hendrix: “Ele me falou sobre um cara na Inglaterra que tocava guitarra com os dentes”. Adler decidiu convidar Hendrix e The Who como os “novos” artistas a serem apresentados ao público de Monterey.

Nas notas sobre a gravação ao vivo da apresentação de Jimi (ironicamente, foi a última gravação de Hendrix lançada antes de sua morte), Pete Johnson, da Warner Bros, escreveu: “Sua apresentação no festival foi mágica – sua aparência, o jeito como ele e sua banda tocaram estavam a anos-luz de distância de qualquer coisa já vista. A Jimi Hendrix Experience era a dona do futuro, e o público soube disso em um instante.”

As histórias divulgadas sobre Hendrix depois de Monterey foram suficientes para levá-lo diretamente ao topo, especialmente na Europa. O single “Purple Haze” estourou nas paradas e Are You Experienced?se tornou um álbum de enorme sucesso. O Jimi Hendrix Experience com o tempo também tomaria a América de assalto.

Fama, sucesso, solidão, cansaço

Se o público sabia exatamente quem era Jimi Hendrix, o mesmo não pode ser dito dos cérebros da indústria musical. Em uma típica aberração do showbiz, a Experience partiu para uma turnê, abrindo para os Monkees, tocando basicamente para pré-adolescentes. Quando um promotor reclamou “sob pressão das Filhas da Revolução Americana” que sua performance de palco era “sexy demais,” a Experience se recusou a modificá-la, abandonando a turnê e lotando os próprios shows.

Monterey foi onde Jimi ficou conhecido como “incendiador de guitarra” e achou necessário explicar o que se passava: “No Festival de Monterey, decidi destruir minha guitarra no final de uma das músicas. Era uma guitarra pintada. Eu a tinha acabado de pintar naquele dia e realmente estava gostando daquilo. Minha bolsa estava no palco, minha bolsa de couro cru, com tudo nela, inclusive querosene para o meu isqueiro, que ganhei do Chas no Natal. Destruí minha guitarra de novo Washington, D.C. Mas aí foi um acidente”.

A revista pop Disc e o jornal de música Melody Maker, ambos britânicos, o elegeram Músico do Ano em 1967. No ano seguinte, quando cada um de seus três primeiros álbuns já era disco de ouro – ele foi escolhido como Artista do Ano pela Rolling Stone.

Quando Jimi Hendrix fez seu retorno triunfal a Seattle no início de 1968, recebeu a chave da cidade e um diploma honorário da Garfield High. Seu pai ficou abismado quando viu Jimi usando uma capa de veludo roxo e camiseta arco-íris. Ele não só não havia percebido a imensidão do estrelato de Jimi, mas também se lembrava do filho como alguém que se vestia de maneira conservadora, com uma personalidade reservada.

Mas se Hendrix se vestia de maneira ousada, e se sua performance no palco era caos puro, ele também tinha uma clara ambivalência com relação a ser um astro do rock. No palco, era o que toda mãe temia quando expressava dúvidas sobre o efeito do rock and roll nas filhas. Fora dele, continuava o mesmo Jimi Hendrix quieto e vulnerável.

A ambivalência ficou evidente em 1969, seu ano mais improdutivo. Hendrix se tornou mais recluso e a Experience se separou. Em maio, foi preso pela primeira e única vez por posse de drogas. Aconteceu quando ele atravessou a fronteira do Canadá – a acusação foi de porte de heroína e haxixe. Hendrix alegou não saber o que estava na mala, que um fã a havia dado de presente alguns dias antes, e ele fez a mala sem olhar o que tinha lá. Em seu julgamento em dezembro, disse que havia experimentado de tudo, de maconha a cocaína – mas nunca heroína – algumas vezes, e que tinha “superado” drogas de qualquer tipo. O julgamento durou três dias e o júri o inocentou das duas acusações.

Mesmo assim, durante a maior parte do verão, ele ficou escondido. Billy Cox, velho amigo do exército, foi anunciado como o novo baixista, e Mitchell permaneceu. Jimi passou a maior parte do verão com uma “família elétrica” de músicos – de velhos blueseiros a compositores clássicos de vanguarda – no norte do Estado de Nova York. Ele questionava se era levado a sério por outros músicos. Disse que a nova “família” faria o que ele chamava – na falta de um termo melhor – de “música da igreja celestial” e que o grupo teria, além dele, outros cantores e compositores. “Não quero mais ser um palhaço”, afirmou Jimi Hendrix. “Não quero ser um astro do rock.”

Mas a família musical não deu certo e , quando Hendrix reapareceu, era véspera de Ano-Novo no Fillmore East e ele estava tocando com Cox e o velho amigo Buddy Miles na bateria. Essa era A Band of Gypsys. Bill Graham dançou nas laterais do palco durante o show, depois foi ao camarim para dizer a Hendrix que era a melhor música que ele tinha ouvido em sua casa de shows.

Embora seus álbuns saíssem pela Warner/Reprise, Jimi ainda devia à Capitol um disco devido a um contrato antigo. Ele deu à gravadora o álbum da Band of Gypsys, embora em entrevistas posteriores tenha revelado que não ficou totalmente satisfeito com o desempenho porque sua guitarra estava desafinada. Poucas semanas depois, no show do Moratorium no Madison Square Garden, Hendrix largou sua guitarra no meio da segunda música e disse: “Não estamos acertando” e abandonou o palco. Estava deprimido com o novo grupo. A música não estava correspondendo e logo ele voltou com a Experience original.

Em uma entrevista concedida na época, Jimi explicou o que havia acontecido com a banda: “A Band of Gypsys era algo estranho. Eu estava muito cansado. Sabe, às vezes muitas coisas se juntam na sua cabeça sobre isso e aquilo e elas podem te atingir em um momento muito peculiar. E aqui eu estava lutando na maior guerra da minha vida. Dentro de mim, sabe?”

Supostamente, as coisas estavam melhores do que nunca antes entre os integrantes da Experience, mas isso não era verdade. As relações entre os três não estavam totalmente boas.

Uma das últimas entrevistas que Jimi Hendrix deu foi para o Melody Maker, mais ou menos na época do Festival da Ilha de Wight (em agosto de 1970, pouco antes da morte do guitarrista). Jimi contou ao repórter Roy Hollingworth sobre seu medo de os europeus não gostarem dele como antes: “Enquanto estava desaparecido nos Estados Unidos, tive a sensação de que estava completamente eliminado da Inglaterra. Dei tudo o que tinha, pensei que talvez não me quisessem mais porque tinham algumas bandas boas. Talvez dissessem: ‘Ah, é, tivemos o Hendrix, ele era ok’. Realmente achei que estava acabado aqui,” afirmou. Mas ficou feliz ao descobrir que estava errado, que ainda gostavam dele na Europa, e a entrevista terminou com Jimi ressaltando: “Estou feliz, vai ser bom”.

Na entrevista, Hendrix explicou que vinha “…pensando no futuro. Pensando que esta era da música – impulsionada pelos Beatles – havia chegado ao fim. Algo novo tem de surgir, e Jimi Hendrix estará lá. Quero uma banda grande, com músicos competentes que eu possa reger para e compor junto com eles. E com a música pintaremos imagens da Terra e do espaço para que o ouvinte seja levado a algum lugar. Será algo que abrirá um novo sentido na cabeça das pessoas. Elas estão preparando sua mente agora. Como eu, estão voltando para casa, ficando gordas e se aprontando para a próxima viagem.”

Hendrix continuou filosofando sobre o que tocava mais fundo em seu coração – a música. “Sabe, a música é tão importante. Não curto mais as besteiras do pop e da política. Qualquer um pode sair por aí apertando a mão de bebês, beijando as mães e dizendo que isso é muito legal. Mas não dá para fazer isso na música. Para mim, a música não mente. Concordo até que ela possa ser mal interpretada, mas não mente.”

Ironicamente, Hendrix falou também sobre drogas: “Sabe, o negócio das drogas está enfrentando um grande obstáculo. Ela abria coisas na cabeça das pessoas, dava a elas algo com o qual não podiam lidar. Bom, a música pode fazer isso, sabe, e você não precisa de nenhuma droga. O termo ‘abrir a cabeça de alguém’ é válido. As pessoas gostam que você abra a cabeça delas, mas, depois que abrimos a cabeça, daremos algo que preencherá o espaço aberto. Isso vai ser feito por uma forma completa de música”.

Jimi Hendrix, a lenda, morreu no dia 18 de setembro de 1970, quando tinha 27 anos de idade. Há exatos 49, o músico foi encontrado morto no quarto de hotel de Monika Dannemann, a pintora alemã que ele namorava. Morreu asfixiado no próprio vômito. Em seu sangue, foram encontrados nove tipos de sonífero. A autópsia, feita só no dia 30, nunca teve muitas conclusões. Mas foi considerado um suicídio por alguns. Leia mais sobre os últimos dias do músico aqui.

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