terça-feira, julho 5, 2022
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Alegria, alegria – por Fernanda Pompeu

Quando se fala em envelhecimento, vem sempre alguém enumerando suas muitas desvantagens: flacidez da pele, dor nos joelhos, vista cansada, dentes amarelados, facilidade para engordar, baixa imunidade. Solidão, perda de ilusões, proximidade da morte dos amigos e pessoal.

Mas o envelhecimento também traz seus biscoitos finos, seus perfumes franceses, suas flores raras. Por exemplo, a alegria de lembrar. Recordar o vivido não deixa de ser uma forma de ressurreição. Uma volta a fragmentos de tempos e até a sonhos felizes. Como observou, outro dia, minha mãe: “Os jardins antigos são os mais bonitos, pois mantêm a memória úmida.”

Memória úmida é aquela que ainda está suando suas cores, cheiros, palavras dentro de nós. Provavelmente deva existir uma memória seca – quando fatos, nomes, versões, canções, livros fogem de nós. Ou talvez seja a gente mesmo que fuja deles. Agora deixo de filosofia e abro uma gavetinha bem prosaica.

Copa do Mundo de 1970. É certo que todo mundo sabe que o Brasil se tornou tricampeão ao derrotar a Itália por 4×1 na pujante Cidade do México. Pois é. Todo mundo sabe, mas nem todos viveram a emoção da grande final. Desconfio até que a maioria dos leitores desta crônica nem eram nascidos.

Vivi a aquela Copa na beleza florescente dos meus quatorze anos. Morávamos no bairro Canto do Rio, em Niterói. Precisamente em um prédio chamado Moema. Não esqueço que a cada gol a explosão de vivas fazia o edifício tremer inteiro. Literalmente. Todo mundo embalado na canção: Noventa milhões em ação / Pra frente Brasil / Salve a seleção!”

Depois de testemunhar o capitão Carlos Alberto Torres erguer a Taça Jules Rimet – agora definitivamente brasileira, no Estádio Azteca com lotação completa – o povo saiu às ruas. Recordo da multidão na praia de Icaraí. Famílias, solitários, paqueradores, maníacos, normalíssimos. Uma corrente humana irmanada por uma alegria doida. Dessas alegrias espontâneas e gratuitas. Comemorávamos o caneco!

Hoje, 44 anos depois de 1970, somos 201 milhões de brazucas. Mudou tudo! Minhas perguntas são: será que mudou também a alegria de torcer pela seleção? Estamos menos ingênuos? Estamos mais tristes? Será que o país do futebol aposentou as chuteiras? Em menos de dez dias, conheceremos as respostas.

Imagem Régine Ferrandis, ©L’Equipe.

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