Certas coisas são inexplicáveis

Deve ser fácil explicar para uma criança quando o amigo dela morre de bala perdida. Mas o amor, não. O amor realmente é difícil de explicar

Por ANA PAULA LISBOA, do O Globo 

A escritora e ativista Ana Paula Lisboa Foto: Ana Branco / Agência O Globo

 

Pessoas inteligentes geralmente foram crianças perguntadoras, e especialmente adultos que não perderam o costume de se questionar. Quanto mais a gente se pergunta, maior o mundo fica. Continuar na busca pelas perguntas faz com que não sejamos burros e intolerantes em qualquer idade, e está aí uma função da família: ensinar a não ser burro, intolerante, racista, homofóbico.

Em nota, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, que cassou a liminar que proibia a prefeitura do Rio de recolher livros na Bienal do Livro, escreveu que a visão da prefeitura era de proteger crianças e adolescentes da possibilidade de consumo de material nocivo. Disse também que era importante que os pais soubessem antes se o material se adequava à visão deles de como educar os filhos.

A justificativa de alguns pais, mesmo os que não concordam ou apoiam a censura dos livros, é que o conteúdo poderia ser mesmo inadequado a seus filhos, ou difícil de explicar.

Imagina seu filho de 5 anos abrindo uma revista em quadrinhos e vendo dois homens adultos se beijando? Realmente, o amor é mesmo difícil de explicar. O amor é uma gíria, um neologismo, uma palavra que ainda nem existe, algo que não conseguimos colocar no dicionário mesmo que falemos “a língua dos homens e dos anjos”.

Fácil é explicar a Amazônia queimando, a água do mundo acabando, o plástico tomando conta de tudo.

Fácil é dizer que precisamos de um setembro para ficarmos atentos aos amigos e a nós mesmos, lembrar que ainda na pior dor, ficar vivo é a decisão mais certa.

Deve ser fácil explicar para uma criança quando o amigo dela morre de bala perdida, fácil é contar para um filho que o pai dele foi morto antes mesmo que ele nascesse, como tivemos que fazer com meu sobrinho.

Imagina a facilidade que os moradores da Cidade de Deus tiveram para explicar aos filhos que um carro blindado da polícia passou e destruiu a casa deles e que agora eles não tinham onde morar. Imagina então a parte em que eles explicaram também que um helicóptero estava jogando bombas no quintal e então eles não poderiam sair para brincar. Necropolítica a gente acha fácil no Google.

Eu imagino a facilidade que os educadores da organização Redes da Maré tiveram para, depois de fazer crianças produzirem histórias e desenhos sobre suas dores diárias causadas pela violência, explicar a elas que o juiz questionou se as cartas eram mesmo delas, se elas estavam mesmo pedindo o fim da violência. Afinal, violência é fácil demais.

Como você explica para os seus filhos a quantidade de pessoas em situação de rua na sua cidade? Imagino que facilmente.

Eu, por exemplo, acho simples explicar o motivo de as obras da Avenida Brasil não terem terminado até hoje. Ou a falência do município e do estado depois dos grandes eventos.

Os dados da Rede de Observatórios da Segurança explicam facilmente, e com imagens, o fato de que de janeiro a julho de 2019, a polícia do Rio de Janeiro matou 1.075 pessoas. Só em julho foram 194 mortos, o maior número em 21 anos.

E falando em Bienal, nem preciso dizer que é fácil explicar que enquanto o prefeito se preocupava com o conteúdo de livros que “querem destruir a função da família”, jovens e crianças saídos do evento não puderam voltar pra casa por conta de mais uma operação na Maré, que por acaso assassinou um senhor 59 anos e um jovem de 19.

Isso é fácil demais. Mas o amor, o amor não. O Amor é difícil, o amor precisa de coragem.

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