quinta-feira, agosto 18, 2022
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Conheça Naomi Mwaura, queniana que criou sistema contra violência a mulheres no transporte público

Naomi Mwara criou um sistema contra violência a mulheres no transporte público. Entenda os seus motivos e como funciona. Continue a leitura para saber mais!

Oito em cada dez mulheres que vivem no Quênia já relataram ter sofrido assédio sexual nos matatus, micro-ônibus coloridos usados para o transporte público no país. E engana-se quem pensa que esse problema termina junto com a viagem. Pelo contrário: o assédio no transporte público pode provocar perdas financeiras, maior gasto de tempo para evitar rotas perigosas e até abandono do uso do sistema por essas usuárias.

“Em vez de usarem transporte público barato e sustentável para ir ao trabalho, à escola e a eventos sociais, as mulheres usam seu dinheiro suado em meios de transporte mais seguros, mas mais caros, o que as impede de garantir sua independência financeira”, explicou a ativista Naomi Mwaura, em palestra para o programa TED Fellows.

Fundadora da Flone Initiative, uma organização com sede em Nairóbi, que trabalha para a criação de espaços de transporte público seguros, sustentáveis e acessíveis para mulheres e grupos em situação de vulnerabilidade na África, Naomi tem levado uma perspectiva feminista para o setor. Com familiares no ramo até então dominado por homens, ela cresceu vendo de perto os gargalos do sistema com seus motoristas imprudentes.

Ela chegou a ser agredida fisicamente por um condutor em um matatu. No entanto, optou por considerar que o sistema é uma causa negligenciada, em vez de perdida. Em sete anos, atuou com mais de 3 mil trabalhadores do transporte público e mais de mil profissionais mulheres para implementar mudanças que possam tornar o sistema contra violência a mulheres no transporte público mais inclusivo.

Tremo cada vez que sai nos jornais: ‘Vamos nos livrar dos matatus’, porque milhões de passageiros ficariam na mão, e milhares de jovens ficariam desempregados. Dizem: ‘O sistema não funciona. Vamos nos livrar dele’. Mas eu digo não. Temos muito para melhorar e precisamos nos empenhar para isso.

Sistema contra violência a mulheres ajuda autoridades a melhorar sistema

A Flone — cujo nome é uma referência aos pais da fundadora, Florence e Nehemiah, os primeiros que apoiaram a iniciativa — foi criada por Naomi em 2013. No ano seguinte, a ativista estava entre as organizadoras de uma marcha histórica nas ruas de Nairóbi contra a violência envolvendo mulheres.

Na época, uma mulher de minissaia teve a roupa arrancada por homens enquanto esperava por um ônibus na capital queniana. Eles alegaram que ela estava “provocando tentação” ao se vestir como mulheres do ocidente, o que gerou uma série de protestos sob os gritos de “My dress, my choice” (Minha roupa, minha escolha, em português). A campanha provocou uma discussão pública sobre o assunto e mudanças envolvendo o currículo de autoescolas.

A organização também desenvolveu uma plataforma para mapear espaços públicos em que ocorreram situações de assédio. Chamado de Report it, Stop it!, o mapa interativo foi o primeiro voltado a vítimas e testemunhas de violência de gênero no transporte público queniano. Segundo a organização, os mais de 300 relatos feitos por meio da plataforma ajudaram autoridades e a sociedade civil a melhorar o seu nível de consciência sobre o problema.

Treinamento para mudar comportamento no transporte público

Hoje, a Flone atua promovendo treinamentos para mudar comportamentos no sistema contra violência a mulheres no transporte público. Por meio do Programa de Certificação de Segurança Pública, por exemplo, são treinados operadores de Veículos de Serviço Público (PSV) em atendimento ao cliente, igualdade de gênero e desenvolvimento profissional. “Uma forma de fazermos isso é através de treinamentos sobre como melhorar a experiência do passageiro. Por exemplo, sem avisar, os ônibus mudavam a rota para evitar o trânsito ou a polícia, e as mulheres iam parar em bairros totalmente desconhecidos. Agora, os ônibus devem apresentar o mapa da rota, as tarifas e detalhes de como e para quem reportar qualquer incidente”, assinalou Naomi.

A organização treina ainda mulheres para ingressar na área, cuja presença feminina não ultrapassa 7% do total de trabalhadores. As capacitações ocorrem por meio do programa Mulheres no Transporte, que tem por objetivo atrair, reter e promover as mulheres no setor. São oferecidos cursos sobre atendimento, primeiros socorros, finanças e auxílio a pessoas com deficiência.

Inclusão de mulheres no setor

Por meio do programa, a Flone também realizou a primeira Conferência de Mulheres no Transporte na África Oriental. Participaram da iniciativa mais de 200 pessoas de 14 países. Neste ano, o evento deve ocorrer em dezembro.

Para Naomi, incluir mais mulheres nessa indústria, criando uma comunidade ativa, faz parte do caminho para mudar o cenário de violência de gênero no transporte. “Agora, as mulheres que entram nesse ramo têm voz. Temos uma rede fortalecida, cada vez mais expertise, e mais dinheiro investido na pesquisa da violência baseada em gênero que atormenta as mulheres ao longo do dia”, definiu a ativista.

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