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Covardia contra as mulheres

Somente nesta semana, dois homens foram acusados de assassinar as companheiras. De acordo com a central telefônica 180, do governo federal, sete em cada 10 acusados de agressão doméstica são os maridos ou os namorados das vítimas.

 

Restos de sangue ainda estavam nas unhas de Marcos Elias Moreira Filho, 47 anos, na noite da última quinta-feira, quando foi preso em Sobradinho II. Horas antes, ele matou a mulher, Genilda dos Santos Moreira, 40, com cerca de 40 facadas. Nesta semana, esse foi o segundo caso de mulheres assassinadas brutalmente. Além do homicida confesso, o marido da outra vítima é o principal suspeito do crime. No primeiro semestre de 2010, mais seis brasilienses, pelo menos, foram mortas pelos homens que um dia lhes fizeram promessas de amor. De cada 10 mulheres que sofrem algum tipo de violência no Distrito Federal, sete são vítimas dos próprios namorados, maridos ou companheiros. O percentual é resultado de levantamento feito pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, ligado à Secretaria Especial de Polícias para as Mulheres. No Disque-Denúncia, como também é conhecida a central, a maioria dos relatos se refere a lesão corporal leve e a ameaça.

 

Na última terça-feira, a vítima foi Lucimar Nunes Viana, 31 anos. Ela foi assassinada em casa, no Gama, e o corpo escondido sob o sofá da sala. No mesmo dia, pela manhã, a auxiliar de serviços gerais havia registrado ocorrência de violência doméstica na 20ª Delegacia de Polícia. A história dos dois crimes se parece: os companheiros se sentiram ameaçados pelo emprego conquistado pelas mulheres e se revelaram agressivos. Ambas já haviam sido atacadas antes, queriam a separação definitiva, mas continuavam sob o mesmo teto dos agressores. As mulheres tinham medo, embora, segundo familiares, não acreditassem que os pais de seus filhos seriam capazes de matá-las.

 

De acordo com dados do Ligue 180, o DF é o líder no ranking nacional de telefonemas proporcionalmente à população feminina. Em 2009, foram 689 atendimentos a cada grupo de 50 mil mulheres. Em 2008, a unidade da Federação já estava em primeiro lugar, com 351 atendimentos por grupo de 50 mil. Do total de 1.943 relatos de violência no DF recebidos pelo central no ano passado, 93% são casos de violência doméstica. Foi o que aconteceu com Genilda Moreira, que estava havia um ano e meio separada do marido, Marcos Elias, mas ainda dividia a mesma residência. Os espaços foram demarcados por um muro de tijolo que o assassino confesso ergueu no meio da sala. O rompimento do compromisso, no entanto, não fez com que o ex-marido deixasse de sentir ciúmes da mulher.

 

Discussão

 

Por volta das 20h de quarta-feira, Genilda recebeu a visita da vizinha, Adriana Souza Nascimento, 28 anos. As duas conversaram no quarto sobre o novo emprego de Genilda, na Administração de Planaltina, e também a respeito de um novo namorado com quem a vítima estaria se relacionando. Elas não sabiam que Marcos ouvia a conversa atrás da porta. “Quando a gente saiu do quarto, ele estava lá e começou a discussão. Ele ofendeu a Genilda e nos dirigimos até o quintal, pois ela disse que eu não precisava ouvir aquelas coisas”, lembrou Adriana. Marcos buscou uma faca que estava sobre a pia da cozinha e voltou para o quintal.

 

Enquanto o filho do casal de apenas 10 anos dormia no quarto próximo, Marcos segurou a ex-companheira pelo pescoço, derrubou-a no chão e a esfaqueou. Marcos então saiu correndo pela rua e tentou se matar – acabou ferindo-se com cinco facadas. Foi socorrido no Hospital Regional de Sobradinho e encaminhado à 35ª DP. Na delegacia, disse que estava arrependido. “Ela ficava comparando os relacionamentos. Me senti humilhado, perdi a cabeça e me deu um branco. Sentia muito ciúmes, mas ainda gostava dela”, relatou o algoz. Marcos deverá responder por homicídio triplamente qualificado, cuja pena máxima a 30 anos de prisão.

 

Carta

No início do ano, o ex-companheiro de Genilda lhe escreveu uma carta reclamando das mudanças no relacionamento dos dois, após a mulher ter conquistado um emprego . “Me desculpe, mas você mudou muito (…) Emprego, amigos de emprego, carona, tudo passa”, dizia o texto. A carta foi deixada pela vítima com uma amiga para ser apresentada como prova caso algum dia ela sofresse violência. O funeral de Genilda será hoje à tarde, no Cemitério de Sobradinho.

 

A outra vítima, Lucimar, também era alvo da mesma reclamação por parte do marido. Desde que arranjou um trabalho fora de casa, o marido Edson Nogueira, 41, mudou de comportamento, tornou-se violento e passou a agredi-la. De acordo com o irmão de Lucimar, Selmo Nunes Viana, 42, dias antes do assassinato, a auxiliar de serviços gerais tinha hematomas no corpo. “Vi o corpo e Lucimar estava irreconhecível. Ele (Edson) agiu como um animal e não deu nenhuma chance de defesa à minha irmã”, revoltou-se.

 

O enterro de Lucimar ocorreu ontem, às 17h, no Cemitério de Planaltina. Familiares e amigos dela ainda não acreditavam no crime bárbaro. Segundo investigadores da 20ª DP, a auxiliar levou pauladas na cabeça e golpes de facão. A perícia acredita que a mulher estava dormindo no momento do ataque. Edson, que ainda é considerado suspeito, teria enrolado o corpo na capa do tecido do sofá, cortado o fundo de lona e deitado o móvel sobre Lucimar. Após o crime, ele teria deixado os dois filhos, de 8 e 6 anos, perto da casa da avó, em Planaltina, e fugido. Até o fechamento desta edição, a polícia ainda não o havia localizado. Os dois moravam nos fundos de uma casa na Quadra 23 do Setor Oeste do Gama. A dona do imóvel, que não quis se identificar, disse que não escutou nada. “O casal era muito discreto, nunca brigava e costuma ir à igreja evangélica. Foi uma surpresa horrorosa.”

 

Procure ajuda

» Central de Atendimento à Mulher (Disque-denúncia) – 180

» Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) – 3442-4300

» Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher –
3442-8978 ou 3442-8976

» Programa de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-vítima) – 3905-7152, 3905-1434, 3905-1423 ou 3905-4299

» Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) – 3224-1791

» Associação das Mulheres Empreendedoras (AME) – 3463-3556

» Núcleo de Atendimento a Família
e Autores de Violência Doméstica
– 3322-2266

Pela internet:

www.mariadapenha.org.br
www.amedf.org.br
www.provitima.blogsopot.com
www.cfemea.org.br


ESTATÍSTICAS

Dados da Central de Atendimento à Mulher (telefone 180) referentes a 2009:

92% das denúncias são feitas pela própria vítima

73% das vítimas sofrem crimes de lesão corporal leve e ameaça

68% dos agressores são os cônjuges ou companheiros das vítimas

50% das vítimas possuem entre 1 e 2 filhos

71% das vítimas sofrem agressões diariamente

33% das vítimas se relacionam com o agressor por tempo superior a 10 anos
Memória

No Distrito Federal e no Entorno, o Correio contabilizou, de janeiro a maio deste ano, pelo menos
seis assassinatos de mulheres pelos companheiros:
Fevereiro

No dia 20, uma mulher foi morta a tiros pelo marido. O crime ocorreu próximo ao Setor de Chácaras da Candandolândia, por volta das 15h. O homem foi preso no local do crime e encaminhado ao Departamento de Polícia Especializada (DPE), onde deve aguardar julgamento.

Março

No dia 16, um policial militar matou a mulher e em seguida cometeu suicídio, em Taguatinga Norte. O capitão Emerson Teutônio de Moura Luz, 34 anos, estava no sétimo andar de um prédio, onde teria assassinado a mulher, Edjane Barbosa Luz, 30, com disparos de arma de fogo na cabeça.

Abril

João da Silva Pereira Damacena, 46 anos, matou Luzia Ricardo Araújo, 54, no dia 27, enquanto eles mantinham relação sexual.
O marido, que teria bebido, alegou que ela teria se transformado em “metade homem e metade diabo”. Ele bateu na companheira e depois serrou o corpo. O crime ocorreu no Novo Gama.

Maio

» No dia 10, um homem se matou depois de assasinar a ex-namorada, na Quadra 1 do Setor Norte de Brazlândia. Warley Santos do Anjos, 22 anos, queria reatar o namoro com Aglinaeth Carneiro Maciel, 18, mas recebeu uma resposta negativa e atirou contra a moça. Em seguida, se matou com um tiro na cabeça. Aglinaeth morreu a caminho do hospital.

 

» O caseiro Antônio Borges da Silva, 40 anos, assassinou a mulher Mônica da Silva Souza, 26 anos, depois que ela confessou uma traição. O homem, que admitiu ter cerveja e cachaça naquela noite de 16 de maio, agrediu a mulher com socos e pontapés até matá-la. Ele enrolou o corpo de Mônica em um lençol e o jogou em uma fossa séptica nos fundos do terreno. Depois, disse aos filhos e conhecidos que Mônica abandonara a família.

 

» No dia 21, o servidor público aposentado José Dival Souza Santos, 64 anos, matou a cabeleireira Diana Ambrósio de Melo, 30, porque ela não teria querido reatar o namoro. Teria efetuado quatro tiros à queima roupa. Em seguida, o aposentado suicidou-se com um tiro na cabeça. O crime ocorreu no salão de beleza onde Diana trabalhava, no Conjunto B da
QI 9 do Guará I.

Fonte: Correio Brasiliense

 

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