terça-feira, outubro 26, 2021
InícioEducação'É preciso vontade do professor', diz especialista sobre aulas de cultura negra...

‘É preciso vontade do professor’, diz especialista sobre aulas de cultura negra nas escolas

Oficina busca construir estratégias para que o estudo da história e da cultura afro-brasileira e africana estejam nas salas de aula.

 Por Rita Torrinha, G1

blank

Professora Eliane do Carmo coordena os trabalhos da oficina em Macapá (Foto: Rita Torrinha/G1)

Professores e gestores das redes de ensino estadual e municipal de Macapá estiveram reunidos nesta segunda-feira (27) no Centro de Difusão Cultural João Batista de Azevedo Picanço, no Centro, para discutirem a implantação da temática racial no cotidiano das salas de aula.

O principal foco foi planejar atividades que tornem real a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. A oficina “Construindo Estratégias” acontece até a quarta-feira (29).

Para coordenar o encontro, a organização do evento convidou a professora mestre Eliane do Carmo, da Secretaria de Educação de Salvador para relatar experiências e articular minicursos voltados à construção de estratégias.

“É importante trabalhar a história da África e dos africanos. Isso ainda é pouco explorado nas aulas. Geralmente os ensinamentos são direcionados à diáspora e às culturas negras, incluindo a carga regional de cada estado, mas é preciso falar como esse negro constituiu a sociedade. Não tem como dissociar a temática racial da cultura, mas tem toda uma história que precisa ser vista e resgatada”, comentou Eliane.

blank

Moisés Bezerra é professor em uma escola quilombola de Macapá (Foto: Rita Torrinha/G1)

O professor Moisés Bezerra, da Escola Estadual José Bonifácio, localizada no quilombo do Curiaú, na Zona Norte de Macapá, disse que na comunidade dele a implementação da lei já é realidade.

“Buscamos a reflexão ampla, não folclorizando as coisas, mas como possibilidade da própria identidade. Para nós, o marabaixo, o batuque e as religiões de matriz africana não são folclóricas, mas parte da população negra e afro-indígena do estado, que precisam ser melhor entendidos e valorizados, para compreendermos a nossa própria natureza”, falou.

Já a subsecretária da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Sandra Casimiro, refletiu que em 14 anos de lei muitas iniciativas vêm acontecendo nas escola, mas a plena aplicação da lei é um movimento lento.

“Não sabemos em quantos anos ela [lei 10.639/03] será efetiva, por isso esse momento é mais um que se torna importante para apurar como anda o processo de implementação no estado como um todo. No município a gente contempla a aplicação na diretriz curricular tanto para o ensino fundamental como para a educação infantil e educação de jovens e adultos”, garantiu.

O diretor-presidente do Instituto Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Maykom Magalhães, completou dizendo que é preciso mudar a concepção da grade curricular, ensinando ao estudante que o negro foi escravizado, mas que ele também foi construtor do Brasil.

“Ao invés da criança aprender que o ancestral dela era um escravo, que vivia no tronco apanhando e era forçado a trabalhar, ele tem que aprender que os negros foram construtores do país e que no país deles muitos eram reis e rainhas. O negro foi sujeito da história, não apenas vítima”, pontuou.

blank

Oficina ocorreu no Centro de Difusão Cultural João Batista de Azevedo Picanço (Foto: Rita Torrinha/G1)

A professora Eliane finalizou dizendo que a discussão da lei que propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas depende da vontade expressa do educador.
“A gente já rompeu a barreira do fazer, mas agora é preciso se trabalhar em rede, com instituições e demais organizações e a comunidade com posse das informações. O miudinho, o trabalho do cotidiano, está se construindo agora e não é simples, mas é preciso unicamente da vontade do professor”, falou.

O evento foi realizado Prefeitura de Macapá e Ministério Público do Estado, em parceria com o Governo do Estado do Amapá, Núcleo de Estados Afro-brasileiros da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania Brasileira, também da universidade.

Facebook Notice for EU!
You need to login to view and post FB Comments!
RELATED ARTICLES