‘Eu gostaria de ter conhecido o feminismo quando eu era mulher’

Ele se descobriu transexual aos 20 anos. E junto com isso, passou a entender por quais motivos tinha passado tanto abuso na infância e na adolescência. Em depoimento abaixo dado à repórter Maria Teresa Cruz em junho desse ano, S., como vamos chamar, conta os abusos sistemáticos que sofreu na infância, de outros colegas, e os relacionamentos abusivos em que se envolveu já no final da adolescência e início da vida adulta, com severas consequências emocionais e físicas que carrega pela vida. A família dele era muito tradicional, todos da Congregação Cristã e, por isso, também não encontrou o apoio necessário para conseguir ser plenamente.

Por  Maria Teresa Cruz,do Ondda 

A mãe dele sempre foi a primeira a acolher o filho quando ele se assumiu. O pai teve mais dificuldade e, até por esse motivo, S. primeiro assumiu que era lésbica para posteriormente contar que, na verdade, era um homem trans. Até hoje não fala mais com o pai. S. é um homem transexual que foi vítima de estupro a vida toda porque, para seus agressores, ele sempre valeu bem menos.

 

“Acho que para começar, eu queria falar que eu sou um homem trans, isso significa que eu nasci mulher com vagina mas eu me identifico como homem e eu vivi bastante tempo da minha vida como mulher. Eu demorei muito tempo para eu descobrir que eu tinha essa identidade de gênero discordante. Desde que eu era pequeno, eu sentia que não me encaixava entre as mulheres, mas também não me encaixava entre os homens. Eu não gostava da feminilidade como um todo, não gostava de coisas de menina e não gostava das outras meninas. Quando eu comecei a crescer e entrei na adolescência, piorou essa relação com o mundo feminino”.

 

“Ao mesmo tempo eu não me encaixava no mundo masculino, porque eu era uma criança muito sensível. Eu jogava bola, soltava pipa, mas ainda assim era considerado muito delicado para o mundo masculino. Eu vivia no meio dos meninos e muito rapidamente acabei me tornando ‘a garotinha dos meninos’. Eu me assumi como lésbica, porque eu achava que era a coisa mais masculina que eu poderia ser. Naquela época eu não sabia da identidade de homem trans. O conceito que eu tinha era de se masculinizar. Eu comecei a pegar só meninas e me assumi lésbica. E eu entrei numa crise. Não por ter me assumido, mas por causa da fase onde isso aconteceu, bem no meio da adolescência, em que a identidade é uma coisa muito delicada. E eu vinha de uma infância muito fragilizada. Eu me agarrei nessa condição como se fosse minha salvação, mas não me encontrava. Nessa época eu surtei e comecei a me cortar, me autoflagelar”.

 

Nesse ponto da conversa, S. levanta as mangas e mostra os braços cheio de cicatrizes. Conta então que começou se cortando aos poucos, eram cortes superficiais, mas isso foi aumentando de intensidade. No fundo, S. queria ter a atenção e o afeto de alguém. Nesse período, uma amiga se aproximou bastante e sempre ia acudir S., que se viu apaixonado por essa amiga. Eles namoraram três anos, mas S. conta que era uma relação extremamente conturbada.

 

Eu fui internado em clínica psiquiátrica 3 vezes em dois anos. Foi um período bem difícil. Eu sofri muitas coisas na clínica, porque você é amarrado, vigiado o tempo inteiro. Se você chora demais, eleva um pouco o tom, eles te dão injeção. Pode parecer pouco para quem nunca perdeu a liberdade, mas e uma das piores coisas, é muito enlouquecedor”.

 

Interrompe para então contar da infância.

 

“Eu era aquela criança que se tivesse nascido menino mesmo, seria o típico ‘gayzinho’ da turma. O menininho ‘viadinho’ da turma. Mas eu tinha nascido menina e eles sabiam que eu era menina, só que vivia no meio de meninos. E eles me tratavam diferente. E era curioso porque quando a gente tava jogando bola, por exemplo, eles me tratavam de igual para igual. Mas a partir do momento em que a brincadeira terminava vinha aquele principio de machismo, do tipo daqui em diante você não é igual a gente. Nessa época eu tinha 8 anos e é aquele período em que a criança tem certa aversão pelo sexo oposto. Então os meninos tinham aquela aversão e ao mesmo tempo aquela curiosidade sobre mim. Eu lembro de uma vez que a gente estava brincando de cabaninha, a gente tinha colocado uns cobertores sobre aquele varal de montar no chão, sabe? Isso na casa de um dos meninos do meu prédio. E a gente estava apenas com a cabeça pra fora. Um dos meninos queria porque queria ficar comigo embaixo da cabana e queria separar dos outros, especialmente do meu irmão e do outro cara. Eu lembro que ele colocou a mão dentro da minha calça e me tocou. Eu lembro que levei um susto.”

 

“Fiquei muito quieto e ele deu risada. Então pegou minha mão e colocou na calça dele. Eu não sabia como reagir, porque era uma situação totalmente estranha. Eu não tava achando legal, porque no fundo achava que era errado aquilo tudo. Eu lembro que depois disso o meu irmão puxou a coberta e aí caiu a cabaninha e a gente saiu. Eu me livrei da situação. Eu tinha 8 ou 9 anos. Eu lembro que depois o menino queria insistir para dormir na casa dele e eu me senti obrigado a pedi para minha mãe, que, graças a  Deus, não deixou. Aí não aconteceu mais nada. E lembro de uma outra situação, eu acho que tinha uns 10 anos. Tinha uns meninos brincando na parte debaixo do prédio. Os garotos mais velhos mandavam nos mais novos. E no meio deles, tinham alguns que já tinha, iniciado a vida sexual, tipo já transavam na escada. E tudo que os mais velhos faziam, os mais novos queriam imitar. Eu lembro que a gente tava brincando de esconde-esconde e tinha um salão de festas no prédio. A gente arrombava a janela e as crianças conseguiam pular. E aquele era o esconderijo mor. Era proibido se esconder lá dentro, mas claro que a criançada pirava e queria se esconder. Um dia, eu acabei entrando pra me esconder lá. Esses garotos mais velhos viram e foram atrás. La dentro eles me seguraram e tentaram abusar de mim. Só que para eles era uma brincadeira, mas pra mim foi aterrorizante. Eles baixaram minha calça e eu fiquei congelado.”

 

“Eu era uma pessoa muito tímida e muito fechada. Eles me seguraram um de cada lado pelo braço, aí um deles baixou a calça também e ficou se esfregando em mim e dando risada. Foi muito humilhante. Eu fiquei me sentindo muito mal. Eu fui pra minha casa e chorei muito, muito mesmo. Eu lembro de sentar no meu quarto e chorar, mas de um jeito que nunca tinha chorado antes. Chorar ate não ter mais o que chorar. E eu senti que não podia contar pra minha mãe, porque eu achava que eu tava sujo, que eu tinha feito algo errado. Tinha alguma coisa de nojento, não sei. Eu achava que aquilo só adultos poderiam fazer e na minha cabeça eu tinha feito. Pra mim aquilo era sexo. Como acho que fui introduzido muito cedo a sexualidade, eu comecei a pirar muito nisso. Aos 12 anos de idade, eu entrava na internet procurar caras mais velhos para fazer sexo virtual. Eu comecei a meio que me viciar nessa coisa sexual. A medida que eu ia crescendo mais eu ficava sexualizado. Quando eu descobri o que era mesmo, eu comecei a achar que qualquer carinho era isso. Por exemplo se uma pessoa encostasse em mim eu já achava que a pessoa queria isso. Eu pensava nisso o tempo todo. Quando eu tinha 12 anos, dei meu primeiro beijo em um menino e logo em seguida, eu bati nele, porque eu achei que ele estava maltratando.”

 

“Eu não sabia onde estava o limite da violência e do amor. Às vezes eu me meto em relacionamento em que eu faço sexo ate minha vagina sangrar e eu não paro, porque eu não sei o limite. Não é porque eu sou masoquista. É porque eu não tenho cuidado comigo mesmo, eu não sei o meu limite. Eu não sei o que é agressão e o que é carinho. Então eu me meti num relacionamento abusivo em que o cara me estuprou duas vezes e eu demorei 3 meses pra sacar que aquilo era um estupro. Ele me enforcava, me batia, dizia que eu era mulherzinha que eu não era homem o bastante, que se eu chorasse, não seria homem. Ele introduziu um vidro de perfume na minha vagina, Ele usava uma prótese peniana bem grande. Ele me machucava bastante. E sempre me batendo muito, me enforcando, ele era sádico. Nao gostava dele. Mas não conseguia me livrar. Chegou uma hora que num deu mais sabe? Acho que todo mundo tem um limite. Teve gente que me ajudou, sim. Inclusive eu falei com uma psicóloga, com uma advogada. Falei que eu tava com medo dele. E as duas me disseram que todo mundo tem o direito de ser livre, de fazer suas escolhas. Eu vivia com medo. Então acho que alguma coisa tava errada. Isso faz uns dois anos mais ou menos. Hoje eu me sinto bem mais fortalecido, porque eu conheci muita gente, muitos outros homens trans que passaram por coisas parecidas, muitas mulheres fortes. Conheci o feminismo.”

 

“Eu me identifico mais com a palavra trans do que com a palavra homem, porque eu não gosto nem um pouco de ser comparado aos homens que me machucaram. Eu gosto da minha masculinidade eu gosto de ter um corpo mais masculino gosto de ser tratado como homem, mas não quero ter um pinto, por exemplo. Eu gosto da minha vagina e eu gosto de me relacionar com homens, com outras mulheres, eu sou bissexual. Se eu me arrependo de alguma coisa? Eu gostaria de ter conhecido o feminismo quando eu era mulher. É isso. Gostaria de ter sido uma mulher empoderada”.

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