Idioma africano vira patrimônio imaterial do estado

Cursos gratuitos do Iorubá são oferecidos em universidades e até no Colégio Pedro II

por Gilberto Porcidonio no O Globo

Raízes. O professor Carlos Henrique Ònà Veloso (no centro) com os alunos de sua turma na UFRJ: tornar-se fluente em iorubá demora, em média, cinco anos – Marcos Ramos / Marcos Ramos

O axé (força ou energia) do iorubá se fez presente. No último dia 15, a língua se tornou patrimônio imaterial do estado, após o governador Luiz Fernando Pezão sancionar um projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa. O idioma de origem nígero-congolesa é falado no sudoeste da África, chegou ao Brasil com os escravos e se mantém vivo até hoje nas religiões de matriz africana. No Rio, ele está indo além. Duas universidades oferecem cursos de extensão, e o idioma já é ensinado no Colégio Pedro II.

Existe ainda uma proposta para inscrever o iorubá no Inventário Nacional da Diversidade Linguística, junto ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artísticos Nacional (Iphan), que está em trâmite em Brasília.

Palavras em iorubá já fazem parte do vocabulário do brasileiro, mas é preciso pedir axé aos orixás para passar do beabá. Para se tornar fluente no idioma, estima-se cinco anos de estudo.

Considerada difícil para um não nativo, a língua é tonal, tendo suas vogais oscilando entre tons graves, médios e agudos. Por isso, a variação sonora muda completamente o significado da palavra. Complicou? Não é simples mesmo. “Okó” quer dizer marido. Já “ókó” significa lança. E “okò” é veículo.

O iorubá também tem muitos neologismos (palavras novas, derivadas ou formadas a partir de outras já existentes). A palavra “idura”, por exemplo, é formada por duas outras e um prefixo. A primeira, “du”, pode significar competir, esforçar-se ou recusar-se. A segunda, “ara”, é corpo. Juntando tudo, “dura” é a ação de se esforçar para ficar em pé. Mas ainda tem a partícula “i”, que fecha a ideia: “idura” significa equilíbrio.

— Eu brinco que ninguém quer aprender o idioma para comprar sorvete na praia. Geralmente, é por interesse acadêmico ou são adeptos de religiões permeadas por essa cultura. Inclusive, a base dele é falada dentro dos terreiros de tradição nagô — explica o babalorixá Márcio de Jagun, professor e escritor que dá aulas de cultura e idioma iorubá na UFF e na UFRJ.

Criados no ano passado, os cursos nas duas universidades são gratuitos. Márcio de Jagun destaca que todos os ritos praticados no candomblé nagô são rezados há mais 400 anos em iorubá:

— Isso é muito mais do que o uso apenas para a interlocução entre pessoas, mas também entre os homens e Deus. A exemplo do latim, é uma língua litúrgica. Se, por um lado positivo, a Igreja Católica decidiu abandonar o latim, o candomblé deve continuar a usar o iorubá, porque é um sinal de identidade e resistência social.

Professor da UFRJ, o “oluwadi” (pesquisador) Carlos Henrique Ònà Veloso dá o curso “Yoruba: cultura e língua” no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs). Muito concorrida e com fila de espera, a aula também é procurada por pessoas de outras religiões, como os evangélicos. Veloso aprendeu a falar iorubá, na década de 1980, com dois nigerianos , mas já tinha uma certa bagagem afetiva:

— Vivi em uma casa de candomblé, em Realengo. Então, ainda que fosse pouco, era comum saber os cânticos (“orin’’), as rezas (‘‘adurá’’) e como chamar alguns objetos. Era a mistura de uma língua “estranha” com a minha. Aprendi a rezar em iorubá antes mesmo de escrever e ler em português.

No Colégio Pedro II, na unidade Centro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas também oferece aulas de iorubá. Ministrado pelo professor Arthur Batista, o curso foi, inclusive, visitado em junho pelo Rei Ooni de Ifé, monarca supremo da cidade de Ifé, na Nigéria, considerado o maior representante da cultura iorubá no mundo. A turma já chegou a ter fila de espera com mais de mil pessoas, que disputavam apenas 40 vagas. As aulas são gratuitas e abertas a quem quiser e vier.

— Esta é uma demanda social de verdade. Durante as nossas formaturas surgem depoimentos sobre como esse aprendizado melhorou a percepção de mundo africano e também diminuiu o preconceito — ressalta o professor Osmar Filho, que coordena o núcleo.

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