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(In)dignas de amor

“Todos nós – todos os que a conheceram – nos sentíamos tão higiênicos depois de nos limparmos nela. Éramos tão bonitos quando montávamos na sua feiúra. A simplicidade dela nos condecorava, sua culpa nos santificava, sua dor nos fazia reluzir de saúde…”

Toni Morrison (2003)

por Lígia Santos Costa enviado para o Geledés

AdobeStock

Quando ouço falar em preterimento da mulher preta, penso em como a ideia se racionaliza na cabeça de homens pretos, principalmente daquele que logo se defende com o discurso de que o amor não é uma questão de escolha, pois é despretensioso. Gosta-se de alguém e pronto, sem controle. Nisso, me pergunto: Será que ele acredita que outros, no caso outras, o imaginam diante de duas mulheres, uma branca e uma preta, brincando de “Uni-duni-tê”? Será?

Caro homem preto, não é assim, porque, na maioria das vezes, a mulher preta não é sequer uma hipótese de escolha. O amor por essa mulher é o não pensando, o não cogitado. Lembro que na adolescência costumava colocar defeitos nos paqueras das colegas de escola, mas não por que eles fossem feios, era mesmo uma tentativa de amenizar a dor da ferida de não ser uma opção. Eu sabia que não adiantaria dizer para o meu amor platônico da vez que uma menina ou outra não era tão bonita e por isso deveria escolher melhor, pois havia outros meninos também investindo e por si só a competição se encarrega de valorizar o produto, portanto além de não conseguir que o menino desistisse, iria ficar com fama de invejosa. Então, eu mirava na colega e opinava que aquele pretendente não era bom o suficiente. Ah, amigo, quer descobrir um bom jogador? Crie dúvidas e as entregue a ele. Foco é uma virtude.

Alguns podem sentenciar minha atitude como despeito. Tudo bem, eu aceito! Mas, por favor, não parem na página um dessa história. Leiam um pouco mais.

Meninas pretas são amigas, conselheiras, comediantes, mas não namoradinhas, essa é possibilidade desnecessária de ser conversada, porque o que se procura na adolescência é a confirmação de que se é bom e ser bom significa ter associado a si coisas e pessoas positivadas socialmente e isso inclui o sentido de beleza instituído.

Existem algumas formas de sair da invisibilidade e ferir pode ser um delas. Ao ferir se toca o outro, torna-se sujeito, um autor, aquele que faz. Lugar bem diferente do ocupado por muitas meninas e mulheres pretas, especialmente quando o assunto é o afeto.

Afirmo isso, mas fazendo a ressalva contra a violência direcionada à mulher, especialmente a mulher preta, maior vítima de violência doméstica desse país. Mas o que é a ação do homem violento, senão uma reação a um sentimento de invisibilidade e impotência, frente as suas limitações e frustrações? Este homem, se compreendendo pequeno, tenta, inutilmente, ser grande, ferindo a sua parceira.

Nutrimos afeto por alguém que apresenta características, externas ou internas, que casam com o que temos apreço, que seja belo aos nossos olhos. Dou um exemplo que acho bem simbólico, quando penso na dualidade expectativa x realidade, durante anos fomos encantados por campanhas publicitárias de uma famosa empresa especializada em produtos para higiene de bebês. E quem protagonizava essas campanhas? Bebês brancos com encantadoras dobrinhas de crianças saudáveis. Essa imagem do filho ideal povoou a expectativa de muitas mães, mas nem todas geraram crianças parecidas com as da famosa marca. O que fizeram as mães que tiveram suas expectativas frustradas? Como se constrói amor pela imagem não elaborada?

Pois bem, assim se estrutura o amor, ele parte sempre de um ponto idealizado, estruturado numa história social do que é belo e bom e é para esse ponto que apontamos o nosso desejo. Aprendemos, com as diversas experiências da vida, quais figuras são reforçadas positivamente, portanto dignas de amor. E a figura da mulher preta não carrega esses atributos.

À mulher preta, historicamente, são reservados papéis de subalternidade. A essa mulher cabe o corpo tripartido em peito, bunda e vagina, animalescamente sexualizado, tal qual o de Sarah Baartman¹, exibido como uma atração circense. Resta a ela a servilidade do útero que pariu a força escrava, do peito que nutriu o filho da outra, das mãos que preparam o alimento e cuidam da casa e dos filhos dos outros. É um corpo neutralizado, que não se faz, mas sim é usado para que o outro se faça. Carregada dessas marcas de inferiorização, há quem naturalize esse lugar como indigno de amor. Mas é preciso que se entenda que esse lugar foi estrategicamente relacionado à mulher preta pelo projeto de escravização de mulheres e homens pretos, perpetuado por uma política racista e discriminatória que vem reatualizando suas ações violentas, a fim de garantir a manutenção do seu poder.

Então, Preto, ainda continua acreditando que não tem nada com isso? Toda vez que um homem preto tem a mulher branca como a única representação do belo e do bom, ele entra no jogo do racismo, não como jogador, mas sim como peça, assim como num jogo de xadrez, é peão enfrentando batalhas para vitória do rei.

bell hooks, em Vivendo de Amor, diz que quando substitui a crítica negativa pelo reconhecimento positivo, sente-se mais forte para começar o dia, pois a afirmação é o primeiro passo para o cultivo do amor. Pretas e pretos necessitam reconciliar-se com as suas emoções, que são, por muitos, negligenciadas pela urgência por sobreviver numa sociedade cuja violência conduz ao endurecimento e embrutecimento, erroneamente nomeados de fortalecimento desses estéreis guerreiros.

Talvez seja um caminho possível, o questionamento de paradigmas elaborados e impostos pelo opressor. Mas como fazer isso? Acredito especialmente em duas medidas, a primeira é a constituição de um autosuporte, a fim de enfrentar tensionamentos e conflitos que visam manter condições já estabelecidas e para isso, como fala hooks, no mesmo texto, é preciso exercitar o amor interior, pois quando conhecemos nossos sentimentos, podemos definir quais necessidades preencheremos com o outro. Quantos de nós, ao começar um relacionamento, perguntam a si mesmo: Quais necessidades desejo preencher com essa parceira ou parceiro? Alguns podem se surpreender ao constatar que não é amor, mas cilada do bom e bonito; a segunda medida é a constituição de uma rede de apoio, o cultivo de aliados. A quebra de laços entre a mulher preta e o homem preto é estratégia antiga, testemunhada pelos porões dos tumbeiros, porém ainda eficiente no seu propósito de desarticular e enfraquecer. Numa polarização, duelam a feia e o violento, enquanto mulheres e homens brancos ocupam os papéis de amorosos e salvadores.

A citação com a qual iniciei esse texto fala de Pecola, personagem de Toni Morrison, uma menina preta que queria ter olhos azuis, por esta ser a sua referência de beleza. O fascínio de Pecola pelo estereótipo branco é a mão do racismo feroz agindo sobre a menina a ponto de enlouquecê-la. Fora dos romances, o racismo também tem levado muitos de nós à loucura, ao nos negar oportunidades, ao despejar sobre nós o seu lixo na tentativa de conservar condições injustas mascaradas pelo discurso da igualdade racial.

Questionar essa ordem social não é uma tarefa fácil, exige o abandono de padrões que mesmo nos ferindo, insistimos alimentar, porque já estamos acostumados. Há quem pense que ficando quieto, evitando fazer contato com suas feridas, sofrerá menos, contudo está adoecendo silenciosamente. A saúde emocional requer reelaborações para o abandono de crenças que paralisam e comprometem as potencialidades humanas, por isso ela foi e é o grande alvo do racismo. Racistas ao tentarem minar a autoestima de mulheres e homens pretos, objetivam barrar desejos por autorias e protagonismos que podem ameaçar seus privilégios indignos.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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¹Saartjele Baartman, sul africana levada a Europa para exibição do seu biótipo corpulento, em apresentações circenses.

REFERÊNCIA:

hooks, bell. Vivendo o amor. Disponível em: www.geledes.org.br. Acessado em: 25 out. 2018

MORRISON, Toni. O olho mais azul. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

 

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