sexta-feira, outubro 7, 2022
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Jovens mulheres são protagonistas das lutas sociais no Brasil

Presença feminina nos movimentos populares é mais frequente e ocorre cada vez mais cedo. Entre as principais demandas está a educação pública de qualidade. Nas comunidades quilombolas, maioria das lideranças são mulheres

As mulheres são protagonistas na formação das crianças e dos jovens, na atenção aos idosos e até mesmo nos cuidados básicos de maridos e companheiros. Em meio a várias discussões sobre a democracia e as lutas sociais, jovens mulheres lutam para assumir o protagonismo de tratar do rumo das políticas públicas no Brasil, sobretudo em relação ao acesso de minorias à educação.

Uma das ações de destaque é o Meninas Decidem, grupo liderado pela rede de ativistas pela educação do Fundo Malala, que visa fortalecer a atuação feminina pelo direito à educação. A primeira etapa da campanha foi feita por meio das redes sociais para estimular garotas de até 17 anos a tirar o título de eleitor e participar das eleições deste ano. Em seguida, a Rede Malala formou um comitê de 20 jovens de vários lugares do Brasil e com diferentes origens e lutas — adolescentes indígenas, quilombolas, negras, deficientes, trans, travestis e trabalhadoras rurais — com o intuito de traçar as prioridades das meninas para a educação.

O grupo se reuniu por um ano para estudar questões como feminismo e lutas quilombolas. O resultado foi o lançamento do manifesto #MeninasDecidem pelo Direito à Educação, realizado na última terça-feira em Recife (PE). Entre as demandas do documento estão uma educação pública de qualidade, antirracista, antissexista e que combata as desigualdades sociais e a discriminação baseada em gênero.

Segundo Denise Carreira, coordenadora da ação educativa da Rede Malala, é essencial a construção do engajamento coletivo desde cedo, pois a “soma de fatores traz maior capacidade de lutar por essas mudanças”. Ela destaca que o Brasil, desde o governo à população, deve ouvir a nova geração para garantir maior representatividade nos espaços de poder. “É uma juventude que está dizendo bem alto para o Brasil: queremos mais!”

“A população brasileira deve ouvir, muito mais do que ouve, as vozes da juventude. Precisamos de uma educação que dialogue com as realidades, sonhos e desejos das meninas. O manifesto faz vários chamados: a retomada do investimento público, a necessidade de dizer não a essa onda ultraconservadora e de censura nas escolas e uma educação que enfrente racismo, machismo, lgbtfobia e capacitismo. É importante destacar a gestão democrática, pois não é possível construir uma educação transformadora sem ouvir as vozes dessa juventude. Elas têm muito o que dizer e é preciso ouvi-las.”

Carta compromisso

Além de liderar o manifesto, o Fundo Malala enviou a Carta Compromisso pelo Direito à Educação nas Eleições de 2022 à Câmara dos Deputados. O documento propõe um acordo para que os próximos governos eleitos coloquem a educação como pauta urgente e prioritária. Entre as propostas, a pasta reivindica a realocação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação de jovens mulheres.

Moradora de uma região administrativa do Distrito Federal, Glenda Teixeira, 16 anos, participou da produção da Carta Compromisso e do Manifesto #MeninasDecidem. Para ela, a experiência foi “maravilhosa”, pois teve a oportunidade de conhecer diferentes realidades e pôde se posicionar em causas importantes. “Nós, adolescentes, não estamos inseridos nos debates, porque não nos vêem como como presente e, sim, como futuro. As pessoas acham que, por sermos jovens, não sabemos e não temos opinião”, afirma.

Eleições

A ativista ressalta que a ideia era expandir a reinvidicação para o maior número de pessoas possível. “Escrevemos para todo mundo, para todas as pessoas saberem a situação da educação e chamar as meninas para lutarem por um ensino de qualidade. É uma luta contínua, se pararmos a gente nunca vai mudar. Temos que insistir, falar sobre”, completa.

Glenda também destaca a importância de engajar cada vez mais garotas, sobretudo às vésperas das eleições de outubro. “Elas têm que conhecer (a realidade que as rodeia). As manifestações são um incentivo. Nosso governo tem que ter pessoas que priorizem a educação e tomem ações práticas. As pessoas têm que votar de forma consciente em quem está pensando nas meninas como coletivo.”

O próximo passo da campanha é ampliar a participação nacional em torno do Manifesto #MeninasDecidem. A iniciativa pede para meninas de todo o Brasil compartilharem suas demandas para a educação, por meio de vídeo, áudio ou texto, pelas redes sociais. Basta marcar a @RedeMalala no Instagram ou Facebook. Os depoimentos serão compilados e divulgados pelos canais digitais globais do Fundo Malala.

Luta quilombola

As mulheres também têm protagonismo nas lutas quilombolas. Essas comunidades são lideradas majoritariamente por mulheres no país, segundo a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). A organização estima a existência de cerca de 6 mil comunidades espalhadas pelo Brasil, mas, neste ano, pela primeira vez, o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluirá o grupo no questionário.

De acordo com Maria Aparecida, coordenadora-executiva da região Norte da Conaq, o espaço ocupado por mulheres em comunidades quilombolas é fundamental. “A maior parte das organizações é liderada por mulheres no processo de enfrentamento. Temos um coletivo de mulheres em todas as regiões, pois entendemos que precisamos nos fortalecer para enfrentar os desafios que estão por aí.”

Aparecida relata que linhas de frente quilombolas compostas por mulheres não é algo recente e vem de muitos anos. “Temos associações com mais de 30, 40 anos. Elas sempre lideraram. Digamos que, recentemente, fizemos a consolidação desse coletivo que conversa com todas as mulheres em todos os estados, mas estamos na base de tudo há muito tempo. Sempre estivemos na ponta da tomada de decisão para defender nosso território”, conta.

Segundo ela, a principal pauta da Conaq é a regularização de territórios quilombolas no Brasil, “para que possamos permanecer, produzir e continuar nossa ancestralidade”. “Não tivemos um avanço nas políticas públicas, mas mesmo assim não abrimos mão da nossa resistência de continuar enfrentando fábricas, fazendeiros, garimpos. Com certeza, os homens ajudam, mas a liderança, na maior parte, é feita por companheiras mulheres”, diz.

Lugar de escolha

Para Silvane Silva, historiadora da luta quilombola, o passado mostra que a liberdade para as mulheres marginalizadas não trata apenas da liberdade de locomoção, mas da capacidade de viver junto à família e à comunidade no lugar de escolha. Ela destaca que essa herança impacta no presente, o que aumenta a necessidade de protagonismo político de mulheres quilombolas.

“Nos dias atuais, a luta das mulheres continua vinculada ao bem viver da comunidade. O protagonismo político das mulheres é determinante para a existência dos quilombos contemporâneos. A luta pela demarcação e titulação das terras quilombolas é determinante porque, somente com a permanência no território, é possível preservar os modos de vida quilombola.”

Falta representatividade

A historiadora relata ainda que, a partir de 2017, vem ocorrendo um processo de criminalização dos movimentos sociais, que esbarram na falta de representatividade. “As ações governamentais que visavam a execução de políticas agrárias direcionadas para a agricultura familiar, comunidades quilombolas, assentamentos e também reservas indígenas foram barradas pela chamada ‘bancada ruralista’ do Congresso Nacional”, observa.

Silvane Silva reforça a relevância das eleições de outubro para a representatividade de mulheres quilombolas e de movimentos sociais. “A ideia de estar junto dos seus e batalhar por uma vida melhor em comum era o que movia essas mulheres. Assim, as próximas eleições são determinantes para que as comunidades possam retomar o processo de demarcação e titulação de suas terras.”

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