Liberdade capilar para as mulheres negras é combater padrões estéticos

Praticar a liberdade capilar é uma forma de explorar as diversas possibilidades que o cabelo crespo pode oferecer – entre eles, usá-lo bem curto ou raspado.

Ilustração: Victor Magalhães/ELLE

Como uma mulher negra que já usou o cabelo raspado por dois anos, eu sei que, em geral, as pessoas não acreditam que optamos por esse corte. Acham que fomos levadas a fazê-lo por motivos maiores, como a saúde ou a religião. Entretanto, as mulheres negras cada vez mais ampliam as suas possibilidades de atuação para além do que tem sido imposto a elas. A liberdade capilar é um termo usado para denominar um movimento que visa libertá-las de parâmetros ligados à estética de cabelos.

 

Se as mulheres brancas podem usá-los dos mais diversos comprimentos e tonalidades, as negras estão demarcando um espaço e dizendo: nós também exigimos liberdade! É mais uma forma de combater parâmetros estéticos que ajudam a aprisioná-las em determinado lugar social. Praticar a liberdade capilar é uma forma de explorar as diversas possibilidades que o cabelo crespo pode oferecer – entre eles, usá-lo bem curto ou totalmente raspado.

Personalidades como as cantoras Rokia Traoré e Solange Knowles, além das atrizes Thalma de Freitas e Lupita Nyong’o, usam ou já usaram a cabeça raspada como uma opção estética. Mas, quando falamos em referência de mulher negra com esse corte, não podemos deixar de destacar a modelo e cantora jamaicana Grace Jones.

No auge dos anos 1980, quando a maioria das artistas negras ainda alisava o cabelo, Grace rompia diversos estereótipos com sua voz poderosa e seu cabelo sempre muito curto. Tanto ela quanto Solange, Thalma, Lupita e Rokia viraram uma referência para que outras mulheres negras raspassem o cabelo recentemente, numa atitude que não é isolada.

Saindo da seara das famosas, os exemplos continuam: foi a busca por liberdade capilar que fez a costureira e especialista em personalização de perucas Joicecleide Bispo, 35 anos, raspar a cabeça no início de 2018. Depois de muitos anos usando alisantes químicos no seu cabelo crespo para se encaixar em parâmetros de cabelo liso, ela conseguiu se livrar dessa imposição cultural. O alisamento vinha causando problemas físicos e psicológicos, e raspar a cabeça foi uma decisão tomada depois de anos de reflexão.

Já para Dandara Barbosa, 29 anos, raspar a cabeça significou “se libertar de uma prisão”. Foram anos de processos químicos e, mesmo com medo de perder a feminilidade, ela resolveu raspar o cabelo e se apaixonou. Hoje, define os receios que teve como “medos bobos”, mas que são fruto dos estereótipos de feminilidade que perseguem as mulheres em geral e são ainda mais duros com as mulheres negras. Ativista nas redes sociais e fora delas, “preta, gorda e espalhando autoestima por aí” (como se descreve), a representante comercial teve um post viralizado quando se fotografou de biquíni fio-dental numa praia do Rio de Janeiro, onde mora.

Também criticou a plateia quase 100% branca da palestra dada por Barack Obama em outubro do ano passado, da qual ela participou. Segundo Dandara, a reação desde que raspou o cabelo, há mais de um ano, foi um misto de surpresa e (alguma) reprovação. A estética é apenas parte dessa movimentação e deve mostrar como as possibilidades para as mulheres negras são infinitas e serão exploradas com toda a força. É algo que não tem mais volta.


Carolina Santos Pinho é PhD em educação e dona do e-commerce Central das Divas.

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