Mais brasileiros se declaram negros e pardos e reduzem número de brancos

A população brasileira que se autodeclara negra ou parda está aumentando na última década. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014, realizada pelo IBGE e divulgada nesta sexta-feira, 53% dos brasileiros se declararam pardos ou negros no ano passado, diante de 45,5% que se disseram brancos. Há dez anos, em 2004, 51,2% dos brasileiros se diziam brancos diante de 42% pardos e 5,9% negros (totalizando 47,9% de negros e pardos), apontando para a predominância da população brasileira que se autodeclarava branca. Foi em 2007 que os números viraram, quando 49,2% se disseram brancos, 42,5% pardos e 7,5% negros (totalizando 50% de negros e pardos). Desde então, o número de pessoas que se diz negro ou pardo só faz crescer.

por Marina Rossi no El País

Adriana Beringuy, técnica do IBGE, afirma que esse percentual não tem relação com o aumento da taxa de natalidade entre os negros e pardos. O fator mais determinante, segundo ela, é a autodeclaração. “Pode ser que também esteja aumentando a miscigenação entre as pessoas”, diz. “Mas o que observamos mesmo é a predominância da autodeclaração”.

Para Katia Regis, coordenadora da primeira licenciatura do Brasil de estudos africanos e afro-brasileiros, o crescimento da população que se autodeclara negra é o reflexo dos anos de luta do movimento negro e também do acesso à educação. “A população negra que tem mais acesso ao conhecimento efetivo da história africana e afro-brasileira passa a se ver mais positivamente como negra”, diz. Conhecendo sua história, os negros assumem o orgulho da sua cor.

O curso criado por Katia e mais dois professores em maio deste ano na Universidade Federal do Maranhão tem como objetivo valorizar a diversidade. “Um currículo eurocêntrico não contribui para mostrar a diversidade brasileira, apenas para mostrar a desigualdade racial”. O Maranhão é o Estado com a maior população negra do Brasil: 80%, segundo o IBGE. Em seguida, vem a Bahia, com 79,3%

Apesar do orgulho crescente, os negros se dividem entre a satisfação com a própria cor e a realidade diferente para cada grupo étnico no Brasil. Essa é a parcela da população que mais sofre com a violência, salários menores e crimes racistas no país. Segundo o Mapa da Violência, divulgado na semana passada, o assassinato de mulheres brancas caiu 10% na última década (entre 2003 e 2013), enquanto o de mulheres negras subiu 54%. O mesmo acontece com os assassinatos por arma de fogo. Enquanto entre a população branca houve queda de 23%, a quantidade de vítimas negras cresceu 14% entre 2003 e 2012.

Também são os jogadores de futebol negros os que sofrem com racismo em campo, e são as mulheres negras que ganham até 75% menos que os homens brancos nos mesmos postos de trabalho. A dicotomia entre o orgulho e o preconceito de ser negro no Brasil fez com que mulheres negras encabeçassem a última marcha das mulheres contra o PL 5069, realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro nesta quinta. “Serão os nossos filhos que mais sofrerão com a redução da maioridade penal e seremos nós as que mais sofreremos se esse PL for aprovado”, disse Maria das Neves, da Marcha das Mulheres Negras. “Nós acabamos com a escravidão, mas ainda não nos libertamos das correntes do racismo”.

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