Negros têm acesso às universidades na velhice

Ministra revela que negros ainda sofrem discriminação no país

D´Acelino entrega duas obras à ministra (Fotos: Cássia Santana/Portal Infonet)

Durante a visita a Sergipe, nesta sexta-feira, 20, a ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luíza Helena de Bairros, reconheceu que os negros ainda encontram dificuldades para ter acesso ao ensino de nível superior, em especial, apesar do regime de cotas ter sido instituído em algumas universidades brasileiras.

Para a ministra, o Brasil conquistou avanços quanto à quebra do preconceito racial, mas ainda é latente, na ótica de Bairros, a diferença entre brancos e negros nos aspectos sociais e econômicos. “A população negra experimentou, junto com toda população brasileira, um processo de ascensão, mas ainda permanece a existência de desigualdades raciais muito fortes”, observou. “Nós precisamos avançar no Brasil com as ações afirmativas que é o único modo que vamos ter para fazer com que as desigualdades raciais desapareçam”, opina.

Segundo a ministra, ainda é perceptível que as pessoas mais velhas, entre os negros, têm mais acesso às universidades públicas do que a população jovem. “Temos algumas evidências relativas a questão da taxa líquida de matrícula no ensino superior, por exemplo, temos uma diferença cada vez maior de alunos brancos e alunos negros”, comentou, em conversa com o Portal Infonet. “Significa que existe na comunidade negra um atraso do ponto de vista da entrada na universidade. Entram mais as pessoas mais velhas”, analisa a ministra.

Bairros admite que o Brasil ainda precisa adotar medidas eficazes para que o maior número de jovens negros tenham mais acesso à universidade e a saída está, no entendimento da ministra, no sistema de cotas. “Temos tramitando no Congresso projeto de lei que institui cotas para todas as universidades federais e institutos técnicos e isto significa 50% das vagas das universidades e, dentro disso, cotas para negros equivalentes ao percentual da nossa população em cada estado”, explica. “Isto vai provocar um avanço muito grande no nosso acesso à educação superior”, acredita.

Carinho

A ministra Luíza Bairros aguardou o governador Marcelo Déda por algumas horas para dar início à solenidade de lançamento do catálogo Religiões de Matriz Africana em Sergipe e da Cartilha Pedagógica das Religiosidades de Matriz Africana e da Promoção da Igualdade Racial articulados pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos. O governador chegou ao local do evento com quase duas horas de atraso.

Enquanto aguardava o governador, a ministra conversou com ialorixás, babalorixás e visitou a exposição de artes plásticas produzida por artistas sergipanos que retrata a cultura afro. De Severo D´Acelino, presidente da Casa de Cultura Afro Sergipana, a ministra recebeu duas obras da literatura afrosergipana, de autoria do próprio D´Acelino: Panafrica – obra lançada nos anos 1990 [poesia], e Mariow – lançado em 2002 [contos]. “São livros que tratam da diversidade, onde o matriarcado convive com os menores abandonados”, explicou D´Acelino, no encontro.

Da professora Leila Argolo, a ministra Luíza Bairros ouviu explicações dando conta que em Aracaju a Escola Municipal Infantil Maria Clara Machado já trabalha a cultura negra com os alunos há onze anos, desde que foi criada. Cerca de dois anos antes de entrar em vigor a lei 10.639, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. A lei em questão foi sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 9 de janeiro de 2003. “Ela ficou bastante feliz em saber disso”, contou a professora.

A professora revela que o projeto naquela escola tem surtido efeitos positivos entre os alunos. “Os alunos identificam com muita propriedade quando sofrem o racismo”, informa Argolo.

A ministra também conversou com o diretor-tesoureiro da OAB/SE, Sandro Mezzarano, que representou a entidade no evento e justificou a presença. “O papel institucional da OAB é a defesa da Constituição e, dentro dela, está a defesa da pessoa humana, que passa pela promoção da igualdade racial como forma de conscientização que a miscigenação da raça faz do povo brasileiro um povo de tamanha singularidade”, conceituou Mezzarano.

Por Cássia Santana

 

 

Fonte: Infonet

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