Obama: ‘Nosso sistema deve refletir a herança dos EUA como nação de imigrantes’

 

WASHINGTON Pelo segundo ano consecutivo, o Grupo de Diários América (GDA) realizou sua escolha de personagens mais importantes do ano na América Latina e no mundo. Os eleitos foram, respectivamente, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ambos reeleitos em 2012.

A escolha foi feita por meio de respostas espontâneas dos diretores, subdiretores e editores dos 11 jornais que integram o GDA: “La Nación” (Argentina), “El Mercurio” (Chile), “El Tiempo” (Colômbia), “La Nación” (Costa Rica), “El Comercio” (Equador), “El Universal” (México), “El Comercio” (Peru), “El Nuevo Día” (Porto Rico), “El País” (Uruguai), “El Nacional” (Venezuela) e O GLOBO.

 

Em entrevista exclusiva ao GDA, por e-mail, o presidente americano assegura que, no seu segundo mandato, buscará a redução dos obstáculos ao comércio com a América Latina e tentará levar a cabo uma reforma migratória integral e definitiva, além de manter a sua luta contra o narcotráfico.

Como o senhor se sente por ter sido escolhido pelo Grupo de Diários América como a pessoa mais importante de 2012 em todo o mundo?

Fico muito agradecido, pois terei outra chance de falar diretamente com os seus leitores. Fiquei grato pela chance de fazer isso no começo do ano antes da Cúpula das Américas, em Cartagena. Fico feliz com esta oportunidade de fazer isso novamente enquanto aguardo meu segundo mandato pois acredito que essa região vai se tornar cada vez mais importante para o nosso futuro em um mundo globalizado. Como disse aos seus leitores no começo do ano, empenhei os Estados Unidos em fazer parcerias de igualdade e respeito mútuo com as nações e os povos das Américas com base em interesses compartilhados. E, como disse em Cartagena, não existe nenhum parceiro mais ou menos importante — somos todos parceiros iguais. Isso reflete o progresso extraordinário em toda a região. Em termos econômicos, esta é uma das regiões que mais cresce no mundo e os países estão se esforçando como nunca para contribuir com a segurança e a prosperidade na região e em todo o mundo. Acredito que há muito mais coisas que podemos fazer juntos, como parceiros iguais, para melhorar o dia a dia de nossos cidadãos. Então, para mim, esta distinção é uma honra, mas também um símbolo de vínculos estreitos entre os povos das Américas.

Como o senhor definiria a atual relação entre os EUA e a América Latina?

Eu acredito que a relação com nossos parceiros da América Latina é mais forte do que já foi em anos. Observei isso durante as nossas Cúpulas em Trinidad e Tobago e em Cartagena, e tenho visto isso durante minhas viagens a México, Brasil, Chile e El Salvador. Por todas as Américas, as pessoas reconhecem que estamos além dos argumentos ultrapassados que impediram o progresso no passado. Hoje, existe um novo sentimento de que temos de abraçar um sentido compartilhado de responsabilidade, onde nações — incluindo os Estados Unidos — reconheçam suas obrigações umas com as outras. Como resultado, tivemos um progresso significativo durante os últimos quatro anos. Aumentamos o comércio e o investimento, que criam empregos de Norte a Sul. Mantivemo-nos firmes contra os cartéis de droga e gangues criminosas que ameaçam nossa população. Fizemos novas parcerias para alcançar objetivos mútuos, desde desenvolvimento econômico até energia limpa. Aqui nos Estados Unidos, trouxemos mais transparência e confiança às remessas de valores que trabalhadores mandavam de volta para suas famílias.

Continuamos a defender a governança democrática e os direitos humanos universais, em nosso próprio hemisfério e ao redor do mundo. Claro, uma das razões dos nossos laços serem tão fortes é a profunda amizade entre nossos povos. Isso inclui dez milhões de hispânicos que enriquecem os EUA todos os dias.

Quais serão os temas relativos à América Latina mais importantes para os Estados Unidos durante seu segundo mandato?

Acredito que este é um momento muito promissor para a região e estou ansioso para avançar ainda mais o que realizamos durante meu primeiro mandato. Especificamente, temos que continuar diminuindo barreiras comerciais e de investimento e tornar nossas economias mais competitivas no âmbito da economia mundial, que é o motivo por estarmos dando andamento ao Acordo de Parceria Transpacífica e aprofundando nossa cooperação energética. Temos que continuar a aumentar os vínculos entre nossos povos com mais turismo e intercâmbio de estudantes. Para combater a pobreza e a desigualdade, temos que assegurar um crescimento econômico amplo e inclusivo, especialmente para nossas pequenas empresas e empresários, que têm um papel tão importante para trazer pessoas e comunidades para a classe média. Em termos de segurança, há muito que podemos fazer para trabalhar juntos para compartilhar experiências de países como Colômbia e México para ajudar outros países na região a proporcionar segurança às suas populações. No que diz respeito a desenvolvimento, podemos fazer progressos em direção ao nosso objetivo de acesso universal à eletricidade em uma década, até 2022, e levar a Internet para mais comunidades, incluindo áreas rurais. E, claro, continuaremos a apoiar as pessoas da região que buscam a democracia e os direitos humanos. Aqui nos Estados Unidos, quero muito trabalhar com democratas e republicanos no Congresso para realizar uma reforma de imigração abrangente. Já trabalhei para levantar a nuvem da deportação dos dreamers — jovens trazidos para os EUA ainda crianças. Mas essa é uma solução temporária. O que é preciso é que o Congresso aprove a lei que assegure que nosso sistema de imigração reflita nossa herança tanto como uma nação de imigrantes como um Estado de direito. Espero que o debate comece assim que eu for empossado para meu segundo mandato e estou confiante que podemos fazer isso.

Em sua opinião, de que forma a América Latina poderia ajudar a promover a democracia e a segurança no hemisfério?

Sempre que estou na América Latina, digo que virtualmente todas as nações das Américas vivem atualmente em uma democracia. Esse é um feito histórico e não aconteceu sozinho ou por acidente. É um tributo a gerações de cidadãos que lutaram e se sacrificaram para que pudessem ter mais controle sobre suas próprias vidas e traçar seu próprio destino. E isso tem uma conexão direta entre esse progresso democrático e o progresso econômico da região. A história mostra que nações que defendem direitos fundamentais e liberdade são, no fim das contas, mais prósperas e bem-sucedidas. Aqui nas Américas compartilhamos o compromisso na Carta Democrática Interamericana que assegura que nossos cidadãos tenham o direito à democracia e que nossos governos tenham a obrigação de promovê-la e defendê-la. Como tenho sempre dito para plateias nos Estados Unidos, o esforço para melhorar nossa própria União nunca acaba. O mesmo vale para toda a região. Temos que continuar a defender o direito dos cidadãos de expressar suas ideias livremente, de viver em sociedades com imprensa livre e forte, com poderes legislativos e judiciários independentes e de escolherem seus líderes por meio de eleições livres e justas. Dada suas transições bem-sucedidas para a democracia, os países da América Latina também podem representar um exemplo positivo para o mundo em termos de sucesso do desenvolvimento democrático. Em termos de segurança, estamos empenhados em aprofundar nossa cooperação contra os cartéis de droga e gangues criminosas que ameaçam a todos nós. É por isso que somos parceiros do México na Iniciativa Mérida, bem como de países da América Central e do Caribe para trabalharmos juntos para tratar de tráfico de drogas e fortalecer o Estado de Direito. Estamos também trabalhando com a Colômbia que compartilha sua experiência em combater ameaças à segurança com outros países nas Américas. Da nossa parte, como disse antes, sabemos que a demanda por drogas ilegais nos Estados Unidos ajuda a incentivar esta crise. Então, continuaremos a cumprir nossas responsabilidades trabalhando para reduzir a demanda por drogas ilegais e combater o fluxo de dinheiro e armas para o Hemisfério Sul que ajuda a abastecer a violência. Não podemos relaxar. Claro que também reconhecemos que temos de continuar a tratar das forças sociais e econômicas que empurram tantos jovens para uma vida de drogas e crimes em primeiro lugar. É por isso que estamos nos juntando com parceiros de todas as Américas para expandir políticas baseadas na comunidade, fortalecendo o sistema judiciário juvenil e investindo em programas de prevenção ao crime e drogas. E estamos ajudando países a fortalecerem seus tribunais e instituições que precisam sustentar o Estado de Direito e os direitos humanos. Cada pessoa nas Américas, não importa onde viva, merece viver em paz, com segurança e com dignidade. É rumo a esse futuro para o qual continuamos a trabalhar em parceria com nossos amigos por todas as Américas.

 

 

 

Fonte: O Globo 

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