Os ossos da escravocrata Anna Jacintha de São José

Por: Fátima Oliveira

 

A vida de Anna Jacintha de São José, a Dona Beija, está ligada não só a Araxá (MG), mas ao fato de o Sertão da Farinha Podre deixar de ser Goiás e virar o Triângulo Mineiro, em troca de seu rapto e estupro, aos 15 anos, e assassinato do seu avô pelo ouvidor real Joaquim Inácio Silveira Motta. Nascida em 1800 em Formiga (MG), morreu e foi enterrada em 1873, em Bagagem (MG), onde garimpava diamantes desde 1853.

A cidade guardiã de seus restos mortais, hoje Estrela do Sul, virou manchete. Especulam que são dela ossos encontrados numa praça escavada! A quem interessa, além da família, os ossos da Senhora de escravos? Não basta o museu? Dinheiro público para museus de quem açoitava negros? Cultivo desdém por personagens como a maranhense Ana Joaquina Jansen Pereira, vulgo Ana Jansen/Donana Jansen (1787-1869), e as mineiras Dona Beija e Chica da Silva (1731 ou 1732-1796), ex-escrava que virou Senhora de escravos. A condição de mulher não as exime de terem sido donas de escravos.

As três têm muito em comum: evidências de que adquiriram o pé-de-meia inicial como cortesãs; foram riquíssimas e influentes na política. Beija foi dona de bordel, Chácara Jatobá – sem juízo de valor, pois sendo ela uma mulher de negócios, tocar bordel era apenas mais um! Se de Chica da Silva a maldade sabida foi escravizar negros, dizem que as outras duas eram marrentas e de natureza escorpiônica: Dona Beija mandou matar um ex-amante e Donana Jansen despachava gente pro beleléu por um trisco de nada!

Sinto nojo de Senhores e Senhoras de escravos e a beleza regada a sangue escravo da arquitetura colonial brasileira é um incômodo para mim. Já disse em “Diamantina é Diamantina: joia rara, única e singular” que ela é uma obra de arte tão imponente e bela que dói e como São Luís evoca martírios, lágrimas e açoites. O resto é detalhe…”.

Sobre Ana Jansen, um episódio de Os Tambores de São Luís, de Josué Montello: “Inimigo de Donana Jansen, com quem vivia às turras, o Comendador Meireles tinha mandado preparar na Inglaterra, para vendê-los quase de graça, um milheiro de belos penicos de louça, com a cara da velha no fundo do vaso. Donana Jansen soube do fato e suportou com paciência o riso da cidade. Não reagiu logo: deu tempo ao tempo, enquanto ia mandando comprar, aos dois, aos três, às dezenas, na loja do Comendador, os penicos com seu retrato, até ter a certeza de que, agora, sim, só ela os possuía. Apenas por perguntar, mal contendo o frouxo de riso, Damião perguntou a um dos negros:

– De quem vocês são escravos?

– De Donana Jansen.

Um cheiro insuportável de mijo podre desprendia-se de um vaso à parte, por sinal maior que os outros, quase o triplo, e coberto com uma tampa também de louça.

– E esse aí? – quis saber Damião.

– Minha sinhá deu ordem pra despejar o mijo dele na cabeça do Comendador, se ele aparecer pra tomar satisfação.

E sem interromper as pancadas seguras, o negro abriu para Damião a dentadura farta, que lhe encheu a boca feliz, rematando com este comentário, entre um penico e outro:

– Donana Jansen não é gente. Tou cansado de dizer. Quem se mete com ela tem sarna muita pra se coçar. Ora se tem!”.

Dona Lô ao saber da intenção de penicos com as caras de Dilma e suas ministras, de pronto pensou: “Nada original! Copiaram do Comendador. Nessa toada, uns penicos de mijo podre até que não constituem má ideia, apenas uma ideia má…”.

 

Fonte: O Tempo

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