sexta-feira, outubro 7, 2022

Professomos

Seis e cinquenta, e o celular dispara uma notificação: a garotinha caiu do sofá, quebrou o braço e o colega não poderá dar aula naquela manhã. Ele está preocupado com a filha, mas dividido em função do compromisso com os alunos que entrarão nas salas online, às oito. Levanto rapidamente, desejo melhoras e me ofereço para ajudar no que for preciso. Corro em direção aos contatos dos líderes para dizer que a primeira aula não acontecerá, será reposta, futuramente…

Era cedo ainda, podia ficar mais um pouquinho na cama e foi o que fiz. Deitada, fiquei pensando nos professores que agora enfrentam uma nova modalidade de ensino e no impacto que isso causa na vida deles. Recordo-me das muitas vozes que tenho ouvido neste período, e também dos silêncios que estão sendo mantidos enquanto reinventamos as escolas, sem consulta, sem o tempo necessário à formação exigida, sem ombros para chorar as angústias sentidas de todos os lados, apenas com as telas fazendo o papel de canal nesta nova modalidade de comunicação.

Um colega me falou, logo no início da quarentena, que ele tinha tudo na cabeça: chegava à sala de aula, jogava o conteúdo no quadro e dava certo. “E agora? O que eu faço?” – perguntou-me, atordoado. Esse questionamento revela o nível de tensão enfrentado pela categoria que nunca recebeu, pelo menos no Brasil, o merecido valor. É bom lembrar que a nossa formação nunca basta! É sempre “continuada” e “insuficiente”, mesmo porque a educação se renova a cada ano, e nem sempre há tempo de aprender os diferentes caminhos apontados pelos estudiosos, sobretudo porque os estudos demoram para chegar ao chão da escola. E assim vamos seguindo de plano a projeto, de projeto à interdisciplinaridade e desta para o novo-normal. 

Como deve estar sendo difícil planejar aulas para um ensino remoto. Muitos não tinham nem WhatsApp, sequer um tripé ou uma mesa de apoio. Nem todos tinham quadros em casa, redes móveis eficientes, não tinham pilotos, nunca utilizaram uma plataforma, não sabiam mesmo por onde começar. Ouviram notícias sobre redução de mensalidades, programa do governo para as empresas, suspensão de contratos, redução de jornadas. Quantos destes profissionais sustentam as suas casas? Então o dilema era mais ou menos este: professores se sentido ameaçados em seu papel, desempenhado na escola física há anos, e ameaçados em suas rendas, sob pena de perdê-las, parcial ou integralmente, a depender de onde estivessem trabalhando, sem ouvir dos pais, alunos e até mesmo das escolas uma palavra de apoio ou entendimento e ainda tendo que fazer um novo-normal, utilizando as ferramentas que desconheciam, sem os contatos com os quais estavam habituados.

Mesmo assim, a escola foi para as redes. Dentro de uma semana, tínhamos um ensino remoto, garantindo a continuidade do vínculo com as famílias, e dos estudos, para muitos estudantes que dispõem de ferramentas para este fim. Muito pouco das experiências exitosas estão sendo publicadas para estimular os profissionais a prosseguirem. Quase nada tem sido dito e publicado sobre o que, de algum modo, está dando certo. O que mais se viu até aqui foi aquele velho “humor” seletivo, que aponta os erros, transformando em realidade primordial a tragédia de uma categoria que precisou fazer e foi, na coragem mesmo, manter a escola aberta.

Mas eu quero cantar ao mundo as aulas de História, com cem por cento de frequência e que terminam com música para regozijo de todos que estão ali, aprendendo sobre alguns porquês de estarmos vivendo o que agora vemos; as aulas de Redação, que mobilizam discussões profundas sobre pandemia e humanidade e recriam o  modo de enviar os textos, pelo Word, num verdadeiro demonstrativo, não apenas de reinvenção, mas também de primor no trabalho desenvolvido; os professores de Laboratório, que se juntarem para fazer aulas aos pares e promover a manutenção da experiência, como preposto de aprendizagem. Quero dizer que o professor de Matemática pediu uma segunda conta para logar seu celular e mostrar, de modo mais eficiente, os cálculos para seus alunos. E, lá nas aulas de Literatura, os meninos seguem se maravilhando com o universo dos romances que tanto dizem sobre nossas relações com o tempo… O professor de Interpretação manda, na madrugada, uma produção na qual os estudantes fizeram uma releitura da obra de Michelangelo. Em Filosofia, estão aprendendo sobre a Indústria Cultural e o uso da razão instrumental. Aulas gravadas, trilhas pedagógicas, listas de exercícios, aulas ao vivo, tempo síncrono, assíncrono, gerenciamento online, reuniões feitas em aplicativos…

E os que não foram? Os que silenciaram, assustados? E os que não aprenderam ainda e sofrem ao ver que há um modelo em curso, sem que ele tenha conseguido se inserir? Para estes, a nossa compreensão e disposição! Sabemos que não é obrigatório acertar. Bem sabemos! Sabemos que nem todos estão em sala de aula porque amam estar. Por fim, sabemos que a pandemia está mudando o mundo como conhecemos, mas não alterando imediatamente as pessoas. Então vejo que a maioria segue como sempre foi: dedicada, resistente, solidária, egoísta, acertando, errando, enrolando e desenrolando. Somos entendedores de processos, ritmos. Lidamos com o erro cotidianamente. Acho até que o erro é a matéria-prima de nosso trabalho. Então sintam-se abraçados por todas as tentativas e pela ausência. Vamos fazer a tão sonhada rede colaborativa, agora que as fronteiras estão menos rígidas e o tempo parece estar a nosso favor. Que a força da categoria sirva para este apoio, e que sejamos todos aprendizes, como nunca poderíamos deixar de ter sido. 

Agora, pare um minuto do seu tempo para visualizar um professor, diante de uma tela, falando ao computador, ou ao celular, sem a certeza de estar senso ouvido por sua classe. Pensar esta cena me dá um nó na garganta. Então agradeça, com toda a verdade que puder, o fato destes profissionais existirem e insistirem. Sem eles, não haveria educação em lugar nenhum, e certamente a humanidade seria mais pobre, menos consciente, menos sábia.

Parabéns, professores e professoras! Os que conheço, os que trabalham em minha equipe e os que apenas ouvi falar. Vocês são exemplos de persistência e regeneração. Possuem ouvidos seletivos, por isso não pararam na primeira onda de descrédito. Seguiram e agora merecem o reconhecimento próprio dos que entendem a sua importância em qualquer circunstância, seja física ou remota, nas guerras ou nas pandemias. Não sei se acredito, agora, no futuro, mas no presente eu creio, porque vocês estão nele, fazendo, mais uma vez, uma revolução no conhecimento. Na verdade, não precisamos dos aplausos, precisamos mesmo é da confiança e do respeito. Então, gritemos bem alto: PROFESSOMOS! 

 

*Gláucia Portela – Mestre em Educação, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, pedagoga, professora na rede Pública do Estado da Bahia, Coordenadora na Rede Privada de Vitória da Conquista – Ba, autora do livro Palavra de Papel: crônicas para encantar o cotidiano. Palestrante, Consultora Pedagógica, mãe e aprendiz de cozinha. Criadora de conteúdos online nas páginas @afetoesabor e @comidinhasdagal.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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