Projeto de extensão ajuda professores a combater o racismo em sala de aula

Um novo curso ministrado no campus de São Mateus da Ufes ajuda 80 professores a ensinar sobre a influência da cultura afro-brasileira e a combater o racismo em sala de aula. O projeto de extensão “Estratégias e ações para um currículo antirracista” é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ensino na Educação Básica do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes).

Por  Lidia Neves, do UFES

Foto: Joyce Rangel Cerillo/Divulgação

A formação, direcionada a professores da rede municipal e a alunos de licenciatura, tem 80 participantes, começou em maio e vai até o final deste ano. Elaborado em parceria com a Prefeitura de São Mateus, o curso de 160 horas é coordenado pelos professores do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD) do PPGEEB, Eliane Gonçalves da Costa e Ailton Morila, e ministrado por docentes da Ufes e da prefeitura.

Segundo a professora, o curso é uma das primeiras iniciativas no Norte do Espírito Santo para ajudar a aplicar a lei 10.139/2003, que incluiu no currículo oficial a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira. “É necessário mudar o currículo e ter material didático adequado para que a lei chegue à sala de aula”, afirma a professora, que avalia que atualmente a formação sobre o tema nas escolas ainda se restringe à comemoração do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.

Identidade negra

A ideia do projeto de extensão surgiu após a constatação, em diversas pesquisas, de situações de racismo com as quais os pesquisadores e professores não sabem como lidar.

“Por exemplo, um professor que pesquisava a filosofia da diferença teve uma aluna negra que perguntou se dava para nascer de novo”, relata Eliane Gonçalves. “Os alunos têm aulas na primeira e na última semana de cada mês. Nesse intervalo, aparecem problemáticas práticas, situações em que o racismo aparece, e tentamos buscar soluções para lidar com elas”, completa.

Apesar de São Mateus ser o município com maior população afrodescendente do Espírito Santo e que recebeu a última leva de africanos escravizados para o Brasil, a identidade negra é deixada de lado, segundo a professora Eliane Gonçalves. “Há uma negação dessa identidade: não há escola com um currículo voltado para uma educação quilombola, não há educação focada na oralidade e nos saberes do norte. Queremos fazer com que essa identidade chegue à escola e faça parte do currículo, que os alunos aprendam sobre Ganga Zumba (líder do Quilombo dos Palmares), as histórias de Negro Rugero (mestre de uma das maiores casa de farinha do Sapê do Norte) e sobre a memória viva de Dona Rosa”, afirma.

Conteúdo

O projeto de extensão estuda textos relacionados a conceitos como identidade, raça, racismo, mestiçagem e branquitude. Além de livros e materiais didáticos que podem ser usados em sala, são apresentados também elementos da cultura repassados oralmente de geração em geração, como histórias, danças e artesanatos. Na primeira aula, a líder quilombola Dona Rosa Dealdina foi convidada para contar histórias de oralidade para um auditório cheio.

No segundo mês, aprenderam sobre contação de histórias para crianças e de confecção de bonecas Abayomi, feitas artesanalmente de retalhos pano e que remontam à história dos povos trazidos como escravos ao Brasil. Nos futuros encontros, serão convidados outros mestres de saberes. Os participantes terão oficinas de dança de jongo com membros da comunidade e de samba.

Mais informações sobre o curso podem ser obtidas junto à Secretaria Única de Pós-Graduação da Ufes em São Mateus: www.posgraduacao.saomateus.ufes.br .

Na foto, alunos e professores em aula de contação de histórias e de confecção de bonecas Abayomi.
 

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