A Copa das mulheres altera definitivamente a transmissão dos homens

Enviado por / FonteUOL, por Milly Lacombe

A Cazé TV é a única a cobrir todos as partidas da Copa do Mundo da Austrália e Nova Zelândia. Um canal que nasceu ontem e que, quase no susto, desenvolveu um jeito original de levar o jogo a multidões.

Seu idealizador ficou famoso fazendo “reacts” no YouTub e se manteve fiel ao estilo quando foi alçado ao posto de empresário com a oportunidade de transmitir futebol para o país inteiro.

Brincadeiras, leveza, alegria, espontaneidade, originalidade. As transmissões estão sendo ressignificadas. Tem erros, tem deslizes, tem improviso mas nada passa por forçado ou ensaiado.

Apesar da descontração, não há, como gostariam alguns, uma pegada mais quinta série, abobada, infantilizada que vive do mantra que futebol não pode ser levado a sério porque, se levarmos, sai pancadaria.

É a lógica da torcida única: vamos limitando o campo de afetos, tomando por base o que julgamos ser uma incapacidade emocional do torcedor, e restringindo o jogo a uma coisa pequena, boba, infantil, sem sentido maior.

Quando existe a necessidade de mandar a real, a CazéTV pisa fundo. Quando erra, corrige no ar ou volta para corrigir.

Na Copa do Mundo do Qatar, estreante, a CazéTV matou no peito a crítica de que estava reafirmando padrões: muitos homens, poucas mulheres, mais do mesmo.

Casimiro Miguel, o chefe cujo apelido dá nome ao projeto, disse que as críticas estavam certas. Sem tentar justificar, sem dar explicações.

Mudou bastante coisa para a Copa feminina. Mas agora, opa, pera aí: só tem brancas e brancos.

Vocês estão outra vez corretos, disse Casimiro.

E, como num drible de Segovinha, mudou o rumo da forma mais rápida possível. Em questão de poucos dias, já havia negros e negras nas transmissões.

As narrações masculinas da Cazé TV oferecem um tipo de respeito a um evento feminino que poucos demonstram ter e que vemos mais abundantemente quando narram as mulheres.

Mulheres tratadas como sujeitos.

Não há infantilização.

Não caem na tentação de explicar como a jogadora deveria ter chutado. Não ficam reforçando erros em campo. Não riem baixinho de uma furada porque, imagino, sabem que homens também furam.

Você se sente, de fato, incluído na transmissão.

Os patrocinadores estão ali, misturados a tudo de um jeito novo e escancarado – talvez menos empolado.

Do lado de fora desse novo ambiente o mundo vai também se transformando: o Seleção SporTV, comandado por André Rizek, fez história ao, às vésperas do jogo com a França, levar ao ar um programa jornalístico focado exclusivamente na Copa Feminina, deixando os torneios masculinos para outros falarem.

A análise, um pré-jogo minucioso, foi feita de forma didática e séria. Até Roger Flores, que estava à mesa e não é famoso pelo vasto conhecimento que tem do jogo das mulheres, se manteve verdadeiramente entretido e curioso, não se acanhando em perguntar quando tinha dúvidas.

Estou falando de Brasil, mas é seguro imaginar que esse tipo de transformação via afecção esteja acontecendo nas TVs do mundo inteiro.

Achar o tom para cobrir o futebol feminino – ou, no limite, eventos esportivos femininos – pode ser desafiador para muitos que ficam entre a condescendência e o paternalismo – analisando como se estivéssemos falando de crianças – ou o deboche velado seguido da crítica desmedida.

Aos poucos, vamos entendendo, homens e mulheres, que fazemos parte de uma imensa teia que constrói o futebol feminino no Brasil e que a cada um cabe um papel nessa empreitada.

Aos poucos vamos percebendo que somos afetados o tempo inteiro e que é essa dinâmica das afecções que nos transforma: quando mulheres entram no jogo, numa cabine ou no gramado, as relações estão para sempre transformadas.

É um processo, não um evento: um chute de cada vez, um lançamento de cada vez, uma vitória de cada vez.

A vida é ao vivo e, ao vivo, vamos nos transformando, aprendendo, melhorando. Existir é um jogo que se joga junto.

Quem ainda não caiu ali na Copa Feminina, deixa o preconceito na porta, vai até um dos canais que transmitem o torneio e dá a ele uma chance. Eu poderia apostar que você não vai se arrepender.

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