segunda-feira, agosto 8, 2022
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A quilombagem cultural contemporânea das editoras afro-brasileiras

Em tempos que grande parte do jornalismo cultural brasileiro saúda o boom da chamada literatura afro-brasileira e, principalmente, da publicação de autorias negras pelas grandes editoras do país, como demonstração de uma mudança dos paradigmas empresariais que ditam as demandas de publicação em consonância com a crescente demanda por esse universo literato, acreditamos ser importante ressaltar que tal realidade só ocorre pela existências e atuações das chamadas editoras negras ou afro-brasileiras (1). Editoras essas que são comumente ignoradas em suas trajetórias e importâncias, tendo por vezes seus próprios nomes omitidos nas reportagens das grandes mídias, como se não tivessem significância alguma em meio ao mercado editorial brasileiro.

Tal fato, acreditamos ser decorrência de uma característica da intelectualidade brasileira em não reconhecer, em não associar a construção e articulação de saberes com as populações negras. O retrabalhar de sapiências ou a representação de percepções e saberes em forma literata, poética ou científica realizadas por estas populações nunca foi reconhecida por nossas elites, sendo sempre consideradas enquanto obras de cunho folclórico ou panfletária, mas desprovidas de valorações estilísticas e intelectuais a ponto de serem reconhecidas enquanto “alta literatura”.

Essa validação do que é ou não valido culturalmente, do que é ou não reconhecido enquanto embasado culturalmente está diretamente associado ao conservadorismo e elitismo de nossa sociedade, que não permite as suas camadas populares terem validadas as suas próprias construções e narrativas literárias, uma forma de controle e exclusão social típicas de sociedades estruturalmente erguidas sobre a naturalização do conceito de superioridade racial-social de uma etnia-raça sobre outra, em que a construção e uso de expressões de saberes legitimados – como a escrita literata – é uma forma de poder, de reprodução e legitimação do status quo vigente, que portanto não pode ser acessado, não pode ser compartilhado com aqueles que sempre foram considerados “naturalmente” inferiores (SILVA, 2013; TENNINA & et al, 2016).

Não por acaso, sendo a constituição das editoras/selos editoriais negros uma das primeiras formas de articulação urbana afro-brasileiras de resistência ao regime escravocrata e de não aceitação ante aos padrões racistas – formais ou não – constituintes e balizadores de nossas sociabilidades (2). O trabalho de publicação de autorias negras e de publicações jornalísticas oriundas e destinadas as populações afrodescendentes em pleno período de escravidão institucionalizada é uma das gêneses da luta antirracista e pró negritude no Brasil. Além de ter revelado e tornado popular, para além do que poderia ser imaginado, nomes hoje referenciais incontestes do melhor de nossa cultura, como por exemplo Cruz e Sousa (que também foi editor), Lima Barreto, Luiz Gama, Machado de Assis e Marina Firmino dos Reis. Autorias que só se fizeram constituir, só foram construídas e distribuídas por causa do trabalho dos editores negros da época e seus selos editorias, como José do Patrocínio, Maurício José de Lafuente e Paula Brito… Ou seja, a existência de uma produção literária negra contemporânea em grande quantidade e alta qualidade não é “fenômeno” recente, mas sim a continuidade de toda uma tradição de publicação de existências e resistências de mais de dois séculos da população afro-brasileira (FELIPE, 2016).

O que nos faz acreditar que devasse problematizar os motivos que esta produção – base do que de mais sofisticado e revolucionário da literatura brasileira – tanto autorais, quanto editorias, não foi ainda hoje devidamente valorizada em suas potências e virtudes, até mesmo enquanto elementos transformadores de nossa realidade histórica-social. E por isso o trabalho das editoras negras contemporâneas não deve ser contemplado com “ares” de surpresa, como se elas fossem uma novidade em nosso cenário cultural. E nem considerar as autorias e narrativas negras como “algo exótico”, surpreendente ou recém constituídas, pois são a continuidade de toda uma trajetória arduamente construída ao longo dos tempos para não sucumbir ao nosso racismo estrutural e assim, concomitantemente, também contribuir para a sua superação.

As práxis de resistências e confrontações anti-sistêmicas dessas editoras, nos remetem a práticas de constituição e inserção de uma outra ordem, de uma outra vivência, socialmente organizada e estruturada que constituí uma alternativa ante ao sistema vigente, estruturalmente institucionalizado e legitimado. Daí nossa associação das editoras negras enquanto exemplificações contemporâneas ao conceito de quilombagem de Clóvis Moura (2001), enquanto manifestações afro-brasileiras vivas, orgânicas e oriundas de um segmento humano que não aceita os padrões hegemônicos de dominação-exploração que lhe são historicamente impostos, fazendo com que suas publicações, circulação e divulgação de obras e autorias negras sejam interpretadas enquanto suas ações de guerrilhas e assaltos, perante a estruturação racista e alienante da sociedade brasileira.

Em um país constituído para negar qualquer valoração de intelectualidade e sapiência as suas populações consideradas inferiores, tais ações dessas editoras representam “a negação dessa negação” dessa ordem social imperante as nossas mais básicas relações sociais. Tornando pública e (res)significando os valores culturais, sociais e ancestrais das populações afro-brasileiras em forma de expressões poéticas-artísticas-literatas, de estruturações intelectuais articuladas e representativas de uma humanidade não contida e insubmissa, que não aceita precisar ser tutelada ou reconhecida pelas “vontades” de suas elites, um constante embate aos resquícios de nossa herança escravista.

O que nos revela quanto interpretarmos estas editoras enquanto apenas representantes de um nicho editorial é não apenas reduzir as suas importâncias e significâncias históricas, mas é também não reconhecer o papel de dinamizadores sociais e políticos no Brasil que estas acometem há pelo menos dois séculos, enquanto exemplos concretos de ações antirracistas e – do que hoje podemos interpretar – de negritudes. Não são editoras e profissionais que se pautam em suprir “espaços de crescimento editorial”, “suprir demandas de público” ou seguir o “fluxo das últimas tendencias do mercado”, mas que existem enquanto resultantes da continuidade de toda a soma das trajetórias de publicações de autorias negras que acabam por explanar, resguardar e tornar contemporâneo conjuntos de valores e representações identitárias de origem afro que não mais existiriam se não fosse por elas.

Nesse sentido, acreditamos ser importante que num momento histórico em que o trabalho editorial diferenciado e socialmente consciente dessas editoras, no melhor sentido de produção engajada que possamos imaginar, nos parece estar sendo sumariamente posto a margem, numa tentativa de naturaliza-las enquanto simples fornecedoras para as grandes editoras ou selos editoriais alternativos reconhecidos pelas fornecedoras de “mãos de escritas”, de “mão de obra autoral” para as grandes editoras ou aos selos editoriais alternativos reconhecidos e tutelados por nossas elites intelectuais e que, por “coincidência”, não fazem parte do universo em que estão situadas as editoras afro-brasileiras. Devemos situar e valorizar a importância destas editoras, do papel de destaque que ocupam aos processos históricos e contemporâneos de resistências e (sobre)vivências das populações negras no Brasil.

Não são editoras que se movem por modismos, ou que se viram despertar para um exercício editorial antirracista pós eclosão do movimento “Black Lives Matter” ou pela súbita percepção da existência de racismo estrutural no Brasil somente após a visibilidade das demandas e ações políticas dos movimentos negros no país começar a conquistar – mesmo que timidamente – maior divulgação da grande mídia. As editoras afro-brasileiras estarão aqui quando essa “moda editorial” passar, o mesmo pode ser dito das editoras que mal chegaram e agem como definidoras do que é válido ou não dentro de um universo literato ao qual nunca se dedicaram dignamente antes?

Não negamos que tal movimento de mercado seja importante e aponte até mesmo para uma possível maior “democracia” aos processos editorias em nosso país, e que de certa forma tal ação só esta ocorrendo pela quantidade e qualidade dessas editoras negras e das demandas que elas sempre fizeram por representar e atender através de suas existências, mas não podemos deixar de destacar que interpretamos a ocorrência de um processo de apagamento dessa história tão significativa, o que pode ser verificado pela constatação de que na maioria das reportagens que apontam o lançamento de obas e autorias afro-brasileiras pelas grandes editoras nacionais ou pelos selos editoriais alternativos legitimados, é apontado a ocorrência desse momento histórico enquanto consequência única e exclusiva destas, como exemplo da perspicácia empresarial de seus donos/editores. Mas nunca enquanto construção consolidada e articulada das editoras afro-brasileiras e de suas editorias, não tendo por vezes nem os nomes destas editoras divulgadas nessas reportagens, que por vezes muito menos do que informar, parecem querer divulgar os catálogos das mesmas – grandes – editoras, louvando as suas excelências e estruturas editoriais, como se qualidade, organização e “arrojo” de mercado fossem características inerentes e exclusivas apenas a tais editoras (3).

O que nos revela a ocorrência de um novo modelo de legitimação, de ingerência de nossas elites em meio aos processos internos da seara intelectual afro-brasileira, por sujeitos históricos não pertencentes a ela e por vezes até mesmo antagônicos (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019) as virtudes e características de sociabilidades, de representações sociais que se fazem originar a partir deste grupo étnico-racial e social.

Se hoje temos o conhecimento, o acesso e a convivência a obras de autores seminais como de Carlos Assumpção, Conceição Evaristo, Conceição Evaristo, Cidinha Silva; Cuti, Oswaldo de Camargo, Éle Semog, e se ocorrem o resgate de obras como de Paulo Colina, além da continuidade de publicações como “Cadernos Negros”, entremeados pela publicação de novas autorias negras – Deivison Mendes Faustino; Fábio Mandingo, Jovina Souza; Lande Onawale; Mário Augusto Medeiros da Silva – que dificilmente seriam publicadas, ou se fariam reconhecidas, pelas grandes editoras e seus círculos culturais-intelectuais, é porque as editoras negras perseveram a décadas contra todas as dificuldades econômicas, dificuldades de mercado, falta de divulgação das grandes mídias (4), inconstâncias políticas das medidas de fomento a editoração e distribuição de obras, além do nosso racismo estruturante e seu elitismo cultural e excludente, dando sequência e continuidade a manifestações de existências afro-brasileiras contra um sistema social estruturalmente constituído e moldado em torno da extinção física e cultural dessa.

Muito mais do que suprir uma falha editorial por moda, tendência ou “apurado e arrojado” tino comercial, as editoras negras contam as existências, potências, historicidades e capacidades imaginativas e transformadoras de realidade-mundo das populações afro-brasileiras, em suas mais variadas, diversificadas e plurais formas. Nos possibilitando construir narrativas e discursos que permitem constituir um verdadeiro mosaico do que é ser negro em constante diáspora, numa sociedade que lhe retira e nega a sua humanidade, que se faz erguer e desenvolver, que se alimenta – literalmente – até hoje de seus saberes, corpos e almas, sem lhes dar o mínimo reconhecimento por isso, subcidadão padrão de uma eterna nação incompleta.

Em outras palavras, se hoje existimos e nos afirmamos enquanto negros, enquanto população afrodescendente, se damos constituímos exemplos e formas de negritudes, se realizamos práxis antirracistas e anti-sistêmicas, para assim malograr os planos de nossas elites que visavam nossa extinção total, nosso desaparecimento por completo da sociedade brasileira entre final do século XX e primeiras décadas do século XXI, muito se deve pela existência e atuação das editoras negras, de suas editorias e autorias, da publicação de seus livros, revistas, periódicos, folhetins, (fan)zines que deram e dão vazão a sentidos existenciais, a formas e expressões de vivências e experiências humanas afrodiaspóricas no Brasil que acabaram sendo preservadas, recuperadas, (re)articuladas e repassadas de geração em geração, ajudando em nossa preservação de nossa ancestralidade ao mesmo tempo que constituía elementos para construções de expressões/manifestações modernas e contemporâneas das culturas e saberes de matiz afro no Brasil.

Desse modo reafirmamos que para muito além de moda ou tendência, as editoras negras como – dentre tantas outras – a “Ciclo Contínuo Editorial”; “Editora Oguns”; “Editora Reaja”; “Figura de Linguagem”; “Kapulana Editora”; “Malê Editora”; Mazza Edições”; “Pallas Editora”; “União dos Coletivos Pan Africanistas”, se dão a partir de suas comunidades, para literalmente representá-las em suas existências, direitos e humanidade, são partes vivas, orgânicas dessas coletividades…

Que não nos deixemos sucumbir aos encantos de falsa sereia e saibamos valorizar o legado, e a significação contemporânea antirracista e de negritude que as editoras afro-brasileiras tão bem representaram, representam e hão de continuar a representar – através da publicação das letras negras que nunca se apagam – na constituição das historicidades, vivências e resistências afrodiaspóricas em terras brasilis.

Notas Bibliográficas:

(1) Ao citarmos a atuação editorial das editoras negras/afro-brasileiras, também inserimos nesse contexto a auto-publicação exercida pelas autorias negras como única maneira de ter a sua obra editada e distribuída, rompendo as amarras racistas e elitistas do grande mercado editorial brasileiro.

(2) Editoras negras responsáveis em divulgar e resgatar autorias de seu grupo étnico-racial de pertença, além de promover a venda e circulação/distribuição de suas publicações, através de das autorrealizações de eventos literários, saraus, rodas de leituras/conversas, debates, seminários, palestras, encontros e feiras literárias, como forma de tornar pública as suas existências e atuações editoriais, direcionadas a dar vazão a todo um conjunto literato que ficaria invisibilizado, caso não extinto, em todas as suas importâncias e significados. O que nos demonstra que as editoras negras são muito mais do que “editoras de nicho”, sendo de fato formas de representações simbólicas e políticas da afirmação de humanidade e identidades do grupo afrodiaspórico no Brasil, constituindo um fenômeno histórico-sociológico ainda não devidamente valorizado em suas potências socialmente e culturalmente questionadoras e transformadoras dos alicerces racistas e arcaicos – formais e informais – de nossa sociedade (JORNAL DO COMÉRCIO, 2018; VENTURA, 2017).

(3) Mesmas editoras que historicamente nunca se preocuparam em ter profissionais negros e de outros grupos socialmente discriminados em suas fileiras (AMARO, 2020), mas que agora anunciam orgulhosamente a existência de profissionais negros – geralmente um – em seus corpos editoriais, como exemplos de sua consciência social, compromisso e respeito as pautas das diversidades identitárias. Como se tal fato fosse uma espécie de atestado operacional, uma espécie de “passe livre” para sua atuação nesse segmento literário. Mesmo que essa diversidade só tenha se dado após decidirem obter dividendos financeiros em meio aos lucros gerados por esse mercado editorial independente constituído e desenvolvido pelas editoras negras.

(4) A divulgação das editoras afro-brasileiras e seus catálogos, sempre tiveram na chamada imprensa negra um de seus meios de maior divulgação, constituindo uma forma de divulgação dessas produções literatas para diversos círculos e estratos sociais internos as comunidades afrodescendentes, como os relacionados aos movimentos negros culturalistas e estudantis. Além de estabelecer uma ponte com círculos culturais que atravessam ou se localizam fora destas comunidades, em especial aos ligados aos movimentos sociais de cunho progressistas e urbanos periféricos.

Referências Bibliográficas:

AMARO, Vagner. A (falta de) diversidade no mercado brasileiro. [08/06/2020] – In: https://www.publishnews.com.br/materias/2020/06/08/a-falta-de-diversidade-no-mercado-editorial-brasileiro (podcast), acessado em 02/02/2021.

FELIPE, Adilson Ednei. Homens de Letras: intelectuais negros no Brasil imperial. Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana Ano IX, NºXVII, agosto/2016, p. 74-98.

FOLHA DE SÃO PAULO. “Editoras grandes não gostam de preto escrevendo sobre preto”, dizem autores. [01/11/2019] – In https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/11/editoras-grandes-nao-gostam-de-preto-escrevendo-sobre-preto-dizem-autores.shtml

JORNAL DO COMÉRCIO. Editora foca na difusão de autores negros no RS. [02/07/2018] – In: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/ge/noticias/2018/07/636820-editora-foca-na-difusao-de-autores-negros.html, acessado em 02/02/2021.

MOURA, Clóvis (2001). A quilombagem como expressão de protesto radical. https://movimentorevista.com.br/2019/11/a-quilombagem-como-expressao-de-protesto-radical/, acessado em 31/01/2021.

SILVA, Mário Augusto Medeiros da (2013). A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil 1960-2000. São Paulo: Aeroplano.

TENNINA, Lucía et al. (2016). Polifonias marginais. Rio de Janeiro: Aeroplano.

VENTURA, Marciano. Ciclo Contínuo Editorial. [25/05/2017] – In: https://arthurdantas.wordpress.com/2017/05/25/marciano-ventura-ciclo-continuo/, acessado em 02/02/2021. (Entrevista)

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento social negro no Brasil.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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