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A Vida In.Visível de Filomena

Nas linhas a seguir apresento um relato agridoce sobre “A Vida Invisível”, após conferir duas sessões, uma coletiva de imprensa e uma profícua entrevista com Bárbara Santos, atriz que encarna Filomena, a personagem que mais me instigou no filme.  

Por Viviane A. Pistache para o Portal Geledés

‘A Vida Invisível‘ nasce monumental, sensível e ousado em seu esforço de um olhar decolonial sobre o Rio de Janeiro dos anos 50, a despeito da perpétua herança escravocrata e machista. Como disse  o diretor Karim Aïnouz, na coletiva de imprensa que aconteceu em São Paulo no dia 19 de outubro: “é mais um filme sobre uma época, do que um filme de época”

As atrizes Flavia Gusmao, Barbara Santos, Carol Duarte e Julia Stockler com o diretor Karim Ainouz e o ator Gregorio Duvivier durante — Foto: Joel C Ryan/Invision/AP

A coletiva (que contou ainda com a presença de Fernanda Montenegro, Gregório Duvivier, Julia Stockler, Carol Duarte e do produtor Rodrigo Teixeira) focou nos pormenores técnicos e criativos da construção de uma trama tão complexa quanto refinada e dos desafios de fazer cinema neste momento de asfixia da ANCINE. Mas depois de ouvir a lucidez de Fernanda Montenegro, que atravessou guerras e ditaduras, é impossível não ser otimista; ainda que no filme, Fernanda tenha encarnado a crueldade do ocaso de uma vida marcada por sonhos interrompidos. 

Não é um filme fácil de se ver, ainda que primoroso. É uma história sobre as armadilhas do patriarcado que atravessa e violenta a vida das mulheres desde tempos imemoriais, e portanto  é também um filme sobre ser homem e português que encarna a branquitude patriarcal em pleno exercício de perversidade. 

Um filmaço que homenageia os grandes folhetins do século passado e conduz o público às lágrimas de modo visceral. O diretor se confirma como um grande maestro das emoções e lembranças de um Brasil de sonhos e pesadelos. Um filme que convoca reflexões apreciadas mundo afora a partir de sua bela carreira internacional que agora está em merecida campanha rumo ao Oscar. 

Mas confesso que  saí das sessões com vontade de falar sobre Filomena, personagem  que foi praticamente invisibilizada na coletiva (talvez pela ausência da atriz). Assim, somente após conseguir entrevistar Bárbara Santos,  é que me sinto de fato mobilizada a escrever sobre o filme.

Como tem sido amplamente divulgado, o longa foi roteirizado por Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz a partir da adaptação de romance homônimo de autoria de Martha Batalha. O que tem tido pouca ou nenhuma menção é o fato de que Bárbara Santos também é escritora e emprestou sua expertise dramaturga para a construção da Filomena.  

Acervo Bárbara Santos

Bárbara Santos é socióloga, atriz, dramaturga, compositora, poeta. Autora de três livros, entre eles o Teatro das Oprimidas, lançado na FLIP de 2019. Artivista do cinema negro experimental no Rio de Janeiro, é colaboradora da Companhia Siyanda, a exemplo de Suspeito, cujo poema é de sua autoria, bem como a canção do curta Desterro que levou prêmio de melhor trilha sonora original no Festival 72 Horas.

Há mais de uma década Bárbara Santos mora em Berlim, onde conheceu o diretor Karim. 

Bárbara Santos (Arquivo Pessoal)

Em nosso bate-papo, Bárbara  conta que quando recebeu o roteiro sua personagem, a Filomena, estava distante da que vimos em tela. Filomena ainda era definida a partir de Guida, não desfrutava de subjetividade própria e nem da plenitude do status de pessoa. Bárbara conta que concentrou seu esforço em descobrir/construir uma personagem com existência autônoma. 

Assim, Bárbara trouxe para o roteiro sua trajetória no Teatro das Oprimidas para dar humanidade e substancialidade à Filomena. Nessa tarefa, não esteve sozinha: No set, a equipe técnica era composta por muitas mulheres negras, cujas vozes também deram pele à Filomena. 

Vale destacar aqui a co-autoria das mulheres no filme em múltiplas funções: Nina Kopko como diretora assistente, Inés Bortagaray no roteiro, Hélène Louvart na direção de fotografia, montagem de Heike Parplies e Laura Zimmerman no som. 

Na galeria de co-autoras do filme, coube à Bárbara Santos trazer a densidade, complexidade e refinamento ao modo como Filomena entende e vivencia seu lugar de raça, gênero e classe no Brasil dos anos 1950. 

Ao contrário de Zélia (amiga da jovem Eurídice), que usa a estratégia de se adaptar ao patriarcado, Filomena questiona, dribla e engana o sistema. Como bem lembrou Bárbara, Filomena é capoeira, tem ginga, passa rasteira e sobrevive.

Filomena é exercício cotidiano de busca por liberdade, pela possibilidade de ser. Filomena se torna então a mentora perfeita para Guida. Assim, Filomena é a bússola da liberdade protagonizada por Guida.

Se Eurídice não pôde alcançar a plenitude de sua existência sem sua irmã Guida, seria possível a coragem da liberdade experimentada por Guida sem Filomena?

A relação entre elas teve espaço para a cumplicidade, pois sendo uma mulher solteira e sem filhos, Filomena teve em Guida e seu filho uma família. Mas diria que Filomena mais deu que recebeu nessa parceria, certamente marcada por sororidade, afetos, mas também por assimetrias. 

Se a  construção da Filomena é favorecida pela escalação de Bárbara Santos, por outro lado, o roteiro deixa consideráveis lacunas sobre o legado da personagem dentro da trama. 

Filomena é apresentada de modo marcante: preta arretada, de pavio curto que é também pioneira na proposição de creches infantis para que mulheres negras e/ou desamparadas pudessem batalhar pela autonomia financeira. O primeiro encontro de Filomena e Guida se dá por meio de uma desavença com Shirley, uma meteórica personagem negra que aparece apenas para fazer Guida ser melhor acolhida pelo cortiço carioca nos anos 50. 

Conforme lembrou Bárbara Santos, a contextualização da cena negra é pálida e apressada o que pode ser verificado no curto trânsito de Guida pela periferia carioca. Não há tempo suficiente de tela para apresentar as outras personagens negras no subúrbio, amplificando o estranhamento que sentimentos quando vemos Guida tanto em sua vida de lazer quanto em sua vida laboral. Do mesmo modo, Filomena acaba soando muito mais gentil com Guida do que com a mulher negra interpretada pela atriz Shirley Cruz, ainda que estivesse oferecendo a ambas a mesma forma de apoio num país sem creches, sem divórcio e sem pílulas anticoncepcionais. 

Ademais, a trama esvazia aos poucos a presença de outras mães e crianças sob os cuidados de Filomena e a casa vai assumindo progressivamente a função de ser basicamente  o lar de Filomena, Guida e seu filho. Há uma sucessão de manobras para colocar o legado de Filomena na conta de Guida e um apagamento da memória da grande mentora e acolhedora de Guida em sua busca por liberdade. 

Com alguns ajustes de roteiro, certezas e visibilidades poderiam ter sido enunciadas de modo afirmativo. Seja no momento de saída de Filomena da história, seja no momento em que a Eurídice, já na pele de Fernanda Montenegro, toma consciência do que se passou com ela e Guida. Um desfecho que optou por não negritar todas as consequências da sub-trama  Filomena-Guida para o desenvolvimento da trama principal.

A relação de Guida e Filomena ao permitir o trânsito de Guida pela periferia carioca ilustra bem o debate feito por bell hooks no ensaio Eating the Other: A branquitude quando experimenta processos de exclusão, na melhor das hipóteses, busca refúgio na negritude no anseio de alcançar liberdade e/ou o ethos revolucionário. 

E na pior da hipóteses, refugiar na negritude é escorregar nas fantasias de alteridade, algo exemplificado pela  cena de caráter duvidoso de inversão do papel da mãe ama de leite que o filme apresenta. O direito de amamentar é uma luta histórica por liberdade das garras do machismo que não pode esquecer que a escravidão criou mães pretas impedidas de alimentar seus filhos e obrigadas a amamentar os filhos da casa grande. 

Vale lembrar que “A Vida Invisível” se passa há apenas meio século da abolição da escravidão, que emoldura a trama. Se a obra tem sido definida como melodrama tropical não é apenas em função das escolhas da direção de arte e dos  planos que destacam a paisagem fluminense, mas sobretudo pelo modo como as personagens habitam e encarnam tropicalidades. A apresentação de Guida e Eurídice nos convoca a refletir qual foi a participação da mulher portuguesa no processo de colonização, apontando que se aqui foi o paraíso da branquitude, foi o inferno do feminino. 

 

A trama persegue o difícil exercício de decolonialidade ancorando-se na relação entre Guida e Filomena. Se por um lado Filomena torna esse desafio possível, por outro, o roteiro esteve à beira da democracia racial, aquele abismo que tanto enfeitiça a nação. A conclusão se a trama deu ou não o passo adiante pode variar conforme a cor da platéia.

Viviane Pistache. Doutoranda em Psicologia e Cinema pela USP. Roteirista da O2 Filmes e crítica de cinema e teatro em parceria com o Portal Geledés. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

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