Nas encruzilhadas do teatro é onde se encontram anjos e divas

Sabe aquela história fantástica que faz a gente vibrar na mesa de bar, cercada de gente linda, elegante e sincera? Aquela que as amizades dizem: Merecia um filme, uma peça, um conto? 

Por Viviane Pistache enviado para o Portal Geledés 

Entrevista com Phedra (Foto: Annelize Tozetto)

 

Miguel Arcanjo levou o conselho a sério, nos agraciando com o espetáculo “Entrevista com Phedra”, cujo argumento e texto se baseiam no encontro do jovem jornalista belorizontino na terra da garoa, que também acolheu Phedra D. Córdoba, a diva cubana da Praça Roosevelt. 

O novo dramaturgo tem raízes encantadoras: negro das Gerais, é neto de uma liderança histórica do candomblé mineiro e filho de dona Nina, cuja simpatia pode ser conferida também nos temperos que carinhosamente alimenta uma multidão no restaurante popular de Beagá todo santo dia. 

De corpo e alma bem alimentados, Miguel traz sustança para o jornalismo cultural. 

De paladar eclético, sabe degustar e digerir o teatro em seus muitos aromas, sabores e cores; plenamente consciente das riquezas e das desigualdades múltiplas que são combinadas nos acessos aos financiamentos públicos e privados. 

Amante incansável no ofício de pesquisa, ação e observação da dramaturgia brasileira, o jornalista Miguel Arcanjo conhece bem os bastidores de um vasto espectro de coxias: desde o teatro de resistência aos teatros gourmets de shoppings. 

Assim, de imediato entendeu a dimensão da grandeza de Phedra D. Córdoba, atriz cubana que fez sua travessia até os palcos da Roosevelt, fugindo da transfobia subjacente à revolução cubana. 

“Entrevista com Phedra” começa com um encontro inusitado: o curioso jornalista e a diva cubana, num dia difícil. 

De modo cômico e crítico, Phedra revela ao jovem Miguel as dores e delícias de ser um mito encarnado. 

Assim conhecemos os sonhos, pesadelos e vaidades da entidade dos palcos, numa jornada enriquecida com relatos de gente amiga, que conviveu muito de perto com a atriz, que não admitia nunca mediocridade ou condescendência. 

Exigente, intensa, impaciente, escolheu pecar pelo excesso, pois gente morna é pra ser enterrada nas tumbas dos almoxarifados. 

Por ter a coragem de ser uma mulher que subverte fronteiras e ideologias de gênero, a caminhada de Phedra está eternizada nas calçadas, templos e mesmo sarjetas da nossa dramaturgia.

Não por acaso, na primeira leitura de “Entrevista com Phedra”, as cinzas da atriz foram derramadas aos pés das árvores da Praça Roosevelt. 

O espetáculo se alimenta desse axé e se torna obrigatório para amantes do teatro latino-americano. 

A atuação de Márcia Dailyn e Raphael Garcia revive primorosamente o encontro entre Phedra e Miguel. 

A direção cuidadosa de Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha coloca na ordem do dia uma história permeada de fatos e afetos, embalada pela luz onírica feita de âmbares e rosas de Diego Ribeiro e Rodolfo García Vázquez. 

Assim, “Entrevista de Phedra” traz o encontro sui generis de um jornalista negro que confronta cotidianamente olhares e fazeres eurocêntricos com a potência de quem veio assentar os fundamentos do Traviarcado na Praça Roosevelt, patrimônio vivo do nosso teatro. 

É pra quem tem coragem.

Divulgação/Entrevista com Phedra

Ficha Técnica

Texto: Miguel Arcanjo Prado. Direção: Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha. Elenco: Márcia Dailyn (Phedra D. Córdoba) e Raphael Garcia (Miguel Arcanjo). Direção de produção: Gustavo Ferreira. Realização: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez – Os Satyros. Figurino e visagismo: Walério Araújo. Cenografia: Robson Catalunha. Iluminação: Diego Ribeiro e Rodolfo García Vázquez. Sonoplastia: Juan Manuel Tellategui. Arte visual: Henrique Mello. Cenotécnico: Carlos Orelha. Acessórios: Lavish by Tricia Milaneze. Perucas: Divina Núbia. Castanholas: Sissy Girl e Bene Reis. Palco dos Bonecos: Luís Maurício. Fotografia: Annelize Tozetto, Bob Sousa, Bruno Poletti, Edson Lopes Jr. e Felipe Margarido. Vídeo: Laysa Alencar. Operação de som: Dennys Leite. Operação de luz: Laysa Alencar. Assistente de produção: Elisa Barboza. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Apoio: A Casa do Porco Bar, Bar da Dona Onça e Hot Pork – Janaina Rueda e Jefferson Rueda; Frango com Tudo, Rede Biroska – Lilian Gonçalves, Consulado de Cuba/SP, Consulado da Argentina/SP e Translúdica. Agradecimentos: Livia La Gatto, Eloína dos Leopardos, Ferdinando Martins, Guttervil Guttervil, Lauanda Varone, Neiva Varone, Irlane Galvão e Sandro Martyns.

Serviço:
ENTREVISTA COM PHEDRA – Estreia 8 de julho no Espaço dos Satyros Um.
Temporada: Segundas, às 21h. De 8/7 a 2/9/2019*
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$20 (meia entrada)
Duração: 50 minutos
Classificação etária: 14 anos
*Excepcionalmente, não haverá sessão no dia 26/8.
ESPAÇO DOS SATYROS UM
Praça Franklin Roosevelt, 214.
Telefone: 11 3258-6345.
Capacidade: 50 lugares.

Viviane Pistache. Doutoranda em Psicologia e Cinema pela USP. Roteirista da O2 Filmes e crítica de cinema e teatro em parceria com o Portal Geledés.  (Foto: Arquivo Pessoal)

 

 

 

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Em Tempos de Necropolítica Reinventamos a Necropoética.

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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