Alvo de preconceito sexual, jogador criou time gay de futebol e virou ícone

Em fevereiro de 2011, Aslie Pitter foi recebido pela rainha Elizabeth 2ª no Palácio de Buckingham para receber o título de Membro da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho na luta contra a homofobia usando o futebol como instrumento.

Por Rafael Reis, do UOL

 

Negro e homossexual, ele é o fundador do primeiro e mais conhecido clube gay de futebol do Reino Unido, o Stonewall FC, que completa 25 anos de existência em 2016.

O time, que disputa uma liga amadora de Londres e é o atual campeão gay europeu e mundial, surgiu depois que Pitter se cansou do preconceito que sofria na equipe em que jogava anteriormente.

“Em 1991, um grupo de gays que estava em times heteros ou que haviam jogado na escola resolveram se juntar para se sentirem mais confortáveis e porque haviam sido maltratados em outros lugares”, contou Pitter, por telefone.

“Muita gente na Inglaterra daquela época achava que gays não podiam jogar futebol. Eles estavam aptos a nadar ou praticar patinação no gelo. Mas nós amávamos futebol, queríamos jogar e precisávamos nos sentir seguros. Por isso, nos unimos”, adicionou.

O clube leva o nome do bar de Nova York onde houve confrontos ente homossexuais e a policiais em 1969, episódio que entrou para a histórica como o ponto inicial do movimento gay.

Apesar de se autodenominar como um time de futebol homossexual, o Stonewall não é exclusivo para jogadores que tenham (ou qualquer outra) orientação sexual. Ele é aberto também para simpatizantes da causa, sejam eles ingleses ou estrangeiros.

“Nossa ideia é de inclusão, não importa se você é homossexual, bissexual ou heterossexual. O que importa é gostar de futebol. Aceitamos jogadores heteros que conheçam nossa causa e não tenham nenhuma oposição a ele. E, em um gesto de educação, até deixamos eles usarem os chuveiros antes e tomamos banho depois para não constrangê-los”, brinca o inglês.

Stonewall

Apesar do bom humor de Pitter, a história do Stonewall também tem episódios tristes. Ainda que sejam raros, como o fundador faz questão de ressaltar, os jogadores já sofreram atos de homofobia em partidas contra rivais heteros.

“Já teve jogo em que fui ofendido o tempo todo dentro de campo. Mas o mais normal são os adversários que ficam nervosos quando estão perdendo para nós. Eles ficam com vergonha das namoradas ou mulheres que estão assistindo à partida e começam a querer briga. Já quando ganham, olham com aquela cara de ‘não dava mesmo para perder para vocês.’”

Mas os 25 anos de Stonewall tem, na opinião de Pitter, saldo positivo. Não apenas para o clube, mas para o movimento gay como um todo.

“As coisas melhoraram muito, as mudanças na legislação, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornaram nossas vidas melhores. Ainda temos muito caminho para acabar com a homofobia, mas já somos mais visíveis.”

Ele só espera que algum jogador famoso tenha coragem de sair do armário para se tornar um ícone gay do futebol e derrubar o preconceito que ainda existe em torno dos homossexuais na modalidade.

“Há gays jogando futebol em todos os níveis, mas os mais conhecidos não se sentem confortáveis em se assumir. A questão é a grana. O futebol é uma carreira muito curta, e eles temem perder dinheiro, afastar patrocinadores e clubes, caso digam abertamente que são homossexuais.”

 

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