quarta-feira, setembro 22, 2021
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Amarildo: ‘Isso não se faz nem com um animal’

O desabafo é de uma soldado da UPP da Rocinha no MP, enquanto revelava o “diário da tortura”

O choro e a emoção marcaram os depoimentos de quatro soldados, mulheres, que durante três meses foram obrigadas a esconder detalhes da sessão de tortura do pedreiro Amarildo de Souza, na base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, Zona Sul do Rio, no dia 14 de julho. As PMs resolveram contar toda a verdade após a prisão de alguns de seus colegas da unidade, acusados de envolvimento no crime. Elas contaram para a promotora Carmen Eliza de Carvalho, do Ministério Público (MP-RJ), que receberam ordens superiores para ocultar provas da tortura a Amarildo e também a dar depoimentos pré-combinados aos investigadores da polícia civil.

As policiais da UPP da Rocinha revelaram detalhes do que aconteceu naquela noite e do sofrimento de Amarildo. Uma delas disse à promotora Carmem Eliza que estava dentro do contêiner quando ouviu gritos de dor e pedidos de socorro na parte de trás do local. Então, resolveu ficar na parte da frente da sala e tapou os ouvidos para não ouvir mais a sessão de tortura e comentou com outras duas colegas de trabalho – “Isso não se faz nem com um animal”. A partir do depoimento de uma outra soldado foi possível a promotoria identificar mais uma farsa do então comandante da UPP, o major Edson dos Santos.

Uma outra soldado contou que o major Edson dos Santos marcou uma reunião com os PMs e tinha a presença de um advogado orientando a tropa sobre os seus depoimentos aos investigadores. “Foi um pré-depoimento”, explicou a policial. Após a reunião, o advogado afirmou ao major que a soldado havia “falado demais”. A mesma soldado ainda confirmou que após o crime, o local foi transformado em um depósito, com o intuito de atrapalhar as investigações.

Durante os depoimentos, as soldados afirmaram ainda que foram obrigadas pelos seus superiores a ficar dentro do contêiner, junto com outros colegas da unidade. Elas contaram que era muito óbvio para todos que estava acontecendo uma tortura do lado de fora. E citaram mais um nome. “E aí a Rachel fala: ‘Com esse barulho não dá pra trabalhar’. ‘O que está acontecendo? Alguém está sendo torturado?’ É ‘com esse barulho não dá pra trabalhar'”, revela uma das soldados. Rachel de Souza Peixoto é um dos 25 PMs acusados no processo de Amarildo. A soldado Thaís Rodrigues Gusmão também é réu nas ações do MP_RJ, mas acusou a participação do ex-subcomandante da UPP, tenente Luiz Felipe de Medeiros no caso. Segundo ela, o major Edson Santos deu uma ordem a Medeiros para ir até o local de tortura e “resolver isso”. O tenente não apareceu nenhuma surpresa e se encaminhou para a parte de trás do contêiner e foi possível ouvir ele fazendo perguntas a Amarildo. Após esse epsódio, Thais afirmou que recebeu ordens do major Edson para ir até o Parque Ecológico da Rocinha, que fica ao lado da UPP, e apagar as luzes daquela região. Ela aproveitou para ficar mais duas horas no parque, “para não ouvir mais as agressões”.

A soldado Thais ajudou o MP a montar mais uma “peça do quebra-cabeça macabro”. Ela afirmou que encontrou no parque três PMs à paisana e logo depois, viu o próprio major Edson e outros cinco policiais descendo do alto da mata. Depoimentos de PMs revelam que, antes do major Edson sair para o parque, foi possível observar policiais da unidade retirarem por um vão no telhado algo parecido com um corpo.

A promotora Carmem Eliza informou que as policiais que prestaram depoimentos e colaboraram com as investigações são responsáveis por serviços administrativos e nunca efetuaram prisão ou participaram de operações policiais. “O sentimento era uniforme. ‘Se estão fazendo isso com aquela pessoa, se a gente for fazer alguma coisa, que que vão fazer com a gente? Porque lá fora temos vários homens armados, todos superiores hierárquicos'”, afirmou a promotora.

Segundo a promotora Carmem Eliza, as soldados tinham medo do que poderia acontecer com elas. “‘Vocês não ouviram nada, não teve nada de anormal e Amarildo desceu pela escada’. O tom era esse de orientação. Entenda-se determinação”, disse a promotora, reproduzindo os depoimentos das PMs. Ela classificou a “pressão” do major como “uma lavagem cerebral”.

Os novos depoimentos confirmam que a violência contra Amarildo durou 40 minutos e aconteceu na parte de trás dos contêineres que servem de base para a UPP. As policiais disseram que “depois tudo ficou em silêncio e, em seguida, somente risos”. Vinte e cinco PMs da UPP da Rocinha foram denunciados pelo Ministério Público do Rio pelo desaparecimento, morte e tortura de Amarildo. Desse grupo, 13 já estão presos, sendo que três se entregaram na última quarta-feira (23). O corpo de Amarildo ainda não foi encontrado.

Fonte: Jornal do Brasil

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