Após 1º turno, como o Brasil vai proteger as mulheres negras eleitas?

No último domingo de eleição, a saudade de Mari, que sempre nos acompanha, bateu de uma forma mais específica: bateu a vontade de votar nela, de sair toda adesivada. A eleição me corta e me atravessa num lugar que ninguém jamais vai conseguir imaginar.

Não é simples falar de política, incidir, criar ou até mesmo levantar pra votar sem me emocionar ou pensar como seria se ela estivesse aqui. Mas mesmo com desafios e dores tão latentes, ainda assim, eu tenho seguido! Sigo porque tenho fé de que o amor vencerá e tudo vai valer a pena. Por isso, hoje eu não poderia deixar de saudar e celebrar todas as mulheres negras que também vem lutando por um projeto de futuro com justiça racial e de gênero, por uma real alternância de poder, enegrecendo os parlamentos deste Brasil.

Nós, mulheres negras, temos um projeto para avançarmos na garantia dos nossos direitos, e é isto que a Agenda Marielle representa. Assim, com o avanço que tivemos ontem com a eleição de mulheres negras comprometidas com o legado da minha irmã de norte a sul do país — porque a gente sabe o trabalho duro que é lidar com essas estruturas de poder embranquecidas e cis-heteronormativas que não querem nossos corpos, nossos sonhos, nossos projetos nos espaços de decisão.

Por isso tudo, também sabemos que ainda há muitos desafios a enfrentar no contexto que o Brasil passa, não só pelo fato de que em alguns estados ainda teremos segundo turno para eleições de governadores, mas principalmente porque mesmo com governos progressistas nos níveis nacional e estadual é preciso muito mais.

Nestas eleições, tivemos muitas perdas, como aqui no Rio de Janeiro, com a eleição em primeiro turno de Cláudio Castro, um governante que tem como principal plataforma política de morte e chacina em favelas e a não eleição de quadros importantíssimos para o movimento negro e LGBTQIA+ do Brasil, a exemplo de Vilma Reis, que conquistou 60 mil votos para deputada federal pelo PT da Bahia e Robeyoncé Lima, que conquistou cerca de 80 mil votos para deputada federal pelo PSOL de Pernambuco, e, ainda assim, não se elegeram. Saímos na frente na corrida eleitoral, indo em primeiro lugar para o segundo turno, e apesar do estado de violência política, garantimos importantes vitórias e muita coisa a celebrar.

Por exemplo, nessas eleições, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), uma revolução aconteceu: ampliamos a bancada de esquerda, elegemos mais mulheres e emplacamos Verônica Lima, uma mulher lésbica e negra, Dani Balbi, professora, mulher trans e negra e Marina, representante do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, de uma só vez, na ALERJ.

No Sul do país, tivemos a eleição histórica de Carol Dartora a Deputada Federal pelo Paraná, e Renato Freitas a Deputado Estadual depois de um longo período de perseguições na Câmara Municipal de Curitiba.

Já no Rio Grande do Sul, foi a vez dela, a liderança apoiada pelo Estamos Prontas, projeto do Instituto Marielle Franco, Laura Sito, do PT, que se elegeu Deputada Estadual, junto a uma bancada negra, formada por Matheus Gomes (PSOL) e Bruna Rodrigues (PCdoB). Ainda pelo Estamos Prontas, tivemos também a eleição de Camila Valadão (PSOL) pelo Espírito Santo, sendo a mulher mais bem votada da história do estado, e um marco eleitoral, que foi Lucilene Kalunga (PSB), de Goiás, que apesar de não ter conquistado uma cadeira, também bateu recorde de votação para mulher em seu estado.

Já no Congresso, tivemos felizmente uma ampliação de mulheres e negros de partidos da esquerda, e também alguns acontecimentos históricos.

Foram eleitas as duas primeiras mulheres trans e travestis eleitas para a Câmara de Deputados, são elas Erika Hilton, pelo estado de São Paulo, e Duda Salabert, por Minas Gerais.

Hoje, também contaremos com 3 deputadas federais indígenas e poderemos dizer que a bancada indígena será real. Além da reeleição de Joênia Wapichana (REDE) de Roraima, teremos junto a ela Sônia Guajajara (PSOL) de São Paulo e Célia Xacriaba (PSOL) de Minas Gerais.

Em linhas gerais, os parlamentares negros na Câmara dos Deputados aumentaram cerca de 9% na comparação com 2018, enquanto mulheres aumentaram 22% em comparação a última eleição.

A nossa luta continua após as eleições porque as mulheres negras eleitas precisam ser protegidas! Após dois anos do assassinato de Marielle, nas eleições de 2020, tivemos um aumento histórico de candidaturas de mulheres negras, cis, trans e travestis. Apesar disso, a mesma violência política que nos tirou Marielle continua cada vez mais afligindo essas mulheres, que colocam seu corpo à disposição para a política institucional.

Além do desafio de proteção destas mulheres, temos que considerar que mesmo com governos progressistas é preciso reafirmar uma agenda e uma composição de ministérios que tenha paridade de gênero e raça e que esteja voltada para devolver e ampliar os direitos retirados durante este governo de extrema-direita.

Ora, nós vimos o país voltar para o mapa da fome e o genocídio do povo negro ser utilizado como trampolim de candidatos comprometidos com a intensificação da política de morte.

Somos mulheres negras que podemos construir um outro país, do trabalho, da comida na mesa, da saúde, da preservação da terra e do meio ambiente, da justiça racial e de gênero.

Temos uma agenda para o futuro da sociedade e do planeta, uma agenda que precisa do protagonismo de quem sofre na pele com a exploração. Por isso, o trabalho na política precisa cada vez mais possuir um foco coletivo, plural e representativo.

Se nos perguntam: “Como será o amanhã?” Podemos responder, como diz Vilma Reis, que são as mulheres negras que empurram a esquerda para a esquerda! E isto que faremos daqui até a vitória, daqui a um mês, e pelos próximos anos em um novo governo que há de chegar!

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