As Ações afirmativas em tempo Espiralar: (re)existência, luta, palavra e memória

“A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio, ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias. Debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos, pelo caminho empoeirado rumo à favela. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes. Recolhe em si as vozes mudas, caladas, engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância, o eco da vida-liberdade” (Conceição Evaristo; 2017, p. 24-25).

As Ações Afirmativas em Tempo Espiralar – como traz a intelectual negra Leda Maria Martins(2021) – é criar possibilidade de reinventar-se, nomeando uma realidade que foi nomeada erroneamente ou que sequer foi nomeada. Reside na tentativa constante de causar fissuras, rupturas, ser água que corre entre as brechas de um cis-tema tão massacrante para se opor a esse lugar, esse de outridade, ao mesmo tempo que reeinventamos um nós.

É importante considerar que tanto os povos originários como os povos africanos escravizados não somente resistiram ao poder dominante do colonialismo como também desenvolveram a todo tempo formas muito criativas para continuar inventando sua existência. E até hoje, mantemos e desenvolvemos essas formas de produção de existência cotidianamente, formas estas que Álban Achinte (2017) denomina de re-existência.

Não é suficiente “resistir”. É preciso re-existir para inventar outra forma possível de existência como potência. Inventar é re-existir. A invenção se diferencia da criação ao passo que ela acrescenta ao criado, de certa forma, uma espécie de futuro no agora-do-presente. Re-existir é contrário à multiplicidade da força que mantém determinados corpos enclausurados nas metafísicas destrutivas da raça e do gênero como fabricação do Outro enquanto objeto, mercadoria, código, fluxo, isto é, existências supérfluas circunscritas à lógica do poder colonial-capitalista-cisheterosexista-patriarcal. As políticas de re-existências não são exclusivamente a favor das identidades, mas sim das forças [coletivas] anticoloniais, linhas que inventam modos de existir a todo-instante.

O inconsciente coletivo das pessoas negras são como se fosse pré-programado para a alienação, decepção e trauma psíquico. Lélia Gonzalez (1984) nos aponta em outras palavras que o trauma do sujeito negro não envolve apenas eventos de base familiar mas também o traumatizante contato com a violenta barbaridade do mundo branco, que nos coloca de modo irracional  ou não a vivenciar situações constantes de violência no lugar da outridade  – do não-humano, da ameaça, da exótica e da inexperiente, assim como, da patologização e da sexualização de nossos corpos e corpas. Deste modo, como Grada Kilomba (2020) enfatiza, o passado vem a coincidir com o presente, e o presente é vivenciado como se o sujeito negro ainda estivesse naquele passado agonizante.

A democracia racial está atrelada à fantasia de que nada disso existe no brasil, que aqui somos todos brasileiros. Que o sujeito negro aqui é bem tratado e tem o mesmo direito que o sujeito branco. Abdias Nascimento (1978) e Lélia Gonzalez (1984) argumentavam a democracia racial como mito e traziam à tona o fato da situação de genocídio do negro brasileiro. Eles se referem não apenas à matança, mas à extinção de saberes, fazeres e dizeres culturais e ancestrais da população negra. Hoje temos muitas situações provenientes da continuidade desse genocídio. A violência continua e a motivação racista, também. Inclusive, nos ambientes institucionais.

“Como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra. Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra. Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica. É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade” (Lélia Gonzalez; 1984, p. 228).

O ambiente institucional, seja ele no âmbito da educação, da diversidade, da saúde, dos direitos humanos, da segurança ou da cultura, retroalimenta cotidianamente tal lógica colonial e suas imbricações por meio do Mito da Democracia Racial, que se dá através das práticas constantes de discriminação, preconceito, humilhação, assédio moral e sexual, invisibilidade, silenciamento, apropriação intelectual e perseguições. Quando a estrutura muda mas tal lógica, autoritária e vertical, permanece, reproduzida inclusive por pessoas que se autodeclaram não-brancas, a representatividade acaba sendo uma grande armadilha. 

É  necessário desmistificar a “razão negra ocidental”, ou melhor, reabilitar a singularidade e a diferença sem cair na armadilha da identidade fechada em si mesma, para isso, é importante descolonizar o pensamento, logo, “[…] contribuir para uma sociedade anticolonial, conforme propôs Frantz Fanon, e retirar os tapumes que nos enclausuram, silenciam e invisibilizam” (Nívia Tôrres, 2022, p. 82). 

Referências Bibliográficas

ACHINTE, A. A. Prácticas creativas de re-existência: más allá del arte… el mundo de lo sensible. Buenos Aires: Del Signo, 2017

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. 3. ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. 2ª. Ed, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista ciências sociais hoje, v. 2, n. 1, p. 223-244, 1984.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Editora Cobogó, 2020.

MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Editora Cobogó, 2021.

NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro. Paz e Terra, 1978.

SILVA, Francisco Rômulo do Nascimento. (2019). Rede de Afetos: práticas de re-existências poéticas na cidade de Fortaleza (CE) 212 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Estadual do Ceará

Tôrres, Nívia. Na Encruzilhada das Maternidades Invisibilizadas – Racialidade, territorialidade e colonialismo. Depois dos filhos: transformações pessoais nas relações amorosas e no ambiente de trabalho, v.1, p. 75-83, 2022.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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