Batalhas de Rima: juventude negra, cultura e resiliência no interior da Amazônia

As Batalhas de Rima acontecem, muitas das vezes, em praças e esquinas das periferias de grandes e pequenas cidades, onde um grupo de jovens se reúne para duelar. São encontros que revelam formas de sociabilidade e lazer cultural dessa juventude marginalizada, em sua maioria negra e pobre, que constroem estratégias de inserção e denúncia de sua realidade social. Nessas Batalhas de Rima ocorre o chamado Duelo de MC´s (sigla para Mestres de Cerimônia), o qual tem normalmente dois “rounds”, sendo um terceiro necessário apenas se cada MC ganhar 1 round e empatar, assim, na Batalha. Ademais, cada participante tem em torno de 1 minuto e 45 segundos para construir a sua rima. E nesse terceiro “round”, cada participante pode construir até 3 versos, variando de batalha para batalha.

Os versos são frases rimadas que terminam sempre com um “ataque” ao seu oponente no duelo. Nesse ataque, o participante pode usar de qualquer artifício linguístico, seja ele coloquial ou formal. Os ataques normalmente são a base de xingamentos para menosprezar, em muitos casos, a vida do oponente enquanto um MC de Batalha. Tudo isso de forma improvisada, com as rimas sendo feitas na hora do duelo. O sentido figurado de gritos como: “Sangue! Sangue!”, “Mata ele! Mata ele!” e outros dizeres proferidos pelas pessoas que acompanham os duelos dão às Batalhas de Rima a sua devida energia, visto que a energia passada pelo público torna a batalha mais competitiva, tornando-a mais atrativa ao olhar dos espectadores e do público que frequenta aquele ambiente para outros fins.

Batalha do Caeté – alguns Mc’s e espectadores do evento. Praça da Aldeia – Bragança (PA), 19 de Abril de 2023. (Fonte: Instagram – @bdc_braganca.)

Para analisar melhor essa manifestação cultural negra, é preciso entender onde surgiu e quem a criou. Importante destacar que a presença das batalhas de rima na Amazônia vem desde o começo da década passada, onde a Batalha de São Brás, que acontece na Praça Floriano Peixoto, em Belém, foi desenvolvida e se pôs como pioneira dessa manifestação em todo o estado. A ideia de ocupação de espaços públicos na capital tomou força também em locais para além da região metropolitana. Assim, em meados de 2015, surgiu a Batalha do Caeté, importante manifestação cultural que deu aos jovens da região caeteuara um novo ambiente de troca de experiências. Sobretudo, um ambiente de sociabilidade e lazer para essa juventude negra (preta e parda) da região.

 O movimento Hip Hop, no qual estão inseridas as Batalhas de Rima, surgiu na década de 1970 nos Estados Unidos, no bairro do Bronx – New York. Em uma década se popularizou pelas periferias do país e, em seguida, pelo mundo. O movimento Hip Hop é constituído por 5 elementos: o rap (ritmo e poesia), o grafite, os DJs, os MCs e o breakdance. No Brasil, o movimento surgiu a partir da década de 1980 com dois grupos pioneiros: o Racionais MC’s e o RZO, sendo que o primeiro foi responsável por popularizar a cultura Hip Hop pelo país.

Com o álbum “Sobrevivendo ao Inferno”, lançado em 1997, o Racionais MC’s tornou-se o grupo de Rap mais conhecido da cena nacional, mantendo até a hoje a sua influência e relevância dentro da cultura Hip Hop. Arnaldo Daraya Contier ressalta a manutenção do pensamento racional do líder do grupo – o Mano Brown –, que é a consciência e revolta acerca da sua realidade vivida, no qual relata que, apesar do grande sucesso do grupo, eles jamais iriam abandonar a sua periferia. Logo, tudo o que eles faziam era pela periferia e para a periferia. Esse grupo de Rap foi importante para uma maior popularização da cultura Hip Hop pelas mais diversas periferias brasileiras.

As batalhas têm a sua estética intrinsecamente ligada a referências culturais afro-diaspóricas. Quanto a isso, podemos pensar nas Batalhas de Rima como uma estratégia da juventude negra para a ocupação de espaços públicos no Brasil durante o pós-abolição. Em concordância com Ricardo de Ó Plácido, verifica-se que nesse contexto pós-1888 o negro teve que criar artifícios e subterfúgios para se inserir na sociedade brasileira enquanto um cidadão de direitos. Diante disso, vale destacar o estudo de Augusto Pinheiro Leal sobre as formas de resistência negra no pós-abolição amazônico a partir da capoeira e do boi-bumbá, ressaltando ambas as manifestações enquanto instrumentos de mobilização e luta de pessoas negras frente aos processos de embranquecimento que a região sofria no final do século XIX e início do século XX.

Sobre a relação entre Rap e ancestralidade africana, a música Griot, do MC Marechal, traduz bem essa dimensão. Na mesma, fica evidenciado como o Rap traz em sua forma de manifestação artístico-cultural uma conotação mensageira ligando assim os MC’s aos Griots, antigos contadores de histórias da África Ocidental. Os Griots prezavam pela oralidade como principal forma (ou expertise) para difundir e propagar os contos, mitos, histórias e ensinamentos ancestrais – em paralelo aos MC’s contemporâneos que o fazem através de suas letras cantadas. Nisso, como é colocado na música: “Mensageiro sim senhor / Vagabundo se emociona / Porque sente o espírito dos ancestrais, Griot! / Eu vim pra provar que a cultura não acabou”.

Quanto a resistência, destaco aqui a ocupação de espaços como fator principal. A cultura Hip Hop é um movimento de ocupação de espaços públicos e, em concordância com Stuart Hall, de produção de novas identidades, sobretudo por ser um movimento/ambiente de sociabilidades para essa juventude negra. Logo, é um espaço onde as diferenças tendem a ser valorizadas e destacadas. Essas identidades construídas em tais ambientes de sociabilidade e solidariedade surgem através das experiências trocadas entre os indivíduos (homens e mulheres), principalmente em contato primário com esses espaços de produção e afirmação de identidades socioculturais contra-hegemônicas. Desta forma, é preciso entender como as Batalhas de Rima atraem jovens negros/as, por exemplo, para dentro da cultura Hip Hop e, consequentemente, para dentro desses ambientes de politização.

Quanto às resiliências, é importante trazer primeiramente as perspectivas de Silvio Almeida sobre o racismo estrutural, as suas vertentes e como tais contribuem diretamente para a segregação da população negra na sociedade brasileira. Como demonstração das perspectivas do autor, os dados da pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça Brasil, publicada no dia 13 de novembro de 2019, mostra que entre pessoas pretas ou pardas de até 15 anos ou mais de idade (8,9%), a taxa de analfabetismo foi mais que o dobro da observada entre as pessoas brancas (3,6%). Ademais, dados sobre o encarceramento em massa da população negra, em especial da juventude negra, atingem níveis alarmantes e escancaram o quão desigual e racista é o Estado brasileiro.

O Brasil é o 3° país do mundo com a maior população carcerária, tendo em torno de 670 mil presos. Desse quantitativo, 66,02% são de pessoas pretas ou pardas e 42,66% têm entre 18 e 29 anos. Esses dados foram colhidos pelo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, sendo referentes ao período de julho a dezembro de 2020. Ainda nas perspectivas desses dados, vendo que a juventude negra é a que mais sofre com segregação, opressão e preconceitos, é perceptível como essa parcela da população brasileira começa a criar e buscar formas de inserção na sociedade. Ou encontrar lugares de lazer onde possam confraternizar e manifestar-se política e socialmente, trocando experiências diversas com outros/as sujeitos.

Optei por esse conceito (resiliência) pelo fato das interpretações que cabem a ele. Entretanto, a usada aqui é que o processo de resiliência só ocorre após uma experiência traumática – que nesse caso é o racismo. Como exemplo desse processo de resiliência das Batalhas de Rima, uso como âncora desta reflexão a Batalha do Caeté que acontece na cidade de Bragança, região nordeste do estado do Pará. A partir desse fenômeno sociocultural da juventude negra e periférica no interior da Amazônia, busco entender diferentes percursos constitutivos ligados à Batalha do Caeté, como: seu processo de criação e organização na cidade; seu enfraquecimento em meados de 2017; seu retorno e novamente a parada, devido à pandemia da Covid-19 em 2020; e sua nova articulação e ressurgimento em 2022. Neste ano, inclusive, levando o TIZU MC, oriundo da Batalha do Caeté, para a final do Duelo de MC’s estadual, fazendo com que a referido movimento cultural bragantino (a Batalha do Caeté) ganhasse grande representatividade, relevância e projeção na cena do Hip Hop no estado do Pará.

A resistência da Batalha do Caeté acontece pelo fato de existirem diversas dificuldades (por parte dos organizadores) em conseguir um espaço adequado para a realização do evento. Durante várias ocasiões, os Mc´s relataram sobre sua dificuldade em conseguir um ofício para o uso do coreto da praça Rosa Blanco, no bairro da Aldeia (periferia da cidade de Bragança). Aspectos estruturais que dificultam também o acontecimento da Batalha. Desse modo, cabe abrir a discussão sobre o poder público municipal tentar, mesmo que de forma involuntária, impedir que a Batalha aconteça de forma “legal”. Observar as batalhas como uma manifestação marginal talvez seja a melhor explicação de porque que há resiliência por parte dela, haja vista que a ocupação desses espaços por parte dos Mc´s e de espectadores/as mostra que mesmo com todas as dificuldades as batalhas acontecem.

As Batalhas de Rima, bem como outros ambientes socioculturais, são espaços que dão a essa juventude negra certas oportunidades de vida e possibilitam o desenvolvimento de seu senso crítico e político através dessas manifestações culturais de resistência e resiliência. Além disso, é preciso pensar e entender essas batalhas enquanto um espaço/momento de sociabilidade que se constitui também como um lugar de associativismo negro, onde existe uma expressiva rede de solidariedades e organização sociopolítica entre tais pessoas marginalizadas nos espaços urbanos embranquecidos. Logo, as Batalhas de Rima conseguem transmitir para esses/as jovens um ambiente seguro para as suas manifestações artístico-políticas, construído por meio de sentimentos em comum partilhados nestes espaços – que vão da revolta até a alegria e segurança –, cujas sensibilidades e expressões são atravessadas pela necessidade de superação das experiências traumáticas ligadas ao racismo e pela construção de um artivismo antirracista que amplie as possibilidades de mudança social.

Assista ao vídeo do historiador Heitor Sena Trindade no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI26 (9º ano: Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas – negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc. – com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais).


  Heitor Sena Trindade

Telefone: (91) 984245399 

Graduado em História pela Universidade Federal do Pará/Campus Universitário de Bragança;

E-mail: [email protected];

Instagram: heitor.trindade01


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

+ sobre o tema

“Eu nasci e me criei aqui”: o processo de reconhecimento do território quilombola do Vale do Iguape

“Organizem-se, é em legítima defesa, porque não há mais...

Aguinaldo de Oliveira Camargo e as multifaces de um ativista

Nossas histórias, a história da gente negra está recheada...

Classe trabalhadora negra entre o rural e o urbano (1920-1930)

Vamos falar sobre a classe trabalhadora negra entre o...

Clóvis Moura: um intérprete do Brasil

As ciências humanas brasileiras nos fornecem uma gama de...

para lembrar

Artemia e Maria Felipa: mulheres que enfrentaram o poder colonial na Amazônia

Todo mundo tem um dia ruim. Certamente, aquele era...

Ser negro-índio: a força das ancestralidades no Quilombo Itamoari (PA)

No final de julho deste ano, dados inéditos sobre...

Entre rios e matas: uma comunidade de negros em Gurupá (PA)

O que você sabe sobre a história da população...

É preciso ‘amazonizar’ o Brasil

Estive no "centro do mundo". É assim que a Amazônia é chamada pela jornalista Eliane Brum e eu acredito que ela foi muito feliz nessa definição....

Entre rios e matas: uma comunidade de negros em Gurupá (PA)

O que você sabe sobre a história da população negra na Amazônia? Angulado por essa questão, neste artigo, resultado da pesquisa desenvolvida durante o...

Ser negro-índio: a força das ancestralidades no Quilombo Itamoari (PA)

No final de julho deste ano, dados inéditos sobre a população quilombola divulgados pelo IBGE mostraram que no Brasil mais de 1.3 milhões de...
-+=