terça-feira, julho 5, 2022
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Chacinas revelam monstro que habita em nós

O Rio de Janeiro é mais uma vez convidado a se olhar no espelho e dizer se reconhece a imagem monstruosa ali refletida. Em poucas horas, uma operação policial na Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte do Rio, deixou pelo menos 23 mortos, incluindo uma moradora atingida por um tiro na porta de casa. As cenas de corpos retirados de caçambas de caminhonetes na porta do hospital Getúlio Vargas, diante dos olhares desesperados de familiares, são de uma violência insuportável.

No entanto temos sido capazes de suportar essa e outras cenas piores. Em novembro do ano passado, moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, tiveram de retirar de um manguezal, com as próprias mãos, os corpos brutalizados de oito pessoas mortas pela polícia, numa chacina ocorrida em represália à morte de um policial militar durante operação na comunidade.

A operação da terça-feira, realizada em conjunto pelas polícias Militar (Bope) e Rodoviária Federal, supostamente baseada em “meses de investigação e inteligência”, não é a primeira a resultar em chacinas com números assombrosos de mortos e praticamente nenhum resultado de segurança pública. No início de maio, completou um ano o massacre do Jacarezinho, onde 28— a maioria jovens negros — foram mortos durante uma operação policial que chocou o país pela brutalidade e pela determinação em matar todos os suspeitos, alguns desarmados escondidos dentro de casa. É difícil apagar da memória as imagens do quarto de uma criança inundado do sangue de um rapaz executado por policiais quando tentava se esconder.

Em apenas um ano, foram registradas no Estado do Rio de Janeiro 179 mortes em 39 chacinas, segundo levantamento feito em conjunto pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense. Jacarezinho e, agora, Vila Cruzeiro, se transformaram nas duas maiores chacinas na História do Rio, ambas ocorridas durante o mandato do atual governador. Esses eventos reforçam o que parece ser uma orientação tácita das ações policiais: não fazer prisioneiros. Apenas em 2021, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, policiais do Rio mataram 1.356 pessoas, cerca de 22% do total de mortes em intervenções policiais no Brasil. Estamos diante de uma política intencional de extermínio, mascarada de política de combate ao crime.

Uma rotina de violência e impunidade que se reproduz — a despeito das fanfarronices eleitoreiras nas redes sociais das autoridades — a partir de planos de ocupação apressados e mal reciclados de experiências frustradas do passado. Vivemos hoje uma guerra. Mas não é a guerra propalada pelas autoridades públicas como uma guerra heroica do bem contra o mal, da lei contra o crime. O que vemos, efetivamente, é uma guerra suja, sem regras e sem lei, em que o Estado opera como uma máquina de extermínio de pobres e pretos. Tem objetivo de satisfazer um desejo difuso de morte e de eliminação de todos os que são vistos como indesejáveis, majoritariamente pretos e pobres.

A violência das chacinas cometidas pelo Estado é política, faz parte de uma disputa de poder territorial que requer o controle de fluxos criminosos — que não são abalados pelas mortes provocadas pelas operações policiais focadas no confronto e na eliminação dos suspeitos. No máximo, vemos a mudança do controle de um grupo criminoso para outro. O espelho continua a refletir o monstro que habita em nós.


*Historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil

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