Cidades do país têm fome escancarada nas ruas e oculta nas periferias

Doações de alimentos são cruciais para famílias vulneráveis num contexto de inflação e desmonte de programas sociais

É impossível não notar, mas muita gente escolhe ignorar a manifestação mais explícita da fome nos centros urbanos do país. Ela está nos semáforos e nas esquinas, debaixo de marquises e viadutos, expressa em cartazes e nos pedidos insistentes de um trocado para comprar comida.

Num semáforo da zona oeste da capital paulista, o pernambucano Tiago Guimarães espera a luz vermelha e a parada dos carros para abordar motoristas em busca de uma moeda ou de algum alimento.

“Tem gente que ajuda, tem gente que ignora”, conta o ajudante de obras, que diz ter deixado o emprego para cuidar dos dois filhos, de seis e dois anos, depois de ter sido abandonado pela esposa.

Pedir ajuda na rua foi a forma que encontrou de garantir a alimentação dos filhos, entre um bico e outro. Ao final da jornada, ele exibiu à Folha o saldo do dia: uma moeda de R$1 e outras poucas de menor valor, um saco de arroz e outro de feijão. “Num dia ruim, eu não ganho nada. E, quando ganho, tudo é para ajudar a minha família.”

Sua peregrinação diária em busca de alimento se soma à da população em situação de rua, que saltou de 21.954 em 2013 para 227.087 em 2022 –um aumento de 935,31%, segundo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com base em dados do CadÚnico (Cadastro Único) do governo federal.

Nesse território de desigualdades extremas, em que a fartura e a escassez convivem sem pudores, menos da metade (42,2%) da população tem acesso estável a alimentos em quantidade e qualidade adequados. Os outros 57,8% de brasileiros residentes em áreas urbanas convivem com algum tipo de insegurança alimentar, segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, de 2022, da Rede de Pesquisadores em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Entre eles, 27,9% precisam reduzir a qualidade dos alimentos para colocar comida suficiente no prato de todos da casa (insegurança alimentar leve). Outros 14,9% reduzem também a quantidade ingerida (insegurança alimentar moderada) e 15% não têm comida suficiente para todos da casa (insegurança alimentar grave), convivendo com a fome.

Almir de Souza Júnior vive nesta situação. Ele passa o dia pedindo por alimentos e dinheiro nos cruzamentos da Mooca, na zona leste de São Paulo. Sua maior frustração, diz, vem da hostilidade de alguns motoristas: “Mesmo que eu tivesse [dinheiro], eu não daria”, ele costuma ouvir.

Nas cidades, o acesso facilitado a feiras e mercados esbarra na inflação dos alimentos, que escalou nos últimos anos, pressionando a renda das famílias e depreciando o poder de compra dos benefícios sociais de combate à pobreza.

O índice geral de inflação subiu 29,9% entre o início de 2019 e o final de 2022 enquanto os preços dos alimentos subiu 56,6%, segundo cálculos da Folha a partir da pesquisa Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), restritos a São Paulo. Itens básicos da alimentação brasileira foram especialmente castigados no período, como o arroz (que sofreu aumento de 66,8%), o feijão (109,8) e o óleo de cozinha (164% no do óleo de cozinha).

Um estudo conduzido pelo economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, a partir de dados da Pnad Contínua e de pesquisa Gallup sobre insegurança alimentar mostra que, em 2006, os índices de pobreza extrema e de insegurança alimentar no Brasil tinham quase o mesmo valor (19,7% e 19,6%, respectivamente). Em 2022, enquanto a pobreza extrema havia diminuído para 9,6%, a insegurança alimentar havia escalado para quase 34%.

Antes usados para estimar necessidades básicas, como a de alimentos, os dados de extrema pobreza baseada em renda se descolaram daqueles de insegurança alimentar. Segundo Neri, uma série de questões ajudam a explicar esse fenômeno. “Entre elas estão a inflação de alimentos e a desestruturação de ações de governo ligadas à agricultura familiar e à segurança alimentar.”

MÃES SOLO E NEGRAS

A quase 30 quilômetros dos semáforos em que Guimarães circula entre carros e motos, a fome dá as caras sem bater nas portas das casas ou no vidro dos carros. Na periferia Leste de São Paulo, em Ermelino Matarazzo, todo fim do mês traz para Thaize Ferreira, 31, a angústia de não saber se terá comida para colocar na mesa da família.

Desempregada, recém-separada e agora mãe solo de duas crianças, de sete e nove anos, ela sobrevive com o Bolsa Família. Mas os R$ 700 do benefício, diz, não são suficientes para o aluguel da casa de dois cômodos, as contas de luz e água e a alimentação regular dos três.

“Em casa, a comida sempre foi arroz, feijão e ovo. Mistura passa longe. E não é sempre que a gente come verduras e frutas”, explica. “Depois que eu me separei e as contas apertaram, eu falei pras crianças: comam bem na escola, e o que tem em casa fica para a noite.”

Thaize integra o grupo social mais vulnerável à insegurança alimentar grave: mulheres negras que chefiam lares com crianças pequenas.

O Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo, totalizando 15% dos lares, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Ao mesmo tempo, os domicílios chefiados por mulheres negras são aqueles com maior percentual de fome (22%), mostram os dados da Rede Penssan.

Quando a casa abriga crianças menores de 10 anos, são aquelas chefiadas por mulheres negras as que mais convivem com a fome (23,8%). Apenas 21,3% desses lares estavam em segurança alimentar em 2022 –quase metade do percentual de domicílios comandados por mulheres brancas (39,5%).

Segundo estudo do Unicef com dados da Pnad Contínua, o percentual de crianças sem a renda mínima suficiente para uma nutrição adequada subiu de 9,8 milhões para 13,7 milhões entre 2018 e 2021.

Tanto Guimarães, nos semáforos da zona oeste paulistana, quanto Thaize, na zona leste de São Paulo, têm na merenda escolar da rede pública de ensino um amparo crucial para garantir a nutrição de seus filhos.

“Muitas crianças e jovens brasileiros têm uma única alimentação no dia feita no colégio. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) é um dos mais importantes no combate à fome no Brasil”, explica Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, organização criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, há 30 anos.

O valor da transferência do Pnae, no entanto, foi corrigido abaixo da inflação desde 2010 e congelado a partir de 2017. Em março de 2023, o governo federal anunciou um reajuste. “O governo está retomando os programas, mas com uma demora enorme e de maneira muito lenta para a necessidade da população”, aponta Afonso.

QUEM TEM FOME TEM PRESSA

O avanço da fome em centros urbanos anda de mãos dadas com a ausência de políticas públicas de desenvolvimento para as regiões periféricas.

“Em última análise, o que causa a fome é a falta de recurso financeiro para comprar alimento. Por isso, eu sempre digo que o que vai matar a fome é desenvolvimento econômico, educação, saúde para a pessoa se empregar e se tornar um cidadão autônomo”, afirma a economista Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos.

Há 25 anos, a organização coloca comida no prato de brasileiros em vulnerabilidade enquanto o desenvolvimento não vem. Todos os dias, suas equipes fazem o que chamam de colheita urbana em supermercados e outros estabelecimentos, recolhendo produtos que não foram vendidos, mas que estão perfeitos para o consumo e que teriam o lixo como destino. Os alimentos coletados –quase 1.500 toneladas só em 2023– são enviados para 57 entidades que atendem cerca de 25 mil pessoas.

“Tem uma conta que diz que o desperdício no Brasil [de 55 milhões de toneladas por ano] seria suficiente para alimentar as 33 milhões de pessoas que passam fome. Ter fome num país muito abundante diz muito a nosso respeito como sociedade”, lamenta.

Parte da colheita urbana do Banco de Alimentos preencheu o vazio do armário da cozinha de Thaize, em Ermelino Matarazzo. Doados à Casa de Assistência Filadélfia (CAF), que atende 200 crianças no contraturno escolar, eles garantiram mais uma refeição diária para cada um dos filhos dela. Além disso, renderam uma cesta de alimentos que ela levou para casa.

“Minha preocupação maior é a alimentação em casa e, neste mês, essa doação vai fazer toda a diferença”, diz ela.

Afonso, da Ação da Cidadania, conta que Betinho foi muito criticado quando criou sua campanha de doação de alimentos. “Ele dizia: ‘Olha, eu entendo que o que resolve é educação, saúde, emprego e renda. Mas, enquanto as pessoas não conseguem acessar isso, quem tem fome tem pressa’.”

A causa ‘Fome de quê? Soluções que inspiram’ conta com o apoio da VR e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais. (COLABOROU JOSEPH SILVA)

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